segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Uma nota acerca das "invasões francesas". A chamada "guerra das laranjas"


Na verdade, como se pode ver através do Tratado de Fontainebleau, a invasão a Portugal verificada em 1807 servia-se de forças espanholas, devendo-se por isso, em termos mais rigorosos, denominar-se por invasão franco-espanhola.

Uma invasão deste tipo já tinha sido efectuada em 1801, levando pessoas como António João Teixeira Marques a considerar que foi nesse ano que houve a primeira invasão francesa. De facto, ainda que em 1801 as tropas francesas não tenham chegado a entrar em Portugal, o exército espanhol, impelido e forçado precisamente por Napoleão, penetra a fronteira e conquista em poucos dias parte do Alto Alentejo. Tendo à testa o mal afamado Príncipe da Paz, D. Manuel Godoy, privado da corte espanhola com bastante poder de decisão sobre a mesma, ficou este episódio conhecido por Guerra das Laranjas. O número de espanhóis que penetrou no país era cerca do dobro de todos os portugueses que compunham o exército nacional, sendo a resistência destes quase nula.
Em Junho desse ano, burlando Napoleão, Godoy assina em Badajoz uma paz à pressa, na qual se determinava a perda de Olivença, entre outros termos: "Y su Majestad católica conservará en calidad de conquista, para unirlo perpetuamente á sus dominios y vasallos, la plaza de Olivenza, su territorio y pueblos desde el Guadiana; de suerte que este rio sea el limite de los respectivos reinos en aquella parte que únicamente toca al sobredicho territorio de Olivenza" (artigo III do Tratado de Badajoz).
O imperador, assim que sabe do sucedido, decidiu não ratificar o acordo com se tinha estabelecido, julgando que era muito brando para Portugal. Contudo, Olivença tinha sido irremediavelmente perdida neste laranjal, que era ao mesmo tempo um prelúdio do que viria a ocorrer em 1807...



Caricatura inglesa de autoria de Charles Williams (publicada a 22 de Julho de 1801) onde se satiriza Godoy, denominado Príncipe da Paz mas armado até aos dentes, forçando os portugueses a assinarem a paz de uma guerra que tinha ele iniciado...
Tendo como pano de fundo uma fortaleza ardendo, Godoy, protegido por soldados espanhóis prontos para dispararem, obriga dois portugueses a assinarem o tratado de paz que se encontra debaixo do seu pé direito. Ironicamente, a ponta da espada crava o mesmo documento precisamente no sítio em que se encontra o seu título: Príncipe da Paz. Godoy, que empunha dois mosquetes, tem no cinturão quatro pistolas e uma faca atravessando o seu chapéu, diz: “Vá, Senhor, rápido, ou passarei todo o país à espada. Homens, mulheres e crianças, não pouparei ninguém! Recordai que sou o Príncipe da Paz”. Ao que lhe responde um dos portugueses ajoelhados: “Por amor de Deus, detenha esta efusão de sangue, que já bastam três cidades destruídas. Os gritos e choros obrigam-me a... sim, eu o reconheço como sendo o Príncipe da Paz”.

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