segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Poesia popular relativa à entrada das tropas invasoras em Portugal



Quadras morais de conformidade para a presente opressão  que nos fazem os franceses e castelhanos, entrados neste Reino em 30 de Novembro de 1807, na retirada do Nosso Príncipe


É chegado, Portugal,
o tempo de padecer;
se te oprime a cruel França
verás melhor sorte a ter.


Portugal não está vencido,
foi entrada por destino.
O que será dos franceses
Está no segredo divino.


Não entraram por capricho
de quem tem maior poder.
Segredos da Providência
não se podem compreender.


Os decretos soberanos 
altamente concebidos,
faltaram ao Céu e à terra
por deixar de ser cumpridos.


Entraram sem resistência 
porque Deus lhe abriu as portas.
Portugal neste conflito
sentiu suas forças mortas.


Se Deus quis que eles entrassem,
cumprimos sua vontade,
até aquele certo dia 
de sua eterna bondade.


Com a peste, fome e guerra
Castiga Deus os pecados;
soframos pois com paciência
castigos por Deus mandados.


Aceitemos os castigos 
por virem de quem nos vêm;
porque Deus quanto ordena
se converte em nosso bem.


Respeitai povos[?] a França
que sobre vós já tem mando.
Não useis do valor vosso 
que Deus vos dirá o quando.


Cumpramos as leis de França,
carregue mais seu poder.
Com sofrimento humilde
poderemos mais vencer.


Um Reino santificado
por Cristo seu Rei eterno,
contra tal Rei nunca pode 
prevalecer o Inferno.


Conservemos sempre a fé
amando a Deus sobre tudo
e a Conceição de Maria
Venceremos todo o Mundo.


Quem for cristão verdadeiro
esteja firme na Lei
Esperando em Jesus Cristo
nosso Deus, e nosso Rei.


Não se percam os bons costumes
da Santa Igreja Romana,
adorando as naturezas 
de Cristo, divina e humana.


Portugal sempre ostentou 
a Lei de Cristo sem erro; 
por muitas vezes venceu
a pena de seu degredo.


Trémulas bandeiras ponham
nessas torres e castelos,
que a bandeira portuguesa 
terá triunfos mais belos.


Não vos importe os franceses 
nem o que podem fazer.
Ofereçamos a Deus tudo
para mais lhe merecer.


Não levantemos os olhos 
nem armas de rebeldia,
que só Deus da noite escura
faz o mais brilhante dia.


Não desmaieis portugueses,
na vossa triste aflição.
Rendei corações constritos,
sereis livres de opressão.


Para coisas de mais porte
tem Deus Portugal guardado
do seu eco e seu valor
será o Mundo espantado.


Se o nosso Príncipe deixar 
este Reino ao desamparo
nos braços de Jesus Cristo 
temos nós todo o amparo.


Assim Deus o permitiu
por Destino assinalado
o povo vai padecendo
Bragança correu seu fado.


Mostrou não querer que visse
Soberbas águias de França
e das próprias mãos tirar-lhe
Régio Ceptro de Bragança.


Fim


Temos vassalos de Cristo
desde a Batalha de Ourique.
Reino que tem um tal Rei
Nunca jamais vai a pique.




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Fonte: Arquivo Histórico Militar, 1.ª div., 14.ª sec., cx. 185, doc. 32].


Nota: Existe uma outra versão deste poema, com bastantes variantes e sob o título "As nossas afflicções" [sic], copiada dum manuscrito da época e transcrita na obra de Raul Brandão, El-Rei Junot, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, s.d., pp. 150-152.

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