quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Napoleão e os affaires espanhóis (I)


Fonte: La España de las Reformas (p. 503).

El engaño de Francia (c. 1808)

Pormenor de uma caricatura espanhola, onde se vê Napoleão dando a mão à adormecida Espanha, cuja coroa está na iminência de ser capturada pela águia napoleónica



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Sei tirar a pele do leão e vestir a da raposa, quando é necessário.

Esta expressão de Napoleão, citada por Talleyrand [Cf. Charles-Maurice de TALLEYRAND, Mémoires du prince de Talleyrand – Volume I, Paris, Calmann Lévy Éditeur, 1891, p. 325], pode ser um bom resumo da estratégia do Imperador francês para tratar os affaires peninsulares, particularmente os espanhóis. 
Apesar das intenções de Napoleão em relação à Espanha não serem claras nos primeiros momentos, parece-nos que, para além duma carta do príncipe espanhol D. Fernando, houve um outro factor determinante, ocorrido logo após a assinatura do tratado de Fontainebleau, que teve bastante peso no desenrolar dos acontecimentos: referimo-nos ao chamado processo ou causa de El Escorial, que deixará a corte espanhola distraída e descredibilizada em toda a Europa, em grande parte devido à propaganda napoleónica. Entretanto, agindo sempre pela calada e com o pretexto da invasão de Portugal, Napoleão conseguirá ir dispondo várias dezenas de milhares de soldados do exército napoleónico em pontos estratégicos da aliada Espanha, antes de decidir dar o golpe fatal, e tudo isto com pouca reacção da parte da corte espanhola. Para se perceber todo esse lento, manhoso e hipócrita processo (que, repetimos, não era evidente nos primeiros momentos), apresentaremos em seguida alguns documentos referentes a este assunto, recuando inevitavelmente uns meses na ordem cronológica que estamos a tentar seguir, e repetindo alguns dados que já tivemos ocasião de referir para o caso concreto de Portugal, mas que se tornam úteis para a compreensão do que se passou na totalidade da península até ao fim de Janeiro de 1808 (dando agora mais destaque à Espanha). 



Fonte: Wikipedia

A família de D. Carlos IV, segundo Goya (c. 1800-1801)
Indicam-se a vermelho os membros desta família que a seguir se mencionarão


*

Depois de vários anos tentando o mesmo objectivo através de outros meios, Napoleão intimou em Agosto de 1807 o príncipe regente D. João a declarar-se contra a Inglaterra até ao dia 1 de Setembro, e aceitar as determinações impostas pelo bloqueio continental [Cf. Général Foy, Histoire de la Guerre de la péninsule sous Napoléon - Tome II,  Paris, Baudouin Frères Éditeurs, 1827, pp. 405-406]. Por influência da corte espanhola (como se sabe, o rei D. Carlos IV era pai de D. Carlota Joaquina, esposa do príncipe regente português), conseguiu-se que o prazo fosse alargado por quinze dias mais [Cf. Cuenta dada de su vida política por Don Manuel Godoy, Príncipe de la Paz - Tomo V, Madrid, Imprenta de I. Sancha, 1838, pp. 104-105].




Fonte: Wikipedia
Localização de Navarra
Entretanto, sem esperar a resposta de D. João, Napoleão ordenara às suas tropas para se começarem a acantonar perto da fronteira espanhola no início de Setembro de 1807. A este respeito, no dia 7 de Setembro, o duque de San Carlos, vice-rei de Navarra, envia a seguinte carta ao Príncipe da Paz, D. Manuel Godoy:                                            



Ex.mo Sr. 
Por notícias particulares, das quais creio que Vossa Alteza está melhor instruído, sabe-se que chegaram a Bayonne, no dia 4 do corrente mês, dois mil e oitocentos homens, e que o General Junot, Governador de Paris, chegou no dia anterior; o número destas tropas parece que se deve estender até quarenta mil, que estão a caminho, assegurado-se que estão destinados a entrar por estes domínios de Sua Majestade para ocupar os portos de Portugal, e como para chegar a eles têm que passar pelo território da capitania geral do meu cargo [Navarra], desejoso do acerto, pareceu-me próprio da minha obrigação dar a Vossa Alteza esta notícia para que se sirva prevenir-me o que tenha por conveniente que se deva observar em caso de que se verifique o trânsito, e seja mais conforme às intenções de Sua Majestade e de Vossa Alteza.
Deus Guarde a Vossa Alteza muitos anos.
Pamplona, 7 de Setembro de 1807.
Duque de San Carlos 
[Fonte: Archivo Histórico Nacional de España, "Entrada y paso de las tropas francesas por la Península en dirección a Portugal", ES.28079.AHN/5.1.145.4.1.1.57.1//DIVERSOS-COLECCIONES,86,N.6].




Fonte: Wikipedia
D. Carlos IV, segundo Goya (c. 1789)

Um dia depois, Napoleão enviava a seguinte carta a D. Carlos IV: 


Rambouillet, 8 de Setembro de 1807

Senhor meu Irmão, a escolha do sr. Duque de Frías, que Vossa Majestade me envia como embaixador extraordinário, não me podia ser mais agradável, pois o julgastes digno da vossa confiança. Receberei com prazer, através do seu órgão, as felicitações que Vossa Majestade lhe encarregou de me apresentar sobre os sucessos em que a Providência abençoou as minhas armas numa causa que nos é comum, e sobre a paz que se sucedeu. 
Vossa Majestade, que nessa ocasião se conduziu como fiel aliada da minha coroa, secundar-me-á com ainda mais zelo nas circunstâncias presentes, que são para vós de um interesse mais particular. Não é mais do que por medidas bem concertadas e fielmente executadas que Portugal pode ser levado àquele estado de deferência que nos dará a esperança da paz marítima, e que Vossa Majestade julgará mais conforme às suas vistas. Prestei uma grande atenção a tudo o que me escrevestes a este respeito; mas percebereis facilmente que não é ainda o momento de discutir estas questões, e que é necessário, antes de tudo, arrebatar Portugal da influência da Inglaterra e forçar esta última potência a desejar e a pedir a paz.
[Fonte: Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 21-22 (n.º 13131)].





Curiosamente, nesse mesmo dia Napoleão escreveu a seguinte carta a D. João, príncipe regente de Portugal:


Rambouillet, 8 de Setembro de 1807

Senhor meu Irmão e Primo, prestei atenção à paz do continente, sobre a qual recebo com prazer as felicitações de Vossa Alteza Real, como uma via para a paz marítima. Todas as medidas que tomei tendem a restabelecê-la; elas foram adoptadas por cada potência que, como Portugal, tem um interesse directo em fazer com que a Inglaterra respeite a sua independência e os seus direitos.
Uma meia-medida não teria o mesmo sucesso nem o mesmo carácter de ligação à causa comum; e Vossa Alteza Real foi levado pelos acontecimentos a ter que escolher entre o continente e os insulares. Se vos ligardes intimamente ao interesse geral, garanto a conservação da vossa potência na vossa pessoa e família. Mas se, contra as minhas esperanças, Vossa Alteza Real coloca a vossa confiança nos inimigos, terei o pesar de determinar o vosso desprendimento de mim e de deixar ao acaso dos acontecimentos a decisão dos seus mais importantes interesses. 
[Fonte: Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 22-23 (n.º 13132)].


Alguns dias depois, o duque de San Carlos voltava a informar o Príncipe da Paz acerca das movimentações dos franceses nas imediações da Espanha:


Ex.mo Sr.: 
Continuando o que manifestei a Vossa Alteza no dia 7 do actual mês, sabe-se que na terça-feira dia 8 entraram em Bayonne três companhias de artilharia; que no dia seguinte, quarta-feira, entrou o General da mesma; e que na quinta-feira entrou parte da cavalaria; que se esperava que chegassem de um dia para o outro até seis mil homens que se repartiriam nas imediações daquela cidade; o que julguei dever noticiar a Vossa Alteza para a sua respeitosa inteligência.
Deus Guarde a Vossa Alteza muitos anos.
Pamplona, 14 de Setembro de 1807. 
Duque de San Carlos
[Fonte: Archivo Histórico Nacional de España, "Entrada y paso de las tropas francesas por la Península en dirección a Portugal", ES.28079.AHN/5.1.145.4.1.1.57.1//DIVERSOS-COLECCIONES,86,N.6].




Fonte: Wikipedia
A rainha regente e o rei herdeiro da Etrúria,
segundo quadro de Goya (1800)
Entretanto, a corte espanhola consegue um novo adiamento do prazo do ultimato de Napoleão a Portugal. É já durante este segundo prazo que Napoleão escreve uma carta à rainha regente da Etrúria, D. María Luísa (não confundir com a sua mãe, de mesmo nome). Antes de transcrevermos este documento, dever-se-á informar que esta monarca era uma das filhas de D. Carlos IV, e tinha casado com um seu primo, D. Luís de Borbón-Parma, cujo pai tinha sido desapossado do trono do ducado de Parma por Napoleão, em 1801. Contudo, como o tratado de San Ildefonso (de 1800), assinado entre a Espanha e a França, previa a troca da Lusiana espanhola por um domínio na Itália, Napoleão decide criar o Reino da Etrúria, que cede a D. Luís. Note-se que este reino, desde logo pela forma como foi criado, não era mais do que uma espécie de estado-satélite da França, apesar da sua aparente independência. (Por curiosidade, Napoleão veio a lucrar muito com aquela troca, pois em 1803 vendeu a Lusiana aos Estados Unidos por 15 milhões de dólares, quantia que certamente foi usada para financiar as suas guerras).
Ao falecer D. Luís em 1803, a viúva D. María Luísa ficou regendo a Etrúria até à maioridade do seu filho primogénito, D. Carlos Luís de Borbón-Parma. Apesar da submissão que devia prestar ao Imperador da frança, D. María Luísa, durante esse período, não só acolhia nos portos da Etrúria mercadorias inglesas, como permitia o acolhimento de algumas pessoas (nomeadamente clérigos) que se opunham a Napoleão, factos que certamente o irritariam. É portanto já com segundas intenções que o Imperador lhe escreve esta carta:



Saint-Cloud, 16 de Setembro de 1807

Senhora minha Irmã e Prima, as vistas constantes da Inglaterra sobre Livorno obrigaram-me a recorrer a algumas medidas para fechar esse porto ao seu comércio ou para o defender contras as armas inglesas. Em diferentes épocas da guerra, pelos mesmos motivos, Livorno sempre teve uma guarnição francesa, e Vossa Majestade assim conservou esse lugar. Devo continuar a ter a mesma vigilância, para os vossos interesses e contra os nossos comuns inimigos, respeitando a posição dos Estados de Vossa Majestade de toda a maneira. Não tenho outra intenção senão passar a Livorno o número de homens indispensavelmente necessários contra os ingleses e contra o seu comércio, e de reduzir assim o fardo que a presença de ditas tropas pode dar lugar. Desejo que elas sejam acolhidas durante a sua estadia como são por mim acolhidas as tropas espanholas que servem na Alemanha com o meu exército [referência às tropas do General Marquês de la Romana, mais de 15.000 homens]. Os interesses da França, da Espanha e da Toscânia estão misturados, e, em qualquer ponto que as minhas tropas estejam dispostas, defenderão tanto a causa de Vossa Majestade como a minha.  
[Fonte: Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 47-48 (n.º 13168)]. 



Fonte: Wikipedia
Localização de Guipúzcoa
A 18 de Setembro, Antonio de Olaguer y Feliú, então Comandante Geral da província de Guipúzcoa, escreve a seguinte carta ao duque de San Carlos, sobre uma ordem que tinha recebido do Príncipe da Paz, D. Manuel Godoy, através de D. Antonio Samper e D. José Navarro, Marechais de Campo e Chefes do Estado-maior do exército espanhol:
                                                                                                                                                     
Ex.mo Sr.:                                                     
Os senhores D. Antonio Samper e D. José Navarro preveniram-me acerca da ordem do Sereníssimo Sr. Príncipe Generalíssimo Almirante, que, não havendo um dia fixo para a entrada das tropas francesas no território espanhol, deve-se dispor o que for conveniente para que nada lhes falte; para cujo fim tomei as medidas correspondentes nos limites do meu comando, que abraça desde Oyarzun a Miranda de Ebro. O que comunico a V.ª Ex.ª para seu conhecimento.                                                                                                                               
Deus Guarde a V.ª Ex.ª muitos anos.                                                                                                                                 
San Sebastián, 18 de Setembro de 1807.                                                                                                                                
[Fonte: Archivo Histórico Nacional de España, "Entrada y paso de las tropas francesas por la Península en dirección a Portugal", ES.28079.AHN/5.1.145.4.1.1.57.1//DIVERSOS-COLECCIONES,86,N.6].



A 24 de Setembro, é a vez dos próprios Marechais de Campo referidos na carta anterior avisarem o duque de San Carlos e vice-rei de Navarra acerca das determinações de Godoy. Nesta carta faz-se referência ao ano de 1801, quando igualmente entraram tropas francesas na Espanha com o objectivo de invadirem Portugal (embora não chegassem a agir devido à rápida intervenção de Godoy, na assim chamada Guerra das Laranjas).

Ex.mo Sr.: 
Não havendo ainda um dia fixo para a entrada das tropas francesas no território espanhol por essa parte da fronteira, manda-nos o Sereníssimo Senhor Príncipe Generalíssimo Almirante manifestá-lo a V.ª Ex.ª, a fim de que, de acordo com o Comandante Geral de Guipúzcoa [Antonio de Olaguer y Feliú], tome as medidas convenientes para que nada lhes falte nos trânsitos que devem fazer, seguindo a rota que foi assinalada às tropas da mesma nação que vieram à Península no ano de 1801, sendo da vontade de Sua Alteza que se escolham para a execução das disposições oportunas o número de oficiais zelosos, inteligentes e activos que preparem nas povoações o que for necessário para a assistência e marcha dos franceses, nos termos que V.ª Ex.ª e o citado Comandante Geral previnam os ditos oficias.
Deus Guarde a V.ª Ex.ª muitos anos. 
Madrid, 24 de Setembro de 1807. 
Antonio Samper 
Josef [sicNavarro 
[Fonte: Archivo Histórico Nacional de España, "Entrada y paso de las tropas francesas por la Península en dirección a Portugal", ES.28079.AHN/5.1.145.4.1.1.57.1//DIVERSOS-COLECCIONES,86,N.6].


Ao receber esta última carta, o vice-rei de Navarra respondeu da seguinte maneira aos referidos Marechais de Campo:

Em virtude do que Vossas Senhorias me manifestaram, ordenados pelo Sereníssimo Senhor Príncipe Generalíssimo Almirante na carta de 24 de corrente mês, irei pôr-me em acordo com o Comandante Geral de Guipúzcoa  para que nada falte às tropas francesas que entrem na Espanha, nos trânsitos que devem fazer seguindo a rota que se assinalou às que vieram no ano de 1801; havendo desde logo nomeado o Tenente Coronel e Comandante de Engenheiros deste Reino, D. Ramón Lope [sic], a fim de que passe imediatamente à praça de San Sebastián e trate com aquele General [António de Olaguer y Feliúo necessário e conveniente para que que se prepare nas povoações o que for necessário para a assistência e marcha das referidas tropas.
Deus Guarde a V.ª Ex.ª muitos anos. 
Pamplona, 28 de Setembro de 1807.  
[Fonte: Archivo Histórico Nacional de España, "Entrada y paso de las tropas francesas por la Península en dirección a Portugal", ES.28079.AHN/5.1.145.4.1.1.57.1//DIVERSOS-COLECCIONES,86,N.6].

A 29 de Setembro, antes ainda da anterior carta ser recebida em Madrid, o Príncipe da Paz dirigiu a seguinte carta circular ao mesmo vice-rei de Navarra, a fim de que este último a fizesse expedir por todas as autoridades das regiões fronteiriças com a França: 

O rei determinou que as tropas francesas que devem vir à Espanha passem por Irun e pela província de Guipúzcoa, em conformidade com que o praticaram no ano de 1801; e podendo suceder que transitem por essa povoação ou nos seus arredores, previno a V.ª Mercê que nesse caso dê aos habitantes as ordens mais estreitas e eficazes, encarregando-lhes que não as insultem nem maltratem, mas antes lhes dêem bom acolhimento, procurando que se observem com a melhor harmonia que seja possível, e exigindo a boa correspondência que há entre o nosso Rei e o Imperador dos franceses, a fim de precaver por este meio todo motivo de queixa, o que se conseguirá se V.ª Mercê concorre como espero, pela sua parte, com o cuidado e zelo que é devido pelo melhor serviço de Sua Majestade, avisando-me do recibo destas ordens e de delas ter sido informado. 
Deus Guarde a V.ª Mercê, 29 de Setembro de 1807.
[Fonte: Archivo Histórico Nacional de España, "Entrada y paso de las tropas francesas por la Península en dirección a Portugal", ES.28079.AHN/5.1.145.4.1.1.57.1//DIVERSOS-COLECCIONES,86,N.6].


