sexta-feira, 6 de maio de 2011

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (6 de Maio de 1808)




Lisboa, 6 de Maio 


Tudo o que se sabe até aqui de positivo a respeito dos negócios da Espanha, é que o Imperador e Rei concedeu uma audiência, mesmo em Baiona [sic], ao Príncipe das Astúrias, que foi ultimamente proclamado em Madrid Rei de Espanha; que parece que o dito Príncipe fora muito bem acolhido por Sua Majestade; e que, por outra parte, El-Rei Carlos IV e a sua esposa partiram também do Escorial, para se dirigirem a Burgos. Daqui se conjectura que irão igualmente a ter um encontro com o grande Árbitro da Europa. 

O Príncipe das Astúrias, diz o Monitor da França em data de 17 de Abril, achava-se acompanhado do seu preceptor o cónego Escoiquiz e do Duque do Infantado. 

Enquanto ao mais, cumpre desconfiar muito dos boletins mentirosos e dos boatos contraditórios que cada um espalha, segundo o seu capricho. Não é por estes canais que o Grande Napoleão dá a conhecer as suas intenções a respeito da sorte da parte meridional da Europa. Jamais deixa ele transpirar o seu segredo; e quando está chegado o tempo de fazer saber o que o seu génio tem preparado para a sorte e para a felicidade dos povos submetidos à sua influência, ele o proclama duma maneira tão nobre, como ingénua, bem certo de que ninguém pode opor-se às vastas combinações, para cujo bom êxito o deu ao mundo a Providência. 


Sua Majestade Imperial e Real se dignou de receber com muita bondade a Deputação que o Reino de Portugal lhe enviou para oferecer-lhe a homenagem da fidelidade destas províncias, e o tributo de admiração que lhe é devido. A Deputação ouviu da própria boca de Sua Majestade as expressões as mais obsequiosas da sua estima para com a nação portuguesa, recebendo ao mesmo tempo as esperanças mais gratas sobre o futuro. 


O grande Teatro de S. Carlos desta cidade, cujas representações prosseguem, mediante o gosto em matéria de artes do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes e a alta protecção que Sua Excelência lhe concede, acaba de sofrer uma perda bem sensível: Madama Schark-Neri, que nele executava havia dois anos, mui perfeitamente, o primeiro carácter em todos os dramas, terminou a sua convenção e não pôde entrar em novo ajuste, por uma falta de saúde, que a obriga a passar à Itália, deixando uma memória saudosa e levando consigo a estima do público, a quem causou grande prazer com a melodia do seu canto. 


Havendo-se formado queixas, [desde] há muito tempo a esta parte, contra alguns agentes subalternos adictos aos escritórios do crime dos diferentes bairros de Lisboa; e concorrendo talvez a impunidade para animar aqueles que não se continham nos limites do dever por delicadeza e honra, o novo Intendente Geral da Polícia do Reino [Lagarde] acaba de fazer um exemplo, que servirá para reprimir os que se tentarem a abusar das suas funções para levar o que não devem: depôs ele a Joaquim Cipriano, escrivão do crime do bairro do Andaluz, convencido pela sua própria confissão de ter pedido 4 moedas de ouro para concorrer para a soltura dum preso, e de ter já recebido uma delas, que, demais disso, teve logo de restituir. Com a mesma severidade se procederá para com aqueles que se deixarem assim subornar, e que procurarem vender uma justiça, que é da intenção do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor General em Chefe assegurar, sob seu governo, a todos aqueles que a merecerem. 

[Fonte: 1.º Suplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 18, 6 de Maio de 1808].


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