domingo, 19 de junho de 2011

Restauração de Torre de Moncorvo (19 de Junho de 1808)



Na extremidade mais oriental desta província [de Trás-os-Montes], um pouco abaixo de Zamora, o Douro, descendo pelo reino de Leão, vem tocar o terreno de Portugal, e banhando os muros da cidade de Miranda, toma a direcção de nordeste a sudoeste até o confluente do Águeda, defronte do castelo de [Barca de] Alva, formando sempre a divisão dos dois reinos. Aqui se entranha em terras de Portugal, tomando o caminho do noroeste, e forma uma curva, que se aproxima a um ângulo recto, recebendo sucessivamente da parte do norte as águas do Sabor, do Tua e de outros rios que oferecem por toda a parte, principalmente o Douro, margens escarpadas de dificilíssimo acesso e correntes precipitadas, que só dão passagem em algumas barcas. É dentro desta curva, e por entre estes rios, que se estende a comarca da Torre de Moncorvo, país muito fértil e agradável no interior, e valado no exterior com estas fortes trincheiras que a natureza lhe concedeu; a cabeça da comarca está situada muito perto da foz do Sabor.
Na verdade, os seus habitantes não foram dos primeiros em soltar os vivas da aclamação; mas o que perderam em tempo, eles o ganharam na combinação e acerto das suas providências, no estabelecimento da sua Junta, que principiou por acautelar abusos que as outras nunca puderam evitar. Preparou-se a revolução nos dias 17 e 18 de Junho, apreendendo-se as barcas do Douro desde a foz do Águeda até ao do Sabor, para se evitar a passagem aos franceses de Almeida, se tentassem algum repentino ingresso no país. Na barca de Alva houve uma pequena oposição, que facilmente venceu um Capitão de ordenanças à frente de 60 caçadores, mandando passar o rio a dois resolutos nadadores que na margem oposta a foram apreender e meter no fundo. A 19 ficou consumada a revolução, pela sanção de um numeroso congresso da Câmara, clero, nobreza e povo. Seguiram-se imediatamente as demonstrações públicas do prazer geral e [as] disposições para o armamento do povo, tais quais permitiam as circunstâncias de uma terra onde os meios eram muito limitados.

[Fonte: José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal, e da Restauração deste Reino - Tomo III, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, pp. 154-156].

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