quinta-feira, 17 de março de 2011

Resposta de Junot à carta de Napoleão de 4 de Março (17 de Março de 1808)


Lisboa, 17 de Março de 1808

Sire
Recebi a carta de Vossa Majestade de 4 de Março e vou tentar responder de modo a satisfazer-vos em todos os pontos, mas não posso esperar consegui-lo se Vossa Majestade der crédito a informes de pessoas que nada viram e nãos meus, que se baseiam na verdade, no conhecimento do país e na firme resolução de servir Vossa Majestade com zelo e da maneira mais conforme com as suas intenções.
Portugal só está armado pelas milícias; ordenei a 11 de Janeiro* o licenciamento das milícias e a deposição das suas armas nos arsenais das províncias da Estremadura, da Beira e de Trás-os-Montes, nas quais comandava. Assim que assumi o comando de Portugal inteiro e o seu Governo, isto é, a 1 de Fevereiro, ordenei a 10 de Fevereiro** o licenciamento das milícias no resto do Reino e a deposição das armas nos arsenais. O desarmamento foi efectuado e as armas ficaram provisoriamente depositadas em poder dos diversos capitães ou Coronéis de milícia para depois ser feita a sua entrega nos arsenais. Grande parte delas foi já entregue, e é portanto erradamente que a Inglaterra supõe que eu não ousei tentar esse licenciamento, visto que já o ordenei e executei.
Quanto ao envio das tropas portuguesas para França, suplico a Vossa Majestade que recorde que até 1 de Fevereiro eu não tinha qualquer ordem para dar às tropas portuguesas que se encontravam nas províncias do Douro e Minho nem às do Alentejo e dos Algarves, que eram a maioria, e que, se não enviei as das províncias que comandava, foi porque, segundo o que Vossa Majestade me escrevera a 28 de Janeiro, estava certo de que elas me poderiam servir contra os espanhóis em caso de necessidade. Logo que assumi o comando de todo o Portugal, a 1 de Fevereiro, ordenei imediatamente a organização de todas as tropas portuguesas existentes nas províncias ocupadas pelos espanhóis; mas, Sire, encontrei-as num estado que fazia dó; havia um Regimento de infantaria em que só tinham ficado 40 homens, e a cavalaria chegara a tal estado que nos cem cavalos dela provenientes só encontrámos 30 capazes para o serviço. Essa cavalaria tinha passado dois meses sem receber uma única ração de aveia, a palha faltava-lhe muitas vezes e os soldados sem o soldo, pelo que houve uma grande deserção; nada disto me pode ser imputado, pois eu não comandava onde estavam os generais espanhóis; essas tropas receberam agora ordem para passar a Valladolid, onde lhes será dado novo destino; a ideia de ir fazer guerra aos espanhóis fá-los-á marchar; se eu lhes dissesse outra coisa, desertariam todos; em Valladolid, será fácil dirigi-los para mais longe; só posso mandá-los todos pelo caminho de Ciudad Rodrigo, Salamanca e Valladolid; não há outra estrada, a menos que os fizesse passar por Madrid, o que eu penso não ser intenção de Vossa Majestade. Enviei para essa estrada quem mandará preparar-lhes os mantimentos necessários; mas Vossa Majestade convencer-se-á das dificuldades que eu enfrento para essa marcha quando souber que na maior parte da região que essas tropas terão de percorrer é preciso levar a palha para a cavalaria em carroças puxadas por juntas de bois, com 80 a 100 rações cada uma, sem se poder fazer de outro modo, e que o mesmo é preciso fazer para o pão.
Vossa Majestade censura-me a precipitação com que publique o seu decreto sobre a contribuição de 100 milhões [de francos]; mas, Sire, eu já receava ter-me atrasado ao publicá-lo apenas a 1 de Fevereiro, pois Vossa Majestade tinha ficado esse prazo, depois do qual deviam ser sequestradas as propriedades dos particulares que acompanharam o príncipe, e porque tomei a iniciativa de prorrogá-lo até ao dia 15 por não ter podido estabelecer a contribuição mais cedo; eu devia esperar até estar senhor do país, mas nessa data já eu o estava, sem dúvida, pois devia contar com o exército espanhol para me secundar, se necessário, e porque já ocupávamos as praças-fortes e os pontos importantes de Portugal; agora, quando as duas divisões de Solano e de Taranco já saíram de Portugal e eu não posso fiar-me na de Carrafa, continuo senhor de Portugal, visto que ocupo Almeida desde 10 de Janeiro, Elvas, desde 12 desse mês e Setúbal e os fortes da margem esquerda do Tejo desde 4 de Março; a guarnição de Lagos e Faro chegará ali a 24 deste mês. Lisboa, com a sua cidadela e os fortes da direita, Peniche, etc., estão ocupados desde a minha entrada, e todo o Reino está tranquilo e submetido. 
Estando obrigado a ocupar muitos pontos importantes, sei que precisarei de mais tropas, e já as pedi a Vossa Majestade e ao ministro a fim de ter uma força importante reunida nas proximidades de Lisboa, pois este será sempre o ponto que interessa guardar, contra o país e contra um desembarque; penso, pois, que são precisos cerca de 12.000 homens além dos que já tenho, e com isso respondo por Portugal desde que tenhamos pão.
A contribuição causou, sem dúvida, grande impressão, mas, Sire, é por ser evidentemente muitíssimo forte; o receio geral é não poder pagá-la, o que é seguro; mas eles estão a fazer tudo quanto é possível para pagar o primeiro terço, coisa que não poderão fazer sem vender parte dos seus haveres e as suas jóias; as pratas das igrejas estão a entrar sem a mínima dificuldade, e sem esse contributo estaríamos sem dinheiro, pois as contribuições são muito pouca coisa e os rendimentos dos domínios não se encontram em dia. Se Vossa Majestade se dignasse a reduzir a contribuição a metade, faria um grande benefício a este país; essa metade entraria facilmente até ao fim do ano, o serviço do exército de Vossa Majestade estaria bem assegurado e o vosso nome seria bendito; perdoai-me repetir que é impossível cobrar esta contribuição na totalidade.
