sábado, 30 de julho de 2011

Carta do General Loison a Junot, sobre o combate de Évora (30 de Julho de 1808)


Évora, 30 de Julho de 1808. 



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor, 
Tenho a honra de dirigir a Vossa Excelência uma relação por segunda via do combate que houve a 28 deste mês, em Montemor-o-Novo, donde parti a 29, pelas três horas da manhã, a fim de encaminhar com todas as minhas tropas para Évora. Sabia eu que o inimigo tinha enviado a esta praça todas as suas forças, e desguarnecido inteiramente a de Estremoz. 
Chegamos à vista das alturas de Évora pelas onze horas e meia da manhã; o inimigo começou por atacar a vanguarda com os seus atiradores e fez um fogo bastantemente aturado de artilharia e de obus. Dei ordem às duas Brigadas para que se unissem estreitamente em massa, e à reserva [para] que tomasse posição, e passei avante com os Senhores Generais Solignac e Margaron, para reconhecer a posição do inimigo e a da praça, e decidir consecutivametente os diferentes ataques. 
Reconheci então que o inimigo ocupava as alturas da direita, coisa de uma boa meia légua da cidade, que ele se prolongava pelo cimo das montanhas, com a esquerda apoiada na cidadela ou castelo velho; e que as suas baterias se achavam assestadas, convém a saber: um obus e três peças de artilharia à direita, dois obuses e duas peças de artilharia no centro, e finalmente mais quatro peças de artilharia a meio declive e diante do seu centro. 
Dei ordem ao Senhor General Solignac de passar à direita com a sua Brigada; de expelir o inimigo das alturas; de rodear a cidade, e de apoiar a sua direita na estrada de Estremoz.
Ao Senhor General Margaron ordenei que destacasse o 58.º Regimento de linha para a sua esquerda; que atacasse as baterias inimigas, procurando desbaratar a infantaria e a cavalaria; que passasse rapidamente ao caminho que conduz a Arraiolos, a fim de unir-se pela sua esquadra com a Brigada do Senhor General Solignac, e por este movimento cortar toda a retirada ao inimigo, enquanto na frente do 86.º Regimento marchasse contra o centro do inimigo, para unir-se depois pela sua direita com o General Solignac, e pela sua esquerda com o seu 58.º Regimento. 
A cavalaria e artilharia receberam ordem de suster este movimento; e de sair consecutivamente pela direita e pela esquerda, para acometer os espanhóis que procurassem ganhar os caminhos de Arraiolos, Estremoz e Beja; a reserva dos Granadeiros marchava no centro das duas Brigadas, para protegê-lo se preciso fosse. 
Estas diferentes manobras se executaram com a maior exacção, apesar do vivíssimo fogo da mosquetaria e artilharia do inimigo; as suas posições lhe foram tomadas, e destroçado o inimigo por todas as partes, deixou o terreno coberto de mortos, e quase toda a sua artilharia em poder da nossa valorosa gente; as tropas mereceram nesta ocasião o título de Soldados Veteranos; cada homem ficou firme no seu posto; e sem embargo de rebentarem os obuses em meio das fileiras, ninguém se moveu do seu lugar. Os Senhores Generais Solignac e Margaron se portaram, como já o tinham feito em campanhas precedentes, com intrepidez, presença de ânimo e grande inteligência. 
Não serei extenso com os elogios que lhes são devidos, pois a Vossa Excelência é que compete dar a conhecer a Sua Majestade que eles adquiriram, nesta ocasião, novos títulos à sua benevolência. 
Estando em nosso poder as posições exteriores, e Évora cercada completamente, restava tomar esta praça à viva força. Os espanhóis porém não querendo dar ouvidos a preposição alguma, espingardeavam os portugueses que queriam, submetendo-se, obstar à perda da sua cidade; e nas torres e alturas tinham arvorado bandeiras negras com a divisa Vencer ou morrer por Deus e por D. Fernando VII
Todas as milícias de Viana, Beja, Montemor-o-Novo e Estremoz, e os Regimentos de Estremoz, Burgos e Badajoz, os Dragões de María Luísa, e alguns soldados de cavalo portugueses ocupavam os flancos da praça e guarneciam os seus baluartes, bastiões e torres. 
