quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Memorando para consideração, sobre as medidas que se projectaram perante as actuais circunstâncias em Espanha e Portugal, por Lord Castlereagh (10 de Agosto de 1808)




10 de Agosto de 1808 


A redução do exército de Dupont, o regresso a Madrid dos restantes corpos de Moncey, e a retirada de Bessières de Leão e Benavente, indicam que o inimigo tenciona concentrar-se em Madrid ou retirar-se para Burgos. Estando assim as forças espanholas das províncias meridionais livres e capazes de se moverem para a capital, não é provável (a não ser que chegue um reforço poderoso) que o inimigo se aventure a sustentar Junot em Portugal. 
Se a retirada de Junot for dilatada até à chegada da totalidade da força britânica a Portugal, pode-se considerar que o destino do seu exército está decidido; e o Gabinete deve encarregar-se de determinar quais serão os passos que se devem seguir. 
Se os franceses tentarem manter-se em Madrid, pode-se esperar que a totalidade da força que o circunda, vinda da Andaluzia, Múrcia, Valência, Extremadura e Galiza, acabará por obrigá-los a retirarem-se daquela posição, se não pela força, pelo menos devido à fome. 
Para ajudar os esforços dos espanhóis, seria contudo bastante importante que se enviasse, a partir de Portugal, toda a cavalaria que possa ser sobressalente, quer britânica, quer portuguesa. Se um corpo de infantaria ligeira britânica de 8 ou 10.000 homens for suficiente para sustentar os seus esforços, servindo igualmente como protecção da nossa própria cavalaria, poder-se-á equipar rapidamente um corpo deste tamanho, mandando-o avançar; mas isto não deve interferir materialmente com as outras operações, que são talvez de maior importância do que mandar-se fazer um movimento avançado tendo o resto de todo o exército britânico no lado de Portugal, e sendo tal movimento demorado, por necessariamente ter que ser feito com equipamentos*, e exposto a ter o seu preciso objectivo frustrado com a retirada antecipada do inimigo de Madrid.
Assumindo que esta observação sobre a situação relativa dos exércitos beligerantes está provavelmente correcta, parece que é da maior importância - de forma a embaraçar o avanço dos reforços da França, e para se conseguir, se possível, a rendição final de todo o exército francês - darmos força, através dos meios em nosso poder, aos esforços das províncias setentrionais, particularmente as Astúrias e as províncias do levante, cuja permanência sobre as armas dependerá em grande parte da presença e da protecção dos corpos britânicos.
Para este objectivo seria desejável que se destacasse daqui uma força considerável, tanto de infantaria como de cavalaria, para agir em união com os recrutamentos de espanhóis daquela parte, a fim de finalmente ameaçar o flanco e a retaguarda da linha de operações do inimigo. Este corpo pode ser composto por tropas britânicas suficientemente autónomas para embaraçar consideravelmente as operações dos franceses, sem enfraquecer prematuramente o exército em Portugal; contudo, se não houver hipóteses de atacar naquela parte, e se a força [espanhola] que se move em direcção a Madrid compelir o inimigo a retirar-se em direcção à sua própria fronteira, seria apropriado então embarcar uma parte tão grande da força em Portugal quanto a que pudesse estar de reserva em Lisboa, sem que isto exponha a segurança interna do país, para se ir juntar aos corpos britânicos no norte da Espanha. Se, através de tal movimento, 30.000 tropas britânicas, sustentadas pelos exércitos espanhóis das Astúrias e de Aragão, conseguirem agir na linha de comunicações dos inimigos, estes ficarão bastante pressionados, por estarem também diante das forças que os afastaram de Madrid; não será então demais esperar que tais divisões do exército inimigo, ao tentarem retirar-se pelos Pirenéus Ocidentais, serão obrigadas a render-se, ou procurarão retirar-se através da Espanha, em circunstâncias difíceis e dificuldades extremas.
Lord Castlereagh julgou que tinha o dever de levar estas considerações aos seus colegas, a fim deles poderem agora fazer as suas determinações sobre os princípios como a guerra em Espanha e Portugal deve ser conduzida daqui para diante. 
O Gabinete sentirá que é urgente que tome uma rápida decisão, pois Sir Hew Dalrymple não tem instruções exactas para além da ocupação de Lisboa, da segurança de Cádis, e da redução de Dupont. Inicialmente considerou-se  que não se podia decidir adequadamente quais seriam as medidas posteriores sobre estes pontos, mas estes ou já se realizaram, ou estão prestes a realizar-se. As informações dos últimos dias forçam necessariamente a pôr esta importante questão debaixo da atenção do Governo.
Estão preparados navios-transportes para embarcar um corpo de 10.000 homens; e já partiram os transportes para Cork, a fim de recolherem os 5.000 que aí embarcarão. A tonelagem para os 5.000 homens adicionais (que são parte dos 10.000 debaixo das ordens da Inglaterra), estará completa em cerca de dez dias.
Com o objectivo de transportar os cavalos da artilharia de algum corpo que se julgue oportuno expedir daqui, já se mandaram regressar os transportes para 2.300 cavalos da cavalaria que tinham partido para Portugal, ficando por lá, junto com a força, provisões para cerca de 800 cavalos.
Para além dos transportes para os mencionados 2.300 cavalos, estão agora a requisitar-se outros tantos para 534 cavalos, cuja fornecimento cresce de dia para dia, embora lentamente.

[Fonte: Charles William Vane (org.), Correspondence, Despatches, and other Papers of Viscount Castlereagh, second Marquess of Londonderry – Vol. VI, London, William Shoberl Publisher, 1851, pp. 399-401].

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Nota: 

* Equipments, no texto original. Julgamos que Castlereagh se refira aos diversos utensílios utilizados pelos sapadores para abrir caminhos. 

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