segunda-feira, 25 de abril de 2011

Acta da Vereação da Câmara de Faro (25 de Abril de 1808)



Aos vinte e cindo dias do mês de Abril de mil oitocentos e oito anos, nesta cidade de Faro e Casas da Câmara dela, onde se ajuntaram o Doutor Manuel Herculano de Freitas Azevedo Falcão, Juiz de Fora que serve ao presente de Corregedor da Comarca por impedimento do actual, e as Câmaras desta Comarca, que são a desta cidade e da cidade de Silves e a da Vila de Lagoa, convocadas todas pelo dito Ministro como determinado na Régia Provisão vinda da Real Junta do Comércio, Agricultura, Fábricas e Navegação destes Reinos e Seus Domínios, datada de 8 do presente mês de Abril, para regularem da quantia de cinco contos de réis em que pela mesma Real Junta foi colectada esta Comarca para satisfação da contribuição proposta a este Reino pelo Real Decreto do primeiro de Fevereiro deste presente ano, de quanto deveria ser a cota que ficasse respeitando a cada uma das mesmas Câmaras e sendo, com efeito, disputada esta matéria pelas mesmas Câmaras, por fim se foi acordado por todas, em atenção às disponibilidades de cada uma das mesmas terras, em que esta cidade de Faro e seu termo ficava obrigada a dar a cota de três contos e seiscentos mil réis, a cidade de Silves a cota de oitocentos mil réis e a vila de Lagoa a cota de seiscentos mil réis, tudo para inteira satisfação da contribuição que foi proposta a esta cidade de Faro e de como se havia acordado fiz este termo que assinaram o dito Juiz que serve de Corregedor da Comarca e mais vereadores das ditas Câmaras e eu, Francisco Xavier de Thadeo [?] escrevi. 

Azevedo Falcão 
[?] 
Cruz 
Figueiredo 
Freire 
Guilherme José Pragana 



Pela Câmara de Silves: 

Mascarenhas Neto 
[?] 
Serpa 
[?] 



Pela Câmara de Lagoa: 

Machado Santos 
Fogaça 


[Fonte: Arquivo Histórico Militar, 1.ª div., 14.ª sec., cx. 186, doc. 24].


domingo, 24 de abril de 2011

Ordem do dia de Junot sobre um rechaço de algumas embarcações inglesas perto de Belém (24 de Abril de 1808)





Ordem do dia do Exército de Portugal 


O General em Chefe, satisfeito do modo com que se portou a equipagem da corveta de Sua Majestade Imperial e Real a Gaivota, comandada por mr. le Blond-Plassan, Tenente do Mar, na acção que houve na noite de 22 para 23 deste mês, entre a dita corveta e cinco pinques [sic] ingleses, amarinhados por mais de 150 homens, se apressa a dar a conhecer ao exército, pela sua ordem do dia, as particularidades seguintes: 

Pelas duas horas da manhã, 5 pinques ingleses abordaram a Gaivota, por duas diferentes vezes; mas de cada vez foram repelidos à arma branca e a tiro de pistola. Da terceira vez tentaram os pinques a abordagem; porém, o fogo da curveta foi tão vivo e tão bem dirigido, que não cuidaram mais que em salvar-se, abandonando todos os da sua companha que se achavam ainda mais embaraçados nas redes e ovéns, os quais tiveram de ser lançados ao mar. 

Nessa ocasião perdeu o inimigo pelo menos 40 homens, especialmente o oficial comandante da expedição, que foi morto por mr. le Blond-Plassan, ficando o seu chapéu e pistola em poder do Comandante da Marinha. 

A equipagem da Gaivota, principalmente os militares, capitaneados pelo Tenente Gargan, e dois marinheiros franceses, pelejaram com muito valor. Não temos de sentir mais que a perda dum só homem, por apelido Glasser, soldado da 4.ª Companhia da Legião Hanoveriana, que ficou mortalmente ferido. Também o foram mais oito, se bem que levemente, de sorte que em breve poderão tornar a servir. 