A 5 de Outubro, os acima referidos Marechais de Campo responderam à carta que o duque de San Carlos e vice-rei de Navarra lhes escrevera a 28 de Setembro:

Ex.mo Sr.: 
O Sereníssimo Senhor Príncipe Generalíssimo Almirante foi informado das disposições que V.ª Ex.ª começou a tomar, relativas à entrada das tropas francesas no território espanhol, por essa parte da fronteira, segundo avisou em ofício de 28 de Setembro último; e aprovando Sua Alteza a nomeação feita ao Tenente Coronel do Real Corpo de Engenheiros, D. Ramón Lope, para acordar o que for conveniente com o Comandante Geral de Guipúzcoa, manda-nos acrescentar a V.ª Ex.ª que o número de ditas tropas será de trinta mil homens de infantaria e quatro mil de cavalaria; que entrarão em divisões de dois regimentos ou de quatro mil homens cada uma; que o seu destino é Castela-a-Velha, e que o tenha V.ª Ex.ª entendido para o seu governo e providências posteriores, a fim de que tudo se encontre pronto como Sua Alteza o deseja.
Deus Guarde a V.ª Ex.ª muitos anos. 
Madrid, 5 de Outubro de 1807. 
Antonio Samper
Josef Navarro 
[Fonte: Archivo Histórico Nacional de España, "Entrada y paso de las tropas francesas por la Península en dirección a Portugal", ES.28079.AHN/5.1.145.4.1.1.57.1//DIVERSOS-COLECCIONES,86,N.6].
A 10 de Outubro, o referido D. Ramón Lope, já junto à fronteira com a França, escreve a seguinte carta ao Duque de San Carlos:           
                                  

Fonte: Wikipedia
Retrato do Duque de San Carlos,
segundo Goya (1815)


Irun, 10 de Outubro de 1807
Meu venerado General e Ex.mo Senhor:   
Agora que são as doze horas da manhã, recebo a carta de V.ª Ex.ª de ontem, com as cópias das ordens circuladas sobre as queixas que teve em 1801, de fraudes nas bagagens deste exército francês, assunto que já me tinham  informado detalhadamente estes habitantes, e que me dera alguma preocupação; mas não duvido que agora tudo se ajuste na devida ordem, e alegro-me que V.ª Ex.ª determine fazer vir esse Comandante da Guarda [D. Pedro Rodriguez de la Buriapara que se esclareça este assunto.  
Ontem à noite não recebi aviso nenhum do nosso cônsul [em Bayonne, D. Juan Lahorapelo correio, como esperava, sobre a conferência [com os franceses]; e hoje soube, pelo próprio correio, que o cônsul chegou a escrever, e sem dúvida a carta se extraviou; pelo que lhe volto a escrever, avisando-lhe desta ocorrência e prevenindo-lhe que daqui em diante será melhor enviar um expresso quando seja assunto que o mereça, para que não nos volte a suceder o mesmo.
Soube que se prepararam os subministros para as tropas francesas na província, por localidades, pelo que tudo estará preparado; desde já digo a V.ª Ex.ª que não haverá recursos se não se envia metálico, e que se necessitará algum para trazer as carnes de França e os vinhos de Navarra. Ainda que a corte diga que hão de entrar as tropas por divisões de 4.000 homens, não deixarei de fazer presente ao General Junot as dificuldades que poderão ocorrer na sua marcha, sobretudo pela passagem nas infelizes povoações de Castela. Tenho já formado um esboço de tudo o que deverei conferenciar para que nada se esqueça, e em relação às bagagens informaram-me aqui que [se ocorrer alguma fraudeentão todos os oficiais as apreenderão sem pagar nada, dando só um papel de recibo à volta de Castela, e com os carros o mesmo. Não esquecerei este ponto nem o das rações de palha, que tomavam [em 1801sempre à volta de trinta ou trinta e duas libras, para cujo caso será forçoso duplicar a partida deste género. Já disse a V.ª Ex.ª que, à entrada na Espanha, passar-se-á regularmente uma revista geral de todos os corpos, e neste caso  determinar-se-á por V.ª Ex.ª o que for mais conveniente.
Segundo ordem de 2 deste mês, os franceses não permitem a passagem de nenhum da sua nação que sirva no nosso exército, fazendo-os retroceder, como aqui sucedeu hoje com um brigadeiro da guarda real [sic: guardia de corps]. 
[...] 
Ramón Lope
[Fonte: Archivo Histórico Nacional de España, "Entrada y paso de las tropas francesas por la Península en dirección a Portugal", ES.28079.AHN/5.1.145.4.1.1.57.1//DIVERSOS-COLECCIONES,86,N.6].


Fonte: Wikipedia
 General Michel Duroc, Grão-Marechal
do Palácio Imperial
Entretanto, a 25 de Setembro, Napoleão tinha escrito a seguinte carta ao General Duroc. Para além do Príncipe de Masserano, embaixador espanhol na França, encontrava-se também em Paris Eugenio Izquierdo, referido na carta. Segundo Godoy, Izquierdo aí se encontrava para tratar de algumas questões pecuniárias, embora também tivesse ordens da corte espanhola para observar e explorar, com descrição, a direcção da política francesa, dada a sua amizade com alguns ministros e outras altas figuras do governo de Napoleão [Cf. Cuenta dada de su vida política por Don Manuel Godoy, Príncipe de la Paz - Tomo V, Madrid, Imprenta de I. Sancha, 1838, pp. 115].  

Fontainebleau, 25 de Setembro de 1807 

Amanhã procurareis o sr. Izquierdo. Conferenciareis com ele acerca do dinheiro que me deve o rei de Espanha e sobre os assuntos de Portugal e da Etrúria. A carta do Ministro do Tesouro fornecer-vos-á a informação sobre quanto me deve a Espanha, e vós vereis o que o sr. Izquierdo diz nessa ocasião, e se posso contar com a recolha exacta do empréstimo da Holanda nos meus cofres.
Em relação ao reino de Portugal, não faço empecilhos a que se dê ao rei de Espanha uma soberania sobre Portugal, e até de separar uma parte para a rainha da Etrúria e para o Príncipe da Paz [Godoy]
Em relação aos negócios da Etrúria, fareis-lhe saber que é bem difícil que um ramo da Casa de Espanha continue a estar estabelecido no meio da Itália; que hoje que toda a Itália me pertence, extraio daí grandes dificuldades, desde os relatórios de assuntos religiosos e dos monges, ao comércio de Livorno, e tudo por causa da incapacidade absoluta de governar o país, dada a sua localização; fazei uma transacção com a Espanha para que os interesses da monarquia sejam cobertos e, de acordo com a Espanha, removei essa deformidade da península de Itália; mas que não se decida nada sobre isto sem que a Espanha não fique contente; e espero que ele [Izquierdo] me faça alguma proposta sobre este assunto.
[Fonte: Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 55-56 (n.º 13181)].

Izquierdo teria então escrito a D. Carlos IV, que a de 8 de Outubro lhe renovou os poderes "para firmar um tratado com a pessoa que for igualmente autorizada pelo nosso aliado o imperador dos franceses" [Cf. Juan Nellerto (pseudónimo de Juan Antonio Llorente), Memorias para la Historia de la Revolución Española - Tomo III, Paris, Imprenta de M. Plassan, 1816, pp. 1-3. (doc. CXVI)].





Fonte: Wikipedia
O príncipe das Astúrias D. Fernando,
segundo Goya (1800)
No seio da corte espanhola, o domínio de Godoy sobre as decisões do rei começara já há alguns anos a alimentar inimigos, embora não o manifestassem publicamente, dada a enorme influência que o príncipe da Paz exercia sobre D. Carlos IV e sua esposa D. María Luísa. Era o caso do próprio herdeiro do trono, o príncipe das Astúrias D. Fernando, influenciado fortemente pelo seu mestre e  mentor, o clérigo D. Juan de Escóiquiz, opositor feroz de Godoy.
A 11 de Outubro de 1807, prestes a completar 24 anos, D. Fernando decide recorrer às boas graças de Napoleão, escrevendo-lhe secretamente a carta que abaixo se publica. Neste documento, D. Fernando faz alusões indirectas (mas óbvias) a Godoy e aos seus partidários, pedindo a intermediação do Imperador e apelando ao casamento com uma sua parente. Na sua lógica, o príncipe das Astúrias julgava ganhar assim o poder sobre a Espanha e afastar de uma vez por todas o próprio Godoy.                                                                   
Pensamos que, se até aqui o Imperador não tinha qualquer intenção de se apropriar da Espanha, foi o facto de ter recebido esta carta (na segunda metade de Outubro, provavelmente antes da assinatura do tratado de Fontainebleau) que lhe fez mudar de ideias. De facto, como iremos vendo, Napoleão irá aproveitar-se sobremaneira da intriga que se desenvolveu dentro do próprio palácio da corte espanhola, apesar de durante vários meses dizer que nunca recebeu esta carta (embora em Abril de 1808 venha a confessar ao próprio D. Fernando que a tinha recebido)...
                     
                                                                                                  
Senhor:
O temor de incomodar a V. M. I. e R. [Vossa Majestade Imperial e Realno meio das façanhas e dos grandes assuntos que sem cessar o ocupam, impediram-me até agora de satisfazer directamente o mais vivo dos meus desejos, que era de manifestar, pelo menos por escrito, os sentimentos de respeito, estimação e afecto que professo ao maior herói de quantos o precederam, enviado pela Providência para salvar a Europa do transtorno total que a ameaçava, para consolidar os tronos vacilantes, e para dar às nações a paz e a felicidade. 
As virtudes de V. M. I. e R., a sua moderação, a sua bondade mesmo para com os seus mais injustos e implacáveis inimigos, tudo, enfim, fazia-me esperar que a expressão destes sentimentos seria acolhida como a efusão dum coração cheio de admiração e da mais sincera amizade.  
O estado em que me encontro desde há muito tempo, incapaz de ocultar-se à grande penetração de V. M., foi até hoje o segundo obstáculo que conteve a minha pluma, sempre preparada a manifestar os meus desejos. Mas cheio de esperança em achar na magnanimidade de V. M. I. e R. a protecção mais poderosa, determino-me não só a testemunhar os sentimentos do meu coração para com a sua augusta pessoa, mas também a depositar os meus segredos mais íntimos no peito de V. M. como no dum pai terno. 
Estou muito infeliz em achar-me necessitado, por circunstâncias particulares, a ocultar, como se fosse um crime, uma acção tão justa e tão louvável; mas tais costumam ser as consequências funestas de um excesso de bondade, inclusive nos melhores reis.  
Cheio de respeito e de amor filial para com o meu pai (cujo coração é o mais recto e generoso), não me atreveria a dizer, senão a V. M., aquilo que V. M. sabe melhor do que eu; isto é, que estas mesmas qualidades costumam com frequência servir de instrumento às pessoas astutas e malignas para confundir a verdade aos olhos do soberano, por mais análoga que esta seja a um carácter como o do meu respeitável pai. 
Se os homens que o rodeiam aqui lhe deixassem conhecer a fundo o carácter de V. M. I. e R. como eu o conheço, com que ardor não desejaria o meu pai estreitar os nós que devem unir as nossas duas nações! E haveria meio mais apropriado do que rogar a V. M. I. e R. a honra de que me concedesse para esposa alguma princesa da sua augusta família? Este é o desejo unânime de todos os vassalos do meu pai, e não duvido que também seja o seu (apesar dos esforços de um número reduzido de malévolos), assim que saiba as intenções de S. M. I. e R. Isto é tudo quanto apetece ao meu coração; mas não sucedendo assim aos egoístas pérfidos que rodeiam o meu pai e que podem surpreendê-lo num primeiro momento, estou cheio de temores.
Só o respeito a V. M. I. e R. poderia desconcertar os seus planos, abrir os olhos aos meus bons e muito amados pais, fazê-los felizes, e fazer ao mesmo tempo a felicidade da minha nação juntamente com a minha. O mundo inteiro admirará cada vez mais a bondade de V. M. I., que terá sempre em mim o mais reconhecido e devoto filho.  
Com a maior confiança, imploro pois  a protecção pessoal de V. M., a fim de que, não só se digne a conceder-me a honra de me aliar à sua família, mas também de remover todas as dificuldades e fazer desaparecer todos os obstáculos que possam opor-se a este único objecto dos meus desejos. 
Este esforço de bondade da parte de V. M. I. ser-me-á muito necessário, pois  não posso fazer nada da minha parte, o que poderia ser visto como um insulto à autoridade paternal; e não me resta senão um só meio, que será recusar casar-me, como o farei com uma constância invencível, com qualquer pessoa que seja sem o consentimento e aprovação positiva de V. M. I. e R., de quem espero unicamente a eleição de esposa para mim. 
Esta é a felicidade que confio conseguir de V. M. I. e R., rogando a Deus que guarde a sua preciosa vida muitos anos. 
Escrito e assinado pela minha própria mão, e selado com o meu carimbo, no Escorial, a 11 de Outubro de 1807. 
De V. M. I. e R. o seu mais dedicado servidor e irmão,
Fernando 
[Fonte (entre outras obras): Cuenta dada de su vida política por Don Manuel Godoy, Príncipe de la Paz - Tomo V, Madrid, Imprenta de I. Sancha, 1838, pp. 137-140].

Fonte: Europeana
Jean-Baptiste Champagny,
Ministro dos Negócios Estrangeiros
da França

A 12 de Outubro de 1807, quando já estavam mais que finalizados todos os prazos para Portugal obedecer ao ultimato francês, Napoleão escreve ao seu ministro dos negócios estrangeiros, Champagny, para este escrever por sua vez a François de Beauharnais, enviado como embaixador de França junto da Corte espanhola:                                                                                                      

Fontainebleau, 12 de Outubro de 1807                    

[...] Escrevei ao srde Beauharnais que eu me vejo como em guerra com Portugal; que conto com que as minhas tropas estejam em Burgos a 1 de Novembro; que, se a Espanha quer outras tropas, basta pedi-las, que eu as enviarei; que, em relação aos arranjos a fazer sobre Portugal, ele deve entender-se com o Príncipe da Paz; que, no clima da Espanha, o inverno é a verdadeira estação para agir; que o corpo do General Junot deve ter cerca de 20.000 homens.  
Como é possível que os ingleses enviem tropas para Lisboa, desejo saber como é que a Espanha enviará as suas tropas. Mas dizei-lhe também que ele não faça como na última guerra; que é necessário marchar direito a Lisboa.  
[Fonte: Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 92-93 (n.º 13235)].




No mesmo dia 12 de Outubro, depois de ser informado que o embaixador francês em Portugal tinha abandonado Lisboa, Napoleão escreve ao General Clarke, seu Ministro da Guerra, para que este desse ordem a Junot para entrar na Espanha, sem perda de tempo, antes que os ingleses se prevenissem:


Fontainebleau, 12 de Outubro de 1807
Senhor General Clarke, enviai um correio extraordinário ao General Junot, em Bayonne. [...] Dai-lhe ordens para partir vinte e quatro horas depois da recepção da vossa carta e entrar na Espanha com o seu exército, dirigindo-se para as fronteiras de Portugal. A Espanha deve ter dado ordens para a alimentação das suas tropas. [...] 
[Fonte: Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, p. 94 (n.º 13237)]


Ainda no mesmo dia 12 de Outubro, Napoleão volta a escrever ao rei espanhol, D. Carlos IV:



Fontainebleau, 12 de Outubro de 1807

Senhor meu Irmão, nos tempos em que a Holanda, os diferentes príncipes da Confederação do Reno, Vossa Majestade, o Imperador da Rússia e eu estamos reunidos para caçar os ingleses do continente e para nos vingarmos, na medida do possível, do novo atentado que eles cometeram contra a Dinamarca, Portugal oferece desde há dezasseis anos a escandalosa conduta duma potência vendida à Inglaterra. O porto de Lisboa foi para os ingleses uma mina de tesouros inesgotáveis; eles acharam lá constantemente toda a espécie de segurança nas suas escalas e nas suas expedições marítimas; é tempo de se lhes fechar o Porto e Lisboa. Conto com que no dia 1 de Novembro o exército comandado pelo General Junot esteja em Burgos reunido ao exército de Vossa Majestade, e que estaremos em condições de ocupar à força Lisboa e Portugal. Entender-me-ei com Vossa Majestade para fazer desse país o que lhe convenha e, em todo o caso, pertencer-lhe-á a soberania, como parece que o deseja. Somente podemos chegar à paz isolando a Inglaterra do continente e fechando todos os portos ao seu comércio. Conto com a energia de Vossa Majestade nesta circunstância, porque é indispensável forçar a Inglaterra à paz, para dar a tranquilidade ao mundo. 
[Fonte: Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 97-98 (n.º 13243)] 



Fonte: Europeana
Vice-Almirante Denis Decrès,
Ministro da Marinha de França



No dia 13 de Outubro, antes de declarar formalmente guerra contra Portugal, Napoleão dava as seguintes ordens ao seu Ministro da Marinha, Vice-Almirante Decrès:


Fontainebleau, 13 de Outubro de 1807

Senhor Decrès, o meu ministro [mr. de Raynevalsaiu de Portugal; devemos portanto considerar como declarada a guerra a essa potência. Enviai assim correios a todos os meus portos, em Hamburgo e na Holanda, e escrevei por um estafeta para Nápoles, na Itália, Livorno e Génova, para que se embarguem todas as embarcações portuguesas.
[Fonte: Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, p. 100 (n.º 13247)] 




Três dias depois, Napoleão escrevia a seguinte carta ao seu Ministro da Guerra:


Fontainebleau, 16 de Outubro de 1807

Senhor General Clarke, escrevi ao General Junot, comandante em chefe do meu exército da Gironda, que a minha intenção era que o exército se conduzisse acima do Tejo e se dirigisse em Espanha por Valladolid, Salamanca e Ciudad Rodrigo, donde partirá para passar a Lisboa. 
Escrevereis ao meu embaixador junto do rei de Espanha, em Madrid, pelo mesmo correio que levará as minhas instruções ao General Junot, fazendo-lhe saber que as ordens que der ao meu exército serão de rápida execução, e que a minha intenção é que se conduza acima do Tejo; que, quando for reunido em Valladolid, terá a força de 20.000 homens de infantaria e 2.000 cavalos; que desejo que o rei de Espanha junte 10.000 homens de infantaria, 4.000 cavalos e 30 peças de canhão; o que levará esse exército a totalizar 30.000 homens de infantaria, 6.000 homens de cavalaria, 4.000 homens de artilharia e sapadores, e cerca de 70 peças de canhão. Total geral, 40.000 homens de todas as armas. Este exército, assim organizado, passará a Lisboa sob as ordens do General Junot.  
Duas outras divisões deverão se dirigir, uma ao Porto e a outra, através da província do Alentejo, a sul do Tejo. Assim, supondo que cada uma dessas divisões seja de 6.000 homens espanhóis, de todas as armas, a Espanha teria de fornecer menos de 30.000 homens. Escrever-lhe-eis que o soldo do meu exército será pago por mês, mas que ele será alimentado pela Espanha, salvo que paguem uma compensação pela alimentação das tropas espanholas que estão em França.
Consequentemente, tomareis as medidas necessárias para que o soldo do exército da Gironda seja pago exactamente até ao 1.º de Janeiro. Poreis mesmo uma soma de 50.000 francos à disposição do comandante de engenheiros do exército; 50.000 francos à disposição do comandante da artilharia; e 50.000 francos à disposição do General Junot para despesas secretas. 

Fonte: Europeana
Henri Jacques Guillaume Clarke, 
Ministro da Guerra francês

O que Portugal pagará de contribuições, seja em moeda, seja em mercadorias, não é um assunto que respeite ao ministério da guerra; é um assunto puramente diplomático, e provavelmente o rei de Espanha nomeará alguém em Paris para discutir e regular definitivamente esta questão.
[Fonte: Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 106-107 (n.º 13257)] 

No mesmo dia 16, antes ainda de fazer qualquer acordo definitivo com a Espanha, Napoleão ordena ainda ao seu ministro da guerra para que se começasse a preparar um segundo corpo de reserva.


Fontainebleau, 16 de Outubro de 1807
Senhor General Clarke, tenho a intenção de se formar um segundo Corpo de Observação da Gironda, que será composto de três divisões. Essas três divisões serão compostas de três batalhões de cada uma das cinco legiões de reserva, de quatro batalhões suíços (dois do 3.º, um do 2.º e um do 3.º), de dois batalhões de tropas de Paris e do 3.º batalhão do 5.º [regimento] de infantaria ligeira; o que totalizará vinte e dois batalhões ou sete batalhões por divisão. Cada divisão terá doze peças de artilharia para o seu serviço. [...] O [segundo] Corpo de Observação da Gironda terá portanto necessidade de trinta e seis peças de artilharia. Essas trinta e seis peças necessitam 700 a 800 cavalos. 

