sexta-feira, 3 de junho de 2011

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (3 de Junho de 1808)



Lisboa, 3 de Junho.


Refere uma carta autêntica de Bayonne, em data de 23 de Maio, que um regimento português, recentemente chegado àquela cidade, fora ali recebido com distinção: que fora festejado, na véspera desse dia, pela Guarda Imperial; que reinara a maior cordialidade, durante o banquete, entre os militares de ambas nações; e que Suas Majestades o Imperador-Rei e a Imperatriz-Rainha se dignaram de gozar daquele espectáculo por um pouco de tempo. 
Na manhã de 22, Sua Majestade o Imperador passou revista ao mesmo regimento português. 

Ainda que a mania de passar à esquadra inglesa não tente já quase a ninguém de Portugal, não é talvez inútil fazer saber aos que todavia chegarem a pensar nisso, o regime que ali se lhes destina e que nos comunica pessoa fidedigna. Os ingleses se têm capacitado, sem que se saiba porque motivo, que se experimenta alguma penúria em Lisboa, onde de todos os géneros de comestíveis há uma quantidade mais que suficiente, e sem dúvida por isso é que tratam tão mesquinhamente os que vão ter com eles. Todo o alimento que lhes dão consiste numa xícara de chocolate, pela manhã, e um copo de aguardente à noite, com um pedaço de pão mais pequeno que o que a Misericórdia fornece aos presos de Lisboa. 
Bem longe depois de transportá-los para o Brasil, como lho persuadiam ao princípio, costumam deitar uns em Plymouth e outros nas ilhas dos Açores, onde os deixam sem recurso algum. 
É provável que os destinem os ingleses para povoar antes as suas próprias colónias que o novo reino do Brasil; e a suprir assim as dificuldades que o comércio da escravatura encontra diariamente. 
Cumpre acrescentar que logo que constar que alguém se deixou aliciar para ir à esquadra inglesa (o que hoje em dia é muito raro), o Senhor Conselheiro do Governo, Intendente Geral da Polícia do Reino, tem ordem do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes, General em Chefe do Exército, de mandar que se lhe ponha o selo nos seus bens, assim móveis como de raiz. 

A sorte que experimentaram os emigrados franceses, sucessivamente iludidos pelas vãs promessas de todas as Cortes, e que enfim se veriam sem asilo no Universo, se o grande Monarca, que exercita um império tão generoso sobre a França e sobre a Europa, não se tivesse compadecido da sua situação, e não lhes tivesse nobremente perdoado: uma tal sorte é bem própria para deixar os homens sensatos e de razão dissuadidos daquelas emigrações políticas, que conduzem sempre aos últimos termos do infortúnio os miseráveis que a elas se deixam arrastar. A experiência dos últimos 15 anos tem demonstrado que era ainda mais arriscado que criminoso o abandonar assim a pátria para correr após umas quimeras que nunca se realizam. 

Alguns viajantes, dignos de crédito, e observadores tão hábeis como iluminados, que acabam de decorrer todo o norte de Portugal, nos asseguram que por toda a parte acharam as estradas tão seguras como se possa desejar; que, se ouviram falar de roubos, tais como acontecem nos países os mais sossegados, era tão somente no interior de alguns campos isolados, onde não se pode estender sem grande dificuldade a acção da autoridade pública. Acrescentam que o melhor espírito dirige em geral os funcionários públicos e o Clero; que por toda a parte viam o desprezo com que era olhado o antigo Governo, o qual só se deixava dirigir por frades ou lacaios; ao mesmo tempo que se fazia bem digno do seu reparo o zelo com que os povos procuram servir o novo Governo, de quem esperam um melhor futuro; e a afeição que professam à pessoa de Sua Excelência o General em Chefe, a cuja firmeza e sábia moderação fazem todos uma justiça completa. Segundo os mesmos viajantes, há agora em Portugal bem poucas povoações pequenas, onde não se encontrem bibliotecas com livros próprios para ilustrar os espíritos, e homens que mostram havê-los lido bem; neste sentido, podem as províncias disputar a primazia à capital. 

Enquanto ao mais, é tão bom quanto possível seja o espírito público, apesar das insinuações e imposturas clandestinas de alguns homens, que o Governo conhece, sobre quem vigia, e de quem poderá lançar mão, quando menos o esperarem. Hoje em dia Portugal parece ser um país francês, segundo o entusiasmo e admiração que excita por toda a parte o augusto nome de Sua Majestade o Imperador e Rei, e segundo a inteira confiança que todos os portugueses têm nas promessas que lhes tem feito e na bondade com que os trata. 

A 15 deste mês é que os representantes das diversas classes e corporações da Espanha devem achar-se reunidos em Bayonne, para exprimir aí os seus votos sobre os meios de assegurar à sua pátria, debaixo dos auspícios de Napoleão o Grande, uma ordem de coisas durável e uma prosperidade que ela debalde buscou debaixo do fraco governo dos Reis da Dinastia que há pouco teve fim. 

Os meios de comunicação entre Bayonne e Madrid se têm já tornado mais fáceis. Dizem que de um a outro daqueles dois lugares se pode agora ir pela posta, assim a cavalo como em carruagem. O primeiro benefício de que vai agora gozar a Espanha será o de estradas reais que devem atravessá-la de umas partes às outras, e o de ver os seus rios tornados navegáveis para servirem de canais às suas riquezas interiores, bem susceptíveis dum tal aumento, logo que o seu governo quiser proteger a sua agricultura. 

[Fonte: 1.º Suplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 22, 3 de Junho de 1808].


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