domingo, 24 de julho de 2011

O fuzilamento de Manuel José em Lisboa (24 de Julho de 1808)



A 24 de Julho de 1808, Manuel José, um doido conhecido pelas suas extravagâncias, foi fuzilado no Terreiro do Paço. Não era a primeira vez que Lisboa assistia à morte de um civil desde que os franceses a tinham ocupado (recordemos que nos tumultos principiados a 13 de Dezembro de 1807 morreram quatro portugueses), mas no entanto, como assentou José Acúrsio das Neves, "este assassinato praticado no centro da capital do reino causou grande sensação pelas suas circunstâncias", isto é, sem processo nem formalidade alguma, e precisamente um dia depois de Junot ter feito uma aparatosa revista ao enorme corpo do exército francês que estava então em Lisboa, mais numeroso do que o habitual devido à recente chegada de parte da divisão do General Loison.

Segundo um manuscrito anónimo já várias vezes aqui citado, depois dos cinco fuzilamentos anteriores (de Jacinto Correia em Mafra, de nove portugueses nas Caldas da Rainha, de Macário José em Setúbal, e de dois portugueses e dois espanhóis também fuzilados em Setúbal), 

A sexta vítima da decantada justiça dos franceses foi o desgraçado Manuel José, mancebo mentecapto que divertia o povo com as suas momices, e de que não se fazia conceito algum, e cujas acções não tinham consequência, nem mereciam imputação.
Este homem, como louco, ainda no tempo da corte aqui residente, vestia-se celebremente e, ataviado de fitas e laços, com um chicote na mão, corria neste ridículo as ruas de Lisboa; o mesmo que antigamente costumava vestir, o ornou naquele dia em que lançaram mão dele os franceses, que desconfiados de revolução nesta capital imolaram este pobre diabo (como pessoa indiferente a todos e sem consequência) ao terrorismo com que nos queriam conter. E o mais acérrimo instigador desta morte foi o célebre Pitton, oficial da Guarda Real da Polícia; era francês; quanto bastava para ser acusador.
Não cometeu delito algum e foi inocente ao patíbulo, assim como outros muitos o têm sofrido. Conta-se dele esta anedota: que dizendo-lhe os assalariados dos franceses que o acompanhavam na execução que pedisse perdão ao Governo francês do delito cometido e escândalo que à sociedade [dera], respondeu ele: o Governo é quem me deve pedir perdão da injusta morte que me manda dar; teve razão e graça no que disse.
Como aos franceses sempre esquecia dar confessor aos fuzilados, a este quando lho deram foi de caminho, e mandado ao Convento dos Religiosos Calçados de N.ª S.ª do Monte do Carmo buscar o primeiro padre que encontrassem, o que fizeram com tal violência e arrebatamento no que apareceu, que este se julgou ir a justiçar e não para assistir a um padecente; e desde o Convento até ao encontro do padecente se carpiu; e só então se desenganou da sua ilusão, vendo a vítima. Prestou os ofícios do seu ministério, segundo a sandice do infeliz, [o] soçobro dele, e [a] pressa dos franceses em matá-lo, o que teve lugar à uma hora para as duas da tarde, na Praça do Comércio, com assistência de muita tropa francesa e grandes aparatos, tudo disposto à impostura e engano. No mais me remeto à Gazeta que junto [de 27 de Julho de 1808].
[Fonte: Discursos do Imortal Guilherme Pitt..., pp. 342-344. Nota: corrigimos para 24 a data que no texto original aparece como 25 de Julho, com base no texto da citada Gazeta de Lisboana versão de Acúrsio das Neves que abaixo se segue, e ainda num pequeno comentário manuscrito sobre este caso, compilado por Antonio Joaquim Moreira (org.), na sua Colecção de sentenças que julgarão os réos dos crimes mais graves e attrozes commetidos em Portugal e seus dominios - Vol. 4, 1863 (páginas não numeradas)].

Como abaixo se mostra, os pormenores da versão de José Acúrsio das Neves sobre este episódio diferem um pouco dos da anterior, embora ambas as versões concordem no essencial, ou seja, que Manuel José foi executado arbitrariamente, sem quaisquer fundamentos plausíveis que pudessem justificar a sua morte:

Durou a revista [de 23 de Julho] desde as 5 até às 8 horas da tarde, e entretanto toda a Lisboa tremeu de susto: é o que pretendia Junot, que não desprezava meio algum de inspirar terror aos povos, para os manter quietos.
Foi sem dúvida com as mesmas vistas que ele mandou cometer no dia 24 o assassinato que vou referir. [...] Havia em Lisboa um homem chamado Manuel José, que tinha sido empregado havia anos em correio no serviço do arsenal da fundição, e desde muito tempo se reputava por mentecapto, até por extravagâncias do seu vestuário, com que se fazia muito célebre: estas extravagâncias, ou o mataram, ou serviram de pretexto para isso. Foi encontrado no mencionado dia (era um domingo) junto à igreja de Santos, vestido com uma jaqueta branca, toda cheia de laços ou bocadinhos de fita encarnada; imediatamente o prenderam e conduziram à casa do General de Laborde, Governador de Lisboa, onde concorreu Lagarde, e se lhe fez um conselho de injustiça, de que resultou ser fuzilado no meio do Terreiro do Paço contra a estátua equestre. As fitinhas passaram por insígnias da revolução, e o mentecapto por emissário dos insurgentes; e com tanta presteza se adquiriram as provas e se lhe fez o processo, que sendo preso pelas 10 horas da manhã, nesse mesmo dia cessou de existir às 3 da tarde. 
Tal foi o aparato, tais os auspícios, com que saiu de Lisboa a expedição que foi cobrir de sangue e de estragos as ruas de Évora.
[Fonte: José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal - Tomo IV, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, pp. 90-91]. 

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