A minha intenção é que façais partir no dia 20, depois de passada a revista, o batalhão do trem da minha Guarda, que está em Paris, e que encarregueis um oficial de artilharia e um oficial desse batalhão do trem para passarem a postar-se nos Pirinéus ou em Landes, para comprarem 600 mulas de trabalho ou cavalos e ordenarem a execução dos arreios, de maneira que no dia 20 de Novembro estarão lá 800 cavalos ou mulas com arreios, servidos por 400 homens do trem da Guarda. Se já existirem os arreios confeccionados, poderíamos fazê-los partir de Paris.
Ordenareis que os três batalhões das cinco legiões da reserva partam para Bayonne o mais tardar no dia 1 de Novembro. Esses três batalhões serão reunidos aos dois primeiros e estarão às ordens dos majores que as comandem.   
[Fonte: Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 107-108 (n.º 13258)] 

No dia 17 de Outubro, chega finalmente a Bayonne a ordem para Junot entrar na Península Ibérica, como se extrai da carta que a seguir se publica, do Tenente Coronel D. Ramón Lope, que como vimos tinha sido destacado para tratar de assuntos relacionados com a entrada dos franceses, a remetente desconhecido, mas que pensamos que fosse Antonio de Olaguer y Feliú, Comandante Geral da província de Guipúzcoa:


Bayonne, 17 [de Outubro
Ex.mo Sr. e meu General:
Isto estava muito quieto e até se dizia que não entrariam as tropas, quando às 7 horas desta manhã chegou o correio extraordinário, e tudo se alterou, e desde então não paramos, da casa do General à casa do ordenador, e daqui à casa de Thiébault, pois ninguém se atreve a decidir; e assim andamos, mas creio que, ainda que seja às dez da noite, não deixaremos de sair daqui resolvidos.
O General [Junot] pediu um correio extraordinário ao cônsul [espanhol em Bayonne] e enviou uma carta ao Generalíssimo [Godoy], e com ela se avisou que se ia pôr em movimento, mas como nem sequer o itinerário estava fixado, só se tratou duma antecipação. Agora que propus que, a fazer-se noite em Irun, não receberão ali o pão, aviso a [D. Agustín] Caminero [Capitão de Engenheiros que se achava em Irun] para que imediatamente se preparem todos os demais subministros para segunda-feira [dia 19]. A grande dificuldade que existe é que não chegarão os cavalos do trem [de artilharia] e que lhes informei que na Espanha, até Castela, não haverá mais do que bois que andam pouco; isto se fez presente a Thiébault, o que lhe incomodou muito.
Enfim, meu General, agora não posso dizer mais a V.ª Ex.ª, pois voltamos a tratar com o ordenador sobre as rações de cavalos que não podemos combinar com as nossas medidas, apesar de que alguns comerciantes nos terem ajudado. Avisa-se por agora V.ª Ex.ª de tudo, e só me consola o facto de que o exército está sumamente disciplinado.
Do seu atento servidor,
Ramón Lope
[Fonte: Archivo Histórico Nacional de España, "Entrada y paso de las tropas francesas por la Península en dirección a Portugal", ES.28079.AHN/5.1.145.4.1.1.57.1//DIVERSOS-COLECCIONES,86,N.6]

No mesmo dia, o mesmo Ramón Lope enviou a seguinte carta ao vice-rei de Navarra, o Duque de San Carlos, notificando-lhe do sucedido:


Importante 

Ex.mo Sr.:
Um correio extraordinário que chegou esta manhã de Paris ao General em Chefe Junot trouxe-lhe a ordem para que imediatamente ponha o seu Exército em marcha para Portugal; o dito General imediatamente nos avisou e avistou, e estão-se combinando algumas questões sobre os subministros com o Chefe de Estado Maior do Exército [General Thiébault] e com o Ordenador; presentemente determinou-se que o Exército francês não receberia o pão em Irun mas sim em Hernani. Propus isto para que não ocorresse nenhuma falta de farinhas, e consegui chegar a acordo. Já avisei Irun acerca disto através dum enviado e agora que são as três da tarde volto a fazê-lo novamente. Por agora só entrarão uns 23 mil homens de Infantaria e 4 mil cavalos, através de Regimentos que terão cerca de 2500 homens e uns 400 cavalos.
Passaremos para Espanha assim que recebermos instruções, e procurarei que nada falte, de acordo com as intenções de V.Ex.ª; mas devo já fazer-lhe presente que não bastarão os 30 mil reales de vellón, e que se necessitarão pelo menos outros 30 mil com a maior brevidade.
Deus guarde a V.ª Exª. muitos anos.
Bayonne, 17 de Outubro de 1807
Ramón Lope
[Fonte: Archivo Histórico Nacional de España, "Carta de Ramón López al Duque de San Carlos informando sobre una orden dada al general en jefe Junot para entrar en España hacia Portugal", ES.28079.AHN/5.1.145.4.1.1.57.2//DIVERSOS-COLECCIONES,85,N.59]

Ainda nesse mesmo dia 17, o General em Chefe Junot escreveu a seguinte ordem do dia, dirigida ao seu exército (1.º Corpo de Observação da Gironda):


Quartel-General de Bayonne, a 17 de Outubro de 1807

A glória militar é o património dos nossos exércitos; mas a vitória que a constitui não é suficiente para a completar. O que a pode tornar honrosa e  distinguir decisivamente os exércitos franceses dos demais exércitos do mundo, é a reunião de todas as virtudes as guerreiras; isto é, independentemente do valor, a subordinação, a disciplina e a ordem. 
Esta verdade merece tanto ou mais ser recordada às tropas do exército de Observação da Gironda, quanto que na sua marcha vão atravessar um país amigo. [...]
S.ª Ex.ª o General em Chefe, amante das suas tropas mas ainda mais dos seus deveres, não se esqueceu de assegurar aos corpos, antes da sua saída de França, como também durante a sua marcha por Espanha, tudo aquilo a que podem ter direito, e tudo o que o país possa subministrar-lhes. Ainda fez mais: conseguiu que se acrescentasse vinho aos demais subministros; mas também conta com os esforços das tropas para corresponder à sua benignidade, e com o zelo dos chefes de todas as graduações para justificar a confiança que neles tem. 
Que ninguém esqueça que se deve tratar os espanhóis com o maior respeito, e sobretudo as autoridades públicas; que saibam as tropas que não terão direito na Espanha senão ao alojamento e a provisões; que todos tenham presente que tudo o que pertence à religião deve ser objecto do maior respeito; enfim, que cada qual se penetre na obrigação de merecer a estima através da sua conduta privada. [...] 


Nesse mesmo dia 17 de Outubro, Napoleão escreveu a seguinte carta a Junot, avisando-o de que: 


[...] Um segundo Corpo de Observação estará, a 1 de Dezembro, reunido em Bayonne, e terá a força de 30.000 homens, dos quais 5.000 serão de cavalaria. Em todas as ocorrências sereis apoiado.
Fazei-me a descrição de todas as províncias por onde passeis, as rotas, a natureza do terreno; enviai-me croquis. Encarregai os oficiais de engenharia deste trabalho, que é importante ter. Que eu possa ver a distância das cidades, a natureza do país, os recursos que apresenta.
[...] Soube agora mesmo que Portugal declarou guerra à Inglaterra e expulsou o embaixador inglês; isso não me satisfaz; continuai a vossa marcha; tenho razões para crer que se entenderam com a Inglaterra para dar tempo às tropas inglesas virem de Copenhaga. É preciso que estejais em Lisboa a 1 de Dezembro, seja como amigo, seja como inimigo.
Mantende-vos na melhor harmonia com o Príncipe da Paz. Escrevei ao meu embaixador para todos os assuntos que tenhais que discutir com a Corte [espanhola]. 
[Fonte: Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 115-117 (n.º 13267)].


A entrada do 1.º Corpo de Observação da Gironda na Espanha foi algo inesperada, nomeadamente devido à disposição da Cavalaria francesa, que uns dias antes se tinha deslocado para leste de Bayonne devido à carência de forragens:



Forças do 1.º Corpo de Observação da Gironda (comandado por Junot),
cerca de uma semana antes da sua entrada na Espanha.
A azul a disposição da 1.ª Divisão;
A roxo a disposição da 2.ª Divisão;
A vermelho a disposição da 3.ª Divisão;
A amarelo a disposição da Cavalaria.



Contudo, nas suas Memórias apologéticas, Godoy deu a entender que a ordem de entrada destas tropas foi bastante mais inesperada porque até então a Espanha e a França não tinham chegado a qualquer acordo definitivo. A este respeito, escreveu ele: "Qual pôde ser a causa de se atropelar deste modo o respeito tão devido à Espanha? Foi [Napoleão] ter recebido aquela carta [que acima se publicou] do príncipe das Astúrias? Foi que, lido o seu contexto, imaginou Napoleão que se estava jogando alguma intriga contra a sua política através do nosso gabinete, e que os homens pérfidos que eram mencionados em tal carta entretinham a expedição a Portugal com prazos e mais prazos para dar tempo aos ingleses? Foi que achou então o seu caminho meio aberto, tendo o filho contra o pai e já segura e certa a discórdia entre nós? Não poderei afirmá-lo, mas é muito fácil deduzi-lo" [Cuenta dada de su vida política por Don Manuel Godoy, Príncipe de la Paz - Tomo V, Madrid, Imprenta de I. Sancha, 1838, p. 146]. Na verdade, como o príncipe da Paz indica, realmente a França não tinha ainda chegado a um acordo definitivo com a Espanha, embora o próprio Godoy estivesse ao corrente do que se passava e inclusive tivesse expedido ordens para se fazerem os preparativos para o acolhimento das tropas francesas, como acima vimos. Por outro lado, se a carta de D. Fernando foi expedida no dia 11 de Outubro, não foi ela certamente o motivo para Napoleão ordenar ao seu ministro da guerra para mandar entrar as tropas francesas na Espanha. Esta ordem foi expedida no dia 12 (ainda que chegasse a Bayonne somente no dia 17), sendo portanto impossível que o Imperador já tivesse recebido previamente a referida carta de D. Fernando... 



No dia 18 de Outubro, Ramón Lope escreveu o seguinte relatório, provavelmente para ser distribuído pelas autoridades das localidades de Guipúzcoa por onde passassem os franceses. Apesar de ser indicado que os franceses entrariam no dia seguinte, o certo é que nesse mesmo dia começaram a passar a fronteira.


Rações que se hão de dar às tropas francesas na sua passagem por Espanha: 
Pão - Vinte e quatro onças, e quatro onças mais por ração de marcha, ou seja, um pão a mais por cada doze homens. 
Carne - Oito onças de carne. 
Legumes - Dois onças de legumes secos e, se for arroz, uma onça. 
Vinho - Meia pinta de vinho por homem. 
Lenha - Quatro libras e meia por homem. 
Sal - Uma libra para trinta homens. 

Para a Cavalaria 
Dois terços de boisseaux [sicde aveia ou cevada, que são oito libras por ração, para os cavalos do Estado-maior, Dragões e Caçadores; e para os cavalos de trem de artilharia, três quartos de boisseaux de palha, que são nove libras por ração.

Ordem de Marcha 
As tropas entrarão por regimentos no dia 19; cada um terá entre 2.500 e 2.600 soldados e entre 400 a 500 cavalos; com as divisões marchará a artilharia correspondente, e depois disto seguirão o trem de carros deste ramo. Como não chegaram todos os cavalos de artilharia, as carruagens haverão de ser conduzidas com bois.  
Todas as tropas não receberão pão até Hernani. O Exército trará impressos que acreditem os abonos que se devem fazer de rações a toda o tipo de indivíduos. 
Até que se acabem, as marmitas que existem nos armazéns de Bayonne serão repartida pelos corpos; e, aos que não as levem, fornecer-se-lhes-á o necessário para os seus ranchos.
Em Vitória, as tropas farão descanso, e por conseguinte, haverá permanentemente dois regimentos na dita povoação, dividindo a cidade em duas partes, para não se confundir os que entram e os que saem.   
Na quarta-feira dia 21, a artilharia das divisões trará 550 cavalos a este ponto, e voltarão trezentos a Bayonne para buscar o resto, seguindo em diante os demais, com a respectiva artilharia das suas divisões. 
Estima-se que entrem, por cada batalhão, cerca de oito carros de bois para o equipamento. 
Irun, 18 de Outubro de 1807. 
Ramón Lope
[Fonte: Archivo Histórico Nacional de España, "Entrada y paso de las tropas francesas por la Península en dirección a Portugal", ES.28079.AHN/5.1.145.4.1.1.57.1//DIVERSOS-COLECCIONES,86,N.6 (existem várias cópias)]


No dia 20, finalmente, Napoleão escreve ao seu Ministro dos Negócios Estrangeiros para declarar formalmente guerra a Portugal, notificando para o efeito a embaixada de Portugal na França, encabeçada por D. Lourenço de Lima:

Fontainebleau, 20 de Outubro de 1807

[...] A minha intenção é que, no dia 22, notifiqueis a delegação de Portugal que a guerra está declarada, e que eles têm vinte e quatro horas para sair de Paris e quinze dias para sair dos meus Estados. 
Intenciono que na mesma ocasião escrevereis ao Ministro da Marinha para dar ordem a todas as minhas embarcações de guerra e corsários para perseguirem o pavilhão português. 
[Fonte: Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 123-124 (n.º 13274)].

No entanto, parece que Champagny se antecipou às intenções de Napoleão, pois na noite de 21 de Outubro, a toda a pressa, entrava na Espanha o embaixador acima referido, segundo se mostra na seguinte carta de D. Ramón Lope ao vice-rei de Navarra:

Irun, 22 [de Outubro]
Meu venerado General e Ex.mo Sr.: 
Parece-me coisa de milagre o que aqui fazemos, sobretudo o trabalho de transportar oitenta e nove carros com bois; mas tudo esteve pronto com os auxílios de Oyarzun e Hondarribia; às quatro da manhã fui ao parque e se enganchou o primeiro canhão, e lá para as seis e meia ou pouco mais toda a coluna marchava sem ficar nada para trás. Os próprios habitantes da povoação confessam a boa ordem e quietude que há nesta ocasião, mas devo confessar que todos se esmeram em contribuir com as suas pessoas e com os trabalhos que tiveram para o melhor serviço do Rei. Só o vale de Oyarzun enviou-me às nove da noite cem juntas [de bois]; eu agradeci e disse que informaria V.ª Ex.ª do seu serviço extraordinário [...]. 
Ontem à noite passou em diligência o embaixador de Portugal chamado Lima, que vinha de Paris e levava uma mensagem urgente para a sua corte, e disse que a sua família o seguia noutra carruagem; explicou-se dizendo que esperava voltar com boas notícias. Agora acaba de passar um correio extraordinário francês de Paris, que deixou cartas a Junot. [...] 
Ramón Lope 
[Fonte: Archivo Histórico Nacional de España, "Entrada y paso de las tropas francesas por la Península en dirección a Portugal", ES.28079.AHN/5.1.145.4.1.1.57.1//DIVERSOS-COLECCIONES,86,N.6]


Em Fontainebleau, depois de vários dias adiando a concretização do tratado (devido a ter recebido a carta de D. Fernando?), Napoleão elabora no dia 23 um projecto de convenção para ser discutido entre o General Duroc e Eugénio Izquierdo, ministros plenipotenciários da França e da Espanha, respectivamente. Este projecto, que será o embrião do Tratado de Fontainebleau, previa no seu 3.º artigo que, enquanto se faziam os últimos ajustes para a convenção final, desde logo era cedida a soberania e propriedade do Reino da Etrúria a Napoleão. No 4.º artigo, que não foi concedido pelo enviado espanhol, Napoleão previa inclusive uma nova fronteira entre a França e a Espanha:

Nova fronteira entre a França e a Espanha 
(prevista por Napoleão a 23 de Outubro, mas não ractificada por Izquierdo)









Finalmente, quatro dias depois, Izquierdo e Duroc chegam a um acordo definitivo, que toma a forma final no Tratado de Fontainebleau. Nele se previa não só que todas as ilhas e colónias portuguesas fossem dividas entre a Espanha e a França, mas também que o próprio território de Portugal fosse dividido em três partes: 
1) o reino da Lusitânia Setentrional, que seria entregue ao rei da Etrúria (apesar deste ter então apenas seis anos, nada se previa sobre quem regeria tal território até que atingisse a maioridade);
2) o principado dos Algarves, que seria entregue ao príncipe da Paz, D. Manuel Godoy;
3) as restantes províncias (Trás-os-Montes, Beira e Estremadura) seriam sequestradas pelas forças francesas e ficariam por dispor até que houvesse uma paz.
Na convenção secreta datada do mesmo dia 27, referente a tudo o que dizia respeito à ocupação de Portugal, estava finalmente prevista a entrada de um exército francês de 28.000 homens na Espanha. Trata-se de uma óbvia referência ao 1.º corpo de Observação da Gironda, chefiado por Junot, que, como vimos, já tinha começado a passar a fronteira 9 dias antes da assinatura destes acordos. Para a execução do tratado deviam ainda entrar em Portugal cerca de 27.000 espanhóis, quer para ajudarem as forças de Junot (será a Divisão de Carrafa), quer para ocuparem o sul (Divisão de Solano) e o norte (Divisão de Taranco).
Caso não bastassem estes cerca de 55.000 militares para dominar o país, previa-se ainda que, o mais tardar a 20 de Novembro, estaria preparado em Bayonne um outro exército francês, composto por 40.000 homens, pronto a entrar na Espanha na eventualidade (note-se bem) de que os ingleses atacassem ou mandassem reforços para Portugal. Esta cláusula será indubitavelmente a mais ruinosa para a Espanha, como iremos vendo.





No mesmo dia em que foi assinado o tratado de Fontainebleau, Napoleão escreveu a seguinte carta ao seu irmão José Bonaparte, rei de Itália:



Fontainebleau, 27 de Outubro de 1807

Declarei guerra a Portugal; deveis portanto apreender todas as embarcações portuguesas que estejam nos vossos portos ou que aí aportem. Um exército de 30.000 homens, comandados pelo General Junot, encontra-se já sobre as fronteiras de Portugal. Espero que esteja em Lisboa no mês de Novembro. Os vossos corsários podem assim perseguir o pavilhão português. [...]  
[Fonte: Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 123-124 (n.º 13305, pp. 145-146, p. 146)].




No dia seguinte, Napoleão escreve ao seu Ministro da Guerra:


Fontainebleau, 28 de Outubro de 1807

Escrevei ao General Junot, que me pareceu que a sua ordem de marcha era como se ele fosse mudar de guarnição e não como convém a um exército em marcha; que desta maneira ele jamais chegará [ao seu destino]; que ele deve marchar em três colunas, por divisão; chegaria assim dez dias mais cedo. 
[Fonte: Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, p. 146 (n.º 13306)].


Fonte: Europeana
Vista do palácio e mosteiro de San Lorenzo de El Escorial, 
segundo gravura de 1665


A corte espanhola encontrava-se no sítio de El Escorial (perto de Madrid) quando as tropas de Junot começaram a entrar na Península. Foi precisamente no seu palácio que D. Carlos IV se deparou naqueles dias com um papel anónimo no seu atril, que dizia 

que o príncipe Fernando preparava um movimento no palácio que punha em perigo a sua coroa, e que a rainha María Luísa podia correr um grande risco de morrer envenenada; que urgia impedir aquele intento sem perder um instante, e que o vassalo fiel que dava aquele aviso não se encontrava em posição nem em circunstâncias para poder cumprir de outra maneira com os seus deveres. 
[Fonte: Cuenta dada de su vida política por Don Manuel Godoy, Príncipe de la Paz - Tomo V, Madrid, Imprenta de I. Sancha, 1838, p. 165].