O Senhor General Solignac recebeu ordem de atacar a praça da banda da cidadela e das portas que conduzem a Elvas, Estremoz e Arraiolos, enquanto o Senhor General Margaron acometesse da banda das que conduzem a Beja e Montemor-o-Novo, como também da banda do Aqueduto. O Senhor General Solignac destroçou tudo quanto estava diante dele; e tendo advertido que os espanhóis procuravam retirar-se pela estrada de Estremoz com alguma infantaria portuguesa, mandou que os atacassem; mais de 300 homens ficaram pois mortos e alguns centenares prisioneiros; ele porém não pôde apoderar-se das únicas 5 peças de artilharia que os Dragões de María Luísa, que escaparam à carnagem, conseguiram salvar. A cavalaria da Brigada não pôde chegar bem a tempo; porém, o 4.º Regimento de Dragões acometeu o inimigo na estrada de Estremoz, e lhe matou coisa de 150 homens. 
O Senhor General Margaron, depois de ter desbaratado quanto estava na sua presença, dirigiu-se precipitadamente, na frente da sua infantaria, para as portas da cidade, que estavam todas muradas; e como não pudesse chegar a abrir-se passo, mandou que se adiantasse a sua artilharia para procurar destruir a obra de alvenaria que tapava as portas, o que foi impossível executar, apesar de jogarem os canhões na distância de 100 passos, por terem os muros mais de 2 pés de grossura. Então passou ele para a esquerda, e depois de ter feito calar em parte o fogo do inimigo, abriu-se ele passo por uma das portas da cidade, mediante algumas pedras que se chegaram a arrancar, e foi um dos primeiros que entrou na praça, enquanto da banda da porta de Estremoz, a infantaria ligeira do senhor General Solignac escalava os muros e entrava ao mesmo tempo. Inflamado o valor dos nossos soldados moços com o exemplo dos chefes, tinham todos um bem ardente desejo de segui-los. Uns trepavam pois as muralhas por meio de escadas; e outros se introduziam pelos canos; e alguns finalmente fincando as suas baionetas nas muralhas, se serviam delas como de escadas. 
Mandei demolir as portas, a fim de poder suster as tropas entradas na cidade, que pelejavam com um inimigo enfurecido, desesperado, e que sem embargo de termos aí uma força numerosa, não abandonava nem sequer os baluartes, e fazia fogo terrível das janelas, telhados e torres das igrejas. 
A carnagem foi grande; e a cidade de Évora foi saqueada. O que pudemos conseguir pelos nossos esforços reunidos, é que ela não fosse incendiada. 
O resultado dos 2 ataques é, da parte do inimigo, coisa de cinco mil mortos e perto de dois mil prisioneiros. Entre estes se compreendem muitos habitantes dos campos, que foram enganados pelos espanhóis, e que amaldiçoavam a sua perfídia. Eu os tornei a enviar para os seus lares. 
Em nosso poder caíram 7 bocas de fogo, duas das quais são obuses, vários caixões, uma imensa quantidade de cartuchos, pólvora em barris, balas, bombas, espingardas e 8 bandeiras. 
Por nossa parte, temos de sentir a perda de 90 dos nossos valorosos homens mortos e coisa de 200 feridos. Entre os primeiros se compreende mr. Spinola, oficial de Engenharia, que dava grandes esperanças. Mr. Comel, oficial do Estado Maior, adicto ao senhor General Solignac; e mr. Fillis, segundo Tenente do 86.º Regimento. No número dos feridos entram mrs. Royer e Herman, oficiais do 86.º, e mr. Descragnolles, Ajudante de Campo do General Solignac. Este moço, que ficou com um braço quebrado, se houve como herói, durante a acção; a seu favor solicito eu a protecção de Vossa Excelência. 
Os Senhores Generais de Brigada louvam infinitamente as tropas que estavam às suas ordens. O 12.º e o 15.º, que formavam o segundo Regimento provisório de infantaria ligeira, a Legião Hanoveriana, o 58.º e 86.º de linha, o 4.º e 5.º de Dragões, e a artilharia, todos estes corpos competiram entre si em glória. O segundo Regimento provisório de gente escolhida se mostrou digno do lugar que ocupa à testa de homens valorosos. 
Os Senhores Generais e Chefes dos Corpos recomendam particularmente a mr. Brondel, segundo Tenente do 2.º Regimento provisório de infantaria ligeira, que foi um dos primeiros que entrou em Évora, e que contribuiu para a tomada de 2 peças de artilharia; o Capitão Mouchei, do mesmo Regimento, o Tenente, o 2.º Tenente e o 1.º Sargento da sua Companhia, os quais tomaram 2 peças de artilharia, e foram igualmente dos primeiros que entraram na praça; e mr. Tessan, Capitão do 2.º Regimento provisório de infantaria ligeira. 