Mr. le Blond-Plassan dá um particular louvor aos senhores oficiais do seu comando, os quais se houveram na referida acção com coragem presença de ânimo. 

Os ingleses quiseram festejar o dia [de] aniversário de S. Jorge [23 de Abril]; mas ficaram enganados. Não é assim que o exército francês tem solenizado o aniversário da coroação do seu Imperador e o da batalha de Marengo. 

Palácio do Quartel-General de Lisboa, a 24 de Abril de 1808. 

O Duque de Abrantes 

[Fonte: Gazeta de Lisboa, n.º 17, 26 de Abril de 1808]. 


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Observações:

Com em tantos outros casos, é difícil perceber, mais de 200 anos depois, o que realmente se passou naquela noite. A versão de Acúrsio das Neves, que também abordou este episódio, não podia contrastar mais com a versão de Junot: depois de referir a fuga do Núncio e a forma como Junot esbravejou ao sabê-lo, sem nada poder fazer, continua o citado autor, com ironia: 

“É coisa notável que raras vezes se experimenta um desgosto que não seja acompanhado de outros! Os ingleses frustraram novamente a vigilância das torres e baterias da barra na noite de 23 [de Abril], e vieram perto de Belém em embarcações ligeiras atacar o brigue Gaivota, e o teriam levado se uma rede de corda não defendesse a sua abordagem. Ainda principiaram a rompê-la; mas sendo pressentidos pelos franceses que guarneciam o brigue, tiveram de desistir da empresa, deixando um chapéu, que provavelmente caiu da cabeça a algum dos ingleses, na acção de quererem romper a rede, e sempre levaram uma lancha pertencente ao brigue. Esta notícia logo na manhã seguinte se divulgou pelos cafés e pelas praças de Lisboa; mas ao mesmo tempo que se celebrava com prazer a ousadia nobre dos ingleses e o desleixamento das guarnições francesas, que não só os deixaram entrar, mas até sair a salvo, depois de descobertos, tendo-se entranhado tanto pelo rio acima, com que admiração se não viu logo uma arrogante gazeta que representava esta acção como uma vitória assinalada das armas francesas? Eram cinco pinques, dizia o gazeteiro* (e nem na entrada, nem na saída foram vistos!) e não menos de quarenta, incluso o comandante da expedição, ficaram mortos de um rasgo de pena. É assim que o valor de Lagarde pretendeu cobrir a vergonha dos soldados franceses; é assim que estes impostores têm enganado o mundo!” [Fonte: José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal - Tomo II, Lisboa, 1810, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, pp. 227-228].

Ainda que possamos considerar que Lagarde tenha exagerado, parece certo que os ingleses foram realmente rechaçados naquele dia 22 de Abril, segundo se deduz da inscrição da lápide dum monumento erguido diante da praia (nova) de Paço d'Arcos, em memória do Capitão Conway Shipley, um militar britânico que morreu nesse ataque mal sucedido: Sacred to the memory of Conway Shiply [sic], Esq. aged 25 years, late Captain of His Britannic Majesty’s Ship La Nymphe, who was killed in an attempt to cut an enemy’s vessel of war out of the Tagus, on the 22d of April, 1808. Circumstances which human wisdom could not foresee nor any exertion of human courage obviate, rendered the attempt unsuccessful, and closed the short but distinguished career of the Gallant Leader of it. But while his name will live long in records of Fame and the remembrance of his country, it is hoped that the brave and good of every nation will venerate his ashes and contemplate with respect the last mansion of a hero.
[Ver a tradução em "Lapides nas sepulturas de alguns officiais inglezes, mortos em Portugal durante a Guerra Peninsular", in Francisco Augusto Martins de Carvalho, Guerra Peninsular - Notas, Episodios e Extractos Curiosos, Coimbra, Typographia Auxiliar d'Esciptorio, 1910, pp. 62-63].

Acrescentamos finalmente que o blog Age of Sail contém uma entrada sobre Conway Shipley, incluindo uma narração mais pormenorizada deste ataque no Tejo.