Fonte: Wikipedia
Retrato de José António Caballero,
segundo Goya (1807)
Procurando averiguar a veracidade da mensagem inscrita naquele papel, D. Carlos IV dirigiu-se (segundo umas versões foi ele próprio, segundo outras enviou alguém), no dia 28 de Outubro, ao quarto do príncipe D. Fernando. Independentemente das versões, foram então encontrados alguns documentos que comprometiam bastante o filho do rei, como por exemplo um manifesto ditado por Escóiquiz, entre outros papéis que davam indícios de vários crimes de lesa-majestade. Como Godoy estava a este tempo doente em Madrid, o rei buscou os conselhos do seu ministro da Justiça, José António Caballero, que lhe disse que as provas retiradas do conteúdo daqueles papéis sujeitavam D. Fernando à pena de morte, caso o monarca não decidisse mediar a situação. Assim, decidiu-se que se devia fazer um juízo para interrogar o príncipe das Astúrias, o qual se realizou no dia seguinte. Dadas as suas evasivas respostas, D. Fernando acabou ficando encarcerado (no seu quarto). Também se mandou logo prender, como cúmplices, o já referido Escóiquiz, o duque del Infantado, o também já mencionado duque de San Carlos, o conde de Orgaz, o marquês de Ayerve e outros privados do príncipe.

No dia 30 à noite, Godoy, ainda em Madrid, preso à cama devido a altas febres, recebe uma carta do rei, pedindo-lhe que emendasse quanto achasse necessário um manifesto que Caballero tinha redigido a fim de tornar pública a opinião do real sobre o que se havia passado. Godoy opta por reescrever um novo manifesto, segundo ele mais brando para com o príncipe do que o original, que será afixado em edital a 31 de Outubro:

Deus, que vela sobre as suas criaturas, não permite a execução dos factos atrozes quando as vítimas são inocentes. Assim fui livrado pela sua omnipotência da mais inaudita catástrofe. O meu povo, todos os meus vassalos sabem bem a minha cristandade e os meus costumes apropriados; todos me amam, e de todos recebo provas de veneração, a qual exige o respeito de um pai amante dos seus filhos. Vivia eu persuadido desta verdade, quando uma mão desconhecida me assinalou e revelou o mais enorme e temerário plano que se traçava contra a minha pessoa. A minha vida, que tantas vezes esteve em risco, era já uma carga para o meu sucessor que, preocupado, obcecado e alienado de todos os princípios de cristandade que lhe ensinou o meu paternal cuidado e amor, tinha admitido um plano para me destronar. Então quis eu indagar por mim mesmo a verdade do facto, e surpreendendo-o no seu próprio quarto, encontrei em seu poder a cifra da correspondência secreta e de instruções que recebia dos malvados. Convoquei o meu governador interino do conselho, para que, associado com outros ministros, praticassem as diligências de indagação. Tudo se fez, e delas resultaram vários réus cuja prisão decretei, assim como o encarceramento do meu filho no seu quarto. Restava esta pena às muitas que afligem; mas assim como é a mais dolorosa, é também a mais importante de purgar, e enquanto não mando publicar o resultado, não quero deixar de manifestar aos meus vassalos o meu desgosto que será menor com as mostras da sua lealdade. [...] 
[Fonte: Cuenta dada de su vida política por Don Manuel Godoy, Príncipe de la Paz - Tomo V, Madrid, Imprenta de I. Sancha, 1838, pp. 201-202].


Antes mesmo deste último documento ter sido tornado público, o rei espanhol escreveu a Napoleão a seguinte carta, no próprio dia em que se tinha feito o inquérito ao seu filho:


Meu irmão: 
No momento em que me ocupava nos meios de cooperar à destruição do nosso inimigo comum, quando pensava que todas as tramas da ex-rainha de Nápoles tinham acabado com a morte da sua filha, vejo com horror que até no meu palácio penetrou o espírito da intriga mais negra. Ah! O meu coração despedaça-se ao ter que referir tão monstruoso atentado. O meu filho primogénito, o suposto herdeiro do meu trono, tinha formado o horrível desígnio de me destronar, e tinha chegado ao extremo de atentar contra a vida da sua mãe. Um crime tão atroz deve ser castigado com o rigor das leis. A lei que o chama a me suceder deve ser revogada; um dos seus irmãos será mais digno de me substituir no meu coração e no trono. Agora procuro indagar os seus cúmplices para achar o fio de tão incrível maldade, e não quero perder um só instante em instruir a Vossa Majestade Imperial e Real, suplicando-lhe que me ajude com as suas luzes e conselhos.  [...]
Em San Lorenzo [del Escorial], a 29 de Outubro de 1807
Carlos  
[Cf. Juan Nellerto (pseudónimo de Juan Antonio Llorente), Memorias para la Historia de la Revolución Española - Tomo II, Paris, Imprenta de M. Plassan, 1814, pp. 14-15. (doc. IV)].


No dia 31 de Outubro, Napoleão escreve a Junot (que tinha entrado na Espanha um dia antes e pernoitado em Irun):



Fontainebleau, 31 de Outubro de 1807

[...] Já vos fiz saber que ao vos ter autorizado a entrar [em Portugalcomo auxiliar, é para que possais tornar-vos senhor da esquadra, mas que a minha resolução é que vos aposseis de Portugal. [...] 
As tropas espanholas vão chegar. Escrevereis ao meu ministro na Espanha para que pressione para que pelo menos alguns regimentos de cavalaria vos cheguem a Alcántara. Mas, se não os receberdes, estareis suficientemente forte para alcançar Lisboa. Dei ordens para que o 2.º corpo da Gironda se poste sem atraso em Bayonne. [...] Amanhã parte um novo regimento provisório de Paris; darei ordem a um outro regimento provisório para que parta da Bretanha, de maneira que, independentemente do número número de doentes que tereis, podereis manter-vos completo. [...] 
Assim que tenhais em vossas mãos as diferentes praças-fortes, metereis nelas comandantes franceses, para que as tenhais asseguradas. Não tenho nenhuma necessidade em que os espanhóis tenham em seu poder praça-forte alguma, sobretudo do território que deve ficar nas minhas mãos.
[Fonte: Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 151-154 (n.º 13314)].

Até ao início de Novembro, a corte espanhola ainda não recebera qualquer notícia sobre a concretização do tratado de Fontainebleau. Este desconhecimento, associado ao processo de El Escorial, tinha dado motivos a Godoy (ainda em Madrid) para pensar que as tropas francesas que iam entrando na Espanha tinham segundas intenções, e que "Bonaparte queria aproveitar a ocasião tão favorável que lhe ofereciam as circunstâncias para se erigir em mediador entre filho e pai". No meio desta incerteza, Godoy aconselhou D. Carlos IV a fazer regressar alguns corpos das tropas espanholas que se tinham ido juntar à Divisão de Carrafa (a fim de entrarem em Portugal acompanhando as forças de Junot). Para os franceses não desconfiarem, aparentar-se-ia que o regresso destas tropas se destinava à protecção de D. Carlos IV, dadas as divisões em que se encontrava a corte. [Cf. Cuenta dada de su vida política por Don Manuel Godoy, Príncipe de la Paz - Tomo V, Madrid, Imprenta de I. Sancha, 1838, pp. 208-209].



Fonte: Europeana
Cidadela de Pamplona, segundo
pormenor dum mapa francês do séc. XIX


No dia 2 de Novembro, Ramón Lope escreveu a seguinte carta ao Duque de San Carlos. Não sabemos se este último a chegou a receber, dado que no dia 28 de Outubro tinha sido expedida uma ordem para a sua prisão na cidadela de Pamplona, em virtude de ser um dos implicados no processo de El Escorial. (Por curiosidade, acrescente-se que, em virtude da mesma ordem, D. Ramón Lope ficou à frente do comando militar interino de Navarra).

Ex.mo Sr.:
O relatório adjunto informa V.ª Ex.ª da força que fica aquartelada neste ponto, não restando por agora mais tropas que passem ao nosso território. 
Deus Guarde a V.ª Ex.ª muitos anos. 
Irun, 2 de Novembro de 1807. 
Ramón Lope
[Fonte: Archivo Histórico Nacional de España, "Entrada y paso de las tropas francesas por la Península en dirección a Portugal", ES.28079.AHN/5.1.145.4.1.1.57.1//DIVERSOS-COLECCIONES,86,N.6]





No dia 2 de Novembro, Napoleão escreve a seguinte carta ao seu ministro da Marinha:



Fontainebleau, 2 de Novembro de 1807

Senhor Decrès, é conveniente que deis ordens para a um capitão de navio, quatro capitães de fragata, seis tenentes de navio, uma dúzia de de pavilhões, um comissário de marinha inteligente e um engenheiro de construção, para que todos estejam prontos a partir para se juntarem ao General Junot, a fim de que, quando chegarem a Lisboa, possam apossar-se do porto e dos navios, se temos a sorte de os apanhar. Será portanto necessário que estes oficiais partam secretamente e sem alarido de Bayonne, a 17 de Novembro, para chegarem no dia 20 a Ciudad Rodrigo, quartel-general do General Junot. [...]
[Fonte: Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, p. 159 (n.º 13320)].



Fonte: Wikipedia
Eugène de Beauharnais



No mesmo dia e no mesmo clima de secretismo, Napoleão escreve ao seu filho adoptivo e vice-rei de Itália, Eugène de Beauharnais:



Fontainebleau, 2 de Novembro de 1807

[...] Dir-vos-ei em confidência, e somente a vós, que, por um tratado que fiz com a Espanha, o reino da Etrúria foi-me cedido em toda a propriedade e soberania; é provável que proximamente tome a sua posse. É portanto conveniente fazer vender todas as mercadorias inglesas, e manter a divisão de Miollis suficientemente forte para que ela possa tomar posse do país e de aí fazer executar as leis que me pareçam convenientes ser promulgadas. [...] 
[Fonte: Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 159-160 (n.º 13321)].


A 3 de Novembro, é expedida ao clero e administradores das capitais das províncias espanholas a seguinte carta circular de Bartolomé Muñoz de Torres, escrivão do Conselho da Corte, a fim de serem promovidas missas de acção de graças, por todo o reino, pelo fiasco da conspiração:

No Real Decreto de 30 de Outubro passado [...], Sua Majestade dignou-se participar ao Conselho que Deus tinha libertado a sua augusta pessoa da catástrofe que a ameaçava. 
Por este motivo, o Conselho propôs a Sua Majestade, em consulta do próprio dia, que, sendo do seu agrado, solenizaria a devida acção de graças ao Todo-poderoso, e disporia que assim o executassem todas as povoações e comunidades do Reino.
E tendo-se conformado Sua Majestade, passou o Conselho neste dia a pô-lo em execução; e acordou que se vos comunique a ordem correspondente para que disponhais imediatamente de igual demonstração nessa capital e povoações da sua jurisdição.
O que vos participo, de acordo com a ordem do Conselho, para o seu pontual cumprimento; informando que, para o mesmo fim, nesta data o comunico aos mui reverendos arcebispos, reverendos bispos, prelados seculares e regulares, e cabidos das santas igrejas; e me dareis aviso quando o receberdes.
Deus vos guarde muitos anos.
Madrid, 3 de Novembro de 1807.
Bme Muñoz
[Fonte: Archivo Histórico Nacional de España, "Expediente relativo a la Causa de El Escorial, seguida por la conspiración contra Carlos IV", ES.28079.AHN/1.1.38.1//CONSEJOS, L.1398, Exp. 100]


No dia 3 de Novembro, Junot escrevia a Napoleão, a partir da cidade basca de Vitória, dando-lhe a entender que Godoy não ajudava os franceses tanto quanto poderia, parecendo "que o seu zelo tem abrandado bastante de há tempos a esta parte" [Junot, Diário da I Invasão Francesa, Lisboa, Livros Horizonte, 2008, p. 92 (n.º 63)]
Na verdade, como acima mostrámos, Godoy tinha determinado quase dois meses antes que se começassem a tomar as medidas necessárias para o acolhimento e passagem das tropas francesas. Contudo, a pressa para entrarem as ditas tropas na Espanha não deu tempo de se ultimarem os preparativos. Aliás, quando Junot escreveu aquelas linhas, o Príncipe da Paz, já no Escorial, ainda não tinha recebido os termos do tratado de Fontainebleau, senão somente o projecto de convenção de Napoleão (do dia 23 de Outubro), como se depreende desta carta que enviou nesse dia 3 a Eugénio Izquierdo:

[...] Tenho agora sobre a minha mesa quatro cartas de Vossa Mercê datadas de 8, 12, 13 e 25 de Outubro; esta última traz o ensaio do tratado de Portugal; mas os portugueses defendem-se, e não sei... Enfim, receberemos o tratado tal e qual como venha. Por agora a grande novidade é a da prisão do príncipe das Astúrias. Escóiquiz era o autor de um plano para depor o governo actual e o próprio rei. Infantado, Orgaz, Ayerve e outros criados do quarto, os cúmplices; e tudo sustentado pelo embaixador [de FrançaBeauharnais. Madrid está meio em sobressalto; todos esperam o resultado; mas já entredizem que este embaixador disse que as tropas francesas irão pôr em Madrid o seu quartel-general. Estou no sítio [do Escorial]; todo o meu cuidado é pouco para tantos inimigos; mas o canhão os reduzirá; sirva esta carta para vosso governo e entenda que nada quero senão a sua imunidade. [...] 
 San Lorenzo, 3 de Novembro. 
Manuel 
[Fonte: Juan Nellerto (pseudónimo de Juan Antonio Llorente), Memorias para la Historia de la Revolución Española - Tomo III, Paris, Imprenta de M. Plassan, 1816, pp. 3-4. (doc. CXVII)].

Ainda no mesmo dia 3, Napoleão escreveu ao General Clarke, seu ministro da guerra, dando-lhe mais detalhes sobre a organização do 2.º Corpo de Observação da Gironda, que devia contar com cerca de 20.000 homens, comandados pelo General em Chefe Pierre Dupont. Este corpo devia estar pronto a agir a partir de 1 de Dezembro, caso fosse necessário [Fonte: Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 161-162 (n.º 13323)].



No dia 5 de Novembro, Napoleão manda o seu ministro da Guerra dizer a Junot, entre outras coisas, que:

[...] Não entendo que, sob o pretexto de falta de víveres, a sua marcha seja retardada um dia; esta razão somente serve para homens que não querem fazer nada; 20.000 homens vivem em qualquer lugar, inclusive no deserto.
[Fonte: Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, p. 165 (n.º 13327)]. 


No mesmo dia 5, em virtude de "circunstâncias diferentes", Napoleão ordena ao mesmo ministro da Guerra para que mandasse formar um terceiro corpo, que levaria o título de Corpo de Observação das Costas do Oceano. De momento, este corpo seria reunido a este de Paris [Cf. Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 163-164 (n.º 13326)].
Que "circunstâncias diferentes" eram aquelas que insinuava Napoleão? 
O embaixador Izquierdo, que nesse dia 5 almoçou com a esposa de Junot, referiu em carta a Godoy que ela então lhe disse que acabara de receber uma carta do general Junot, onde este afirmava que


Há novidades em Madrid; mas como jamais escrevo notícias, se as queres, dar-te-ão em Paris. 
[Fonte: Juan Nellerto (pseudónimo de Juan Antonio Llorente), Memorias para la Historia de la Revolución Española - Tomo III, Paris, Imprenta de M. Plassan, 1816, pp. 7-37, p. 8 (doc. CXIX)].


De facto, nesse dia 5, Napoleão recebera a carta do rei de Espanha datada de 29 de Outubro (acima transcrita), onde lhe era notificada a notícia da prisão do Príncipe das Astúrias. Posteriormente, o Marechal Duroc diria a Izquierdo que, uma vez lida a carta, o Imperador lhe teria dito que o seu conteúdo abordava coisas domésticas do rei de Espanha, e não quero misturar-me nelas [Cf. Juan Nellerto (pseudónimo de Juan Antonio Llorente), Memorias para la Historia de la Revolución Española - Tomo III, Paris, Imprenta de M. Plassan, 1816, p. 18 (doc. CXIX)]. Na verdade, como vimos, Napoleão ordenara ao mesmo tempo a criação de um terceiro corpo militar (ainda que longe da fronteira com a Espanha, talvez para não alarmar os seus habitantes). 

No dia 6 de Novembro, na Espanha, foi publicado um decreto de D. Carlos IV datado do dia anterior, onde o próprio perdoava o filho, inserindo-se nele duas cartas de D. Fernando, que, supostamente arrependido, tinha dirigido aos pais (segundo Godoy, ambas cartas datavam do dia 3):


A voz da natureza desarma o braço da vingança, e quando a inadvertência reclama a piedade, não se pode negar a isso um pai amoroso. O meu filho declarou já os autores do plano horrível que lhe tinham feito conceber uns malvados; manifestou tudo em forma de direito, e tudo consta com a escrupulosidade que exige a lei em tais provas; o seu arrependimento e assombro lhe ditaram as representações que me dirigiu e que se seguem: 

Senhor:  
Meu pai: cometi um delito, faltei a Vossa Majestade como rei e como pai; mas arrependo-me e ofereço a V. M. a obediência mais humilde. Nada devia fazer sem conhecimento de V. M.; mas fui surpreendido. Delatei os culpados, e peço a V. M. que me perdoe por lhe ter mentido na outra noite, permitindo o seu reconhecido filho beijar os seus reais pés.   
*  

Senhora: 
Minha mãe: estou muito arrependido do grandíssimo delito que cometi contra os meus pais e reis, e assim, com a maior humildade, peço a V. M. que se digne interceder junto do pai para que permita o seu reconhecido filho ir beijar os seus reais pés.  


Em vista destas representações, e a rogo da rainha minha amada esposa, perdoo o meu filho, e lhe devolverei a minha graça quando a sua conduta me dê provas de uma verdadeira reforma no seu frágil manejo; e mando que os mesmos juízes que entenderam a causa desde o seu princípio a sigam, permitindo-lhes associados se os necessitarem, e que, uma vez concluída, me consultem a sentença ajustada à lei, segundo qual fosse a gravidade dos delitos e a qualidade de pessoas em quem recaíam; tendo por princípio para a formação das penas as respostas dadas pelo príncipe às perguntas que lhe foram feitas; pois todas estão rubricadas e firmadas pelo meu punho, assim como os papéis apreendidos nas suas mesas, escritos pela sua mão; e que esta providência se comunique aos meus conselhos e tribunais, circulando-a ao meu povo, para que nela reconheçam a minha piedade e justiça, e aliviem a aflição e cuidado em que foram postos com a publicação do meu primeiro decreto; pois nele verão o risco do seu soberano e pai que como filhos os ama, e assim me correspondem. [...] 
[Fonte: Conde de Toreno, Historia del Levantamiento, Guerra y Revolución de España - Tomo I, Madrid, Imprenta de Don Tomas Jordan, 1835, pp. 29-30].


