sábado, 12 de dezembro de 2009

Continuação da entrada das tropas invasoras em Portugal: as forças espanholas



"Além da divisão espanhola de D. Juan Carrafa, em que já se falou, e que veio a ter a força de 7.593 homens e 2.164 cavalos, com 20 peças de artilharia, que em Alcántara se devia juntar ao exército francês de Junot, uma outra divisão espanhola, na força de 9.578 homens com 1.500 cavalos e 12 peças de artilharia, comandada pelo Tenente General D. Francisco María Solano Ortiz de Rozas, marquês do Socorro e Capitão General da Andaluzia, entrou no Alentejo para tomar conta desta província e da do Algarve em nome do Príncipe da Paz. No dia 2 de Dezembro apresentou-se diante de Elvas. Esta praça, que é seguramente a chave do Alentejo, estava bem em estado de sofrer um longo e aturado sítio. A ela se tinha recolhido o Tenente General Marquês de Alorna, depois de a ter abastecido de víveres, e de lhe ter metido mais de 3.000 homens de guarnição. O marquês, sendo dos primeiros que soube da entrada dos franceses na Beira, e ainda antes que o General Solano tivesse reunido as suas tropas, mandara o Tenente Coronel Carlos Frederico Lecor, seu ajudante de campo, verificar a notícia daquela entrada, e ir imediatamente a Lisboa participá-la ao príncipe regente. O mesmo Tenente Coronel Lecor, na sua volta para Elvas, levou ao marquês a ordem de franquear a entrada da praça às tropas estrangeiras que assim lho exigissem. Solano entrou portanto em Elvas sem achar resistência alguma, e deixando ali três batalhões, e nos demais fortes que daquela praça dependem, foi estabelecer o seu quartel general em Setúbal, cidade (por aquele tempo vila) a cinco léguas ao sul de Lisboa, e de lá providenciou sobre o melhor modo de se assegurar da posse do Alentejo e Algarve. A 30 de Novembro tinha ele dirigido em Badajoz uma Ordem do dia aos seus soldados, recomendando-lhes toda a moderação possível na sua entrada em Portugal, visto ter o governo português dado ordens para que fossem recebidos como amigos.
Nas províncias do norte do reino, a entrada dos espanhóis foi um pouco mais demorada. O rio Minho foi por eles passado pacificamente em batéis, debaixo da artilharia da praça de Valença. Posto que desmantelada e mal provida de artilharia como esta praça se achava, se todavia fizesse fogo, os espanhóis seriam seguramente obrigados a escolher um outro ponto para atravessarem o Minho. Valença tinha então por Governador o velho Marechal de campo Miron, com os seus oitenta anos de idade, reputado como um dos mais hábeis oficiais que no tempo do marquês de Pombal consigo tinha trazido o conde de Schaumberg Lippe. Da divisão espanhola, que na força de 6.584 homens com 12 peças de artilharia se destinava a tomar conta, em nome do rei da Etrúria, das províncias do Minho e Trás-os-Montes, era Comandante em Chefe o Tenente General D. Francisco Taranco y Llano, Capitão General da Galiza, o qual, deixando guarnições em Valença e em Viana, só no dia 13 de Dezembro entrou na cidade do Porto. Os Generais espanhóis seguiram em tudo os ditames do General Junot. Taranco proclamou também aos moradores do Minho e Trás-os-Montes, no mesmo dia 13 de Dezembro, anunciando-lhes que toda a cidade, vila ou aldeia onde se disparasse um só tiro contra a tropa espanhola, entregaria o deliquente, ou ficaria responsável pelo atentado, obrigando-se a fazer o mesmo a justiça da jurisdição ou freguesia onde se matasse qualquer indivíduo da milícia espanhola, pagando além disto de contribuição o triplo do valor do seu produto anual, tomando a quatro dos principais vizinhos como fiadores da paga. 
[...]
Desde a entrada do General Junot em Lisboa, o Supremo Governo do Reino foi por ele concentrado inteiramente nas suas mãos, porque posto [que] só devesse governar as duas Beiras e a Estremadura, em nome do Governo francês, segundo as disposições do tratado de Fontainebleau, tratou logo de estender a sua influência às províncias do norte e sul do Reino, quando aliás deviam ser governadas aquelas pelo General Taranco, em nome do Rei da Etrúria, e estas pelo marquês do Socorro, em nome do Príncipe da Paz, segundo as citadas disposições. Os Governadores do Reino ficaram desde então reduzidos de facto a um mero Conselho de Governo junto do General Junot, tendo apenas uma sombra de poder, que só nominalmente se estendia a todo o Reino, exercendo-o de facto o referido General, tendo como seus delegados os dois já citados Generais espanhóis. Ainda assim mesmo o referido Conselho achava dificuldades no desempenho das suas funções, porque a arrogância e o despotismo do General francês nenhuma liberdade lhe deixava nas suas deliberações. Junot e os Generais espanhóis tiveram ordem dos seus respectivos Governos para não divulgarem o tratado de Fontainebleau. Todavia D. Francisco Taranco insinuou aos magistrados do Porto que a sua província devia ser olhada como fazendo parte da monarquia espanhola. Em Setúbal, Solano ainda foi mais adiante, porque não só substituiu em todos os actos públicos o nome do rei da Espanha ao do Príncipe Regente, mas até criou lugares novos, em que foram providos súbditos castelhanos. Solano era um fidalho da íntima confiança do Príncipe da Paz, de que resultou supor-se que semelhantes inovações eram o resultado das ordens por este expedidas. Tão impaciente estava o duque soberano dos Algarves de reinar por sua própria conta, que a serem verdadeiros os rumores que por aquele tempo correram, na Casa da moeda de Madrid se chegaram até a cunhar patacas que por um lado tinham a efígie de Godoy, com a legenda Emanuel Primus Algarbiurum Dux, e do outro as armas do reino dos Algarves1".










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1. Nota nossa: A referência mais antiga que conseguimos encontrar sobre esta moeda provém da Introducción para la Historia de la Revolución de España, obra de Alvaro FLOREZ ESTRADA publicada em 1810:  



[p. 54]

Por sua vez, Josef CLEMENTE CARNICERO, no primeiro tomo da sua Historia razonada de los principales sucesos de la gloriosa revolucion de España, publicado em 1814, indica mais pormenorizadamente que


[pp. 51-52]


Finalmente, teria sido o General Foy, no terceiro tomo da sua Histoire de la guerre de la Péninsule sous Napoléon, publicado em 1827, que celebrizou o boato de que

[p. 27]

Apesar das referências a estas moedas serem frequentes na bibliografia consultada (pois quase todos os autores, por sua vez, consultaram a obra de Foy), um investigador como Raúl da Costa Couvreur, depois de apuradas buscas em museus e colecções de numismática espanholas e francesas, sustenta que nunca existiram tais moedas (Cf. "Moedas do Príncipe da Paz, Manuel Godoy como Soberano do Principado dos Algarves", in Revista de Arqueologia, 2.º Tomo, 1936). Tudo não passaria assim,  portanto, de um enorme boato que se teria propagado pouco antes ou logo após a prisão de Godoy (em Março de 1808), o que, aliás, iria ao encontro da primeira fonte citada.

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