terça-feira, 23 de novembro de 2010

Carta de Emmanuel Crétet, Ministro do Interior do Governo francês, aos administradores do Museu de História Natural de Paris (10 de Janeiro de 1808)



Senhores, recebi ontem a resposta que me haveis remetido, relativamente ao envio dum naturalista a Lisboa, e, conforme a opinião que me haveis expressado sobre a utilidade dessa missão, determinarei executá-la. Não há dúvida que o melhor é confiá-la  ao sábio em favor do qual reuniram-se os vossos sufrágios. Contudo, para que possa submeter a Sua Majestade o Imperador uma estimativa das despesas que essa missão poderá ocasionar, é necessário que tenham a complacência de me fornecer detalhes mais circunstanciados. As regras actualmente estabelecidas para a Administração do Exército não permitem que uma parte das despesas seja suportada pelo Exército, e que o mesmo forneça os meios de transporte. Peço-vos que me indiquem qual deverá ser a remuneração, tanto para o sábio encarregado desta missão como para o seu assistente, calculando quanto gastarão por cada dia de viagem e por cada estadia. Também necessito uma estimativa das despesas extraordinárias com embalagens e transportes. Não tenho necessidade de fazer-vos ver que, como esta missão não exige nenhuma representação*, e como o próprio interesse das ciências naturais exige que a repetição de viagens semelhantes não possa ser impedida por despesas demasiado exageradas, é necessário que esse cálculo seja feito da maneira mais económica. Convém também fixar a duração máxima desta viagem, e peço-vos que me declarem a vossa opinião [sobre este assunto]. Fico à espera da vossa resposta, Senhores, para tomar uma decisão definitiva; e renovo-vos a garantia da minha sincera estima.


Crétet

[Fonte: E.-T. Hamy, "La mission de Geoffroy Saint-Hilaire en Espagne et en Portugal (1808). Histoire et documents", in Nouvelles Archives du Muséum d'Histoire Naturelle, Quatrième série - Tome dixième, Paris, Masson et C. Éditeurs, 1908, pp. 1-66, pp. 5-6].


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Nota: 

* Cette mission, n'exigeant aucune représentation [sic]. Esta passagem, algo obscura, parece dar a entender que esta missão não teria carácter oficial, ou pelo menos fazer-se-ia passar como tal. Segundo as fontes conhecidas, parece que, à excepção de Napoleão, do remetente e dos destinatários da carta acima traduzida, esta missão era realmente desconhecida do grande público, para não dizermos que foi mantida em segredo (é curioso observar-se que na própria correspondência oficial de Napoleão não se encontra qualquer menção à viagem de Geoffroy Saint-Hilaire a Portugal). Este silêncio foi quebrado somente quando Saint-Hilaire regressou à França, em meados de Outubro de 1808, com milhares de objectos recolhidos nas colecções portuguesas. De facto, parece que o primeiro anúncio oficial desta missão foi precisamente uma nota sobre os objectos de história natural recolhidos em Portugal, da autoria do próprio Saint-Hilaire, que apareceu publicada ainda em finais de 1808, nos Anais do Museu de História Natural de Paris. Essa nota era um excerto do relatório (que nunca foi publicado integralmente) das suas operações em Portugal, que originalmente tinha sido apresentado a Crétet, remetente da carta acima traduzida.

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