sábado, 23 de julho de 2011

Diário do General John Moore (23 de Julho de 1808)





Portsmouth, 23 de Julho de 1808


Recebemos uma ordem no mar para irmos para a costa de Downs em vez de para Yarmouth, e consequentemente ancorámos aí na tarde do dia 15. Procurei por cartas na costa, mas nenhuma das que obtive eram oficiais. O Capitão Owen, que era o oficial naval mais velho, recebeu ordens para completar os abastecimentos das provisões e de água dos navios o mais rápido possível. Através de um expresso, informei o Comandante em Chefe e Lord Castlereagh acerca da nossa chegada. Durante a noite chegou uma ordem endereçada ao oficial naval mais velho, para dirigir os navios-transportes para Portsmouth, e para o General Moore ir para a cidade. Deixei os transportes seguirem para o seu destino e parti para Londres, onde cheguei ao anoitecer. No dia seguinte, como era Domingo, nenhum dos Ministros estava na cidade, mas vi o Coronel Gordon, o secretário militar do Duque. Através dele soube que me devia dirigir para Espanha ou Portugal com as tropas que tivesse. Iríamos reunir-nos com as outras tropas que já tinham embarcado, nomeadamente as comandadas por Sir Arthur Wellesley, que partiram de Cork, e as comandadas por Spencer, que estavam estacionadas em Santa Maria, perto de Cádis, para formarmos um exército de 30.000 homens, que será comandado por Sir Hew Dalrymple como chefe, e tendo Sir Harry Burrard como segundo no comando.
Através de Gordon e de outros soube que surgiram muitas intrigas sobre o comando. Houve ministros que fizeram tudo o que estava ao seu alcance para dar o comando a Sir Arthur Wellesley, mas como este era um Tenente-General tão novo, o Duque opôs-se a esta medida, e eles, receosos de desagradarem o exército e a nação com tal nomeação, desistiram da ideia. Frustrado assim o seu principal objectivo, determinaram-se em não me darem o comando, e, para evitarem que eventualmente acabasse por recair sobre mim, nomearam Sir Harry Burrard como segundo no comando. Ficou combinada uma entrevista com Lord Castlereagh para a manhã seguinte (Segunda-feira) no seu escritório, às duas horas.
Castlereagh recebeu-me como usualmente, embora tivesse limitado a sua conversação à expedição à Suécia*. [...] 
Sua Senhoria perguntou-me então algumas questões sobre as tropas, e, quando pensava que elas iriam receber ordens para partir, ao despedir-se disse-me que provavelmente iria querer ver-me no dia seguinte, para me falar sobre outro assunto. 
Ao deixar Lord Castlereagh encontrei-me com o Duque de York, que me recebeu com a sua habitual gentileza e assegurou-me que o Rei e que ele próprio tinham aprovado plenamente tudo o que tinha feito [na expedição à Suécia], e que ambos pensavam que tinha sido muito afortunado que o comando do exército me tivesse sido dado, por ter sido firme em resistir às incomodidades e por não ter permitido que o exército fosse desperdiçado num serviço desnecessário. Ele perguntou-me se tinha visto Lord Castlereagh. Disse-lhe que tinha acabado de o ver, e que ele me tinha declarado a aprovação do Gabinete sobre tudo o que tinha feito. O Duque perguntou-me se ele não tinha falado sobre outro assunto comigo, e respondi-lhe que não. Sua Alteza Real aparentou embaraçar-se bastante. Percebi muito bem que o que se estava passando não era da sua responsabilidade. Ele disse-me, enquanto partia, que sabia muito pouco. Nessa noite, depois de me deitar, recebi uma nota do General-Brigadeiro Charles Stewart, informando-me que Lord Castlereagh queria ver-me às três da tarde, e que devia preparar-me para deixar a cidade logo depois. 
Até aqui, nenhuma palavra me tinha sido comunicada sobre a forma como seria empregado, e mesmo assim quis preparar-me para deixar a cidade nessa tarde. Felizmente, todas as minhas bagagens estavam em Portsmouth, no navio em que tinha vindo da Suécia. Tinha poucos preparativos a fazer, e ordenei que uma carruagem estivesse à porta às quatro da tarde. Quando me encontrei com Lord Castlereagh às três, começou ele por dizer que Sir Arthur Wellesley tinha partido de Cork no dia 12, e que poderia ser esperado na foz do Tejo no dia 20; que ele tinha sido instruído para desembarcar, caso se achasse suficientemente forte para atacar o inimigo, segundo as informações que deveria receber sobre a sua força; em caso contrário, deveria esperar pela chegada das tropas debaixo do meu comando e das outras que foram ordenadas [para o mesmo destino], para então Sir Harry Burrard tomar o comando das operações, pois supõe-se que Sir Hew Dalrymple ainda não terá chegado entretanto. Foi somente por este raciocínio que percebi que deveria prosseguir para este serviço como um Tenente-General debaixo das ordens de Sir Hew Dalrymple e de Sir Harry Burrard. Penso que esta maneira de se comportarem comigo foi bastante extraordinária. Tendo regressado de um Comando-em-Chefe, esperava naturalmente que me dariam alguma explicação ou desculpa, caso se achasse necessário enviar-me com as tropas que então comandei, mas agora numa posição muito inferior; contudo, o comportamento de Lord Castlereagh evidenciava que ele tinha vergonha de si próprio, e que nunca me iria dizer claramente qual seria a minha posição.
