sexta-feira, 1 de julho de 2011

Proclamação do Almirante Charles Cotton aos habitantes de Sines e aos "verdadeiros e leais portugueses" em geral (1 de Julho de 1808)



O abaixo assinado, Almirante e Comandante da esquadra de Sua Majestade Britânica nas costas de Portugal, não perde um instante em fazer saber que ele recebeu um expresso dos leais habitantes de Sines e [em] assegurar-lhes, assim como a todos os verdadeiros e leais portugueses empenhados em tão justa, honrosa e gloriosa causa como é a de reestabelecer o seu legítimo Príncipe, que lhes será dado todo o auxílio que estiver no poder da Esquadra de Sua Majestade Britânica. 
O Capitão Smith, Comandante do navio de Sua Majestade Britânica Comus, está encarregado de entregar este expresso e tem instruções de ir a Sines; e todo o Reino de Portugal que tem já manifestado, com o melhor êxito possível, os mais enérgicos, valorosos e decisivos esforços para frustrar os pérfidos desígnios dos franceses contra a independência e até contra a existência desta nação. 
Os navios franceses, em Cádis, foram canhoneados e obrigados a render-se aos valentes espanhóis; o povo se levanta e pega em armas por toda a parte; o resultado não pode deixar de ser glorioso. Igual energia deve alcançar igual sucesso em Portugal, e assim terão os habitantes de ambos os Reinos igual direito à estimação, aplauso e admiração da Europa. 
O abaixo assinado tem recebido deputações das províncias do norte de Portugal, já em armas, jurando de reestabelecer o Governo do seu legítimo Príncipe e resistir aos opressores. No Porto, em Viana, Entre-Douro-e-Minho e parte da Beira têm pegado em armas cem mil portugueses, e se os seus valentes patrícios no sul se unirem a eles, não podem deixar de destruir um punhado de franceses que agora ocupam a capital; mas para vencer é necessária a unanimidade; e que não sejam nem intimados por ameaços, nem corrompidos com promessas; que se determinem, valorosa e resolutamente, a livrar-se da opressão e reestabelecer o Governo do seu legítimo Príncipe. 
O General Junot, no seu último edital de 26 de Junho, fulminou as mais sanguinárias ameaças contra os habitantes de Portugal; ameaçou-os com a destruição das mais leais e populosas cidades; e seus habitantes se acham condenados a serem passados à espada por um punhado de homens que, ao mais, poderão chegar a dez mil, o que não tem comparação com a população de Portugal. Desgraçados destes injustos opressores se os leais portugueses os atacarem destemidamente; a rectidão da sua causa deve triunfar. Se forem cortados os caminhos da sedução, não se abaterá o entusiasmo que anima os batalhões. Uma resistência vigorosa, junta aos enérgicos esforços que agora fazem os vossos valorosos vizinhos e amigos, os espanhóis, que se acham empenhados na mesma gloriosa causa, deve produzir os mais felizes efeitos; pois ainda existem em Portugal milhares de pessoas que ansiosamente desejam imitar seus antepassados na lealdade e glória. Repito a todos os leais portugueses que todo o ajutório de que é capaz a Esquadra de Sua Majestade Britânica será dado a favor de uma causa tão justa, gloriosa e honrada como é a restauração de seu legítimo Príncipe, em cujo nome se devia levantar o estandarte no sul, assim como se fez no norte, para que se unam a ele todos os vassalos leais. 
Dado a bordo do navio de Sua Majestade Britânica Hibernia, ancorado na barra do Tejo, 1 de Julho de 1808. 

Charles Cotton
Almirante de Azul e Comandante em Chefe da Esquadra de Sua Majestade Britânica. 

[Fonte: Correio Braziliense, Agosto de 1808, pp. 246-248. Esta versão foi também publicada parcialmente por José da Silva Lisboa, Memoria da Vida Publica do Lord Wellington – Parte I, Rio de Janeiro, Impressão Regia, 1815, pp. 96-97. Existem outras versões, provavelmente derivadas doutras traduções da proclamação original: Minerva Lusitana, n.º 6, Coimbra, 18 de Julho de 1808.; Simão José da Luz Soriano, História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal. Compreendendo a História Diplomática, Militar e Política deste Reino, desde 1777 até 1834 – Segunda Época - Tomo V – Parte I, Lisboa, Imprensa Nacional, 1893, pp. 91-93; e na obra de José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal, e da Restauração deste Reino - Tomo V, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, pp. 35-38].

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