terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Pastorais do Cardeal Patriarca de Lisboa e do Bispo de Lamego





D. José Francisco Miguel António de Mendonça (1725-1818), 5.º Patriarca de Lisboa desde 1786 e nomeado Cardeal pelo Papa Pio VI, em 1788, foi também Capelão mor da rainha D. Maria I. Segundo as instruções do Decreto de 26 de Novembro de 1807, era a este clérigo que os governadores escolhidos para a Regência deveriam deveriam prestar juramento do cumprimento das ordenações do príncipe regente.
Acontece que, logo no dia 1 de Dezembro, segundo o manuscrito já citado de Domingos Alves Branco Muniz Barreto, "o Cardeal Patriarca mandou, pelo seu secretário, cumprimentar o General Mr. Junot, significando-lhe que não o podia fazer pessoalmente, em razão da sua avançada idade e graves moléstias. Foi recebido este cortejo com muita benignidade, e agradecendo-lhe a visita, mandou-lhe significar, contudo, que tinha a maior precisão de lhe falar sobre coisas relativas à religião e ao seu clero, ao que resultou nessa mesma tarde ir pessoalmente o Cardeal Patriarca à casa da residência do General em Chefe, aonde se apeou com muito custo, e subindo as escadas quase nos braços de dois oficiais franceses que desceram à porta da rua a recebê-lo, o General Mr. Junot o veio buscar ao patamar da escada, e com os maiores cumprimentos e cerimónias, o conduziu à sala grande, aonde o fez sentar, e com ele se demorou duas horas. Nas despedidas, quis acompanhá-lo até ao coche, no que não quis convir o Patriarca, e nestes cumprimentos levaram muito tempo, até que finalmente, cedendo o mesmo General, desceu então sustentado em braços do mesmo modo que tinha subido, sendo acompanhado até ao coche por todo o Estado Maior do General em Chefe.
Logo no dia seguinte foi o sobredito General, acompanhado de todos os Generais e do seu Estado Maior pagar a visita àquele Prelado, aonde se demorou meia hora, e foi a única visita que pagou" (in Memoria dos Successos acontecidos na Cidade de Lisboa..., fl. 6).


O resultado destas visitas tornou-se claro no dia 8 de Dezembro, quando apareceu "afixada nas portas de todas as igrejas de Lisboa uma Pastoral do Cardeal Patriarca, a qual foi muito desagradável a todas as pessoas. O povo arrancou-as de tal maneira que foi necessário afixarem-se segundas, e para que não tivessem a mesma sorte das primeiras, foram postas no interior das igrejas" (id., fl. 28).


Na verdade, para além de satisfazer a própria vontade do príncipe regente de que os invasores fossem acolhidos como amigos, o Cardeal Patriarca extravasara-se em elogios ao Imperador, que reconhecia ser um enviado de Deus...  Da mesma forma como outrora a Igreja condenara a Revolução, agora recomendava ao seu rebanho o sossego e a tranquilidade.
Oliveira Martins escreveu criticamente a este respeito que “tudo se curvava, a começar pela Regência. O cardeal Mendonça, patriarca de Lisboa, chamava a Napoleão o Prodígio, o grande imperador eleito por Deus para fortuna dos povos!”... [Oliveira Martins, História de Portugal – Tomo II, 3.ª ed., 1882, p. 245].

Fonte: Wikipedia
Gravura do Cardeal D. José Francisco de Mendonça





Pastoral do Cardeal Patriarca de Lisboa recomendando aos seus diocesanos confiança em Napoleão e no seu Exército 
(8 de Dezembro de 1807)



Josephus II, cardinalis patriarcha lisbonensis.