Fonte das imagens: Os Bardinos
Túmulo do inglês
(Paço d'Arcos)

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Nota:

* Alusão a Lagarde, que ficou de facto conhecido em Portugal como o gazeteiro. Na verdade, Acúrsio das Neves comete aqui um lapso, visto estar a referir-se obviamente ao texto (a ordem do dia acima transcrita) assinado pelo Duque de Abrantes (Junot), publicado originalmente na Gazeta de Lisboa.

sábado, 23 de abril de 2011

Acções navais britânicas no sul da Península em Abril de 1808



Se Napoleão dominava o continente europeu, a Grã-Bretanha demonstrava sempre que podia o seu poderio sobre os mares. Já tivemos ocasião de anotar dois episódios protagonizados pela esquadra britânica que bloqueava a costa portuguesa, o primeiro em Portimão, no início de Janeiro de 1808, e o segundo na foz do Tejo, em meados de Fevereiro do mesmo ano. 

Mas não era só a costa portuguesa que era importunada pelas esquadras britânicas. Outro importante porto permanentemente bloqueado pelos navios de guerra de Sua Majestade Britânica era o de Cádis, onde se mantinham 5 navios franceses e 6 espanhóis desde a batalha de Trafalgar. Foi precisamente aí perto, na costa de Rota, que três fragatas britânicas (Alceste, Mercury e Grasshopper) ousaram interceptar, no dia 4 de Abril de 1808, um grande número de navios mercantes espanhóis, que eram comboiados por cerca de 20 embarcações de guerra. Apesar de se tratar de uma acção no mínimo bastante arriscada para a tripulação das três fragatas, pois para além do muito maior número de embarcações inimigas havia ainda que somar a artilharia das baterias costeiras, os britânicos conseguiram, depois de duas horas e meia de intensa chuva de artilharia de ambas as partes, destruir completamente 2 navios espanhóis e capturar outros sete (carregados de madeira para construção naval e com o respectivo armamento e pólvora), forçando assim as restantes embarcações a se retirarem [Cf. John Marshall, Royal Naval Biography, Supplement Part I, London, 1827, pp. 311-313; James Ralfe, The naval biography of Great Britain- Vol. IV, London, 1828, pp. 320-322]. 

Dezanove dias depois do referido episódio, onde da parte da Grã-Bretanha só morreu um homem e foram feridos outros três, apesar da fragata Grasshopper ter ficado em bastante mau estado, voltava a ocorrer um novo confronto entre as tripulações de duas embarcações britânicas e seis espanholas, mas agora mais perto da costa portuguesa, algures a sul de Faro. Uma das embarcações que protagonizaram este novo episódio foi precisamente a aludida fragata Grasshopper, como se pode ver através da seguinte carta do seu Capitão, Thomas Searle, escrita a 24 de Abril para o Contra-Almirante John Child Purvis, que comandava a esquadra britânica ancorada nos arredores do porto de Cádis:


Tenho a honra de vos informar que, acompanhado pelo brigue H.M.S. Rapid, tive a boa sorte de encontrar na manhã de ontem duas embarcações espanholas vindas da América do Sul, protegidas por quatro embarcações armadas; depois de uma pequena perseguição, elas ancoraram debaixo da protecção de uma bateria perto de Faro, entre os bancos de areia*; ancorei imediatamente ao alcance dos tiros de metralha, e, depois de uma acção muito severa durante duas horas e meia, as pessoas na costa abandonaram as suas armas, duas embarcações de guerra ficaram danificadas, e impelimos as outras duas para a praia, onde foram destruídas. As cargas que iam a bordo das duas embarcações espanholas que capturámos valem trinta mil libras cada uma; mas lamento dizer que isto não foi executado sem perdas na nossa parte: tivemos um homem morto, e eu próprio fui ferido ligeiramente [por um tiro de mosquete na virilha], e três marinheiros gravemente; ambas as embarcações sofreram muito nos seus cascos, mastros, velas e cordames. As perdas dos inimigos foram muito grandes nas duas embarcações de guerra capturadas: tiveram quarenta mortos e feridos; enviei catorze feridos pela costa até Faro, por não ter meios de tomar cuidado dos meus próprios feridos e dos do inimigo, o que espero que aprovareis. 
[…] 

