quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Lisboa protegida por Junot, segundo Domingos António de Sequeira


O pintor Domingos António de Sequeira, representado na gravura ao lado, "nasceu em Belém, subúrbios de Lisboa, a 10 de Marco de 1768 e faleceu de apoplexia em Roma a 7 de Março de 1837 (e não em 1838 nem 1839, como disseram alguns dos seus biógrafos). Foi Sequeira um dos primeiros discípulos da aula de desenho da Corte, aberta em 1781, onde alcançou alguns prémios. Depois de a cursar durante 5 anos, foi estudar a pintura com o engenhoso e extravagante Francisco de Setúbal, a quem ajudou a fazer alguns tectos no palácio de João Ferreira, rico sapateiro e negociante de couros. Protegido pela casa dos Marialvas, obteve uma pensão de 3oo$ooo reis paga pelo bolsinho de Sua Majestade [a Rainha D. Maria I] para estudar em Roma, onde chegou em 1788, elegendo para seus mestres, em pintura, Cavalluci, e em composição e desenho, Picola. [...]
Em 1791 obteve Sequeira um primeiro prémio da Academia de S. Lucas, sendo o assunto do concurso o milagre dos pães e dos peixes. Em 1794 foi nomeado académico de mérito da mesma academia, oferecendo para isso a degolação do Baptista. Depois de ter dado brilhantes provas do seu talento em algumas cidades de Itália, e estudando aí os melhores modelos, voltou à sua pátria em Abril de 1796.
Chegado a Lisboa, visitou Pedro Alexandrino e Cyrillo Volkmar Machado, a quem se lastimou do abatimento da arte, e lhes propôs que se unissem todos para a exaltar, dando-lhe mais estimação e maior valor às obras. Pela sua parte, bem se esforçou por levar a cabo o seu propósito, mas debalde. Todos desejavam ter uma obra sua, mas ninguém lhe chegava ao preço. O conde de Val de Reis quis incumbi-lo da pintura de dez batalhas numa das suas ante-câmaras, mas aterrou-se com o preço de 4.800$000 réis que Sequeira lhe exigia. O pintor desanimou e caiu em tal melancolia, que se fez monge da Cartuxa. 
Parecia já perdido para o século, quando D. Rodrigo de Sousa Coutinho conseguiu que o sr. D. João VI [então príncipe regente] o nomeasse por decreto de 28 de Junho de 1802 primeiro pintor da Câmara e Corte, com 2.000$000 réis de ordenado, e a obrigação de dirigir e executar com o seu colega Francisco Vieira Portuense a melhor parte das pinturas do novo palácio da Ajuda. Em Setembro de 18o3 foi aceite para mestre da sr.ª Infanta D. Maria Teresa, e deram-lhe sege e hábito de Cristo e, depois, novas honras e pensões para si e sua filha. Em 7 de Janeiro de 1806 foi proposto pela junta da administração da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto-Douro para director da aula de desenho da nossa Academia [Real da Marinha e Comércio do Porto], com a obrigação de residir no Porto três meses por ano, a fim de vencer seu ordenado. E foi na verdade nomeado por Carta Régia de 8 de Maio de 1806, na qual todavia se não menciona aquela obrigação. Verdadeiramente só serviu o dito cargo em 1806 e 1807, posto que recebesse ordenado respectivo até à supressão do lugar em 1821" [Annuario da Academia Polytechnica do Porto - Anno Lectivo de 1877-1878, Porto, Typographia Central, 1878, pp. 260-263].
Domingos Sequeira encontrava-se precisamente no Porto, dando aulas de desenho, quando os franceses ocuparam a capital. Ao regressar a Lisboa, a 16 de Janeiro de 1808, para retomar as suas funções de direcção de pintura do palácio da Ajuda, conhece e afeiçoa-se ao Ajudante de Ordens do General Junot, Louis Nicolas Philippe Auguste, mais conhecido por Conde de Forbin, que também amava as artes e gostava de pintar (e que, no futuro, tornar-se-ia curador do museu do Louvre). Sequeira chegou mesmo a levar o Conde de Forbin a visitar algumas jóias da arquitectura portuguesa, como os mosteiros da Batalha e de Alcobaça. 
Dever-se-á fazer um parênteses para salientar que os traços que o conde francês teria esboçado neste último local serviriam-lhe posteriormente para a composição de três quadros inspirados na trágica história de Inês de Castro: uma reprodução do túmulo da rainha póstuma e duas representações, muito semelhantes entre si, da exumação e coroação da mesma figura. A primeira destas composições teria sido oferecida ao príncipe Eugénio (enteado de Napoleão), e as duas últimas seriam expostas no grande salão de Paris: uma em 1812 (sobre a qual foi composta a gravura inserida à direita [extraída do romance histórico da Condessa de Genlis, Les tableaux de M. le Comte de Forbin..., Paris, Chez Maradan, 1817, p. 29]), e a outra em 1819. 