No dia 7 de Novembro, começou a espalhar-se em Paris a notícia da prisão do príncipe das Astúrias [Cf. Juan Nellerto (pseudónimo de Juan Antonio Llorente), Memorias para la Historia de la Revolución Española - Tomo III, Paris, Imprenta de M. Plassan, 1816, pp. 7-37, p. 9 (doc. CXIX)]. Alguns dias depois seriam publicados os detalhes [Cf. Mercure de France, n.º CCCXXXI, 21 de Novembre de 1807, pp. 380-382]




Fonte: Europeana
General Kellermann,
Comandante da Divisão de Cavalaria
do 1.º Corpo de Observação da Gironda
Ainda no dia 7, curiosamente, foi publicada a seguinte notícia na Gazeta de Lisboa:


Baiona, 23 de Outubro.

O Exército de Observação [da Gironda] principiou já a pôr-se em movimento. A 18 deste mês entrou em Espanha um corpo de 2.400 homens da divisão Laborde; já se lhe seguiu o resto da mesma divisão, com a sua competente artilharia; e continua agora a entrar ali a do General Laroche. A 20 chegaram aqui 120 carros para conduzir munições e outros efeitos do exército. Também chegou o General Kellermann, filho do Marechal do mesmo apelido. Parece que as sobreditas tropas vão em direitura a Salamanca, onde deve assentar-se o Quartel-General até segunda ordem. Dizem que o General em Chefe Junot não sairá daqui até 29 do corrente, a cujo tempo haverão entrado em Espanha todas as tropas do seu comando. 
[Fonte: Segundo Supplemento à Gazeta de Lisboa, n.º XLIV, 7 de Novembro de 1807, pp. 3-4; esta notícia é uma compilação de duas publicadas originalmente na Gazeta de Madridn.º 96, 27 de Octubre de 1807, p. 1117, e na Gazeta de Madrid, n.º 97, 30 de Octubre de 1807, p. 1126].




Finalmente, no dia 4 de Novembro, chegava à corte espanhola a notícia da execução do tratado de Fontainebleau [Cf. Cuenta dada de su vida política por Don Manuel Godoy, Príncipe de la Paz - Tomo V, Madrid, Imprenta de I. Sancha, 1838, p. 209]. No dia 8, D. Carlos IV ratificava o dito tratado [Cf. Juan Nellerto (pseudónimo de Juan Antonio Llorente), Memorias para la Historia de la Revolución Española - Tomo III, Paris, Imprenta de M. Plassan, 1816, pp. 5-7 (doc. CXVIII)].

Nesse mesmo dia 8, sem conhecimento de que o rei espanhol já ratificara o tratado, Napoleão avisa Junot que a sua marcha não devia perder um dia e que o General Dupont estaria em Bayonne no dia 16, investido como comandante do 2.º corpo da Gironda, o qual teria, no fim de Novembro, a força de 30.000 homens [Cf. Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 174-175 (n.º 13340)]

No dia 11, começam a circular por Paris mais pormenores sobre a prisão do príncipe das Astúrias, soando que parecia estar associada a uma conspiração influenciada pelo próprio embaixador francês junto da corte espanhola. Eugénio Izquierdo, ainda em Paris, nesse mesmo dia foi avisado do seguinte por um banqueiro francês, seu amigo íntimo:

Acabo de saber neste instante, pela Secretaria de Estado, que o príncipe das Astúrias está preso, porque, de concerto com o embaixador Beauharnais e com o nosso governo, intentava destronar o rei seu pai. A coisa parece impossível; mas, se assim for, penso que por isto se seguirá que V.ª Mercê (como amigo e confidente do actual governo da Espanha) será hoje mesmo preso, e tal reflexão obrigou-me a vir advertir-lhe do risco que lhe ameaça. 
[Cf. Juan Nellerto (pseudónimo de Juan Antonio Llorente), Memorias para la Historia de la Revolución Española - Tomo III, Paris, Imprenta de M. Plassan, 1816, pp. 7-37, p. 10 (doc. CXIX)].


De facto, por volta das duas da madrugada desse mesmo dia 11 de Novembro, Napoleão tinha recebido uma nova carta de Carlos IV (cujo paradeiro se desconhece, nunca tendo sido publicada), datada de 3 de Novembro, cujo conteúdo lhe irritou bastante, pois indirectamente via-se comprometido e até participante das maquinações de D. Fernando  (através do seu embaixador na corte espanhola). D. Carlos IV queixava-se precisamente do procedimento do embaixador francês, Beauharnais, que, segundo as declarações de vários implicados no processo do Escorial (incluindo o próprio D. Fernando), fora um dos promotores das intrigas que manchavam a corte espanhola [Cf. Cuenta dada de su vida política por Don Manuel Godoy, Príncipe de la Paz - Tomo V, Madrid, Imprenta de I. Sancha, 1838, pp. 234 e ss.]
Estas declarações do monarca espanhol, que tinham sido aconselhadas por Godoy (segundo o mesmo), podiam comprometer a preservação da aliança entre a Espanha e a França  [Cf. Juan Nellerto (pseudónimo de Juan Antonio Llorente), Memorias para la Historia de la Revolución Española - Tomo III, Paris, Imprenta de M. Plassan, 1816, pp. 7-37  (doc. CXIX)]
Alarmado, Napoleão chegou mesmo a cancelar uma viagem secreta que tinha agendado fazer até à Itália dois dias depois. O príncipe de Masserano, que como vimos era embaixador da Espanha em França, não soube agir com a devida prudência, fazendo declarações que ainda preocuparam mais Napoleão. Para além disso, o referido embaixador chegou ao ponto de confidenciar a uma francesa (que logo espalhou esta informação) que deveria guardar os documentos da sua embaixada e regressar à Espanha, antes que fosse preso.
Entretanto, ainda nesse mesmo dia 11, Napoleão escreveu ao seu ministro da Guerra o documento que abaixo se publica, para que fosse apressada a organização do 2.º corpo da Gironda. Este facto poderia não ser consequente ao sucedido, uma vez que, segundo a convenção secreta anexa ao tratado de Fontainebleau, este corpo devia estar preparado em Bayonne, o mais tardar, a 20 de Novembro. Contudo, Napoleão dava agora ordens secretas para se fazerem alguns preparativos na ponta oposta da fronteira, e também para que os fortes fronteiriços dos Pirinéus fossem armados e guarnecidos com tropas francesas. Como se vê, a carta de D. Carlos IV tinha alarmado bastante Napoleão...



Fontainebleau, 11 de Novembro de 1807

Senhor General Clarke, dai ordens ao General Dupont para acelerar a sua partida para Bayonne, para formar a sua primeira divisão com os sete primeiros batalhões de todas as tropas que chegarem antes de 20 de Novembro. Ele formará a segunda divisão com os sete batalhões que chegarão depois, e ele seguirá, para a formação das suas divisões, não as ordens que dei, mas a ordem de chegada dos batalhões.
Apressai a partida da artilharia. 
Dai igualmente ordens para apressar a partida para Bayonne dos regimentos que formam o 2.º corpo da Gironda. Mandai suprimir as paragens pelo percurso e, se houver pequenas etapas, que sejam dobradas.
Dai igualmente ordem para que os regimentos provisórios da cavalaria, que devem formar as quatro brigadas de reserva, acelerem a sua marcha, de maneira a chegarem o mais rápido possível, suprimindo as estadias e as pequenas etapas.  
Dai igualmente a ordem às três companhias de artilharia a cavalo para partirem sem demora com a sua artilharia. Ordenai que a 20 de Novembro as praças-fortes fronteiras a Espanha sejam armadas. Enviai companhias de artilharia para elas. A 20 de Novembro, fareis entrar nessas praças provisões para servir a guarnição durante quinze ou vinte dias. [...] 

Praça-forte de Bellegarde
Fazei fabricar 200.000 rações de biscoito em Perpignan e 300.000 em Bayonne. Encontrai-vos com o ministro da marinha para que, se houver biscoito já feito em Bordeaux, possa ser conduzido para Bayonne. Tudo isto deve ser feito do modo mais secreto possível, sobretudo o armamento das praças das fronteiras de Espanha do lado dos Pirenéus orientais. Dai as instruções secretas, e fazei marchar os corpos de maneira a que as primeiras operações ostensivas não se façam ver nesse país antes de 25 de Novembro. 
Quando falo de praças, quero dizer as da extrema fronteira, tais como Bellegarde. Não conheço muito essa fronteira para saber se existem outras. Sobre os aprovisionamentos que sejam vistos por lá, diremos que são para o exército da Gironda. [...] 
[Cf. Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 176-178 (n.º 13343)].  



Ainda neste mesmo dia 11 de Novembro, Napoleão escreveu outra carta ao seu ministro da Guerra, para que fossem dadas ordens ao Corpo de Observação das Costas do Oceano (que, recorde-se, estava a ser reunido a este de Paris) para que seguisse o mais rápido possível para Bordeaux, recorrendo a viaturas para este efeito, de maneira a que os milhares de homens que o compunham estivessem naquela cidade antes do fim de Novembro. Longe de indicar qualquer desavença com a Espanha, o pretexto para tal mudança dos planos do Imperador era que estas tropas deviam ir reforçar o exército de Junot "contra a expedição que os ingleses preparam" [Cf. Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 178-180 (n.º 13344)].
Contudo, às 4 horas da madrugada do dia seguinte, Napoleão mudou novamente de ideias, escrevendo logo ao mesmo ministro da guerra que "se as ordens que vos dei, pela minha carta de ontem, para fazer partir as tropas do corpo de Observação das Costas do Oceano ainda não foram expedidas, desejo que as anuleis. [...] As circunstâncias são menos urgentes hoje" [Cf. Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, p. 184 (n.º 13349)].
O que teria feito mudar as ideias do Imperador tão repentinamente? Embora não o possamos afirmar categoricamente, suspeitamos que Napoleão tenha recebido naquela madrugada uma cópia do decreto de 5 de Novembro, no qual D. Carlos IV perdoava o filho. A ser verdade esta suposição, talvez Napoleão decidisse aguardar um momento antes de ordenar movimentações que a Espanha podia ver como suspeitas. Mas nem por isso Napoleão deixou de estar preocupado, sobretudo porque ainda não tinha recebido a ratificação do tratado de Fontainebleau pela parte do monarca espanhol.

Eugénio Izquierdo, que ficara alertado pelo aviso do seu amigo (que acima se indicou), saiu de Paris na madrugada do dia 12, em direcção a Fontainebleau (onde se encontrava o Imperador) para tentar perceber o que se passara. Tendo chegado por volta das nove horas da manhã, encontrou-se logo com o Marechal Duroc, que lhe referiu que o Imperador ficara surpreendido e irritado com o conteúdo da carta de D. Carlos IV datada de 3 de Novembro. Izquierdo, prudentemente, indicou que se o embaixador francês Beauharnais era acusado nessa carta de fomentar intrigas dentro da própria corte espanhola, era porque haveria provas suficientes, ainda que tivesse agido sem quaisquer ordens de Napoleão nesse sentido. De qualquer forma, o próprio Izquierdo dava a sua palavra de honra em que o tratado de Fontainebleau seria ratificado, pelo que o Imperador poderia ficar descansado e confiante na preservação da aliança com a Espanha. Talleyrand, que também falou com Izquierdo naquele dia, assegurou-lhe "que jamais tinha visto o Imperador tão ressentido e em tal estado de irritação"; o que mais tinha chocado Napoleão "era ver-se implicado em intrigas e traições diante de toda a Europa", e que a sua cólera derivava precisamente de ver vulnerada "a sua própria probidade e honra". No dia seguinte (13 de Novembro), Izquierdo ainda se encontrou com Duroc, Talleyrand, Champagny e Joachim Murat, e todos insistiram no mesmo: que o tratado de Fontainebleau devia ser ratificado pelo rei espanhol, e que só assim Napoleão ficaria tranquilizado. Murat, cunhado de Napoleão, chegou mesmo a dizer que, em caso contrário, o Imperador ficaria deveras irado... Também foi dito a Izquierdo que a corte espanhola devia fazer entrar em Portugal os corpos (da Divisão de Carrafa) que, entretanto, tinha mandado regressar a Madrid, como acima indicámos [Cf. Juan Nellerto (pseudónimo de Juan Antonio Llorente), Memorias para la Historia de la Revolución Española - Tomo III, Paris, Imprenta de M. Plassan, 1816, pp. 7-37, p. 10 (doc. CXIX)].


Ainda no dia 12, Napoleão escreveu ao General Junot, entre outras coisas:


[...] No momento em tomeis posse da frota e das praças-fortes [portuguesas], procedereis ao desarmamento do exército.  
Fareis saber ao príncipe regente que ele deve passar à França; esforçar-vos-eis que ele o consinta de bom grado. Dar-lhe-eis oficiais cuja missão aparente será escoltá-lo, mas que, na verdade, será para o guardar. [...] Fareis o mesmo a todos os que tenham direito ao trono e, sem demora e sem vexar ninguém, os fareis partir para Bayonne. [...] Convocareis os homens mais proeminentes e que vos possam inquietar, dando-lhes ordem para passarem a Paris. Todos devem esperar em Bayonne por novas ordens. [...]  
 [Cf. Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 184-187 (n.º 13351)]. 



Voltamos a repetir que a entrada do 2.º corpo de observação da Gironda era prevista somente no caso dos ingleses ameaçarem Portugal. Contudo, Junot ainda nem sequer tinha entrado em Portugal (e, segundo as previsões do Imperador, Junot somente chegaria a Lisboa no dia 1 de Dezembro), quando Napoleão envia a seguinte carta ao seu ministro da guerra:


Fontainebleau, 13 de Novembro de 1807

Senhor General Clarke, dai ordem para que, o mais tardar a 22 de Novembro, a 1.ª Divisão do 2.º Corpo de Observação da Gironda parta de Bayonne numa só coluna e passe a Vitória, onde ela terá guarnição para manter a comunicação com o General Junot. Esta divisão não se moverá de Vitória sem a minha ordem. Ela poderá acantonar-se nas aldeias vizinhas. Como é possível que as carruagens e os cavalos da artilharia não tenham entretanto chegado, o General Dupont organizará, por todos os meios, seja por via de requisição ou outros, seis peças de artilharia, e se entenderá para este efeito com os governadores de Bayonne, a fim de que esta 1.ª divisão, que deve ser composta de sete batalhões que chegarão, não esteja sem artilharia. 
General Barbou comandará a 1.ª Divisão. Ele enviará oficiais a Bilbao, Burgos e Pamplona, para conhecer o espírito desses territórios sobre os acontecimentos que se passam na Espanha. [...] 
O General Dupont enviará um oficial do Estado-maior ao General Junot para lhe fazer conhecer o dia em que a sua 1.ª divisão chegará a Vitória. 
O General Barbou enviará [alguémpelo lado de Zamora e para perto do capitão geral da Galiza [General Taranco], para conhecer os movimentos dos portugueses e dos espanhóis nesse lado.
[Cf. Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 187-188 (n.º 13353)].



Entretanto, o próprio Godoy estaria informado da entrada do 2.º Corpo de Observação da Gironda (talvez através do embaixador francês na corte espanhola), segundo se observa da seguinte carta, que o ministro Caballero escreveu ao Comandante Geral Interino de Navarra, cargo que tinha assumido D. Ramón Lope, depois da prisão do duque de San Carlos:

Os Marechais de Campo D. Antonio Samper e D. Josef Navarro dizem-me em ofício de ontem o seguinte: 
"Para além dos corpos de tropas francesas que até agora entraram na Espanha, deverão seguir e estão-se reunindo em Bayonne com o mesmo objectivo, treze batalhões de infantaria, que terão a força de 18.840 homens; e quatro corpos de Dragões ou Caçadores a cavalo, cuja força ainda se ignora. 
O Sereníssimo Senhor Príncipe Generalíssimo Almirante [Godoy], que recebeu esta notícia, manda-nos comunicá-la a V.ª Ex.ª para que se disponha o conveniente ao trânsito e assistência desta gente". 
E conformando-se o rei com o modo de pensar do referido Sereníssimo Senhor, transcrevo a real ordem a Vossa Senhoria, para o seu governo e cumprimento na parte que lhe toca. 
Deus Guarde a Vossa Senhoria muitos anos.
San Lorenzo [de El Escorial], 13 de Novembro de 1807.
Caballero
[Fonte: Archivo Histórico Nacional de España, "Entrada y paso de las tropas francesas por la Península en dirección a Portugal", ES.28079.AHN/5.1.145.4.1.1.57.1//DIVERSOS-COLECCIONES,86,N.6]



Ainda no mesmo dia 13, Napoleão escreveu ao seu camareiro Tournon:


Fontainebleau, 13 de Novembro de 1807

Remetereis a carta adjunta ao rei de Espanha. Tereis o cuidado de observar, na rota dos Pirenéus a Madrid, a opinião da nação sobre o que se tem passado na Espanha; se a opinião é a favor do príncipe das Astúrias ou do príncipe da Paz.  
Também vos informareis, sem chamar a atenção, da situação nas praças de Pamplona e de Hondarribia; e, se vos aperceberdes que armaram algumas praças, dar-me-eis parte pelo correio. Observareis bem Madrid para verdes o espírito que anima essa cidade.
Remetereis esta carta ao rei, e me notificareis da sua resposta. 
P.S.: Igualmente tereis o cuidado de tomar conhecimento de informações bem positivas sobre o exército espanhol, sobre os pontos que ele ocupa hoje, e sobre o que ele teria na costa de Cádis ou arredores.
[Cf. Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 188-189 (n.º 13354)].

A carta que seria entregue a D. Carlos IV e que Napoleão se refere é a seguinte:



Fontainebleau, 13 de Novembro de 1807

Senhor meu Irmão, recebi as cartas de Vossa Majestade de 29 de Outubro e 3 de Novembro. Para dizer a verdade, devo-lhe fazer conhecer que nunca recebi carta alguma do príncipe das Astúrias, e que, directa ou indirectamente, jamais tive a intenção de falar sobre ele; de maneira que seria verdade dizer que ignoro se ele existe. 
O tratado [de Fontainebleauque Vossa Majestade recebeu lhe fará ver que, ao consentir que as minhas tropas fossem comandadas por vós ou pelo príncipe da Paz, jamais me veio à ideia que o príncipe das Astúrias as pudesse comandar. Esta circunstância fez-me pensar que todas as penas a que foi condenado o príncipe das Astúrias não são exactas. De resto, o interesse dos povos de Vossa Majestade e dos meus quer que nos lancemos vivamente à guerra contra Portugal. Podereis desinquietar-vos acerca dum desembarque dos ingleses na Galiza. A expedição de Portugal já falhou, há alguns anos, quando eu pensava que essa grande abertura ia ser encerrada aos ingleses, e Vossa Majestade pronunciou-se para estabelecer a paz [referência à Guerra das Laranjas]. Tenho muita confiança na vossa lealdade e nos vossos princípios políticos para recear que a mesma coisa possa acontecer hoje. Algumas discussões de palácio, que sem dúvida afligem o coração sensível dum pai, não podem ter nenhuma influência sobre os assuntos gerais. É com esta crença que eu rogo a Vossa Majestade para crer na impaciência que tenho em perceber se persistes nos mesmos sentimentos hostis contra Portugal, sentimentos esses que, todavia, no que me diz respeito, não me posso privar. Que Vossa Majestade não duvide do desejo que tenho em ver a paz restabelecida no vosso palácio, e de saber que nela encontres alguma consolação para as inquietudes que vos assolam, porque ninguém é pessoalmente mais atacado que eu. 
[Cf. Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, p. 189 (n.º 13355)].


