quarta-feira, 2 de março de 2011

Carta de Junot a Napoleão sobre a saída da Divisão de Solano de Portugal (1 de Março de 1808)



Como atrás vimos, o General Solano tinha recebido ordens da Corte espanhola para regressar à Espanha, na sequência de algum receio sobre as intenções de Napoleão. Junot, avisado pelo próprio General Solano, conseguiu deter a saída destas tropas durante uma semana, tendo enviado um correio extraordinário para a França, no dia 23 de Fevereiro, a fim de remeter esta notícia ao Imperador. Sem entretanto ter recebido qualquer resposta, Junot voltava a escrever a Napoleão sobre este caso no dia 1 de Março:  




Metade da Divisão do General Solano inicia amanhã o seu movimento pelos Algarves, e a outra metade pelo Alentejo. Asseguram-me que a Divisão da Galiza recebeu igualmente ordens para regressar a Espanha; nesse caso, apenas me ficaria a Divisão Carrafa, que é na verdade a mais forte, pois tem mais de 12.000 homens; vou aproximar de Lisboa parte dela, pois não se pode manter no Douro por falta de mantimentos e de forragens; esta província, embora muito rica, não produz nenhum trigo, mas, por causa dos mantimentos, é preciso tempo para fazer chegar aqui 10.000 homens. Será sempre essa a grande dificuldade para um exército que se veja obrigado a actuar no interior de Portugal. Os meios de transporte são praticamente nulos na maior parte dessas províncias, e nenhuma serra oferece caminhos onde possam transitar viaturas. 
A minha cavalaria estará bem montada dentro de um mês, e poderei então montar um Regimento de Caçadores ou de Hussardos que aqui chegue apeado, mas que traga selas. Nesse caso, poderei devolver um Regimento de Dragões, pois não é precisa aqui muita cavalaria; as tropas espanholas têm muita, cuja alimentação custa horrivelmente, e que de nada serve porque a impossibilidade de a movimentar, por causa da falta de forragens, obriga a deixar grande parte dela em postos fixos. 
Segundo a conta que me foi apresentada pelo General Solano, a manutenção das duas divisões espanholas custar-lhe-á cerca de 1 milhão de libras por mês. Essa quantia é forte, e estará Vossa Majestade com intenções de lha conceder? Se essas tropas ficarem em Portugal, será absolutamente necessário alimentá-las e pagar-lhes. Aguardarei as ordens de Vossa Majestade a este respeito. Conceder-lhes-ei de vez em quando adiantamentos a regularizar mais tarde. 
Vossa Majestade não pode fazer uma ideia da alegria dos habitantes do Alentejo quando souberam da partida dos espanhóis; até receio que eles sejam insultados durante a marcha, e tomei precauções a esse respeito. [...]
[Fonte: Junot, Diário da I Invasão Francesa, Lisboa, Livros Horizonte, 2008, pp. 147-148 (n.º 97)].

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