O Senhor General Solignac faz os maiores elogios ao senhor Coronel Stiffier, Comandante da Legião Hanoveriana; ao senhor Major Petit, Comandante do 2.º Regimento de infantaria ligeira; a mr. Théron, Major Comandante do 4.º Regimento de Dragões, e a mr. Oudot, Chefe de Batalhão do 12.º. 
O Senhor General Margaron dá grande louvor aos senhores Teru, Meunon, Defosse, Guignard, Capitães; Grand, Tenente, e Vicent, 2.º Tenente, todos do 86.º Regimento. O Senhor Coronel Lacroix faz também os maiores elogios aos Capitães Pascali, Suzan, Poirier e Guillam, como também ao 2.º Tenente Lavoyem. O Senhor Coronel Lacroix e os Senhores Majores Bertrand e Leclerc, e os Chefes de Batalhão Dugay e Bazin se distinguiram de um modo particular na frente da sua tropa 
Tenho de dar grande louvor ao comportamento e presença de ânimo do Senhor Major St. Clair, Comandante da reserva; aos Senhores Revesi e Palaméde de Ferbin, cada um dos quais comandava um Batalhão de gente escolhida; a mr. Goubet, Capitão de Granadeiros do 15.º Regimento; a mr. Brunet, Capitão de atiradores do 86.º; e ao Sargento Riviére da 1.ª Companhia de Granadeiros do mesmo 86.º, o qual foi passado de parte a parte por uma bala, ao subir o assalto. 
Com grande prazer ajunto os testemunhos da minha satisfação aos dos Senhores Generais Margaron e Solignac a respeito do brilhante modo com que se houveram, nesta batalha, mrs. Simmers, chefe de Esquadrão, adicto ao Príncipe de Neufchatel; Auguste de Forbin, Ajudante de Campo de Vossa Excelência; Destourdelles, Ajudante de Campo do Senhor General Solignac; Duplessis, Ajudante de Campo do Senhor General Margaron; Lafitte, dito; Trintinian e Drouville, Ajudantes de Campo do Senhor General Thiébault; Fontenai e Laffon, oficiais da Legião Portuguesa, empregados junto dos ditos Generais. O senhor General Margaron solicita particularmente que mr. Duplessis seja condecorado com a Legião de Honra, e que mr. Lafitte tenha um posto de acesso. 
Recomendo à protecção de Vossa Excelência mr. Coisel, Chefe de Batalhão, meu primeiro Ajudante de Campo; Laval e Quirod, Ajudantes de Campo de Vossa Excelência; Laguette, oficial de Engenharia; Obusir, Capitão adjunto; Reycend, oficial português; Freitas, Capitão de artilharia português; Hennet, Ajudante de Campo do senhor General Taviel; Teraiz [confirmar se tenho na fotocopia], adicto ao meu Estado Maior; e Buffon, oficial da Legião Portuguesa, Ajudante de Campo de Vossa Excelência. Rogo a Vossa Excelência que se digne de solicitar que estes valorosos oficiais sejam compensados. Mr. Coisel e Freitas tiveram mortos os cavalos em que andavam montados; mr. Hennet teve o seu ferido. 
Não passarei em silêncio o belo comportamento do Ajudante-Comandante Pillet, chefe do meu Estado Maior; e do senhor Coronel de Artilharia de Aboville. Solicitarei que o primeiro seja condecorado com a insígnia de Oficial da Legião de Honra. 
Os Dragões portugueses que servem junto de mim se houveram de um modo perfeito. Um deles ficou ferido; o senhor Capitão Monjardim, por quem são comandados, se faz digno de elogios pelo seu valor: é um excelente Oficial. 
Os Oficiais de saúde e o Director do hospital ambulante, à testa dos quais está mr. Blaise, cirurgião mor, deram provas de zelo, e se fazem dignos de louvor pelo desvelo activo e seguido com que têm tratado os nossos feridos. 
Não me esquecerei também de mr. Therry, adjunto do Comissário de Guerra, o qual se expôs constantemente aos maiores perigos, no desempenho das funções de oficial do Estado Maior. 
Digne-se Vossa Excelência de aceitar a homenagem dos meus sentimentos respeitosos, etc. 

O Conde do Império, General de Divisão, 
O. Loison 

P.S. Entre os mortos da parte do inimigo se acham vários Oficiais superiores espanhóis e portugueses. Dizem que mr. [Francisco de Paula] Leite entra neste número. O que induz a crê-lo é a grande venera da Ordem de Cristo e esporas douradas que se acharam a um dos cadáveres. Entre os prisioneiros, temos um Tenente Coronel espanhol e alguns Oficiais portugueses sobre quem faço vigiar com todo o cuidado. 
Ocupo-me agora em organizar as autoridades e em dar busca à cidade onde estão escondidos alguns espanhóis e rebeldes. 

[Fonte: 2.º Supplemtento à Gazeta de Lisboa, n.º 29, 2 de Agosto de 1808].

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