Ainda no mesmo dia 13, a intenção de Napoleão destronar a Casa de Bragança tornava-se pública, através do periódico Gazette Nationale ou Moniteur Universele, órgão oficial de propaganda do governo francês. A decisão da corte portuguesa rumar para o Brasil será em grande parte motivada pelo conhecimento desta peça (através dos ingleses):

Paris, 12 de Novembro

Desde há dois anos para cá, a Inglaterra fez quatro expedições.
A primeira diante de Constantinopla. [...]
A segunda expedição da Inglaterra foi contra o Egipto. [...]
A terceira expedição da Inglaterra foi a de Montevideo e Buenos Ayres. [...]
A sua quarta expedição foi a mais falada. É a de Copenhaga. [...]
Depois destas quatro expedições, que demonstram tão bem a decadência moral e militar da Inglaterra, falaremos da situação em que eles deixaram hoje Portugal. O Príncipe Regente de Portugal perde o seu trono; perde-o influenciado pelas  intrigas dos ingleses; perde-o por não ter querido apreender as mercadorias inglesas que estão em Lisboa; mas o que faz a Inglaterra, essa poderosa aliada? Olha com indiferença para o que se passa em Portugal. Que fará ela quando Portugal for tomado? Irá apossar-se do Brasil? Não. Se os ingleses o tentarem, os os católicos expulsá-los-ão. A queda da Casa de Bragança será uma nova prova de que é inevitável a perda de quem se liga aos ingleses. 
[Fonte:  Gazette nationale ou Le Moniteur Universel, n.º 317, 13 Novembre de 1807. Uma notícia sobre este artigo (juntamente com um pequeno excerto referente à queda da Casa de Bragança) foi publicada poucos dias depois, no periódico Mercure de France, n.º CCCXXXI, 21 de Novembre de 1807, pp. 382-383. Uma cópia do artigo integral, em francês, foi ainda publicado por Lewis Goldsmith (org.), Recueil de Décrets, Ordonnances, Traités de Paix, Manifestes, Proclamations, Discours, &c. &c. de Napoléon Bonaparte et des membres du Gouvernement français - Troisième Volume, Londres, Imprimerie de R. Juigne, 1813, pp. 184-186. O extracto que aqui introduzimos também já foi publicado anteriormente em português por Julio Firmino Judice Biker, Suplemento á Collecção dos Tratados, Convenções, Contratos e Actos Publicos celebrados entre a Corôa de Portugal e as mais potências desde 1640 – Tomo XIV, Lisboa, Imprensa Nacional, 1879, pp. 380-381]. 

A 14 de Novembro, a Gazeta de Lisboa tornava público que um novo exército francês estava prestes a entrar na Espanha. Mais uma vez, não se mencionava o destino nem objectivo destas forças militares. Note-se que as tropas francesas do 1.º Corpo de Observação da Gironda, juntamente com a Divisão espanhola de Carrafa, começaram a entrar em Portugal apenas cinco dias depois desta notícia ter sido publicada: 


Baiona, 30 de Outubro.
O Marechal de Campo D. Pedro Rodriguez de la Buria, a quem a Corte de Espanha dera comissão para receber o Exército francês, chegou aqui a 27 deste mês para cumprimentar o General em Chefe Junot. Também chegou aqui ontem um corpo de Dragões, que partiu para Espanha. Igualmente partiu hoje para aquele Reino o mesmo General em Chefe com todo o seu Estado Maior; e já não fica aqui corpo algum de tropas. O Segundo Exército da Gironda, que dizem [que] constará de 21 mil homens, deve começar a entrar nesta cidade para meados do mês que vem. 
[Fonte: Segundo Supplemento à Gazeta de Lisboa, n.º XLV, 14 de Novembro de 1807; originalmente publicado na Gazeta de Madrid, n.º 99, 6 de Noviembre de 1807, p. 1153].

Na madrugada do dia 16, pouco antes de partir para a Itália, Napoleão recebe finalmente a ratificação do tratado de Fontainebleau, pela parte de D. Carlos IV [Cf. Juan Nellerto (pseudónimo de Juan Antonio Llorente), Memorias para la Historia de la Revolución Española - Tomo III, Paris, Imprenta de M. Plassan, 1816, pp. 38-47, p. 40 (doc. CXX)].
Nesse mesmo dia 16 de Novembro, o Moniteur publicava o decreto do rei de Espanha datado de 30 de Outubro. Dois dias depois, o mesmo periódico publicava o decreto do mesmo rei datado de 5 de Novembro, bem com as duas cartas de D. Fernando aos pais aí incluídas [Cf. Juan Nellerto (pseudónimo de Juan Antonio Llorente), Memorias para la Historia de la Revolución Española - Tomo III, Paris, Imprenta de M. Plassan, 1816, pp. 16-21]. Começava assim uma campanha pública de descredibilização da corte espanhola, que em breve se espalharia por toda a Europa...

No dia 18, Godoy acrescentava enigmaticamente a Izquierdo, numa carta, que um "terrível aspecto tomam as coisas; mas importa o segredo, assim como a observação para avisar o que for conveniente" [Cf. Juan Nellerto (pseudónimo de Juan Antonio Llorente), Memorias para la Historia de la Revolución Española - Tomo III, Paris, Imprenta de M. Plassan, 1816, pp. 5-7, p. 7 (doc. CXVIII)]. É possível que Godoy se reportasse ao 2.º Corpo de Observação da Gironda, que estava prestes a entrar na Espanha.

A 19 de Novembro, a vanguarda do exército de Junot começava a entrar em Portugal. Bastante atrás, a sua retaguarda somente entraria na Espanha no dia 21. Não obstante este facto, logo no dia 22 começavam a entrar na Espanha as primeiras tropas do General Dupont, sendo que, no dia seguinte, já tinham passado a fronteira cerca de 6380 homens do 2.º Corpo de Observação da Gironda [Cf. Gazeta de Madrid, n.º 107, 1.º de Diciembre de 1807, pp. 1246-1247]

A seguinte lista, referente ao número de efectivos deste 2.º corpo e respectivos dias de chegada a Bayonne, foi escrita na vila fronteiriça de Irun, a 20 de Novembro, ou seja, dois dias antes do referido 2.º corpo começar a entrar em Espanha. Note-se que, sem contar com as incógnitas, somam-se mais de 19.000 homens: 

[Fonte: Gazeta de Madrid, n.º 106, 27 de Noviembre de 1807, p. 1238]



Nas suas Memórias, Godoy conta que por três ocasiões (a primeira junto do rei; a segunda junto do mesmo monarca e do novo secretário da guerra, o já referido Antonio de Olaguer y Feliú, que tinha sido nomeado para este novo cargo a 25 de Novembro; e a terceira numa sessão extraordinária do conselho de Estado) tentou impedir que se verificasse a entrada deste 2.º corpo, sobretudo porque Napoleão  não o acordara previamente com a Espanha, como estava previsto no 6.º artigo da convenção anexa ao tratado de Fontainebleau. No entanto, alegadamente por não haver a mínima suspeita de Napoleão, ninguém concordou com esta proposta do Príncipe da Paz. No referido conselho extraordinário de Estado, quando Godoy acabou de fazer a sua exposição sobre este assunto, houve inclusive o seguinte diálogo:


[D. Carlos IV]: O que propões é o justo, o devido e o que exige a honra da minha coroa; mas que se fará depois, se o imperador insiste em que entrem as novas tropas?
[Godoy]: Senhor, negar a entrada com firmeza, enquanto nenhum motivo poderoso previsto no tratado possa justificá-la.
[D. Carlos IV]: E se, não obstante, as manda entrar, o que é que se poderá fazer?
[Godoy]: Defender-nos se a tal se atreve, em casa alheia e sem nenhum motivo verdadeiro; falar à nação, dizer-lhe o que ignora; confiar em Deus, na nossa boa causa e na Espanha.
[D. Carlos IV]: Resolução heróica, mas desesperada!
[Fonte: Cuenta dada de su vida política por Don Manuel Godoy, Príncipe de la Paz - Tomo V, Madrid, Imprenta de I. Sancha, 1838, p. 319-320].


Independentemente da veracidade deste diálogo, o certo é que a primeira divisão do 2.º Corpo de Observação da Gironda começou a entrar no prazo previsto por Napoleão, sem quaisquer empecilhos por parte da Espanha. Como viria a dizer o General Foy com toda a precisão, "depois do Tratado de Fontainebleau não havia mais Pirenéus" [Général Foy, Histoire de la Guerre de la Péninsule sous Napoléon - Tome III, Paris, Baudouin Frères Editeurs, 1827, p. 67].


Napoleão, entretanto, partira para Itália a 16 de Novembro, chegando a Milão no dia 21. Três dias depois, escrevera ao seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Champagny, para que este se correspondesse com o embaixador francês junto da corte espanhola. Mais uma vez, a corte espanhola ficava a conhecer as determinações do Imperador já depois dele as ter ordenado, ou seja, sem qualquer prévio acordo... 

[...] Enviai um correio extraordinário ao senhor Beauharnais, para lhe dar a conhecer que o General Dupont destaca de Bayonne uma divisão de 6.000 homens em direcção a Vitória, para que esta divisão vá reforçar o General Junot, se ele tiver necessidade. [...] 
[Cf. Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, p. 211 (n.º 13369)].


Fonte: Wikipedia
Localização do reino da Etrúria
na península itálica


Parece que um dos objectivos da viagem de Napoleão à Itália era a execução do Tratado de Fontainebleau na parte que correspondia à cedência do reino da Etrúria ao Imperador. De facto, a 23 de Novembro, D. María Luísa era surpreendida pelo embaixador francês Pierre Raymond Hector D'Aubusson, que lhe avisava que era necessário preparar-se para deixar os seus domínios, em virtude da cedência que lhe tinha feito a Espanha [Cf. Conde de Toreno, Historia del Levantamiento, Guerra y Revolución de España - Tomo I, Madrid, Imprenta de Don Tomas Jordan, 1835, pp. 43-44]
Sem conhecimento do tratado de Fontainebleau (que era secreto) e sem ter sido avisada previamente pela corte espanhola, D. María Luísa ainda escreveu uma carta a Napoleão, que lhe respondeu da seguinte maneira: 




Veneza, 5 de Dezembro de 1807

Recebi a carta de Vossa Majestade datada de 24 de Novembro. Penso que, nas circunstâncias actuais, Vossa Majestade deve ser pressionada a passar para a Espanha ou, pelo menos, a deixar um país onde não podeis mais estar com a dignidade que comporta a vossa posição. Dei ordens para que sejais recebida no meu reino de Itália ou nos meus Estados de França com as honras que vos são devidas. Se Vossa Majestade se encontrar em Milão ou em Turim antes de 18 de Dezembro, terei a vantagem de vos ver.  
Envio-vos um oficial, o meu Ajudante de Campo, o General Reille, que remeterá esta carta a Vossa Majestade. Ele será encarregue, ao mesmo tempo, de tomar as medidas para a segurança do país e de afastar os homens que podem perturbar a sua tranquilidade, pois tomei conhecimento que Vossa Majestade já achou necessário de fazer vir algumas tropas de Livorno. 
A esta hora, as minhas tropas devem ter entrado em Lisboa e apropriado-se de Portugal.  
[Cf. Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, p. 215 (n.º 13375)].


Finalmente, na noite de 9 de Dezembro, a rainha regente da Etrúria e seus dois filhos abandonavam os seus domínios para se dirigirem para a Espanha, não sem fazer uma proclamação para ser afixada no dia seguinte:

Carlos Luís, Infante de Espanha, Rei de Etrúria, etc., e em seu nome María Luísa, Infanta de Espanha, Rainha regente da Etrúria: 
Tendo-nos participado Sua Majestade o Imperador dos franceses e Rei de Itália que, em virtude dum tratado concluído com Sua Majestade Católica [D. Carlos IV], nos foram destinados outros estados em compensação do reino da Etrúria, cedido pelo dito tratado ao Imperador, consideramos finalizado o nosso governo na Etrúria desde este mesmo dia; e consequentemente levantamos à nação toscana o juramento e obrigação de obediência contraída à nossa real pessoa. 
Não podemos separar-nos de nossos amados vassalos sem lhes declarar publicamente o nosso reconhecimento e que sempre conservaremos a memória do afecto sincero que nos manifestaram durante todo o tempo do nosso governo.  
Se alguma reflexão pode diminuir-nos a pena de semelhante separação, é sem dúvida a de que o reino da Etrúria passa ao ditoso império de um Monarca dotado de todas as virtudes mais heróicas, entre as quais resplandece assinaladamente o mais constante cuidado de procurar e cimentar a prosperidade dos povos que lhe obedecem. 
Feito a 10 de Dezembro de 1807. 
María Luísa


A 6 de Dezembro, Napoleão ordena ao seu ministro da guerra para ordenar movimentações e reorganizações no 2.º Corpo de Observação da Gironda. O Corpo de Observação das Costas do Oceano também era reorganizado, e o seu comandante, o General Moncey, mandado para Bordeaux (já se prevendo assim uma deslocação daquele corpo, que como dissemos, estava a ser reunido a este de Paris). Se a desculpa de Napoleão era que Junot poderia precisar destas tropas, dever-se-á salientar que a esta altura o Imperador ainda não tinha tido conhecimento da entrada do dito General em Lisboa (que tinha ocorrido a 30 de Novembro). O secretismo de algumas ordens, no entanto, indica que Napoleão tinha outros planos:

Veneza, 6 de Dezembro de 1807

Recebi a vossa carta e a relação dos acantonamentos que destes aos regimentos provisórios que compõem o Corpo de Observação das Costas do Oceano. A minha intenção é que a brigada de caçadores se reúna em Bayonne e aí se encontre a 25 de Dezembro; que a brigada de cavalaria pesada se poste igualmente em Bayonna, de maneira a estar reunida aí no dia 20 de Dezembro. Essas duas brigadas, que serão compostas por mais de 2.000 homens de cavalaria farão parte do 2.º Corpo da Gironda, seguirão os seus movimentos e estarão sob as ordens do General Dupont. A brigada de dragões e a brigada de hussardos farão parte do Corpo de Observação das Costas do Oceano. Assim o General Dupont terá dois regimentos de caçadores e um destacamento do 10.º regimento de dragões. Dai ordem ao General Dupont para ter, a 20 de Dezembro, o seu quartel-general em Vitória, e de fazer entrar, a 16, a sua 2.ª e a sua 3.ª divisão, de maneira a ter, entre os dias 20 e 25 de Dezembro, todo o seu corpo do exército entre Vitória e Burgos, dispostos segundo as circunstâncias. Conto ter, a essa altura, 22.000 homens de infantaria, 2.500 homens de cavalaria e, juntamente com a artilharia, passar dos 25.000 homens. 
Intimai-o a não retirar o seu exército para ir a alguma conferência ou até à corte, e para velar as operações dos espanhóis, mas sem aparentar desconfiança alguma. A sua linguagem deve ser que ele se destina a suster o General Junot, e que é sabido que os ingleses meditam uma grande expedição contra Lisboa. 

General Dupont, Comandante do 
2.º Corpo de Observação da Gironda
Assim, nenhum corpo do 1.º e do 2.º Corpo de Observação da Gironda estará na França a 10 de Dezembro. Ordenareis portanto a aproximação a Bayonne das três divisões de infantaria, das duas brigadas cavalaria e da artilharia do Corpo de Observação das Costas do Oceano, de maneira que, entre 20 e 30 de Dezembro, essas divisões possam, se for necessário, entrar em campanha para suster o General Dupont. Dareis a ordem para que todos os destacamentos que estão em marcha para se reunirem ao corpo do General Junot sejam postados em Salamanca às ordens do General Dupont; isto deve totalizar um corpo de 3.000 homens. Se o General Junot tiver necessidade, o General Dupont as fará passar. Se ele não tiver necessidade, o General Dupont as conservará em Salamanca para ser reforçado conforme as necessidades do seu corpo do exército.  
O batalhão irlandês, o batalhão da Prússia e o batalhão da Westphalia farão parte do Corpo de Observação das Costas do Oceano. O batalhão da Westphalia será colocado na 1.ª divisão, o batalhão irlandês na 2.ª e o batalhão da Prússia na 3.ª; o que aumentará todas estas divisões.
O 4.º batalhão do 15.º regimento de linha, o 3.º batalhão do 47.º, o 3.º do 70.º, o 3.º do 86.º e o 2.º do 47.º, juntos com o batalhão suíço, farão uma força de 3 ou 4.000 homens, que se reunirão em Saint-Jean-Pied-de-Port. É necessário que este corpo esteja reunido aí no dia 20 de Dezembro; ele tomará o nome de Divisão de Observação dos Pirenéus Ocidentais. Dareis ordem ao General Mouton, meu Ajudante de Campo, de tomar o comando desta divisão. Disporeis para esta divisão doze peças de artilharia. 
Os diferentes destacamentos da Guarda Imperial que estão em marcha por Bordeaux reunir-se-ão nessa cidade.  
O marechal Moncey será o comandante em chefe do corpo de Observação das Costas do Oceano; isto será mantido em segredo tanto tempo quanto for possível. Entender-vos-eis com este marechal para se nomear o seu chefe do Estado-maior. Ele fará de maneira a estar em Bordeaux a 22 de Dezembro.  
[Cf. Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 216-218 (n.º 13378)].


Izquierdo, que tinha tido conhecimento que estas tropas francesas se encaminhavam para a Espanha, escreveu preocupado a Godoy, de Paris, no dia 8 de Dezembro:


[...] Todos aqui falam das ideias do Imperador em ir à Espanha. Os seus equipamentos, a sua guarda e os seus criados caminharam e caminham em direcção aos Pirenéus. Mais de cem mil homens aproximam-se deles; muitos generais, etc... Nada sei de positivo e nada posso saber, por estar a corte [de Napoleãona Itália. O Imperador pode estar de volta a Paris dentro de dez dias, e então poderei saber a direcção e natureza da tempestade que se ameaça. De tudo avisarei logo que o indague. Entretanto, os receios e desconfianças rodeiam-me, e a minha existência é amarga. [...] 
 [Cf. Juan Nellerto (pseudónimo de Juan Antonio Llorente), Memorias para la Historia de la Revolución Española - Tomo III, Paris, Imprenta de M. Plassan, 1816, pp. 54-57, p. 55 (doc. n.º CXXIII)]

A 17 de Dezembro, Napoleão toma conhecimento de que Junot já entrara em Lisboa e que o príncipe regente de Portugal tinha rumado para o Brasil, facto que parece que não lhe tivesse surpreendido muito [Cf. Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 234-235, p. 235 (n.º 13402)].
Dois dias depois, o Mercure de France publicava a seguinte notícia a este respeito:

Lisboa, 30 de Novembro. 
O marechal [sicJunot entrou em Lisboa  a 30 de Novembro, à frente do exército francês. Ele foi muito bem acolhido pelos habitantes. Sua Excelência fez imediatamente uma proclamação, segundo a qual anuncia que vem proteger a nação portuguesa, livrando-a da influência da Inglaterra. O príncipe regente de Portugal, logo que se deu conta da chegada das tropas francesas em Abrantes, decidiu retirar-se para o Brasil. Consequentemente, embarcou a 29 de Novembro, seguido das famílias mais consideráveis de Portugal, e levando consigo os seus tesouros e oito navios de linha. 