Deixei as praças de Portugal nas mãos dos portugueses durante meses inteiros; mas, Sire, o estado em que as minhas tropas chegaram a Lisboa não lhes permitia pôr-se a caminho antes de 20 dias; para chegar daqui a Almeida são precisos cerca de 15, e eu sabia que me deviam chegar tropas que passariam por essa praça; estava certo de que não encontrariam obstáculos para ali substituir a guarnição portuguesa e, com efeito, as tropas de Vossa Majestade estavam lá de guarnição a 10 de Janeiro. Enviei depois um batalhão suíço para render essa guarnição, que era apenas de destacamentos; há um comandante de praça francês. Elvas estava ocupada pelos espanhóis. Enviei para lá um batalhão suíço com um coronel francês por comandante. Se Vossa Majestade ordenar que o General Dupont me envie tropas, porei em Almeida um batalhão francês e mandarei regressar para aqui o batalhão suíço, e porei em Elvas um segundo batalhão francês porque dois batalhões estarão ali bem e não serão demais naquela fronteira.
Vossa Majestade censura-me também por ter concentrado em Lisboa todas as suas tropas; mas, Sire, em Lisboa há apenas um batalhão do 15.º Regimento, na cidadela, um batalhão de escol para o Quartel-General, e os 86.º e 70.º Regimentos de linha e a Cavalaria, menos um Regimento que está em Setúbal, e posso assegurar a Vossa Majestade que não é muito; apesar disso, vou retirar um Regimento, o 70.º, e um Regimento de Dragões, que mandarei acampar numa boa posição acima de Lisboa, com um Regimento da 2.ª Divisão e alguns espanhóis; digo acampar por não ser possível fazer barracas de tábuas por causa da escassez de madeira, do elevado preço das tábuas e do calor; as tendas serão, pois, no dizer dos médicos e das pessoas da terra, o que há de mais saudável; ainda não o pude fazer por causa da estação da chuva, que cai tão forte durante 3 meses que não há qualquer possibilidade de acampar; se o fizesse, teria mais de metade do meu exército no hospital. Vossa Majestade permitirá que lhe faça uma observação acerca da cidade de Lisboa no que respeita à sua guarnição: esta cidade é extremamente extensa e está dividida por vales e colinas; um ajuntamento rebelde é aqui mais difícil que noutros locais, e é mais fácil reprimi-lo tendo em diversos pontos aquartelamentos bem guardados dos quais possam rapidamente sair batalhões armados que, combinando os seus movimentos, depressa dispersarão qualquer espécie de ajuntamento. Estou persuadido de que Vossa Majestade, se conhecesse o país, compreenderia que mais vale ter as tropas em Lisboa, onde têm melhores alojamentos e melhor abrigo, que num acampamento no qual não teria nenhuma sombra por não haver árvores no campo, e onde o ardor do sol, que nos meses de Junho, Julho e Agosto é insuportável, até para os animais, causaria, decerto, muitas doenças; mas assim desejais, e sereis obedecido; o meu atraso no cumprimento desta ordem de Vossa Majestade sobre o acampamento resultou apenas da impossibilidade de fazer um abarracamento por falta de madeira e pelo meu receio de mandar acampar durante as chuvas, o que arruinaria a saúde do soldado, porque em dois meses e meio chovem aqui mais 3 polegadas que em Paris durante todo o ano. Durante os meses de Abril e Maio, as tropas estarão bem num acampamento, mas não poderão resistir ao sol depois dessa época.
Ao conceder uma garrafa de vinho a cada homem***, Vossa Majestade fez um grande bem a este exército durante o Inverno, para o recompor das suas fadigas; durante o Verão, contudo, seria uma grande desgraça manter essa ração de vinho. A força deste vinho com o calor já se faz sentir, e os médicos consideram-na extremamente perniciosa à medida que a estação avançar. Suplico a Vossa Majestade que me autorize a aproveitar a benfeitoria do vosso decreto, ordenarei que lhe sejam pagos dois soldos que serão empregados para completar as suas massas; o Tesouro Público ainda ganhará com isso cerca de 2 soldos por cada ração, e todos ficarão contentes. Não quis ordenar nada a este respeito sem receber ordem de Vossa Majestade, mas o assunto é muito importante e eu suplico a Vossa Majestade que se digne responder a isto.
Não falarei a Vossa Majestade do desgosto que sinto quando recebo uma carta como a que Vossa Majestade me deu a honra de escrever-me a 4 de Março; o meu desejo de bem vos servir é tão puro e a minha vontade e dedicação às vossas ordens são tão verdadeiras que creio merecer a vossa indulgência, se me engano, e a vossa confiança, quando vos falo da situação do país e do meu exército; tenho estado numa posição difícil e diz tudo quanto pude; que não daria eu para ter feito tudo quanto Vossa Majestade desejava? Mas, Sire, talvez outro não pudesse fazer melhor.

[Fonte: Junot, Diário da Invasão Francesa, Lisboa, Livros Horizonte, 2008, pp. 153-156 (n.º 101)].
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Notas:

* A referência a 11 de Janeiro deve tratar-se de alguma gralha, dado de que na verdade os referidos Regimentos tinham sido licenciados no dia 1 de Janeiro.


*** Conforme o art. 8.º do Título II do decreto de Napoleão de 23 de Dezembro de 1807.


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