Através do Conde de Forbin, Sequeira travou conhecimentos com outros oficiais franceses, para os quais chegou a compor algumas obras, nomeadamente retratos dos mesmos. Escreveu Sousa Holstein que "o próprio General em Chefe [Junot], informado dos seus merecimentos, desejou que pintasse um quadro alusivo ao estado actual de Lisboa, dando-lhe ele mesmo o tema da alegoria. Junot havia-lhe também prometido o pagamento de alguns meses de ordenado que estavam em dívida, e tinha-o incitado a que continuasse na direcção dos trabalhos do paço". Para o referido quadro alegórico, "queria Junot que Lisboa se mostrasse segura, sob a protecção do herói cujo governo sábio e prudente preparava prémios para quem os merecesse; Neptuno devia apresentar-se trémulo ao aspecto do fulminante Marte". Sousa Holstein, que nunca viu esta obra, desconhecendo o seu paradeiro e julgando-a destruída aquando da violenta reacção anti-francesa que se seguiu à expulsão dos invasores, possuía, no entanto, um pequeno esboço de Sequeira também alusivo ao General Junot, que descreve da seguinte maneira: "um génio pairando nos ares segura com a mão esquerda um ramo bastante avolumado de saudades, e levanta com a mão direita um pequeníssimo medalhão, no qual se lê em letras microscópicas Duque de Abrantes; ao lado vê-se uma águia branca com as asas fechadas e poisando em cima de nuvens; toda a parte superior do quadro está brilhantemente iluminada; na parte inferior, assombrada pelas nuvens, está uma paisagem em cujo último plano se descobre a torre de Belém, sobre a qual flutua, em ponto tão pequeno que mal se pode enxergar, a bandeira tricolor francesa. É evidente que neste quadro alegórico, executado certamente durante a invasão francesa, o nosso artista quis encobrir e dissimular quanto possível as alusões que se viu obrigado a fazer em honra dos nossos temporários vencedores. Se glorificou Junot, não pôde esquecer-se das saudades que tinha da independência da pátria, e, ao passo que o génio proclama a vitória do General francês, quis o artista mostrar que não era deste que fiava o futuro da pátria, senão do príncipe que, tão ao longe, nas terras de além mar, conservava vinculado a si o amor dos portugueses, apesar de não ter sabido ou não ter podido protegê-los. Este pensamento de Sequeira é, a meu ver, perfeitamente indicado pela facha de luz brilhantíssima que no horizonte da parte inferior do seu quadro, todo mergulhando em densíssimas trevas, chama a vista do espectador para aquele ponto do ocidente onde, em relação a Portugal, está situado o Brasil" [Marquês de Sousa Holstein, "Domingos António de Sequeira - IV (continuação)", in Artes e Letras - Terceira Serie, Lisboa, Rolland & Semiond Editores, 1874, pp. 166-169]
O quadro que Sousa Holstein não conhecera e que julgara desaparecido para sempre foi motivo para Domingos António de Sequeira passar algum tempo na prisão, já depois da expulsão dos franceses em 1808, tendo sido denunciado, entre outras acusações, de ter pintado uma alegoria glorificando Junot e desvalorizando Portugal. De pouco valeu a sua defesa, onde alegava "que não procedera voluntariamente, porque tinha de emigrar ou de obedecer a Junot, que lhe indicara o pensamento do quadro. Ainda assim, revelou aí mesmo o seu patriotismo, porque iludindo a intenção do General francês, pintou a cidade de Lisboa sentada em atitude triste, amparada pela religião e pelo génio da nação portuguesa, e Junot em acção de a consolar. Junot não ficou satisfeito com o esboço pelo qual era acusado o seu autor" [Annuario da Academia Polytechnica do Porto - Anno Lectivo de 1877-1878, Porto, Typographia Central, 1878, pp. 264-265]
Ainda sobre esta pintura, que abaixo se publica, escreveu José Augusto França que Domingos Sequeira, "convocado por Junot, recebia a encomenda de uma alegoria cujo programa (afiançou o pintor, mas isso é pouco provável) foi escrito pelo próprio punho do general. O «guerreiro invicto, prudente e justo» protege Lisboa. A cidade, sentada e triste, esfalfada, é amparada pela religião e pelo génio nacional que olha, com temor e fascinação de adolescente, para um magnífico Junot em grande gala de hussardo, que pega na mão de Lisboa, para a consolar. Ceres e Minerva, a abundância e a sabedoria, aproximam-se pelos ares, debaixo da sombra imensa de uma águia de asas abertas; no outro lado da composição, Marte-França fulmina Neptuno-Inglaterra, e no fundo desdobram-se regimentos franceses e perfila-se a esquadra russa. O quadro tem um tom de melancolia, na doçura do seu colorido dourado" [José Augusto França, A Arte em Portugal no século XIX - I Vol., Bertrand Editora, Lisboa, 1990, apud Do Porto e não só]
Desconhece-se o título original deste quadro, pintado a óleo (73,5 x 100 cm), e que se encontra actualmente no museu Soares dos Reis, no Porto. A maioria das fontes nomeiam-no como "Junot protegendo a cidade de Lisboa", mas num livro publicado em 1835 e intitulado Policia secreta dos ultimos tempos do reinado do senhor D. João VI; e sua continuação até Dezembro de 1826, surge com o título de "Lisboa sustentada no seu declívio e escorada pelo braço do grande protector Junot". Nesta última obra, aliás, aparece a menção de uma terceira pintura de Domingos Sequeira realizada no contexto da primeira invasão, intitulada "As artes brotando das brenhas do rude Portugal pelo sopro regenerador dos exércitos franceses" [op.cit., p. 435-436], e da qual se desconhece o paradeiro. __________________ Bibliografia consultada (para além da já citada): 


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