sexta-feira, 22 de julho de 2011

Carta do General Teodoro Reding ao General Francisco Xavier de Castaños (22 de Julho de 1808)



Excelentíssimo Senhor:

Em consequência da carta que dirigi a Vossa Excelência a 17 do corrente mês, sobre o ataque dado pela minha divisão à do General Gobert, morto na acção, que foi completamente batida e desalojada de todas as posições que tomou até às imediações de Bailén, e sobre os motivos que me obrigaram a regressar a Mengíbar; voltei a passar na mesma tarde do citado dia 17 o rio Guadalquivir, e tomei uma posição naquela noite, reunindo-se-me ao amanhecer do dia 18 a segunda divisão, ao mando do Marechal de Campo Marquês de Coupigny, e ambos empreendemos a marcha para esta vila com o objectivo de atacar o inimigo, se a ocupava.
Assim que cheguei, e para dar cumprimento às ordens de Vossa Excelência, dispus as colunas de ataque direccionadas para Andújar; mas às 3 da manhã do dia 19, quando se estava formando a tropa para empreender a marcha, o General Dupont com o seu exército atacou o nosso campo e começou o fogo da sua artilharia, com o objectivo indubitável de nos surpreender; mas com a celeridade do relâmpago, dirigiram-se todas as tropas das divisões conduzidas pelos seus dignos chefes aos pontos atacados, auxiliados pela artilharia de ambas, sendo tão vivos os movimentos que a primeira companhia a cavalo e também a de batalha sofreu algumas estocadas dos inimigos. Quando o dia clareou, as nossas tropas estavam já em posse das alturas que antes ocupavam, e o inimigo empreendeu os seus ataques por vários pontos da linha, tendo a vantagem de formar as suas colunas a coberto dos nossos fogos, pela menor posição que ocupava protegido pela sua artilharia.
Em todos os pontos foi rechaçado e ainda perseguido, apesar do vigor dos seus ataques, que repetiu sem outra interrupção que a necessária para se desdobrar e formar novas colunas até às doze e meia da manhã, quando se viu fatigado e sem ter podido ganhar terreno, ainda que em várias ocasiões tivesse rompido as nossas linhas de defesa com a intrepidez própria de uma tropas tão acostumadas a vencer, e inclusive chegado até às nossas baterias, que agiram neste dia de um modo singular, que assombrou e aterrou os inimigos, pois não só [os espanhóis] desmontaram imediatamente a sua artilharia, como também desbarataram todas as colunas que se apresentavam, protegendo sempre os pontos atacados e variando as suas posições segundo o exigiam as circunstâncias.
Empreendeu o último ataque o General Dupont, que, com os demais Generais, pôs-se à cabeça das colunas contidas com a artilharia pela espada e sustentada verdadeiramente com admirável firmeza; mas não teve melhor êxito, e segundo o que o inimigo referiu, foram 14 as peças que lhes desmontámos; assegurando-nos que a sua perda chegou a 2.000 homens mortos e muitos feridos, entre estes Dupont e outros dois Generais.
Perante estas circunstâncias, o General Dupont pediu para capitular, e suspenderam-se as hostilidades em ambos os exércitos, concordando-se em ficar cada um na sua respectiva posição, sendo fruto do valor e da constância das valentes tropas que compõem estas duas divisões a total derrota e o aprisionamento do exército de Dupont, e sujeito à mesma sorte o de Vedel, sem outra diferença que a de receber as suas armas quando embarcasse, apesar da posição que este último ponto tomou contra as leis militares, em relação à suspensão de armas concedidas a ele e ao seu General em Chefe.
[...]
Vanglorio-me de ter sido o chefe de tão dignas tropas, que sustentaram a honra e reputação da nação espanhola, e de ter dado a conhecer quão capazes são elas de levar a cabo a digna causa que as obrigou a tomar as armas em defesa da sua Religião, do seu Soberano e da sua Pátria, e que em apenas duas acções conseguiram destruir os inimigos e cumprir o objectivo do sábio Governo que as empregou e que lhes dispensou a sua confiança.
Bailén, 22 de Julho de 1808.

Reding



Sem comentários:

Enviar um comentário