segunda-feira, 2 de maio de 2011

Notícia publicada no Moniteur Universel, relativa à chegada da família real espanhola a Bayonne




Bayonne, 2 de Maio


El-Rei Carlos IV e a Rainha Luiza chegaram, a 27 do mês passado, a Burgos, onde foram recebidos com todas as honras devidas à sua qualidade. Suas Majestades se mostraram muito satisfeitas de ver os corpos dos oficiais franceses que lhes apresentou o Marechal Bessieres.

A 28 entraram Suas Majestades em Vitória, onde o General Verdier teve a honra de apresentar-lhes o corpo dos oficiais franceses. Achando-se naquela cidade um destacamento de 100 Guardas de Corps, que acompanhara o Príncipe das Astúrias, e havendo, segundo o costume, tomado posse do palácio que deviam ocupar Suas Majestades, quando El-Rei Carlos neles advertiu, [e] lhes disse: “Nao levareis a mal que eu vos peça que saiais do meu palácio, já que haveis traído os vossos deveres em Aranjuez; não preciso dos vossos serviços, nem tampouco os quero”. Tiveram pois de retirar-se os ditos guardas; e Sua Majestade pediu ao General francês que lhe desse uma guarda. El-Rei veio até Burgos acompanhado do belo regimento de clavineiros [=carabineiros], que sempre lhe tem sido fiel.

A 29 pernoitaram Suas Majestades em Tolosa, onde o General Lasalle teve a honra de apresentar-lhes o corpo dos oficiais franceses. Em todo o seu caminho encontrou El-Rei um perfeito acolhimento no povo; e tão somente se mostravam tristes nessa ocasião os indivíduos que se viram agitados pelas intrigas de Aranjuez.

A 30, ao meio-dia, chegaram Suas Majestades a Irun, onde o General Lebrun, Ajudante de Campo de Sua Majestade, lhes entregou cartas do Imperador. O Príncipe de Neufchâtel foi quem os recebeu na entrada do território francês. Às 2 horas da tarde entraram Suas Majestades nesta cidade, cuja guarnição formava as alas: todas as autoridades passaram à esplanada, e a cidadela e as embarcações surtas na baía saudaram com toda a sua artilharia. Assim que Suas Majestades chegaram ao palácio preparado para sua recepção, apresentou-lhes o Grão-Marechal Duroc os oficiais do Imperador designados para o seu serviço. Meia hora depois foi visitá-los o Imperador e esteve com Suas Majestades muito tempo.

Ontem oferecia esta cidade um espectáculo tão extraordinário como majestoso, pois víamos aqui ao mesmo tempo Suas Majestades o Imperador e a Imperatriz; El-Rei e a Rainha de Espanha; o Príncipe das Astúrias, que, há poucos dias, também se intitulava Rei; vários Infantes; o Príncipe da Paz; vários Ministros espanhóis e vários Grandes de Espanha.

El-Rei e a Rainha de Espanha habitam o Palácio do Governo; o Príncipe das Astúrias e o Infante D. Carlos, as antigas Casas da Intendência; o Imperador e a Imperatriz, a Quinta de Marrac, e os Ministros e oficiais da Casa de Suas Majestdades, os campos em torno.

Quando a artilharia anunciou, a 30 de Abril, a chegada de El-Rei e da Rainha de Espanha, foram sair-lhes ao encontro o Príncipe das Astúrias e o Infante D. Carlos. Logo que Suas Majestades entraram no seu palácio, todos os espanhóis que se acham aqui foram ao beija-mão. Os espectadores franceses, que haviam lido no mesmo dia, na Gazeta de Bayonne, as peças relativas aos acontecimentos de Aranjuez e a protestação de El-Rei, e que viam este infeliz Monarca chegado sem comitiva, sem guardas, sem cortejo, receber aquela homenagem dos mesmos homens que entraram na conspiração do mês de Março, experimentaram sentimentos penosos, que igualmente transluziam nos semblantes de El-Rei e da Rainha. Suas Majestades, nessa ocasião, falaram ao Conde de Fuentes, que por acaso chegara a Bayonne. Suas Majestades, por estarem fatigadas do beija-mão, se retiraram para o seu quarto. O Príncipe das Astúrias quis segui-los; porém El-Rei o deteve e lhe disse em espanhol: “Príncipe, não tendes vós já ultrajado assaz as minhas cãs?”. Estas palavras deixaram o Príncipe assombrado, e confusos os espanhóis que o acompanhavam e que com ele se foram logo retirando.

No mesmo dia, às 5 horas da tarde, foi o Imperador visitar Suas Majestades: o encontro foi largo e tocante. El-Rei e a Rainha contaram ao Imperador os ultrajes de que tinham sido alvo havia um mês, e os perigos a que constantemente se viram expostos, exprimindo a mágoa que lhes causava a ingratidão de tantos homens a quem tinham enchido de benefícios, e o desprezo com que olhavam os Guardas de Corps pela vileza com que os haviam traído. Várias vezes repetiu El-Rei estas palavras: “Vossa Majestade não sabe o que custa a um pai ter de se queixar de seu filho; esta desgraça é a mais dolorosa de todas as que se podem experimentar”. O Imperador, depois de ter estado mais duma hora com Suas Majestade, tornou para Marrac. El-Rei de Espanha, fatigado da viagem e atormentado da gota que padece, parecia ser mais idoso do que é. Não vinha acompanhado [por] mais que dum estribeiro, um camarista e um coronel de clavineiros (que fora deposto por um dos primeiros actos do Governo do Príncipe das Astúrias) e que faz as vezes de Capitão das Guardas. O Imperador designou para se empregarem no serviço de Suas Majestade o General Reille, seu Ajudante de Campo, como Governador do Paço, mrs. Duinanoir e de Barol, como camaristas, e mr. D'Oudenarde, como estribeiro.

Suas Majestade El-Rei e a Rainha de Espanha jantaram ontem em Marrac, com Suas Majestades o Imperador e a Imperatriz.

Hoje, às 4 da tarde, Sua Majestade a Imperatriz foi visitar El-Rei e a Rainha de Espanha, e esteve muito tempo com Suas Majestades. 

[Fonte: 1.º Suplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 21, 27 de Maio de 1808].


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