domingo, 12 de dezembro de 2010

A opinião dos portugueses em relação aos espanhóis



O enorme aparato do funeral de Taranco deve ter passado despercebido em Lisboa, segundo se deduz dos relatos coetâneos de pessoas que viviam neste tempo na capital do país. A própria Gazeta de Lisboa somente fará menção da morte de Taranco no dia 9 de Fevereiro, sem mencionar quaisquer pormenores:


O Excelentíssimo D. Francisco de Tarranco y Llano, da Ordem Militar de S. Jorge na Rússia, Padroeiro de Zaratamo em Biscaia, Tenente General dos Reais Exércitos de Sua Majestade Católica, Governador e Capitão General do Reino da Galiza, Presidente da sua Real Academia e Subdelegado da Renda de Correios e Caminhos no mesmo Reino, e General do exército de Sua dita Majestade Católica na província da Estremadura [sic] e Minho, faleceu na cidade do Porto a 26 do mês passado. [Gazeta de Lisboa, n.º 6, 9 de Fevereiro de 1808].

Junot, por outro lado, já sabia do sucedido pelo menos desde o dia 4 de Fevereiro (segundo carta remetida a Napoleão nesse dia, onde muito abreviadamente refere a morte do dito General). Mas também é importante ressaltar que, entretanto, não só a Gazeta fora apossada pelos franceses, que a transformaram no seu órgão de imprensa, como também as circunstâncias políticas e administrativas tinham mudado drasticamente desde o dia 1 de Fevereiro (como mais adiante se mostrará). De todos os modos, talvez Junot julgasse que a notícia não devia interessar aos portugueses, partindo do princípio de que os portugueses odiavam os espanhóis, como várias vezes narrou a Napoleão. 
Vejamos agora uma visão diversa destes sentimentos. O texto que abaixo se transcreve é do Bispo do Rio de Janeiro, José Caetano da Silva Coutinho, que se encontrava residindo em Lisboa nesta época (conseguindo fugir para o Brasil, provavelmente a bordo de algum navio inglês, a 4 de Março):

"Os espanhóis que entraram em Portugal em auxílio dos franceses, posto que publicamente falassem em abono da sua causa, não eram contudo muito contrários aos russos nos sentimentos [de repúdio aos franceses] que particularmente deixavam transpirar entre muitas pessoas. As proclamações impressas dos seus Generais e a conduta das tropas por todas as províncias em que passaram são os mais honrosos documentos que se podem alegar em seu abono; tiveram sempre a política e a delicadeza de não arvorarem o pavilhão espanhol senão ao lado e à esquerda do português; notava-se neles, assim como nos russos, maior facilidade e tendência a conviverem e arrancharem com portugueses do que com franceses. Em Setúbal, onde residiu o maior corpo das suas tropas, não houve uma só desavença, à excepção duma pequena rixa, que se contou ter acontecido num jogo de taberna; o que mais agradava ao povo era ver-lhes puxar por dinheiro e pagarem tudo o de que precisavam; não pareciam aqueles espanhóis que, como inimigos, tinham entrado em Portugal nas passadas campanhas, e até parecia ter-se quase extinto a velha antipatia e o ódio nacional contra Castela.
Por ocasião desta novidade lembrou a algumas pessoas dizer, por uma graciosa ironia, que com razão os lisonjeiros de Bonaparte o denominavam Omnipotente, por ter feito o grande milagre de reconciliar e fazer amigas duas nações que tinham jurado perpétua inimizade*. Para mais justificar o predicado de Omnipotente que condecora o novo ídolo, seja-nos lícito apontar mais outro milagre que se observou, feito pelas suas tropas em Portugal: e é aquele de que já todos os criados dos fidalgos não murmuram das rações que se lhes dão em casa de seus amos, antes dão graças a Deus de terem que comer na terra da fome e da miséria. Outras provas deram os espanhóis da equidade dos seus sentimentos: porque várias vezes se viu sair o Marquês del Socorro de casa de Junot, declamando, sem poder conter-se, contra o novo direito dos franceses, que já principiavam a blasonar da conquista de Portugal; conquista prodigiosa e nunca vista, que não custa uma gota de sangue, e que habilita o pérfido e o aleivoso para lançar grilhões todas as vezes que possa, ao pescoço de seus maiores amigos" [Fonte: José Caetano da Silva Coutinho, Memoria Historica da Invasão dos Francezes em Portugal no anno de 1807, Rio de Janeiro, Impressão Régia, 1808, pp. 24-25]


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* [Nota nossa]: A partir de Junho se verá que o bispo não mentia quando dizia isto. De facto, as primeiras revoltas que se iniciarão nesse mês, tanto no sul como no norte de Portugal, partirão do rastilho acendido pelos espanhóis e sempre com a sua ajuda.


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