A todas as pessoas eclesiásticas e seculares deste nosso patriarcado, saúde e benção.
Já que, amados filhos, a nossa cansada idade e o peso das muitas moléstias com que a divina misericórdia nos tem favorecido não  nos podem permitir o falar-vos de viva voz na presente ocasião, podemos contudo dirigir-vos, como vosso pai e pastor, por este modo, como já o fizemos pelos nosso párocos e pregadores, os nossos sentimentos e exortações para que o Senhor, no fatal dia, não  nos argua de omissos neste essencial e importante dever do nosso sagrado ministério, que todo se dirige a unir-vos em caridade cristã, para conseguirdes o sossego e a paz de que todos necessitamos nas presentes circunstâncias.
Sim, amados filhos, vós bem sabeis pela própria experiência a situação em que nos achamos; mas também não ignorais o quanto a divina clemência, no meio mesmo de tantas tribulações, nos favorece: benditos sejam sempre os seus altíssimos juízos!
É pois muito necessário, amados filhos, ser fiel aos imutáveis decretos da sua divina providência; e para o ser devemos, primeiro que tudo, com coração contrito e humilhado, agradecer-lhes tantos e tao contínuos benefícios que da sua liberal mão temos recebido, sendo um deles a boa ordem e quietação com que neste Reino tem sido recebido um grande exército, o qual, vindo em nosso socorro, nos dá bem fundadas esperanças de felicidade; benefício que igualmente devemos à actividade e boa direcção do General em Chefe que o comanda [Junot], cujas virtudes são por nós há muito conhecidas.
Não temais, amados filhos, vivei seguros em vossas casas e fora delas; lembrai-vos que este exército é de Sua Majestade o Imperador dos Franceses e Rei de Itália, Napoleão o Grande, que Deus tem destinado para amparar, proteger, e fazer a felicidade dos Povos. Vós o sabeis, o mundo todo o sabe. Confiai com segurança neste homem prodigioso, desconhecido de todos os séculos; ele derramará sobre nós as felicidades da Paz, se vós respeitareis as suas determinações, se vos amareis todos mutuamente, nacionais e estrangeiros com fraterna caridade: deste modo a religião e os seus ministros serão sempre respeitados; não serão violadas as clausuras das esposas do Senhor [i.e., as freiras], e o povo todo será feliz, merecendo tão alta protecção. Meus filhos, fazei-o assim para cumprirdes fielmente com o que Nosso Salvador Jesus Cristo tanto nos recomenda. Vivei sujeitos aos que vos governam, não só pelo respeito que se lhes deve, mas porque a própria consciência vos obriga.
Tornamos finalmente a recomendar muito a todos os párocos nossos coadjutores, e mais clero deste patriarcado, e até lho pedimos pelas entranhas de Jesus Cristo, que concorram quanto lhes for possível para esta união em todas as ocasiões e lugares, instruindo os povos de tal sorte, que eles possam bem conhecer as vantagens que, em o assim praticarem, devem conseguir.
E para que chegue à notícia de todos, mandámos passar a presente, que será publicada à estação das missas conventuais e afixada nos lugares do costume.
Dada na Junqueira, no palácio da nossa residência, sob o nosso sinal e selo das nossas armas, aos 8 de Dezembro de 1807.

J., Cardeal Patriarca






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No Segundo Supplemento à Gazeta de Lisboa, n.º LI, de 26 de Dezembro de 1807, foi publicado este documento, seguido pelo seguinte texto: "Dos termos em que é concebida esta pastoral se vê o quanto o povo deve confiar e estar persuadido que se dirige ao seu bem a vinda do Exército francês que aqui se acha, muito principalmente por ser comandado pelo Excelentíssimo Senhor General Junot, chefe cujas virtudes afiança o nosso Eminentíssimo Prelado, e que são o melhor presságio do bom êxito que da sua expedição se devem prometer todos os portugueses que amam sinceramente os interesses da pátria".




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Muito possivelmente sem ter conhecimento da pastoral do Cardeal Patriarca, o bispo de Lamego, D. João António Binet Píncio, mandava distribuir pelos párocos da sua diocese a seguinte pastoral, relativa ao bom acolhimento das tropas estrangeiras: 


D. João, Bispo de Lamego, etc., fazemos saber aos Reverendos Párocos da nossa Dioceses que nas actuais circunstâncias é preciso, para conter alguma desordem dos povos e evitar grandes ruínas, fazer-lhes conhecer que pelos gerais princípios da nossa santa Religião, pelas razões próprias da humanidade e pelos motivos do público e geral interesse, jamais foi permitido ofender ou insultar ao nosso próximo, principalmente quando ele não nos prova; e muito menos quando as ordens Augustas [do Príncipe Regente] nos recomendam os bons ofícios da hospitalidade. Nestes termos se acham todas as pessoas do exército que entrou e vai entrando nestes Reinos, com os protestos [=declarações] de afiançar tanto os efeitos da sua amizade na nossa moderação como as da sua vingança a ferro e fogo, devastação e ruínas de povoações, vilas e cidades, se o mau comportamento de qualquer indivíduo destes Reinos desafiar a sua cólera, por infâmia, injúrias ou ofensas que pratique, como pode suceder por falta de reflexão, poucos conhecimentos dos deveres da humanidade e mesmo por estragamento de juízo. Ao que devemos acudir, persuadindo a todos que não ofendam por qualquer maneira a pessoas algumas do dito exército; antes os tratem como amigos, mesmo fornecendo-lhes o possível e justo socorro de que precisarem, fugindo (numa palavra), tanto por amor do bem como por temor do mal, de tudo o que puder escandalizar os chefes e membros do dito exército. O que cada um dos Reverendos Párocos nossos coadjutores deve fazer conhecer e persuadir os seus paroquianos. 
Lamego, 9 de Dezembro de 1807.
João, Bispo de Lamego
[Fonte: João Francisco Marques, "O clero nortenho e as invasões francesas - patriotismo e resistência regional", in Revista de História, Porto, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, n.º 9, 1989, pp. 165-246, p. 234]




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