terça-feira, 31 de maio de 2011

Uma Carta Americana sobre Lagarde e a Gazeta de Lisboa, contendo também uma exposição sobre a traição de Bonaparte em Bayonne



Plácido a Venâncio




Maio de 1808


Se eu analisasse todos os discursos do novo gazeteiro Lagarde, escreveria mui longas cartas. São contínuos os sermões indigestos que prega, e as exortações futilíssimas, com que intenta convencer-nos de que devemos esperar em tranquilidade que se convertam em bens os males que nos afligem. Que descarado embusteiro, meu amigo! Que baixo adulador! Que vil escravo! Contanto que prospere seu Senhor, nada lhe importa que o resto da espécie humana seja desgraçada. Vendido ao Déspota que aspira a reger o mundo com império absoluto, lida noite e dia para lhe aplanar a escabro a estrada; inverte a ordem e altera a verdade de factos conhecidos, compõe redacções fabulosas; encarece o poder e sabedoria do Tirano; elogia os indignos que se curvam ao ídolo, e vitupera os bons que não o acatam. Tem empenhado maiormente a sua retórica depois que principiou a descrever a entrada das tropas francesas em Espanha, e a prometer resultados felizes da estreita e, mais que nunca, sincera aliança dos dois Governos. As verdades que se podem esperar das imposturas são as seguintes: que Murat, tendo já passado os Pirenéus e afectando não querer entrar em Madrid sem estar de acordo com o Governo espanhol, entrou a 23 de Março com o protesto[=declaração] de marchar para Cádis; que o rei Carlos renunciou a coroa em seu filho Fernando (1); que o novo monarca, constando-lhe que o Imperador vinha às fronteiras, nomeou o Duque de Frías, o de Medinaceli e o Conde de Fernan-Nunes para o cumprimentarem em seu nome; e que escutando depois, como verdadeiros, homens de conhecida venalidade, resolveu encontrar-se com ele em Bayona, para onde passaram também a Rainha, Carlos IV e os Infantes; que o povo, menos crédulo que seus soberanos, desconfiando da pureza das intenções do Imperador, fez no dia 2 de Maio o primeiro ensaio de vingança; e que, finalmente, Bonaparte, tendo colhido a Família Real, a violentou a renunciar os direitos à Coroa de Espanha, com a qual pretende ornar a frente de seu irmão José.
O iniciado nos mistérios do novo Oráculo cuidou antecipadamente em nos preparar os ânimos para a grande revolução, admoestando-nos a adorar Napoleão, que já na China, diz ele, lhe chamam Raio da Luz de Tien, e em Constantinopla Sol e Estrela de Júpiter, e aconselhando-nos a que não tentemos sondar [os] seus altos segredos, porque chegando o tempo de saber o que o seu Génio prepara para a sorte e felicidade dos povos submetidos à sua influência, ele o proclama duma maneira tão nobre como ingénua (2). Falou depois vagamente de acusações recíprocas de Carlos IV e Fernando VII, e da anarquia inevitável da Espanha, se não fora Árbitro de tão extraordinária questão o Príncipe que, trazendo e havendo já dado e restituído tantas Coroas, exerce na Europa uma influência irresistível (3)
Tal foi a marcha dos discursos do impostor, enquanto não se cometeu a traição execranda que privou do trono de Espanha ao desgraçado Fernando VII; mas quando chegou o tempo de descobrir o atentado, anunciou que o rei Carlos declarara que só tinha abdicado para escapar às tramas da Corte e salvar a vida; que Fernando VII, sabendo da protestação do pai, lhe restituíra a coroa; e que, então, Carlos IV a renunciara no Imperador, assim como os Infantes os seus direitos para que elegesse a pessoa e dinastia que melhor julgasse; que a Família Real de Espanha passava ao interior da França, enquanto serenavam as discórdias; e que Murat governaria entretanto o Reino como Lugar-Tenente de Carlos IV (4).
Não podem, meu Venâncio, crescer as iniquidades, nem pode ser mais delgado o véu com que intentam encobri-las. Na opinião de Bonaparte, a Espanha compõe-se de mentecaptos dispostos a acreditar que se renunciam Estados como benefícios, e a respeitar decretos ditados pelos algozes que cercavam os seus soberanos. Não, vil traidor, elevado ao trono de Luís XVI para desgraça da Europa, os Espanhóis não ignoram que, ainda em completa liberdade, não pode o Rei transferir a outrem a Coroa que lhe deram os seus povos, e que seria inválida a renúncia, ainda que não fora arrancada por violência. Embora mande o indigno Murat (5) desarmar os cidadãos, queimar o lugar onde for morto um francês, responder o amo pelo criado, o pai pelo filho, o prelado pelo súbdito; embora clamem os assalariados de Lisboa e Madrid que o povo não pode resistir a tropas disciplinadas, e que será inevitável a guerra civil, se a Espanha não aceita o domínio francês. A Espanha prepara-se, não para a guerra civil, porque não pode havê-la levantando-se a nação inteira por uma só causa, mas para a da vingança que merece a violação escandalosa dos direitos exclusivos dos povos, e a perfídia atroz do monstro que a Córsega lançou sobre o continente para flagelo da humanidade. Os Reis que, mal aconselhados, preferiram a condição abjecta de tributários à nobre independência, instruídos agora pelos sucessos de Bayona, cuidarão em reparar a sua eminente desgraça; e a liga geral da Europa contra a nação altiva que a tem assolado mostrará aos perturbadores da nossa felicidade que tem sempre curta duração o Império do terror. 

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Notas:

(1) Em Aranjuez a 19 de Março de 1808.

(2) Gazeta de 6 de Maio de 1808. Se Lagarde entendia por maneira ingénua palavras claras, não nos enganou; porque Bonaparte, quando obrigou Fernando VII a renunciar, não usou de perífrase; renunciar ou morrer = bolsa ou vida, são modos de exprimir muito lacónicos e claros.


(4) A protestação de Carlos IV, as cartas das renúncias, etc., acham-se nas Gazetas de 20, 21, 27, 28 e 30 de Maio de 1808.



[Fonte: “Carta XLIX”, in Cartas Americanas. Publicadas por Theodoro José Biancardi [1.ª ed., 1809], Lisboa, Impressão de Alcobia, 1820, pp. 166-170. Inserimos os itálicos originais e as notas do autor]. 


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