sábado, 30 de julho de 2011

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (30 de Julho de 1808)



Lisboa, 30 de Julho

Até aqui não se pôde haver notícia dos primeiros golpes descarregados pelo numeroso corpo de exército que partiu de Lisboa e seus arredores para ir destruir a cabeça da rebelião em Portugal. Só nos dá cuidado um objecto, qual é que os verdadeiros rebeldes e os seus chefes não se atrevem nem sequer a esperar as sobreditas tropas para com elas se arrostarem; e que não lhes deixam que punir mais que os indivíduos por eles seduzidos, em cujo número há alguns que por causa do vergonhoso medo que os tornou culpados, são talvez ainda mais dignos de compaixão que da cólera dos vencedores da Europa.
Desgraçados daqueles porém que persistirem no seu delírio à chegada dos seus libertadores, e que se abalançarem a fazer uso das suas armas contra os que vão a despedaçar o jugo ignominioso a que estão submetidos por alguns pequenos corpos de espanhóis! Para com esses é que não haverá indulgência nem perdão.

Um espia-aliciador e portador de proclamações sediciosas e de convites para a revolta foi preso, os dias passados, em Setúbal, com os documentos de convicção que se lhe acharam; foi conduzido ante uma Comissão Militar, a 28 deste mês, e condenado a ser espingardeado. No mesmo dia padeceu ele a execução da sua sentença*.

Lembrou-se a malevolência de fazer circular os mais falsos boatos a respeito de Abrantes e da sua posição. Por cartas porém do Corregedor mor da Estremadura e do Juiz de Fora Bivar, escritas da própria vila de Abrantes a 26 deste mês, se confirma que tudo tem ali sempre estado e está em perfeito sossego. Os habitantes, ensoberbecidos de ver que o nome da sua vila é o de que usa e a que dá honra um dos mais ilustres guerreiros do Império francês, jamais tem pensado em afastar-se dos seus deveres, apesar das insinuações de alguns mal intencionados que se acham presos, com grande satisfação dos mesmos habitantes.
O General Charcot ficava em Abrantes com um corpo de tropas bem capaz de infundir ali respeito.

O corpo do General Dupont, que os novelistas de Sevilha e os seus ecos tantas vezes deram por aniquilado, nem por isso deixa de ficar intacto, fazendo face por todos os lados como uma coluna inacessível. Deve ele agora haver-se unido com uma divisão comandada pelo Marechal Moncey, e que se enviou pelas costas para a parte meridional da Espanha, a fim de restabelecer aí a ordem e a submissão à autoridade legítima. Segundo as cartas de Madrid, o corpo que dali partira com o dito Marechal era de 16 a 18 mil homens.

Parece que a desconfiança continua a fazer progressos nas Juntas revolucionárias; e que a multidão, que acaba sempre por ser iludida em tais circunstâncias e sacrificada às especulações de alguns ambiciosos, espera ver-se brevemente abandonada por alguns dos seus chefes militares e civis. Tem ela já grandes suspeitas de que vários dentre eles  vão negociando clandestinamente, para contarem decerto com um futuro político.
A fim de que a canalha possa capacitar-se daquelas mudanças mui naturais que ela divisa, sem que se descubra os seus verdadeiros motivos, dizem-lhe, nas próprias folhas de Espanha, que chegaram de Bayonne 20 milhões de pesetas para comprar os seus Generais e para que eles se deixem bater; fábula absurda, destinada para consolar de antemão a vaidade do povo dos reveses que os rebeldes do norte têm já experimentado e que em breve recairão igualmente sobre os mais.
A verdade é que a gente sensata de Espanha, ainda mesmo entre os rebeldes, reconhece que não se deve já pensar no Príncipe das Astúrias, pois que seria necessário ir buscá-lo à própria cidade de Paris, jornada algum tanto extensa e bastantemente laboriosa para cidadãos mal armados e camponeses com lanças. Portanto, falam uns de um Príncipe da extinta Casa de Nápoles; outros do Cardeal Borbón, autómato ambulante bem como o resto da sua família; e outros finalmente até chegam a representar na fantasia o Arquiduque Carlos! Cada um declara o seu candidato e a sua quimera: prova evidente de que estão em vésperas de não se entenderem uns aos outros! E modo adequado de indicar ao povo que, concitando-o até aqui em nome de um pretendido Fernando VII, se tem feito dele zombaria; que é tempo de que o povo abra os olhos; e que para evitar toda a casta de flagelos deve dirigir a sua atenção e homenagem ao único Rei que possa salvar a Monarquia espanhola e reuni-la à unidade; àquele José Napoleão, cuja extrema bondade e virtudes foram destinadas pela Providência e pelo GRANDE NAPOLEÃO, seu augusto irmão, para fechar as chagas da Espanha e deter as torrentes de sangue que, a não ser ele, deverão inundar aquele belo Reino.

[Fonte: 1.º Supplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 29, 30 de Julho de 1808].


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Nota: 

 Tratava-se de "Custódio Dias da Costa, solteiro, filho de José Dias da Costa e de Maria da Costa, natural de S. Martinho de Rogado, bispado do porto, desertor de um dos Regimentos da Corte, o qual se prendeu em Setúbal, de ordem do General Graindorge, por uma escolta de franceses, e conduzido à cadeia no dia 28 de Julho de 1808, e nesse mesmo dia conhecido à pressa o delito de conduzir cartas insidiosas e sentenciado, o levaram ao cais novo, onde o fuzilaram. Confessou-o e assistiu-lhe espiritualmente o padre Carlos. [Fonte: Discursos do Imortal Guilherme Pitt..., p. 349].

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