sábado, 14 de maio de 2011

Carta de Geoffroy Saint-Hilaire às senhoritas Petit, tias-avós da sua esposa (14 de Maio de 1808)



Venda do Duque, 14 de Maio.


Excelentes e caras tias:

O meu jantar está a ser preparado pelos meus companheiros num albergue bastante mau dum lugar chamado Venda do Duque; aproveito o tempo livro que me é permitido para vos escrever. Bem sabeis, minhas boas tias, que sou ternamente afeiçoado a vós, e podeis assim ter uma ideia da satisfação que tenho em consagrar-vos todos os meus pensamentos durante o descanso das pessoas e animais que nos acompanham e conduzem.
No dia 30 de Abril, encontrámos um grupo de frades e duas viajantes no albergue do pequeno lugar de Ventas del Malcaso, que tinha somente dois quartos. Os frades, que lisonjeei da melhor forma que pude ao falar-lhes em latim, e sobretudo aparentado ser partidário da revolução que tinha estabelecido Fernando VII sobre o trono, recusaram-se a emprestar-me o seu quarto para aí tomarmos a nossa refeição: precisavam de dormir. As duas viajantes indignaram-se com tal egoísmo e convidaram-nos a usar o seu quarto. Uma dessas senhoras, esposa de um oficial superior, disse-nos: «Não há que esperar desta canalha senão procedimentos indignos: são a lepra da Espanha; espero que o meu caro Bonaparte nos livre deles. Eis o meu herói - acrescentou ela - , contemplo o [seu] retrato sempre que tenho oportunidade. Como ele é o ser pelo qual me apaixonei excessivamente, digo francamente os erros que lhe conheço. Havíamos destruído o tirano na pessoa do Príncipe da Paz [Godoy]. Porque é que ele permite a existência desse monstro? Sabei que aspirei por um momento a  ser a Judite de Espanha: vedes-me fresca e dotada de algum charme, a crer nos cumprimentos dos cavalheiros. O monstro tinha como única ocupação desonrar os leitos conjugais das famílias mais estimáveis de Madrid. Vou vos dizer que também procurei agradar-lhe: se fosse necessário, teria sofrido a mácula do meu inimigo para assegurar-me melhor do golpe que teria desembaraçado a Espanha deste outro Holofernes. Mas devo confessar que, para minha vergonha, o meu charme não surtiu efeito e, se interiormente fiquei corada por não ser a mais bela das espanholas, é porque não me foi possível fazer a       mais bela e a mais útil das acções».
Ainda que eu não aprovasse esta efervescência, estas palavras ditas com energia e com uma calma que anunciava uma mulher superior, levaram-nos a estimar a bela espanhola. Tudo o que tínhamos de precioso em vinho de Bordéus e em provisões foi desempacotado; e demos-lhe uma refeição perfeita para a circunstância, o que fez enraivecer os frades, que viram que com um pouco de complacência teriam podido regalar-se com os nossos víveres.
Não foi este o nosso único encontro com uma senhora espanhola: ao termos que atravessar um bosque durante quatro horas, entre San Pedro e Mérida, conhecido pelo nome de Confessionário [Confessonario(ou seja, o lugar onde os ladrões fazem os viajantes confessar o que possuem para lho roubar), bosque esse onde se tinha cometido um roubo três dias antes da nossa passagem, julgámos que era apropriado irmos pedir a um oficial espanhol que estava encarregado do cofre do seu regimento e que, por consequência, tinha escolta, para permitir que marchássemos juntamente com ele. No seu carro estava a sua mulher amamentando um bebé e uma filha de cinco anos. Não tínhamos percorrido uma légua quando os cavalos da sua viatura fizeram uma travagem brusca, provocando um grave acidente. Recolhemos na nossa carruagem a senhora e as crianças com tanta cortesia e cuidados que ela não sabia como nos demonstrar toda a sua gratidão. Dois dias mais tarde, ficámos muito felizes por termos prestado esse serviço, porque recebemos um pagamento cem vezes maior; beneficiámos pela nossa parte das boas graças dos naturais da região, e a pronta gratidão da nossa senhora granjeou-nos partidários calorosos e úteis entre a boa sociedade de Mérida. 
Outro caso que não vos dará uma ideia nobre da Espanha: A justiça está excessivamente corrompida, e eis uma prova. O juiz – prefeito da cidade de Trujillo – não permite que nenhum cidadão tenha um albergue; possui uma casa grande que está convertida num estabelecimento desse género, fazendo-a explorar por alguns infelizes hipotecados, enquanto ele fica numa casinha perto da casa grande. O viajante é forçado a utilizar o seu albergue; ele aluga-o muito caro e refaz o arrendamento semanalmente, esperando ganhar cada vez mais. O arrendatário não dispõe de móveis, de provisões, enfim, de nada para uso dos viajantes. Se quer jantar, dizem-lhe: dai-nos dinheiro para comprar pão, vinho, sal, vinagre, ovos, etc., etc., e para o aluguer dos utensílios de cozinha. Quando acaba de jantar, tudo isso é contado pelo quádruplo do que pagaria se o tivesse comprado ele próprio, e depois pedem-lhe dinheiro pelo trabalho da patroa, dinheiro pelo quarto, dinheiro pelo barulho que se fez e, se é de noite, dinheiro para a luz, dinheiro para a cama… tal é o costume. As despesas que já eram muito exageradas nos outros albergues do caminho elevaram-se ao quádruplo em Trujillo; quisemos regatear: «Vós não saireis, responderam-nos. – Mas vamos até à casa do juiz-prefeito. – Fazei-o, responderam, ele é o dono do albergue; vai pedir-vos dinheiro para fazer as facturas, e pronunciar-se-á a nosso favor; porque tal é a condição do contrato que fizemos com ele!». Como demos dinheiro pelo barulho feito na casa, quisemos que esse dinheiro fosse ao menos bem adquirido pelo dono do albergue, e fizemos bastante barulho; mas como era preciso prosseguir o caminho, pagámos.
Já não tenho espaço, minhas caras tias, para começar a contar-vos um quarto episódio; além do mais, escuso de gastar todas as minhas provisões de uma só vez. Quando estiver reunido convosco, contar-vos-ei tanto quanto fordes pacientes para me ouvir. Infelizmente, estou demasiado longe para desfrutar da felicidade de vos rever [nos próximos tempos]. Há dois meses que estou afastado de vós e da vossa querida e boa sobrinha; mas enfim, paciência! até àquele momento feliz de vos beijar e de vos fazer ver todo o afecto vivo, sincero e respeitoso que tenho por vós. 

Geoffroy Saint-Hilaire

[Fonte: E.-T. Hamy, "La mission de Geoffroy Saint-Hilaire en Espagne et en Portugal (1808). Histoire et documents", in Nouvelles Archives du Muséum d'Histoire Naturelle, Quatrième série - Tome dixième, Paris, Masson et C. Éditeurs, 1908, pp. 1-66, pp. 39-41].

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