Entretanto, perante a entrada ininterrupta de franceses no seu território, parece que a corte espanhola seguiu os conselhos de Godoy e consentiu em que se fizesse regressar a Divisão de Carrafa (que, relembre-se, estava às ordens de Junot). A este respeito, Junot informou Napoleão do seguinte:

Lisboa, 21 de Dezembro de 1807
O Príncipe da Paz enviou-me agora um correio para me dar a saber dos seus receios acerca da costa da Andaluzia; parece recear seriamente um ataque dos ingleses e pede-me a Divisão espanhola que tenho sob as minhas ordens a fim de a deslocar para a costa da Andaluzia. 
Respondi ao Príncipe que, apesar do meu desejo de contribuir de algum modo para a defesa e a tranquilidade da Espanha, não podia despedir a Divisão Carrafa sem para isso ter recebido ordem de Vossa Majestade. De resto, talvez os ingleses estivessem a fingir querer atacar a costa de Cádis para depois vir rapidamente para a costa de Portugal, onde esperam encontrar os habitantes, se não dispostos a recebê-los, pelo menos a dar-lhes grande ajuda com uma sublevação. E mais disse ao Príncipe que Vossa Majestade, a quem nada escapa, já deve ter previsto todos os acontecimentos e que, nesse caso, poderá ser empregado o 2.º exército de reserva [Segundo Corpo de Observação da Gironda] onde quer que seja necessário. [...] 
[Fonte: Junot, Diário da I Invasão Francesa, Lisboa, Livros Horizonte, 2008, p. 119 (n.º 79)].

Seis dias depois, o mesmo Junot escrevia a Napoleão ainda sobre este assunto, revelando novos pormenores dos boatos que começavam a surgir. Estes boatos contribuirão indubitavelmente para o Imperador destinar mais reforços militares para entrarem em Espanha e se dirigirem para Cádis, como adiante veremos...

Lisboa, 27 de Dezembro de 1807
[...] Os espanhóis continuam a falar dos seus receios quanto à costa da Andaluzia, mas eu julguei não dever tomar a decisão de lhes enviar a divisão Carrafa sem ter recebido ordens de Vossa Majestade. Fala-se em Madrid de uma viagem da corte a Cádis: quererá ela fazer como a corte de Portugal e partir para alguma das suas colónias? Creio dever dizer a Vossa Majestade tudo o que ouço: as coisas que aos homens ordinários pareciam, por vezes das inverosímeis são, com frequência, as que mais importa que o homem de génio saiba. [...] 
[Fonte: Junot, Diário da I Invasão Francesa, Lisboa, Livros Horizonte, 2008, p. 122 (n.º 80)].

Entretanto, a 20 de Dezembro, Napoleão avisara Junot de que o General Dupont já estabelecera o seu Quartel-General em Vitória e a sua primeira divisão em Badajoz. Três dias depois, em nova correspondência, Napoleão remete a Junot o seu secreto decreto de 23 de Dezembro, que previa, entre outros termos, que o 2.º Corpo de Observação da Gironda fosse pago, a partir da data de 1 de Dezembro, com o dinheiro proveniente duma pesada contribuição que seria imposta sobre Portugal. Por outro lado, as regalias que Napoleão permitia ao 1.º corpo de Observação da Gironda (o exército de Junot) através desse decreto mostram que o Imperador queria as suas tropas animadas e satisfeitas. 

Ainda no dia 23, Napoleão escreve ao ministro da guerra, formulando uma nova composição da recém criada Divisão de Observação dos Pirenéus Ocidentais [Cf. Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 234-235, pp. 250-251 (n.º 13411)]
Noutra carta ao mesmo remetente, Napoleão voltava a ordenar também nesse dia que o 2.º Corpo de Observação da Gironda avançasse mais para dentro da Espanha e que o Corpo de Observação das Costas do Oceano começasse a entrar na Espanha. Não se contentado com estas tropas, Napoleão ainda previa que no início de Janeiro também começasse a entrar na Espanha a Divisão de Observação dos Pirinéus Ocidentais e que, entretanto, se começasse a formar uma nova divisão, nos Pirenéus orientais.



Milão, 23 de Dezembro de 1807

Senhor General Clarke, dai ordem ao General Dupont para ter, no dia 10 de Janeiro, o seu Quartel-general em Valladolid, onde ele reunirá todo o corpo do seu exército, tendo cuidado, sem demonstrá-lo, de velar a ponte sobre o Douro [pela qual se ia para Madrid], e de ter destacamentos em Salamanca, como que para ir pela rota de Lisboa. Ele reunirá víveres em Valladolid por todos os meios possíveis e acabará de organizar completamente o seu exército. Ele terá o cuidado de dispor numa mesma divisão os três batalhões de cada uma das cinco legiões de reserva. Enviai-lhe um oficial a Vitória, para que eu tenha a conta exacta do seu corpo e saiba bem com o que posso contar. Dai ordem para que as 500.000 rações de biscoito que tinha feito fabricar em Bayonne sejam transportadas a Vitória, para aí ficarem em reserva.
Dai ordem ao Marechal Moncey para organizar o Corpo de Observação das Costas do Oceano segundo a organização original que eu tinha ordenado, e para entrar em Espanha sem demora, de maneira a que a sua primeira divisão esteja em Vitória a 5 de Janeiro, a segunda divisão com o seu Quartel-general a 10, e a terceira a 12. 
Dai ordem ao corpo que está em Orléans para se unir ao Marechal Moncey, a fim de formar as divisões como eu tinha originalmente ordenado. 
Dai ordem sem demora para formar a Divisão de Observação dos Pirinéus [Ocidentaiscom 1.000 homens por batalhão. Não sei a força que destes a esses batalhões no vosso estado de situação. Fazei-me conhecer qual será a força desta divisão a 1 de Janeiro. Se ela então tiver a força de 4.000 homens e pelo menos seis peças de canhão, dareis ordem ao General Mouton para se dirigir para Pamplona e entrar nesta praça a 8 de Janeiro. 
Dai ordem para que a divisão do General Lechi, composta de italianos e de napolitanos, a brigada do General Bessières, e os regimentos suíços e franceses que estão reunidos em Perpignan sejam reunidos sob o nome de Divisão de Observação dos Pirinéus Orientais; que esta divisão se reunisse, a 1 de Janeiro, em Perpignan, e que ele aí tenha para a comandar três generais de brigada. Fazei transportar a Bellegarde as 200.000 ração de biscoito que eu tinha mandado fabricar em Perpignan, e tomai todas as medidas para que esta divisão, que suponho que deverá ter a força de 8 a 10.000 homens, esteja pronta a agir à primeira ordem que eu der. 
Tomai todas as medidas para que estes diferentes corpos estejam perfeitamente organizados e com a artilharia em regra. [...]  
[Cf. Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 252-253 (n.º 13413)].


A 25 de Dezembro de 1808, a Gazeta de Madrid  publica a seguinte notícia:


Irun, 18 de Dezembro 
Em finais de Novembro tinham transitado por esta vila 27.455 homens e 3.359 cavalos pertencentes ao exército do General Junot. Do que tem às suas ordens o General Dupont, tinham passado 6.306 homens. No mês de Dezembro, até à data presente, passaram igualmente vários destacamentos dos batalhões provisórios, da artilharia da marinha, da guarda imperial e de dragões, que compõem no total 2.345 homens e 53 cavalos; a maior parte vai reunir-se aos corpos do comando do General Junot. Em Bayonne e arredores há perto de 8.000 homens, que devem incorporar-se no segundo exército do General Dupont.

A 1 de Janeiro de 1808, nova notícia:

Irun, 25 de Dezembro. 
No dia 19 do corrente mês passaram por esta vila 3.000 homens de tropas francesas de infantaria e 500 de cavalaria, que foram dormir em Hernani. No dia 20 entraram 4.700 homens, com um trem e carros de artilharia e fráguas. No dia 21 entraram mais de 3.000, e a 22 entraram 2.000 com o General em Chefe Dupont. No dia 23 passaram uns 30 cavalos e um batalhão de infantaria. O total das tropas francesas que entraram em Espanha desde o dia 19 alcança os 14.000 homens de infantaria e entre 500 a 600 de cavalaria. [...]

 A 12 de Janeiro, a mesma Gazeta de Madrid continua a publicar mais informações: 

Irun, 4 de Janeiro de 1808. 
Desde o dia 19 do passado mês até hoje transitaram por esta vila as tropas francesas seguintes: 
Dia 19: Primeira brigada composta pela quinta legião de reserva, 1.983 homens; do primeiro batalhão do terceiro regimento suíço, 1.183; e de um trem de artilharia, 60 homens e 119 cavalos.  
Dia 20: Segunda brigada composta pela primeira legião de reserva, 3.034 homens; do terceiro batalhão da quarta legião de reserva, 874 homens; e de um trem de artilharia, 60 homens e 120 cavalos. 
Dia 21: Terceira brigada composta por um batalhão de infantaria ligeira, 1.200 homens; um batalhão suíço, 1.191; do primeiro batalhão da segunda legião de reserva, 1.200; uma companhia de artilharia, 34 homens e 60 cavalos; um destacamento de 12 dragões montados, e outro de artilharia da guarda imperial, 67 homens e 141 cavalos.  
Dia 22: Diferentes corpos e destacamentos de cavalaria e infantaria e trens de artilharia. O Quartel-general com o General em Chefe Dupont, o seu Estado-maior e vários comissários e empregados de todas as classes, 1.653 homens com 740 cavalos. 
Dias 23 e 24: Vários destacamentos e empregados, 226 homens. 
Dia 25: Terceiro batalhão da quinta legião de reserva, 633 homens; empregados de diferentes classes, 16. 
Dias 28 e 29: Cada dia um regimento de cavalaria de 600 homens e 600 cavalos.
Dia 30: Um regimento de cavalaria de 600 homens e outros tantos cavalos; e um batalhão de infantaria, 750 homens. 
Dia 31: Um regimento de cavalaria, 600 homens e 600 cavalos e 300 peões. 
Dia 2 de Janeiro: Chegaram 26 carros de munições de artilharia.
Dia 3: Entrou o primeiro batalhão da segunda legião de reserva, 627 homens.
Dia 4: Chegaram 3 destacamentos que compõem 327 homens de infantaria e 42 de cavalaria. 
Nestes mesmos dias passaram vários generais dos que servem às ordens do General Dupont: os Generais de divisão Fresiar, Brousar e Malher, e os de brigada Rigaud, comandante dos couraceiros, Fautier da artilharia, Dabadie dos engenheiros, e Castellani, coronel dos suíços. O General Barbou, comandante da vanguarda, esta já há algum tempo em Vitória. 
O Marechal Moncey chegou ontem a Bayonne, e imediatamente saiu para Pau, para passar revista a algumas tropas que se acham acantonadas naquela cidade. 
[Fonte: Gazeta de Madrid, n.º 4, 12 de enero de 1808, pp. 43-44]


Segundo os números apontados, até 4 de Janeiro de 1808 tinham já entrado por Irun cerca de 40.500 homens do 2.º corpo de Observação da Gironda. Somando-se estes com os soldados de Junot, totalizam-se cerca de 68.000 homens. Segundo a convenção assinada junto do Tratado de Fontainebleau, se entrassem ambos os corpos estariam na península precisamente 68.000 militares do exército francês, embora o 2.º corpo só devesse entrar em caso de ataque dos ingleses, o que não se tinha verificado. Como adiante veremos, continuariam no entanto a entrar mais tropas. Dever-se-á dizer ainda que, para além dos dados apontados, começaram também a entrar outras forças francesas, a partir de finais de Dezembro, pela fronteira perto de Pamplona, embora não se conheça o seu exacto número (talvez cerca de 4.000 homens, se tivermos em conta a carta de Napoleão de 23 de Dezembro, acima transcrita) [Cf. também com Archivo Histórico Nacional de España, "Correspondencia del Marqués de Vallesantoro, Virrey y Capitan General de Navarra, sobre la entrada de las tropas francesas en el reino y su capital", ES.28079.AHN/5.1.145.4.1.1.57.2//DIVERSOS-COLECCIONES,136,N.30]



Entretanto, a 2 de Janeiro de 1808, o Mercure de France publicara a seguinte notícia:

Lisboa, 7 de Dezembro. 
Depois da partida do príncipe, a tranquilidade está inteiramente restabelecida no reino. As tropas francesas tomaram posse de Portugal inteiro. A quantidade de artilharia que aí se encontra é imensa; do forte de São Julião até ao forte de Belém foram encontrados mais de 500 canhões. Os ingleses fizeram um simulacro de desembarque no forte de Peniche, mas puseram-se ao largo quando o General Loison marchou para aí à frente das suas tropas. [...] 
A 3 de Dezembro, a bandeira tricolor foi arvorada em todos os fortes. O exército português, composta de vinte e quatro regimentos de infantaria e de seis de cavalaria, formando no total dez mil homens armados, vai ser organizado em legião ao serviço da França. [...]
 Avalia-se, segundo se diz, em 250 milhões de cruzados os tesouros do príncipe e dos que o seguiram [para o Brasil]


A 3 de Janeiro, o D. Carlos IV emitia um decreto segundo o qual adoptava totalmente as disposições de Napoleão a favor do bloqueio continental contra a Inglaterra [Cf. Gazeta de Madrid, 8 de enero de 1808, pp. 33-34]. A a 23 do mesmo mês, o Mercure de France noticiaria este facto [Fonte:  Mercure de France, n.º CCCXL, 23 Janvier 1808, p. 188]

O próprio Napoleão, que regressara a Paris na noite de 1 de Janeiro, escrevia poucos dias depois ao seu ministro da guerra, para que se ordenasse a Junot para que apressasse a execução das ordens que tinha recebido, carta esta que já foi transcrita noutra ocasião

A 7 de Janeiro, Napoleão escrevia a Moncey, Marechal do Império e Comandante do Corpo de Observação das Costas do Oceano, que entretanto já entrara na Espanha, quatro dias antes:



Fonte: Wikipedia
Marechal Moncey, 
Comandante em chefe do Corpo
de Observação das Costas do Oceano


Paris, 7 de Janeiro de 1808

[...] O vosso Quartel-general deve estar em Vitória a 10 de Janeiro. No entanto, não esforceis a marcha de tropa alguma; não há pressa. Enviai ao ministro da Guerra relatórios bem exactos da situação do vosso exército. Deixar-vos-ei estar alguns dias na Biscaia,  para que possais formar e organizar bem as vossas divisões. Vejo pela vossa carta que a vossa primeira divisão não estaria em Bayonne antes de 4 de Janeiro. É inútil, como vos disse previamente, que, para executar rigorosamente as ordens do ministro, façais alguma marcha forçada às vossas tropas. Dai contas exactas ao ministro da guerra, o que não impede que me escrevais algumas vezes. A partir do momento que estejais dentro da Espanha, enviai oficiais pela direita e pela esquerda, e recolhei informações sobre a situação e espírito do país. [...] 
[Cf. Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, p. 275 (n.º 13436)]. 




Fonte: Europeana
General Mouton,
Comandante da Divisão
de Observação dos
Pirenéus Ocidentais



A carta anterior foi expedida juntamente com outra do mesmo remetente, endereçada ao General Mouton (até aí comandante da Divisão de Observação dos Pirenéus Ocidentais), para que este deixasse o seu comando e entrasse na Espanha:

Paris, 7 de Janeiro de 1808

Senhor General Mouton, deixai o comando da vossa divisão ao oficial que julgueis ser o mais capaz, e passai a Vitória e a Valladolid. Percorrei os campos das tropas francesas, apreendei informações sobre a situação das praças-fortes espanholas, sobre as movimentações que aí se fazem, sobre as cidades, sobre a opinião pública. Enviai-me relatórios sobre a situação das minhas tropas, corpo por corpo, infantaria, cavalaria, artilharia, oficiais generais, etc. Escrevei-me longamente todos os dias.  
[Cf. Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 275-276 (n.º 13437)]. 



A 9 de Janeiro, Napoleão escreve uma carta ao seu ministro da guerra, onde lhe manda aprontar mais de cem viaturas para transportar artilharia para o sul da França, adiantando que


[...] Já o General Junot tem, em Portugal, uma quantidade imensa de artilharia, e sejam quais forem os acontecimentos, os espanhóis poderão rapidamente fornecê-la. Fazei-me conhecer onde estão os arsenais espanhóis; creio que eles estão ocupados pelas nossas tropas, pelo que poderemos aproveitar os seus recursos. [...]
[Cf. Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 277-278 (n.º 13440)]. 


A 10 de Janeiro, Napoleão escreve duas cartas ao rei espanhol. Perante as medidas que ia tomando, note-se a falsidade e hipocrisia de suas palavras:



Paris, 10 de Janeiro de 1808

Encontrava-me na Itália quando recebi a carta de Vossa Majestade datada de 18 de Novembro, pela qual me fazia conhecer o seu desejo de consolidar os nós dos dois estados, unindo o príncipe das Astúrias a uma princesa da França. Compartilho os sentimentos de Vossa Majestade; consinto voluntariamente essa aliança. Mas Vossa Majestade deve compreender que nenhum homem de honra quererá aliar-se a um filho desonrado pela vossa Declaração [Napoleão refere-se ao manifesto de 31 de Outubro, acima transcrito], sem ter a certeza que ele readquiriu todas as vossas boas graças. Vossa Majestade não duvide do meu desejo de dissipar todas as dificuldades e obstáculos que se ergueram entre ele e eu, a fim de que, com o nosso conserto, possamos de novo tomar todas as medidas necessárias para submeter os nossos implacáveis inimigos. 