Estava completamente determinado a prosseguir para o serviço, mas antes de partir pensei que deveria declarar a Lord Castlereagh o sentimento que tive sobre a forma como tinha sido tratado. Assim, quando me pareceu que terminara tudo o que tinha para me dizer, disse-lhe eu: Meu Senhor, a carruagem está à minha porta, e depois de deixar Vossa Senhoria encaminhar-me-ei para Portsmouth, a fim de me reunir com as tropas, às quais me devo dirigir como Tenente-General, por aquilo que percebo. Talvez esteja na minha sina nunca mais vos ver. Por isso, penso que devo declarar-vos o meu sentimento sobre o deselegante tratamento que recebi de vós. Ele disse que não estava ciente do tratamento a que aludi. Recapitulei então tudo o que se tinha passado desde a minha chegada a Downs. Se fosse um alferes, dificilmente seria possível ter-me tratado com menos cerimónia. Foi apenas por dedução que soube como iria ser empregado agora, pois Vossa Senhoria nunca me disse em termos claros que eu tinha sido nomeado como Tenente-General para servir o exército debaixo do comando de Sir Hew Dalrymple, e que, como vinha dum Comando-em-Chefe, e como a intenção era empregar-me numa posição inferior, esperava que me dissesses alguma coisa. Dissestes-me que a minha conduta na Suécia tinha sido aprovada, mas as vossas acções levam-me a concluir o inverso. Não consigo perceber a causa; pois se houve um oficial ao serviço que se tenha conduzido por um caminho recto, e que se tenha empenhado pelos seus próprios esforços, sem intrigas ou difamações do mérito de outros, penso que esse oficial sou eu próprio.
Não consigo imaginar porque é que devo ser o objecto de tal descrédito; mas, meu Senhor, tenho sido tratado indignamente e duma maneira que nada na minha conduta pode justificar. Os Ministros de Sua Majestade têm o direito de empregar quaisquer oficiais que queiram, e como nesta ocasião deram o comando ao General mais novo do exército, nem deveria sentir nem dizer que me foi feita alguma ofensa; mas tenho um direito, em comum com todos os oficiais que serviram bem e zelosamente, de esperar que seja tratado com atenção, e que quando me é oferecido um emprego, que devem ser tidos em conta os meus serviços anteriores. Aludia aqui a Sir Hew Dalrymple e a Sir Harry Burrard, que, apesar de ambos serem homens respeitáveis e bons, nenhum deles é um oficial para um tal serviço como eu próprio. Lord Castlereagh mal me falou durante a conversação, mas não estava ciente de me ter dado quaisquer motivos de queixa... Quando acabei o queria dizer levantei-me abruptamente e retirei-me.
Entendo que vários membros do Gabinete antipatizaram comigo, embora raras vezes os tenha visto, e não podem saber nada de mim. Eles querem sustentar Sir Arthur Wellesley, e queriam dar-lhe o comando de toda a força [britânica] na Espanha e em Portugal, mas o Rei e o Duque de York opuseram-se a tal, por ser ele o mais novo dos Tenentes-Generais nomeados no outro dia. Isto provocou-os, e juntamente com a sua geral antipatia, esforçaram-se por me humilhar, colocando-me numa posição semelhante à de Sir Arthur. Viram-se obrigados a aprovar o que eu tinha feito na Suécia, e mesmo assim fizeram-no contrariados, pois não tive problemas em ocultar que tinha sido a sua ignorância que nos tinha enviado para ali, quando eles deveriam saber, pelo carácter do Rei e pela fraqueza da sua força, que era impossível que qualquer coisa fosse feita. Ao deixar Lord Castlereagh parti para Portsmouth, onde cheguei ao entardecer da Quarta-feira dia 20, tendo parado em casa do meu irmão Jack, e depois estado com a minha mãe. Encontrei a frota, que acabava de chegar de Downs. Estava ocupado em ultimar os preparativos para partir, quando, no dia 23, um mensageiro do Rei trouxe-me uma carta de Lord Castlereagh, evidentemente com o objectivo de me irritar, esperando que lhe respondesse desmedidamente, para assim dar-lhe uma desculpa para me retirar deste serviço, porque, apesar de ser tão graduado como Sir Arthur e de haverem outros mais graduados que ele, eles pensam que eu estarei no seu caminho. 
Contudo, desapontei-os, pois enviei-lhes uma resposta muito calma, dando-lhes um golpe que podiam sentir mas não ressentir. Enviei ao mesmo tempo cópias de ambas as cartas do Coronel Gordon para o Duque de York, juntamente com uma narrativa sobre tudo o que se tinha passado desde que tinha regressado à Inglaterra. Tenho agora a esperança de poder ir tranquilamente para o serviço para o qual fui ordenado, sem mais aborrecimentos. Sir Harry Burrard chegou ontem, e entreguei-lhe o comando. 



