sábado, 14 de maio de 2011

Notícia publicada na Gazeta de Lisboa sobre as intrigas no seio da Corte espanhola (14 de Maio de 1808)



El-Rei Carlos IV e a Rainha de Espanha sua esposa, chegaram a Bayonne a 2 deste mês, e foram ali recebidos com salvas de artilharia. Foram sair-lhes ao encontro o Príncipe de Neuchatel e os Camaristas do Imperador, e entraram acompanhados de mais algumas carruagens, numa das quais se achava o Príncipe das Astúrias e o Infante seu irmão; noutra delas estava o Príncipe da Paz.
Uma hora depois da chegada de El-Rei e da Rainha, foi o Imperador fazer-lhes uma visita que durou coisa de uma hora. No dia seguinte, Carlos IV e a sua esposa foram jantar com Sua Majestade.
É agora certo que El-Rei Carlos IV protestou, em data de 17 de Abril, contra a sua abdicação forçada, declarando-a por nula; e recorreu ao Imperador dos franceses contra a violência que lhe fizera seu filho.
Declara Carlos IV que só para salvar a sua vida e a da Rainha é que ele deu mostras de depor momentaneamente o poder nas mãos de seu filho, o qual dele se aproveitou para ir fazer-se coroar em Madrid, e para prender num convento seu pai e seu Rei.
De uma carta de Sua Majestade o Imperador e Rei Napoleão ao Príncipe das Astúrias, resulta que ele vituperou sempre a revolta de Aranjuez, não vendo nela senão um ultraje feito aos direitos do Trono. Sua Majestade, nesta carta, em que vai felizmente de mistura o decoro com a severidade, e que é uma obra prima comparável com o que há de mais belo neste género, dá a conhecer ao jovem Príncipe que o processo que ele intentara formar ao Príncipe da Paz era não menos que o de seu pai e de sua mãe.
Enquanto ao mais, Sua Majestade nada quis decidir sem primeiro ter ouvido as ilustres partes, e na própria cidade de Bayonne é que se vai julgar esta grande causa, em cujo êxito estão fitos os olhos da Europa.
Ao mesmo tempo consta, por notícias recebidas de Madrid pelo correio que chegou ontem de manhã, que a tranquilidade ficava ali perfeitamente restabelecida, por efeito das medidas de vigor tomadas por Sua Alteza Imperial o Grão-Duque de Berg, havendo sido desarmada toda a vila. As províncias vizinhas repeliram a voz de sedição que fizeram soar entre elas alguns cúmplices dos assassínios cometidos em Madrid. A opinião pública se declarava fortemente contra aqueles que tentaram, por um instante, misturar o fogo da guerra civil com o de uma guerra estrangeira, sobejamente desigual; e a nação espanhola, iluminada a respeito dos seus verdadeiros interesses, dava indícios de conhecer o quão necessário era esperar confiadamente os resultados da augusta mediação, sem a qual, dividida entre os seus próprios Soberanos, e não sabendo onde pudesse encontrar um ponto de apoio, ia a precipitar-se no abismo das revoluções e nos desastres da anarquia a mais horrível.

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[Fonte: Segundo Supplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 19, 14 de Maio de 1808].

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