*

Paris, 10 de Janeiro de 1808

Recebi a carta de Vossa Majestade. Penso que os acontecimentos ainda não estão suficientemente consolidados para publicar a convenção que fizemos sobre a sorte futura de Portugal. Primeiro é preciso nomear os comissários para se fixar os limites e tomar todas as medidas convenientes para assegurar as condições dos povos, que poderiam ser comprometidas por medidas ao acaso ou precipitadas.
[Cf. Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, p. 281 (n.os 13443 e 13444)]. 
                                                 

Dois dias depois, em carta ao seu ministro dos Negócios Estrangeiros, diz Napoleão:

Paris, 12 de Janeiro de 1808

Senhor de Champagny, reenvio-vos os vossos relatórios. [...] Li com atenção as novidades de Espanha e Portugal. É necessário fazer uma notícia histórica da conspiração [do Escorialsegundo os boletins e a correspondência do senhor Beauharnais, para que eu possa fazer uso dela segundo as circunstâncias. Escrevei ao General Junot para se manter senhor do reino de Portugal por inteiro, até que os comissários sejam nomeados para se fixar as linhas de demarcação, e que foi feita uma convenção sobre este efeito.  
[Cf. Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 287-289 (n.º 13446)]. 


Entretanto, as tropas do Corpo de Observação das Costas do Oceano, comandado pelo Marechal Moncey, tinham começado a entrar na Espanha. A lista que seguidamente se transcreve dá conta do número de militares deste corpo que, entre 9 e 18 de Janeiro, passaram por Irun:

Dia 9: Um regimento de infantaria, 2.700 homens.  
Dia 10: O regimento de infantaria n.º 88, 2.900 homens.
Dia 11: Um regimento provisório, 2.466 homens e 72 cavalos.
Dia 12: Partidas de vários regimentos, 3.101 homens. 
Dia 13: Um regimento de infantaria, 1.423 homens, 2 canhões, 6 obuses, uma frágua e 28 carros de munições.
Dia 14: Um regimento prussiano e outro provisório, 1.326 homens.
Dia 15: Trem de artilharia, 119 homens, 246 cavalos, 6 canhões, 6 obuses, uma frágua e 36 carros de munições.
Dia 16: Alguns destacamentos e mais artilharia, 341 homens, 303 cavalos, 2 canhões, 3 obuses, uma frágua e 30 carros de munições.
Dia 17: Hussardos e várias partidas de infantaria, 561 homens e 65 cavalos.
Dia 18: Dragões e partidas de diferentes corpos, 1.216 homens e 972 cavalos.
Os Generais que mandam nestas tropas e passaram também por esta vila são o General em Chefe Marechal Moncey, e os Generais HarispeMorlotLefebvreMeunier, Bedel, Gonis, WatierBroussier Gobert.


No dia 22 de Janeiro, finalmente, a rainha regente da Etrúria entrava na Espanha com os seus filhos, passando essa primeira noite em Girona [Cf. Gazeta de Madrid, n.º 11, 5 de febrero de 1808, p. 130]. Pelo caminho que a sua comitiva percorreu, é bastante provável que tenham passado, nas imediações de Perpignan, por alguns corpos da Divisão de Observação dos Pirinéus Orientais. Nesse mesmo dia 22, talvez alertado pela referida comitiva, o capitão geral da Catalunha, conde de Santa Clara, expediu um aviso à corte sobre o que se observava na fronteira e sobre rumores daquelas tropas entrarem na Espanha nos próximos tempos. Em resposta, datada de 3 de Fevereiro, eram dadas ordens para que, se aquelas tropas tentassem entrar no território espanhol, deveriam ser travadas, por não haver ordem nenhuma sobre o assunto. Esta resposta, contudo, provavelmente chegou à Catalunha já depois de nela terem entrado mais de 11.000 homens, no início da segunda semana de Fevereiro [Cf. José Gomez de Arteche y Moro, Guerra de la Independencia. Historia Millitar de España de 1808 a 1814 - Tomo I, Madrid, Imprenta del Credito Comercial, 1868, p. 222].

No mesmo dia 22 de Janeiro, François de Beauharnais, que como vimos era o embaixador francês junto da corte, entrega a Godoy a seguinte nota:

Senhor:
Um correio extraordinário acaba de me entregar uma notícia que tenho ordem para comunicar à corte de Madrid. Sua Majestade Imperial e Real pensa que, para assegurar o êxito completo da expedição de Portugal e para manter nela a tranquilidade pública, sempre exposta num país recentemente conquistado, é necessário que o senhor General Junot, encarregado de dirigir toda aquela expedição, se mantenha dono do reino de Portugal inteiramente, até que se tenham nomeado comissários para reconhecer as linhas de demarcação dos diferentes Estados que se formarão em Portugal, e até que se conclua uma convenção sobre este efeito. Esta medida não se dirige senão a precaver, por meio duma polícia mais fácil e activa, qualquer agitação, pois haveria menos união em todas as operações de guerra e de administração se não estivessem dirigidas nas diferentes partes do Reino por um só e único chefe. Sua Majestade Católica não deve, senhor, considerar esta medida senão como provisória e como um meio para passar a uma ordem de coisas definitiva e que realmente não se poderá estabelecer enquanto não se tenha consolidado a conquista.
Tenho a honra de pedir a V.ª Ex.ª que tenha por bem pôr esta nota em conhecimento de Sua Majestade Católica e fazer-me saber a sua decisão para informar nela imediatamente a Sua majestade Imperial e Real.
[Fonte: José Gómez de Arteche, Reinado de Carlos IV - Tomo III, Madrid, El Progreso Editorial, s.d., p. 225].


Godoy enviou no dia 27 de Janeiro ofícios aos Generais Solano e Taranco (que poucos dias antes morrera), nos quais manifestava a "solicitação" do embaixador de França. Copiando-lhes a nota anterior, acrescentava:

Inteirando-se V.ª Ex.ª do seu conteúdo, e enquanto não se explique melhor o sentido dela, deferirá no que respeita a questões económicas o que faça o governo de Lisboa; mas V.ª Ex.ª pedirá a este mesmo governo a manutenção e assistência das nossas tropas em todos os ramos, pois segundo o próprio tratado a que se refere a nota, não podem negar estes auxílios. Assim nos manda Sua Alteza manifestá-lo a V.ª Ex.ª para o seu governo e cumprimento, e encarregar-vos ao mesmo tempo para que proceda em tudo com a maior prudência, viva com precaução e observe o mais inviolável segredo.
[Fonte: José Gómez de Arteche, Reinado de Carlos IV - Tomo III, Madrid, El Progreso Editorial, s.d., pp. 226-227].


Entretanto, a 16 de Janeiro publicara-se no Mercure de France a seguinte notícia, que viria a servir de pretexto para a entrada de ainda mais tropas francesas na Espanha:

Londres, 22 de Dezembro [de 1807]

Sir John Moore chegou no dia 25 de Novembro a Gibraltar com um comboio de quinze embarcações, que tinha a bordo 9.000 homens de tropas vindas de Siracusa. 


Antes de continuarmos, façamos um pequeno parêntesis: a batalha de Trafalgar, ocorrida a 21 de Outubro de 1805, foi em parte provocada pela precipitação do Almirante francês Villeneuve, que tinha recebido alguns dias antes uma carta onde era informado que ia ser destituído do seu posto, em virtude de não conseguir furar o bloqueio inglês e sair de Cádis, onde estava ancorada a sua esquadra de dezoito navios. Tentando mesmo assim mostrar o seu valor, teve o azar de perder treze navios naquela que foi considerada a maior batalha naval da idade moderna. O Vice-Almirante Rosily, referido no documento seguinte, era quem ia substituir o Almirante Villeneuve, mas ao chegar a Cádis pouco depois do desastre de Trafalgar, encontrou apenas cinco navios franceses... Desde então, Rosily tinha ficado com esta pequena esquadra naquele porto, apesar de Napoleão pelo menos por duas vezes (a 15 de Setembro e a 12 de Dezembro de 1807) ter ordenado que esta esquadra se deveria mover para o porto francês de Toulon, o que não se conseguia realizar precisamente pelo facto dos ingleses persistirem no seu bloqueio a Cádis. Se dezoito navios não tinham conseguido furar o bloqueio inglês, não eram agora cinco navios que iam consegui-lo. Pelo mesmo motivo seria difícil fazer entrar em Cádis novos navios. Mas como aí se encontravam outros seis navios espanhóis [Cf. Arquivo Histórico Militar, 1.ª div., 13 .ª sec., cx 25, doc. 09, fls 4-6], Napoleão pensou antes em fazer uma requisição ao rei espanhol, como se depreende do seguinte documento, uma carta do Imperador ao seu Ministro da Marinha. Não obstante, parece que entretanto lhe passou a pressa em retirar esta esquadra de Cádis: 


Réplica do navio Montañés,
por Emilio Blanco Monje
Paris, 27 de Janeiro de 1808

Senhor Decrès, pedi ao rei de Espanha, de maneira a não me poder recusar, que o navio de 120 canhões Príncipe de Asturias e o Montañés me sejam cedidos; em troca, cederei ao rei de Espanha o navio l'Atlas de 74, que está em Vigo. Dareis ordem ao Vice-Almirante Rosily para arvorar o seu pavilhão no Príncipe de Asturias, e para recompor o equipamento dos dois navios espanhóis com o de todos os navios da esquadra; a minha esquadra, que actualmente tem cinco navios, com estes dois totalizará sete; e somando-os ao navio espanhol San Justo, serão oito navios bem equipados. 
Igualmente pedi ao rei de Espanha para que tomasse as medidas eficazes oara mandar armar em Cádis quatro navios para se unirem à minha esquadra, de maneira que haja em Cádis sete navios franceses e cinco espanhóis, ou seja, doze navios. Reitero também a ordem para que a esquadra de Cartagena, composta de dois navios de três cobertas, dois navios de 80 [canhõese três fragatas, passe a Toulon. Se assim acontecer, encontrar-me-ei com dez navios franceses e sete espanhóis, e em Cádis outros doze navios, a saber: sete navios franceses e cinco espanhóis.
[Cf. Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 330-331 (n.º 13493)]. 


As movimentações dos ingleses em Gibraltar servirão de pretexto para fazer entrar mais tropas francesas na Espanha, a fim de se dirigirem à esquadra de Cádis, e apetrechá-la com alguns milhares de tripulantes. No dia 28, Napoleão escreve ao seu ministro dos negócios estrangeiros precisamente sobre este assunto:


Paris, 28 de Janeiro de 1808

Senhor de Champagny, escrevi-vos ontem para pedir à Espanha dois navios. Desejo que informeis o senhor Beauharnais que é necessário que a corte de Espanha dê ordens para que uma divisão de 15.000 homens, que está em Perpignan, seja recebida em Barcelona, para daí partir para Cádis. Esta divisão repousará alguns dias em Barcelona, e continuará a sua rota até Cádis logo que as ordens sejam dadas pela corte de Espanha. O senhor Beauharnais não fará esta revelação até ao dia 9 de Fevereiro, a não ser que entretanto receba uma contra-ordem. Fazer-lhe-eis saber igualmente que um outro corpo de 4.000 homens deve também passar a Cádis, mas que, contudo, não marchará antes disto ser arranjado com o governo espanhol; que este corpo será destacado do exército do General Dupont, que está em Valladolid, ou do exército do Marechal Moncey, ao qual dou ordem para marchar para Burgos. 
[Cf. Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 331-332 (n.º 13495)]. 


Sem esperar qualquer determinação favorável da parte da Espanha, Napoleão escreve no mesmo dia ao seu ministro da Guerra:


Paris, 28 de Janeiro de 1808

Fazei vir até vós o General Duhesme, e dai-lhe ordem de partir durante o dia com as seguintes instruções:  
Ele chegará a Perpignan a 4 de Fevereiro; partirá entre 6 e 8 com a sua divisão; entrará na Espanha a 9 e dirigir-se-á direito a Barcelona. Ele informará o Governador que tem ordem para passar a Cádis, e que espera em Barcelona pela decisão da corte de Espanha sobre este assunto; que as etapas [do caminho a percorrer] estão preparadas. Ele informar-vos-á sobre a situação das praças e depósitos que formam a guarnição, sem nada fazer que possa lançar suspeitas de estar fazendo disposições desfavoráveis aos espanhóis. Ele fará fuzilar o primeiro italiano que falte à disciplina, que será observada rigorosamente. Ele terá consigo um General de brigada francês. Suponho que ele tem 6.000 homens, 1.000 cavalos e dez peças atreladas, juntamente com os cartuchos e tudo o que lhe é necessário para fazer uma campanha. Ele escreverá todos os dias desde que ponha os pés na Espanha, a fim de fazer conhecer a disposição dos espírito, a situação das praças-fortes, e o que ele tenha diante de si desde Barcelona até ao rio Ebro 
Escrevei por um oficial ao Marechal Moncey para postar o seu Quartel-general em Burgos a 10 de Fevereiro, com duas divisões e toda a sua cavalaria [...]. Ele terá o cuidado de expandir uma das suas divisões, sob o pretexto de falta de víveres, até Aranda, e terá em Vitória a sua última divisão. Ele dirá que ele se estende assim para poupar os recursos de víveres e não oprimir essa região. Enviareis esta ordem por um oficial que vos informará bem da situação dos espíritos desse lado. 
[Cf. Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 332-333 (n.º 13496)].  


As verdadeiras intenções de Napoleão começam cada vez a se tornar mais claras... Ainda no dia 28, Napoleão escrevia uma nova carta ao seu ministro da Guerra: 


Paris, 28 de Janeiro de 1808

Senhor General Clarke, dai ordem ao General de Brigada Darmagnac para partir no dia de amanhã e dirigir-se para Saint-Jean-Pied-de-Port, onde tomará o comando da Divisão dos Pirenéus Ocidentais, [previamentesob as ordens do General Mouton. Procurareis o General Darmagnac antes de o fazer partir, e remeter-lhe-eis uma ordem, por escrito, para chegar a Saint-Jean-Pied-de-Port a 3 de Fevereiro, a fim de poder partir no dia 6 para se dirigir para Pamplona, onde estará no dia 9 de Fevereiro. Ele deve ter 3.000 homens de infantaria e doze peças de canhão. Uma vez chegado a Pamplona, ele esperará novas ordens; tomará posse da praça-forte, sem se deixar revelar, ocupará a cidadela e as fortificações; e tratará com cortesia os comandantes e os habitantes, sem fazer novas movimentações e dizendo que espera novas ordens.
Napoleão 
P.S. Independentemente das cartas que o General Duhesme vos escreva, ele corresponder-se-á igualmente com o Marechal Moncey; independentemente das cartas que o General Darmagnac vos escreva, ele corresponder-se-á com o General Mouton, que deve estar perto do Marechal Moncey, e, perante quaisquer acontecimentos extraordinários, ele prevenirá sempre o Marechal Moncey. 
[Cf. Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, p. 333 (n.º 13497)].  

Antes ainda de entrarem estas últimas tropas, continuaram outros contingentes a entrar por Irun, até ao início de Fevereiro:


Dia 19 de Janeiro: Um trem de artilharia com 8 canhões e 4 obuses, 3 fráguas, 34 carros de munições, 5 de equipamento, 74 homens de cavalaria e 230 de infantaria, com 3 oficiais. Passou também aqui há muito tempo o regimento de Westphalia. Pela noite chegou o sr. Tabouseau, auditor do conselho de estado, que vai em diligência até Lisboa.  
Dias 20, 21 e 22: Diferentes partidas de infantaria, que compõem 564 homens, com os Generais Privé e Mouton, Ajudante de Campo do Imperador.
Dias 26, 27, 28 e 29: Alguns destacamentos que compõem um total de 580 soldados de infantaria e 150 de cavalaria.
Dias 30 e 31: Trezentos e vinte homens de infantaria em várias partidas, com os Generais Dufour e Borel.
Dia 1 de Fevereiro: Quatro batalhões incompletos, que ascendem a 1.800 homens de infantaria.   
Hoje [1 de Fevereiro] saíram daqui [Irun] para Aranjuez 15 cavalos de coches, que o Imperador Napoleão envia de presente ao Rei nosso senhor.

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É neste cenário que a península acaba o mês de Janeiro de 1808. Por um lado, Napoleão tinha conseguido retirar para fora da Espanha quase 40.000 militares espanhóis (cerca de 24.000 em Portugal e outros 15.000 no norte da Europa). Por outro lado, a Península enchera-se literalmente de franceses em pouco mais de três meses: as tropas de Junot ascendiam a quase 27.500 homens, as de Dupont a cerca de 40.500 homens e as de Moncey a cerca de 20.000 homens. Para além destes, estava já prevista a entrada no início de Fevereiro doutros 19.000 militares estacionados na zona de Perpignan, e de cerca de 4.000 acantonados a menos de 100 quilómetros de Pamplona. Ou seja, segundo as previsões do Imperador, em toda a Península estariam, no início de Fevereiro, mais de 110.000 militares dos exércitos napoleónicos. 
Percebe-se assim a pressa que Napoleão tinha em que, no máximo até Fevereiro, Junot tomasse Portugal por inteiro, como atrás se indicou. A decisão de Napoleão em apossar-se de toda a península era agora, mais que nunca, bastante clara...

Exército francês na Península (em finais de Janeiro de 1808)

A azul claro, os principais pontos ocupados pelo 1.º Corpo de Observação da Gironda (comandado por Junot);
A azul escuro, a disposição do 2.º Corpo de Observação da Gironda (comandando por Dupont);
A amarelo, a disposição do Corpo de Observação das Costas do Oceano (comandado por Moncey);
A vermelho, a disposição da Divisão de Observação dos Pirenéus Ocidentais (inicialmente comandada por Mouton, depois por Darmagnac); 
A verde, a disposição da Divisão de Observação dos Pirenéus Orientais (comandada por Duhesme);
A violeta, a esquadra francesa em Cádis (chefiada pelo Vice-Almirante Rosily);
A negro, o caminho entre Bayonne e Lisboa, onde se concentravam as tropas já entradas na Espanha.
Indicam-se também, com as cores respectivas a cada corpo ou divisão, as movimentações previstas para o início de Fevereiro. Neste sentido, indicam-se dois trajectos possíveis para as movimentações do 2.º Corpo de Observação da Gironda em direcção a Cádis. Apesar de por enquanto não o manifestar, o traçado escolhido por Napoleão seria o que passava por Madrid.


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Curiosamente, no início de Fevereiro aparecia na Gazeta de Madrid uma notícia sobre uma obra que então se republicara, intitulada Profecía-política, verificada en lo que está sucediendo a los portugueses por su ciega afición a los ingleses. Segundo o redactor da referida notícia, "esta obra não pode deixar de excitar actualmente a atenção pública ao ver o que se passa; e se hoje se houvesse de escrever alguma coisa coisa sobre a sorte daquele reino, parece que não se poderia falar com mais razão ou sensatez depois de ver o que se passou" [Cf. Gazeta de Madrid, n.º 12, 9 de febrero de 1808, p. 144]. Por tudo o que deixamos indicamos, parece que o dito redactor não se dava conta de que a sorte da Espanha não estava a ser muito diferente, e que, aliás, como mais adiante se veria, um bem pior destino estava-lhe reservado...
[Nota: A citada obra foi publicada originalmente em 1762 em Madrid, como se pode ver na folha de rosto da edição portuguesa de 1808: Profecia politica, Verificada no que está sucedendo aos Portugueses pela sua céga affeiçaõ aos Inglezes: Escrita depois do Terremoto do anno de 1755, e publicada por ordem superior no anno de 1762, em Madrid. Traduzida do Hespanhol, Lisboa, Typografia Rollandiana, 1808].

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