domingo, 14 de agosto de 2011

Carta do Tenente-Coronel Nicholas Trant ao General Bernardim Freire de Andrade (14 de Agosto de 1808)




Alcobaça, 14 de Agosto de 1808.


Meu General:

Envio-vos uma cópia traduzida duma carta que o General [Wellesley] enviou-me hoje, e que recebi pelo caminho; não posso seguramente acrescentar nada à força dos argumentos que ele utiliza a fim de que vos empenheis na vossa cooperação, ou pelo menos para que abandoneis o vosso plano de campanha. Porém, da mesma maneira amigável que sempre quis empregar nas minhas exposições sobre este assunto, não posso senão recomendar-vos, e pela última vez, pois talvez não haverá tempo de cooperar daqui a três dias, que vos junteis a nós, pois é a única conduta que vos porá ao abrigo da acusação de terdes evitado a oportunidade para dardes apoio às tropas portuguesas para o objectivo da sua independência nacional. Não é o vosso carácter pessoal, meu General, que está em questão. A vossa reputação está estabelecida e informei o General Sir Arthur Wellesley acerca da proposta que haveis feito de comandar o destacamento das vossas tropas agregadas ao nosso Exército; mas é a vossa conduta política que está em questão, e para mim nada mais há a dizer-vos oficialmente sobre este assunto; não posso senão oferecer-vos o aviso dum homem que, tendo estado junto do vosso Quartel-General, sente um interesse a tudo o que vos diz respeito. Aconselho-vos a não persistirdes no vosso plano e a juntardes-vos a nós, e em duas marchas [nos] alcançareis.
Apressadamente, mas com a mais sincera consideração por vós, meu General, o vosso devotado servidor,

Trant


[Ademais da aludida carta de Wellesley a Trant e de uma ordem de marcha dos Exércitos combinados que o General inglês tinha proposto dois dias antes, a remessa da carta acima traduzida incluía ainda o seguinte aditamento de Trant, ditado pelo próprio Wellesley, certamente depois de ambos se terem reunido em Alcobaça*]



Depois de ter desaprovado o plano de operações para Tomar e daí a Santarém, o General [Wellesley] disse:


Tenho uma proposta a fazer ao General Freire: que ele me queira enviar a sua Cavalaria e a sua Infantaria Ligeira com um Corpo de 1.000 homens de tropa de linha, para serem empregados à minha discrição.
Comprometo-me a fornecer pão a esses soldados; e em relação à carne, vinho e forragem, terão uma parte igual do que se pode fornecer às nossas tropas.
Se o General aceita esta proposta, desejaria que esses corpos se reunissem comigo em Alcobaça amanhã; e em caso contrário, peço-lhe que conduza as suas operações da maneira que ele julgue apropriada; pela minha parte, executarei as ordens que recebi do meu Governo sem o apoio do Governo português, e o General Freire terá de se justificar não só ao Governo actual do Reino [= Junta do Porto] e ao seu Príncipe, mas também ao mundo inteiro, por não se ter aprontado com antecedência nesta ocasião interessante, tendo-me recusado o apoio que ele tinha o poder de me dar.



[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, pp. 179 e p. 181 (doc. 14)].

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Nota: 

* Todos estes documentos foram enviados a Bernardim Freire de Andrade traduzidos em francês.

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