sábado, 26 de fevereiro de 2011

Duas cartas de Napoleão aos Ministros das Finanças e da Guerra (26 de Fevereiro de 1808)



Carta de Napoleão ao Ministro das Finanças, mr. Gaudin


Paris, 26 de Fevereiro de 1808

Li com interesse o vosso relatório sem data sobre as finanças de Portugal. As despesas deste país são bastante exageradas; elas incluem 12 milhões [de francos?] para a Marinha, que certamente não deve custar mais de 4 milhões; 4 milhões são aplicados para as fortificações, mas podemos economizar cerca de 3 milhões: as fortificações terrestres não têm necessidade de ser reparadas, e talvez fosse importante demoli-las. 
Não vejo qualquer inconveniente em confiscar as mercadorias apreendidas aos ingleses e devolver às alfândegas as mercadorias existentes e que realmente pertençam aos portugueses, desde que se verifique que as mesmas não vieram da Inglaterra e que não pertencem a portugueses que partiram com a Corte. Poderemos impor sobre essas mercadorias uma contribuição alfandegária dupla, a título de contribuição de guerra. Talvez seja conveniente que se prepare a amortização do papel-moeda em troca dos bens da Coroa. Escrevereis nesse sentido ao senhor Hermann. Em relação à contribuição [extraordinária dos 100 milhões de francos], ela deve, sem dúvida, abranger todo o país. 

[Fonte: Correspondance de Napoléon Ier – Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 446-447 (n.º 13607).] 


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Carta de Napoleão ao Ministro da Guerra, General Clarke



Paris, 26 de Fevereiro de 1808. 

Senhor General Clarke, reenvio-vos as notícias do General Junot que recebi há alguns dias e aquelas que me remeteu o vosso Ajudante de Campo. Respondei-lhe, expedindo a vossa carta por um estafeta até Burgos, donde o Marechal Moncey a fará levar até Lisboa por um oficial, que quanto menos correspondência estabelecer ele com os ingleses, melhor; que achei que nas suas proclamações ele promete muito, e que não toma medidas severas para assegurar a tranquilidade. Como é possível que ele chegue ao terceiro mês de ocupação de Portugal ainda com soldados portugueses, e que as praças-fortes continuem a ser governadas pelos portugueses? Estou certo de que os praças importantes de Elvas e de Almeida continuam nas suas mãos, coisa que é inconcebível. Porque é que as minhas tropas não estão em campos militares, como eu tinha ordenado, e se encontram no meio de Lisboa, expostas a ser massacradas no primeiro evento? Porque é que a população não está já desarmada e as principais personalidades do país enviadas para a França? Dizei-lhe que eu somente prevejo desgraças derivadas dessa péssima conduta, e que não posso estar satisfeito com aquilo que vejo em Portugal. Seria necessário ter publicado que eu eu iria impor uma contribuição de cem milhões antes de estar seguro de dominar o país? Só vejo imprudência naquilo que ele faz; e disso serão os ingleses informados, pois as suas correspondências secretas são numerosas. Reiterai-lhe as minhas ordens para que, sem demoras, todas as tropas portuguesas sejam dirigidas para a França por colunas de 500 homens e por diferentes rotas. Como é possível que a minha própria Cavalaria não esteja montada? Reiterai-lhe as minhas ordens para desarmar a população e para fazer abarracar as minhas tropas, pois não posso vê-las com gosto no meio duma cidade populosa e sem pão, que provavelmente sentirá privações logo que os ingleses tentem alguma coisa. Esta fraqueza de conduta e esta indiferença sobre a execução das minhas ordens é inconcebível em assuntos tão importantes, e eu não prevejo mais que desgraças. É da mais alta importância, nas actuais circunstâncias, que as praças de Elvas e de Almeida estejam guardadas e bem comandadas pelos franceses. Como é que a artilharia ainda não enviou uma relação daquilo que foi confiscado, da artilharia que foi encontrada em Lisboa e nos fortes? Os engenheiros militares não escrevem mais. Ignoro completamente qual é a força das divisões espanholas, das quais uma é comandada pelo General Solano, e a outra está na província do Porto. Como é que não sou informado das coisas verdadeiramente importantes? Recomendai ao General Junot para vigiar essas duas Divisões e para seguir os seus movimentos, se nalguma ocasião deixarem Portugal. Vós compreendeis a minha intenção. Colocai as diferentes questões ao General Junot para se saber porque é que as minhas intenções não são satisfeitas. Também lhe escrevi cartas que, todas elas, abordam as mesmas questões. 

[Fonte: Correspondance de Napoléon Ier – Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 447-448 (n.º 13608).] 


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