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Nota:

* No final de Fevereiro de 1808, os territórios unidos da Dinamarca-Noruega, pressionados por Napoleão, declararam guerra à Suécia, ao mesmo tempo que a Rússia começara a invadir a Finlândia, território então pertencente à Suécia. Como ambas medidas visavam forçar a Suécia a aderir ao bloqueio continental instaurado por Napoleão, respondeu o Governo britânico dando instruções (embora sem um plano específico) ao General John Moore para ir auxiliar o rei sueco Gustavo IV. John Moore, acompanhado por cerca de 10.000 homens que trazia debaixo do seu comando, chegou a Gotemburgo a 17 de Maio do mesmo ano, dez dias depois de sair do porto inglês de Yarmouth. Contudo, ao contrário do que esperava, Moore não obteve permissão para desembarcar os seus homens, e depois de gastar um mês trocando correspondência com o rei sueco e com o Governo britânico, acabou por partir para Estocolmo, a fim de conversar pessoalmente com o despótico Gustavo IV, monarca algo lunático e com vastos esquemas de conquista (apesar de ter acabado de perder grande parte da Finlândia para os russos, precisamente por carecer de tropas suficientes para a sua defesa), que propunha que os britânicos, juntamente com algumas tropas suecas, deviam tomar a ilha da Zelândia, para daí partirem para a Finlândia para lutar contra os russos. John Moore objectou que a sua força era insuficiente para tais projectos, o que provocou a ira de Gustavo IV, que ordenou  a sua prisão. Poucos dias depois, Moore conseguiu fugir, retornando a Gotemburgo, e acabando por regressar com as suas tropas para a Inglaterra no início de Julho. É precisamente nesta viagem de regresso que John Moore recebe a ordem mencionada no início do texto acima transcrito.
Deve ser notado que, enquanto tudo isto se passava, John Moore ia recebendo correspondência de amigos seus sobre os avanços das revoltas populares da península ibérica contra as tropas de Napoleão, bem como sobre as primeiras disposições do Governo britânico para auxiliar a Espanha e Portugal. 

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