sexta-feira, 10 de junho de 2011

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (10 de Junho de 1808)




Lisboa, 10 de Junho


Anteontem à noite houve no Teatro de S. Carlos um festim magnífico, cujas particularidades daremos na folha seguinte*

Por cartas de França, dignas de crédito, consta que um novo exército de 60.000 homens, às ordens de Sua Excelência o Marechal Lannes, está a ponto de entrar em Espanha, a fim de defender as costas, se, por acaso, os ingleses tivessem a ideia de procurar fazer aí alguma expedição, à maneira da de Tolon; isto é, de se apresentar naquelas costas para lançar fogo a tudo, e pôr-se consecutivamente em fugida, entregando à cólera do vencedor aqueles que se deixarem cair no criminoso engano de ajudá-los. 
Esta notícia poderá muito bem aplacar a petulência de certos agentes ingleses, que, em algumas partes da Espanha, querem absolutamente, debaixo do título de Juntas, introduzir a mania dos Clubs (associações populares) com que também procuraram arruinar a França em meio da sua revolução. 
Ninguém sabe melhor que os ingleses o quão temível será para eles uma união verdadeiramente íntima entre a França e a Espanha, tal qual não pode deixar de o ser, quando a mesma família houver de ocupar ambos os tronos; e quando, segundo a sua promessa, o Imperador Napoleão tiver confiado o ceptro espanhol a outro ele mesmo. Por isso é que a Inglaterra de nada se descuida para armar os espanhóis uns contra os outros, procurando impedir que se reúnam debaixo da invencível estrela do Grande Napoleão. Os ingleses porém só poderão conseguir fazer algumas vítimas; sobejo bom senso têm os espanhóis para deixar de ver o laço que lhes armam os seus inimigos; e sobejas luzes para se tornarem, contra si mesmos, os instrumentos de uma nação que tem ocasionado a perda de todas aquelas que têm seguido os seus pérfidos conselhos; porque, assim como muitas vezes o têm proclamado os oradores do seu Parlamento, o Gabinete de S. James só quer os desastres do Continente; é bem certo de que, quando este obedecer sinceramente a uma só e mesma influência, debaixo da direcção do maior dos Monarcas, em breve ficará acabado o despotismo marítimo de uma ilha que só deve momentaneamente o seu salvamento à divisão que os seus estipendiários têm sempre tido a arte de semear entre aqueles cujo evidente interesse é coligar-se contra ela. 


[Fonte: 1.º Suplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 23, 10 de Junho de 1808].

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Nota: 

O desenrolar dos acontecimentos impediu que essas particularidades chegassem a ser publicadas na Gazeta de Lisboa. Acúrsio das Neves, por outro lado, descreve da seguinte forma (crítica) esse "notável festim": "procurava Junot suavizar os seus males, distrair a atenção dos principais cidadãos de Lisboa e intimidar o povo por meio de um espectáculo em que o luxo, a licença e a vaidade se combinavam com o terror, para os mesmos fins: uma ceia, precedida de danças e de concertos, no teatro de S. Carlos na noite de 8 para 9 de Junho. Nada lhe esqueceu para fazer este acto ao mesmo tempo majestoso e terrível; agradável somente o pôde fazer aos seus e a um pequeno número de portugueses que o seguiam. Quatro mil aguadeiros rodeavam o edifício com os seus barris cheios de água, para prevenirem qualquer incêndio; numerosas tropas, tão prontas e armadas como se estivessem para entrar em combate, guarneciam as ruas até uma grande distância; e por estes preparativos se pode julgar do resto. 
Foi grande o número dos convidados de ambos os sexos e de todas as classes, os quais, para entrarem no teatro, tinham de atravessar largo espaço por entre as fileiras destes assassinos, que, nas pontas das suas baionetas, lhes apresentavam a imagem da morte. Os homens entravam sem aparato; para receberem as senhoras, achavam-se quatro pajens no vestíbulo, que anunciavam a sua chegada a quatro Ajudantes de Ordens que ali as vinham receber e as conduziam até à porta interior do teatro, onde o General Margaron fazia as honras da casa.
A plateia tinha-se elevado a correr direita com o tabelado, e à roda dela se colocaram várias ordens de assentos, ficando livre o centro para as danças. No topo estavam três cadeiras de braços, a orquestra nas varandas das Pessoas Reais, e na frente se via, entre outras decorações, o busto de Napoleão em pintura, servindo-lhe de peanha quatro bandeiras francesas encruzadas, nas quais se liam os famosos nomes de Marengo, Austerlitz, Jena e Firedland. Por baixo delas estava a bandeira russiana [sic], de cuja humilhação neste dia foram testemunhas o Almirante Seniavin e toda a sua oficialidade.
Enquanto entravam os convidados, foram-se estes arranjando como puderam, ficando sempre vazias as três cadeiras de braços; apenas junto o concurso, anunciou-se a chegada de Junot, e tudo foi reboliço para o virem receber à entrada e o conduzirem até à cadeira do meio, que foi ocupar, dando as dos lados a duas damas que o acompanharam e sobressaíam ao resto da companhia, como novas Vénus no meio do coro das suas ninfas. Rompeu então a orquestra e começaram as danças, que levaram uma grande parte da noite. Depois delas correu-se o pano, e apareceu sobre o tabelado uma espécie de barraca de campanha, e dentro desta a mesa, que foi somente para as senhoras. Os homens, de que uma parte, principalmente dos de certa ordem, tinham subido para os camarotes, a fim de disfarçarem o desgosto em que se viam, pela mistura em que se achavam, e em que irremediavelmente tinham deixado as suas famílias, foram obrigados a descer para a ceia; por entre os bastidores, e de pé, é que foram comendo alguma coisa, de sociedade com os soldados, com os serventes, e com todo o lixo que por ali se achava. Dizem os que assistiram que não foi a mesa a que ostentou o luxo desta esplêndida função" [Fonte: José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal, e da Restauração deste Reino - Tomo III, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, pp. 99-102].

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