segunda-feira, 14 de março de 2011

A chegada da notícia da ocupação de Roma à Espanha



atrás deixámos indicado que, no início de Fevereiro de 1808, um corpo de tropas napoleónicas ocupou Roma. No início de Março, a Gazeta de Madrid assentava da seguinte maneira a primeira notícia "oficial" publicada na Espanha sobre esse acontecimento: 





No entanto, para além desta notícia, começavam a chegar ao mesmo tempo à Espanha outras informações mais pormenorizadas sobre o referido episódio. Godoy, que a este tempo já tinha convencido Carlos IV a dirigir-se com a sua Real família para Sevilha ou para Cádis, para em último caso embarcar para a América (viagem contudo contrária à vontade do Príncipe herdeiro, entre muitos outros), viu reforçados no caso de Roma os maus presságios que já pairavam sobre a Espanha: também ali as tropas francesas tinham ocupado as fortificações de um território que supostamente servia apenas de passagem.
Ainda segundo Godoy, a circulação desta informação foi no entanto manipulada e desmentida pelos partidários do Príncipe das Astúrias D. Fernando, que continuavam a confiar cegamente nas boas intenções de Napoleão, dominados como estavam, directa ou indirectamente, pelo embaixador da França junto da Corte, Beauharnais (que como vimos tinha sido, pelo menos aparentemente, um dos instigadores dos acontecimentos de El Escorial):


[...] Chegaram [...] por mar [...] as agourentas notícias dos insultos e violências que o Papa sofria em Roma, precursoras das que preparava Bonaparte entre nós próprios. Poucos ignorarão ou terão esquecido de que modo se apoderou de Roma o General Miollis a 2 de Fevereiro de 1808, que depois de pedir a simples passagem inofensiva pelos Estados Pontifícios para Nápoles, e acabado de prometer, através de Mr. Alquier, embaixador francês, que não fariam estadia nenhuma na cidade, entraram as suas tropas como donas, forçaram o castelo de Sant'Angelo, ocuparam todos os postos militares, e plantaram a artilharia com as bocas viradas para o Quirinal, mansão pacífica do venerável pai dos fiéis. [...] 
Ocultamente, procurei espalhar aquelas tristes notícias, certo que seriam um meio para preparar os ânimos antes de fazer à nação o manifesto que tentaria escrever enquanto o Rei se retirasse e estivesse a salvo das tropas imperiais. Os sedutores de Fernando não tardaram em conhecer as mesmas notícias por várias outras cartas que chegaram, e especialmente as do núncio, que, na verdade, não fez mistério das suas; mas estes homens, fascinados por Beauharnais, não desistiram dos seus planos nem temeram o engano. Acreditaram em Beauharnais, que desmentiu tais notícias, e (ó maldade!) poucos dias depois a nossa Gazeta publicou um artigo de Roma concebido nestes termos: «Roma, 8 de Fevereiro. Sua Santidade se dignou hoje a dar audiência aos oficiais do corpo do exército francês, apresentados por Mr. Alquier, embaixador da França. O Santo Padre recebeu-os com a maior bondade, e o General Miollis, comandante em chefe, cumprimentou-o em nome de todos. É de admirar a boa disposição, ordem e disciplina das tropas francesas e a harmonia que reina entre elas, as de Sua Santidade e os naturais». 
Desta maneira desfizeram os meus contrários aquele último recurso que me vinha às mãos para poder tornar credíveis os desígnios ambiciosos e inimigos que Bonaparte começava a realizar entre nós, pelos mesmos meios que usava em Roma. Quem ordenou a impressão daquele artigo? Se não houve conivência na Secretaria de Estado, em cuja atribuição e dependência estava a Gazeta, houve pelo menos surpresa. O director daquele periódico declarou sob juramento ter vindo o tal artigo com os demais que se enviavam por parte do Governo; a letra, no meio disto, não era de mão conhecida. Não era já Carlos IV quem mandava; era a embaixada francesa e a facção que mandava já à sua vontade. [...]


[Fonte: Cuenta dada de su vida política por Don Manuel Godoy, Príncipe de la Paz - Tomo V, Madrid, Imprenta de I. Sancha, 1838, pp. 382-386].

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