segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Proezas dos ingleses junto à foz do Tejo



Segundo o historiador Rui Prudêncio, autor do blog-de-historia.blogspot.com, "Eusébio Gomes, almoxarife do palácio de Mafra durante a primeira metade de oitocentos, foi um observador privilegiado da vida social e política da corte de D. João VI. Privilegiado porque sendo um alto funcionário administrativo palaciano tinha acesso à observação dos círculos sociais e políticos da corte e do convento que não estavam acessiveis à maioria dos portugueses. Assim, Eusébio Gomes regista episódios da vivência dos cortesãos enquanto a corte permanecia em Mafra e dos frades franciscanos no interir do espaço palaciano e conventual, provavelmente testemunhados por muito poucos. Além disso, no seu manuscrito regista notícias do conhecimento geral como a presença de membros da familia real no palácio, festividades e celebrações religiosas, eventos sociais e políticos de Mafra e de Portugal, o evoluir da Guerra Peninsular, movimentações de tropas, preço dos víveres, produção agrícola, terramotos, etc... As memórias manuscritas de Eusébio Gomes estão depositadas na biblioteca do palácio de Mafra". 

Como não temos intenção de publicar integralmente este importante documento, os interessados podem consultá-lo na íntegra a partir do blog do próprio Rui Prudêncio (ver aqui), ou parcialmente na obra El-Rei Junot de Raul Brandão, que copiou apenas as passagens relativas à chamada primeira invasão francesa. Contudo, devemos referir que, entre os trechos que são comuns a ambas as transcrições, existem diversas variantes, e algumas notas somente aparecem numa das versões. É possível assim que exista (ou tenha existido) mais de uma cópia deste diário. 

Feitas estas apresentações, citaremos em seguida as anotações de Eusébio Gomes no seu diário, entre o início e meados de Fevereiro de 1808:



2 de Fevereiro - Faz-se reconhecer Junot Governador de Lisboa, e aboliu a Regência. 

11 de Fevereiro - Hoje cercou o Maneta Loison o Regimento do Porto nas Caldas, desarmou-o e deu-lhe baixa, e [anteriormente] fez arcabuzar 9 portugueses inocentes. 

12 de Fevereiro - Morre o Patriarca. 

14 de Fevereiro - Esta madrugada apresaram os ingleses uma das canhoeiras com 60 homens da guarnição que estava defronte de S. José de Ribamar, e a levaram sem serem pressentidos. 

16 de Fevereiro - Fundearam em Cascais onze navios ingleses. 

[apud Raul Brandão, El-Rei Junot, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, s.d. p. 152].



Os dois últimos episódios anotados demonstram bem a audácia dos ingleses, pois a foz do Tejo (sobretudo na sua margem norte) estava coberta de dezenas de baterias e fortalezas muito próximas umas das outras. A maioria destas construções tinha sido erguida na época da Guerra da Restauração, precisamente com o fim de defender Lisboa dum ataque costeiro. 


Mapa da foz do Tejo (1811)
com indicação de algumas das fortificações defensivas da entrada do Tejo


Com estes exemplos, e segundo o Bispo do Rio do Janeiro, era natural que as esperanças dos portugueses no auxílio dos ingleses não fossem "mal fundadas, por serem as forças britânicas as únicas que podem apoiar a sua existência marítima e comerciante; os mesmos franceses em Lisboa têm experimentado a superioridade de seus rivais nesta parte, quando não puderam defender duas barcas canhoneiras que aqueles lhes vieram buscar por diversas vezes mesmo dentro ao Tejo; nem tampouco embaraçar-lhe as repetidas aguadas que vêm fazer nos portos da costa, e os víveres e refrescos que deles levam, como de Sintra, Colares, Sesimbra, Ericeira, etc". [Memoria Historica da Invasão dos Francezes em Portugal no anno de 1807, Rio de Janeiro, Impressão Regia, 1808, p. 44].

Vejamos finalmente uma carta que o Capitão James Lucas Yeo enviou ao Almirante Charles Cotton, comandante da esquadra que bloqueava a foz do Tejo, narrando-lhe o episódio da madrugada de 14 de Fevereiro:

H.M.S. Confiance, ancorado na barra do Tejo, 14 de Fevereiro de 1808.  
Sir,
Tendo sido informado dum rumor que circulava em Lisboa, segundo o qual a esquadra russa estava prestes a fazer-se à vela, enviei na noite passada o cúter e o escaler às ordens de Mr. Robert Trist, acompanhado por Mr. Largue, ambos sub-mestres, para guardarem a boca do Tejo. Mr. Trist, ao se dar conta de uma embarcação de guerra ancorada diante do forte de S. Pedro [em Paço d'Arcos], entre os fortes de Belém e de S. Julião, abordou-a subitamente da maneira mais brava, e depois de uma resistência ineficaz do inimigo, capturou-a. Verificou-se que esta embarcação era a Canonier n.º 1, comandada pelo ensign de vaisseau [sic] Gaudolphe, e guarnecida com um canhão de calibre 24 e outros dois de bronze, de calibre 6, com cem conjuntos de armas e quinze homens.
É devido um grande louvor a Mr. Trist e ao seu pequeno destacamento pela intrepidez que demonstraram, quando se tem em consideração que os nossos barcos tinham apenas dezasseis homens no total, ao contrário da força superior que estava dentro das fortalezas, tendo chovido pedras e fogo muito antes de terem chegado à dita embarcação. […] Estou satisfeito por acrescentar que isto foi realizado sem nenhuma perda do nosso lado. O inimigo teve três mortos e nove gravemente feridos. 
J. L. Yeo   
[Fonte: The London Gazette, n.º 16130, p. 417-418; republicado em The Naval Chronicle, for 1808 - Vol. XIX (from January to June), London, Printed and Published by and for Joyce Gold, 1808, pp. 81-82].

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