segunda-feira, 2 de maio de 2011

Proclamação do Grão-Duque de Berg aos espanhóis, em virtude dos incidentes de Madrid (2 de Maio de 1808)




Quartel-General de Madrid, 2 de Maio de 1808 


Valorosos espanhóis! 

O dia dois de Maio será um dia de luto tanto para mim como para vós. 
Os nossos inimigos comuns, havendo-me provocado, ao princípio, de maneira que me esgotassem toda a paciência, concluíram depois excitando uma parte do povo de Madrid e das aldeias adjacentes a tais excessos que, por fim, foi necessário empregar a força irresistível confiada ao meu comando. 
Eu tive prévia informação dos esforços que faziam os mal intencionados, mas ainda assim quis-me persuadir que nada poderia perturbar a tranquilidade pública. Preparei-me para o pior, esperando contudo que as minhas precauções seriam supérfluas. 
Esta manhã rebentou a tempestade que havia muito tempo que eu temia. Preparam-me para ela grande número de circunstâncias e de libelos incendiários, pelos quais me informaram dos meios que se tinham adoptado. O sinal da revolta foi a partida da Rainha da Etrúria e do Infante D. Francisco, que foram chamados a Bayonne por El-Rei seu pai. Um dos meus Ajudantes de Campo, que se achava então no Palácio, estava ao ponto de perecer às mãos dos sediciosos, ao mesmo tempo que todos os franceses que se achavam sós nos diferentes bairros de Madrid foram assassinados. Vi-me por fim obrigado a dar ordens para castigar tão enormes crimes. 
Com que horrível alegria contemplarão os inimigos da França e da Espanha o dia em que os generosos franceses se viram obrigados a ferir os espanhóis iludidos! Os inimigos comuns de ambos os países continuarão a usar os seus esforços para obter outros triunfos não menos horríveis em outras partes deste belo Reino. Suas fúteis esperanças serão frustradas pela minha franqueza e pelo vosso sólido juízo. Valorosos espanhóis, falo com a vossa sinceridade sobre um acontecimento não menos penoso aos vossos corações do que ao meu; e ao mesmo tempo, eu vos explico a vossa situação: 
Carlos IV e seu filho estão agora em Bayonne com o Imperador Napoleão para ajustar o destino da Espanha. O Imperador não pensa que é conveniente esperar o resultado de tão importante decisão para vos fazer conhecer os sentimentos que o animam a favor de uma nação magnânima, que ele deseja livrar de uma crise revolucionária e trazê-la ao estabelecimento daquelas instituições políticas que são mais acomodadas ao seu carácter. 
Ele pois vos assegura e me encarrega de vo-lo repetir, que ele deseja manter e segurar a integridade da monarquia espanhola, cujo território não será desmembrado nem na menor parte; não perderá sequer uma aldeia, nem padecerá contribuições algumas; cuja imposição autorizam as leis da guerra nos países conquistados, mas que somente pessoas mal intencionadas suporão aplicáveis a um aliado. 
Acaso não vos unireis comigo, valorosos espanhóis, para prevenir que os malévolos disturbem tão feliz prospecto? Eu não vos suporei capazes de tanta cegueira, que sofrais serdes desencaminhados por vis perturbadores que desejam conduzir-vos à vossa ruína. E pois o sossego público é o objecto do nosso cuidado, não será certamente o interesse do exército que eu comando, o mesmo de todos aqueles que gozam dignidades e têm propriedade que conservar? Não ameaçam a ambos os tumultos da multidão que insultam a Majestade das Leis? 
Nobres proprietários, mercadores, fabricantes: usai da vossa maior influência para prevenir toda a espécie de sedição; este exercício de Magistratura é direito e dever da vossa situação. 
Ministros da religião: o vosso dever vos chama a fazer cessar a ilusão do povo; porque vós sabeis os segredos de suas consciências, que as vossas vozes dirigem com tanta autoridade. 
Depositários do poder civil e militar: em vós reside a mais directa responsabilidade se vos descuidareis de exercitar o vosso poder com vigor, de sufocar a sedição no seu berço ou de a cortar nos seus primeiros movimentos. Se outra vez se derramar o sangue francês, vós, em particular, responderei ao Imperador Napoleão, cuja ira ou clemência ninguém provoca em vão. A vossa fraqueza seria tanto mais inescusável, depois de eu vos ter trazido à lembrança, com a maior diligência e intimativa, este importantíssimo dever que tendes a preencher. 
Mas lisonjeio-me com a esperança de melhor futuro, confiando em que os ministros da religião, os magistrados espanhóis da mais alta graduação, numa palavra, todas as classes, trabalharão por evitar os distúrbios que podem ser prejudiciais ao melhoramento da Espanha. A todos os oficiais Generais e pessoas militares empregadas nas diferentes províncias da monarquia, servirá de modelo digno de imitação, nesta lamentável ocasião, o comportamento que tiveram as tropas da Casa Real e a guarnição de Madrid, e as tropas espanholas aquarteladas na Corte. Se as minhas esperanças ficarem frustradas, será a minha vingança verdadeiramente tremenda; porém, a serem realizadas, serei verdadeiramente feliz em anunciar ao Imperador que o seu juízo relativamente aos naturais de Espanha (a quem ele estende a sua estima e afeição) não foi errado. 

Joachim 


Por Sua Alteza Imperial e Real, o General do Estado Maior 

Agustin Belliard



[Fonte: Correio Braziliense - Agosto de 1808, pp. 168-171]. 

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