terça-feira, 8 de março de 2011

Carta de Junot a Napoleão (8 de Março de 1808)


Voltamos a repetir que, em finais de Fevereiro de 1808, Godoy ordenou ao General Solano para retirar de Portugal a sua Divisão, composta por pouco mais de 9.500 espanhóis, que começaram a sair do país no dia 2 de Março. Napoleão, ao saber destas movimentações, enviou no dia 7 uma carta a Junot (que já atrás foi inserida), mandando-o perseguir estas tropas com um destacamento bastante considerável (sem dar aparente importância ao facto de que a saída dos espanhóis, por si só, implicava já um enfraquecimento das tropas francesas em Portugal, dado que teriam que ser redistribuídas para o sul do Tejo, e inevitavelmente obrigaria a que os destacamentos fossem mais pequenos. Se Junot cumprisse as ordens de Napoleão e retirasse a "metade" da sua cavalaria e "cinco a seis mil homens" para perseguir a Divisão de Solano, o seu exército ficaria ainda mais fraco). Napoleão esperava que essa carta chegasse às mãos de Junot dez dias depois (no dia 17), mas o certo é que este não a receberá antes do dia 29 do mesmo mês (e então as ordens já de pouco serviam)... Muito antes disso, as duas restantes divisões espanholas acantonadas em Portugal também receberam ordem para regressar à Espanha, como Junot já tinha suspeitado e como confirmava a Napoleão no dia 8, através do excerto da seguinte carta:

Recebi agora mesmo do Porto a notícia de que a Divisão espanhola vinda da Galiza deve regressar a esta província conforme eu previra e como tive a honra de prevenir Vossa Majestade pela minha carta de 1 de Março
Não tendo qualquer poder de comando sobre essa Divisão, não posso impedir a sua partida, mas vou tratar de demorá-la durante alguns dias. O Capitão-General Carrafa, que comanda a divisão espanhola às minhas ordens, escreve-me também que a sua Divisão deve voltar para Espanha, mas como ele está sob as minhas ordens imediatas, espero poder impedi-lo disso até ter recebido as ordens de Vossa Majestade a este respeito.
Não estando já os espanhóis em Portugal, o exército ficará mais fraco e obrigado a dividir-se; deveria ser aumentado em um quarto, principalmente no pressuposto de neste inverno ser necessário deslocar parte dela para a retaguarda; nunca tive autorização para dispor de qualquer corpo pertencente ao General Dupont, e é portanto indispensável que ele receba as ordens do Ministro da Guerra; há apenas o tempo necessário para que essas tropas aqui cheguem no começo da estação para as operações militares.
A ocupação de Elvas, do Alentejo e dos Algarves exige-me perto de 5.000 homens, e isso não é suficiente, pois é preciso ter em Setúbal 4.000 homens disponíveis, pelo menos, e a margem esquerda do Tejo necessita assim de, pelo menos, 9.000 homens; as províncias do Minho, Trás-os-Montes e Beira necessitam de, pelo menos, 10.000 homens, o que perfaz o total do meu exército, e nada terei disponível. Suplico a Vossa Majestade a bondade de tomar em consideração a minha situação actual. [...]



Na mesma carta Junot indicava ainda que Lisboa vivia na miséria, em virtude da contribuição imposta no dia 1 de Fevereiro:


[...] Os proprietários estão todos numa situação desesperada por causa do pagamento da contribuição, cuja cobrança total, ouso assegurar a Vossa Majestade, é completamente impossível. Suplico a Vossa Majestade que me permita pedir a sua bondade para este desventurado país; já não existe numerário, e todos os fidalgos têm as suas casas em tão grande desordem que não há positivamente um único em condições de pagar a sua contribuição sem vender as pratas ou hipotecar por muitos anos a parte dos seus rendimentos que ainda não estiver empenhada; mas, apesar da minha opinião, não deixo por isso de os pressionar para o pagamento do primeiro terço, que bem necessário nos é neste momento. [...]


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Fonte: Junot, Diário da I Invasão Francesa, Lisboa, Livros Horizonte, 2008, pp. 149-150, p. 149 (n.º 98).



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