sábado, 23 de julho de 2011

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (23 de Julho de 1808)



Lisboa, 23 de Julho


O Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes deve hoje, Sábado, pelas 5 horas da tarde, passar uma revista geral às tropas que se acham nesta capital.
Esta revista se fará na Praça do Comércio, aonde as sobreditas tropas se acharão postadas, como igualmente nas praças e ruas vizinhas.

As circunstâncias actuais dão motivo para de novo observar até que ponto chegam o fanatismo e o espírito de partido a alucinar os entendimentos os mais perspicazes, em certas épocas que parecem destinadas pela Providência para punir as nações pelas culpas acumuladas dos seus Governos. Portugal gozava de paz e tranquilidade, apesar da fugida dos seus antigos Príncipes.
Apenas se divisavam mudanças efectuadas, tão suave e moderada era a lei de um vencedor amigo do país, e tal era o respeito com que o Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes considerava até as instituições antigas, só a fim de remover o partido arriscado de toda a revolução. De repente, porém, se lembram alguns assalariados ingleses e alguns clérigos e frades tão inimigos de Deus como dos homens, de excitar o fogo da discórdia e da rebelião em algumas províncias, chamando a estas o saque e o incêndio em castigo dos mais graves excessos; e, à sua voz pérfida, a multidão se subleva contra a vontade da gente de bem e das pessoas ilustradas, por estarem na persuasão de que estas vãs e criminosas agitações só podiam servir para trazer sobre elas todas os desastres. Por que razão essas pessoas, em vez de se deixaram oprimir e arrastar por força a uma tão perigosa cumplicidade, não se reúnem, como se fez em Tomar, para implorar a bondade e a clemência do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor General em Chefe, o qual, ainda ao tempo de descarregar o golpe sobre os mais criminosos, só procurará perdoar às vítimas das suas seduções e enganos?
Como é possível que Portugal, a não querer ir meter-se debaixo do jugo espanhol, que os seus antepassados suportaram com tanto horror, se não envergonhe do indigno modo com que algumas partes das suas fronteiras são tratadas por corpos pouco numerosos de contrabandistas espanhóis, que vêm a ditar nessas partes impunemente a lei, arrebatando daí os seus melhores Magistrados e levando-os presos para Espanha? Porventura é desta sorte que Portugal espera mostrar-se digno de ser ainda uma nação, ou uma simples província tributária e sujeita à Espanha?
A Espanha, sempre ciosa de Portugal e cheia de um ardente desejo de reconquistá-lo, viu com inveja os direitos que este país adquiria, pela sua prudência, à bondade de Sua Majestade o Imperador e Rei; e logo fez cair sobre ele os males que a devoravam, para envenenar o presente e comprometer as esperanças de independência, de prosperidade e de glória que o mui poderoso Árbitro da Europa lhe assegurara num futuro próximo! Portugueses, é ainda tempo de vos deterdes na borda do abismo a que vos impelem os espanhóis, vossos eternos inimigos, fingindo fazer convosco causa comum, a fim de subjugar-vos para sempre; é ainda tempo de merecerdes ser felizes, tornando prontamente ao vosso dever, e imitando o exemplo de submissão e de tranquilidade que vos oferece a vossa capital.

A 20 do corrente voltou a Lisboa o Senhor General Loison, Conde do Império, com o corpo numeroso de tropas que consigo levara. A sua chegada fez acudir um grande número de espectadores, entre os quais havia vários que, acalentados com os contos ridículos que a malignidade e a inconsideração obstinadamente divulgaram sobre a suposta prisão do dito General, mal podiam crer que o viam com os seus próprios olhos. O povo de Lisboa foi induzido a ajuizar assim o quão pouca confiança merecem todas aquelas exagerações e fábulas absurdas por onde se procuram agitar os ânimos, a fim de incitar os habitantes a movimentos cujo primeiro e infalível resultado seria a ruína desta capital, que deve a sua quietação às firmes e sábias disposições de Sua Excelência o General em Chefe.

[Fonte: 2.º Suplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 28, 23 de Julho de 1808].

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