Thomas Searle 



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Nota:

*  Dada a vaga descrição de Thomas Searle, não podemos precisar qual seria a fortificação aludida, uma vez que eram várias as construções defensivas costeiras assentes no cordão dunar das ilhas-barreiras à volta de Faro, como se pode ver no seguinte mapa (note-se que o sul está para cima), desenhado por volta de 1788 por José de Sande Vasconcelos, um engenheiro militar destacado no Algarve, onde elaborou diversos registos cartográficos da região (se bem que o rigor não era propriamente o seu forte). Deve ter-se em conta que a rápida erosão desta delicada formação geológica arruinava em poucas dezenas de anos qualquer construção. Por esse motivo, não sabemos dizer quais das fortificações representadas no mapa estavam ainda funcionais e continuavam a ser guarnecidas no ano de 1808, à excepção da fortaleza de S. Lourenço e da arruinada fortaleza da Armona (como os interessados poderão constatar nas fontes sobre a chamada restauração do Algarve, principiada pela revolta do povo de Olhão contra os franceses). Ainda assim, inclinamo-nos a pensar que a fortificação aludida pelo Capitão Searle seria a chamada fortaleza de S. Lourenço, em grande parte devido à aparente menção a este episódio numa resposta dum padre algarvio a uma proclamação de Junot de 26 de Junho de 1808. 

A fama de Napoleão no Oriente, segundo uma notícia publicada na Gazeta de Lisboa (23 de Abril de 1808)



sexta-feira, 22 de abril de 2011

A Gazeta de Lisboa de 22 de Abril de 1808



Como já tivemos ocasião de referir, no dia 22 de Abril de 1808 a Gazeta de Lisboa passava a ostentar no seu cabeçalho as armas imperiais de Napoleão:


 




Neste mesmo número deste órgão de impressa apossado pelo Governo francês, surgia a seguinte notícia, relativa à viagem de Napoleão para o sudoeste da França, e eventualmente até mesmo Portugal, motivo pelo qual Junot tinha mandado aprontar o Palácio de Queluz. Apesar de aqui não se mencionar, Napoleão tinha empreendido esta viagem com o objectivo (anunciado por si próprio, ainda que aparentemente não tivesse intenção de o fazer) de entrar na Espanha para se encontrar com o novo Rei D. Fernando VII. Depois de Napoleão adiar a sua entrada na Espanha sob pretextos vários (acabando por nunca chegar a fazê-lo), D. Fernando começou a aproximar-se cada vez mais da fronteira com a França. À data de publicação desta notícia, já se encontrava em Bayonne D. Fernando e o seu irmão o Infante D. Carlos, estando os seus próprios pais (D. Carlos IV e D. María Luísa) a poucos dias de viagem da mesma cidade francesa. Segundo as previsões de Napoleão, nessa mesma noite de 22 de Abril deveria começar o próprio Godoy (até aí preso pelo novo Governo) a empreender a viagem para o mesmo destino, escoltado pelo exército francês. Feita esta introdução, vejamos então a notícia publicada na Gazeta de Lisboa:



O Diário de Ofício do Império francês anuncia que Sua Majestade o Imperador e Rei partiu, a 2 de Abril, de S. Cloud, para ir visitar os departamentos meridionais. 
Por cartas posteriores consta que Sua Majestade se achava, a 4 do corrente, em Bordéus; e que no número das pessoas que têm a honra de o acompanhar, se compreendem Sua Alteza Sereníssima o Príncipe de Neuchâtel, Vice-Condestável do Império; o Grão-Marechal do Paço mr. Duroc; Suas Excelências o Ministro das Relações Exteriores, mr. de Champagny; e mr. Maret, Ministro Secretário de Estado. 
Na ausência de Sua Majestade, o Conselho de Ministros é presidido em França por Sua Alteza Sereníssima o Príncipe Arquichanceler do Império; todo o trabalho, porém, é regularmente dirigido ao Imperador por um Auditor do Conselho de Estado, de sorte que, tanto de perto como de longe, Sua Majestade tudo vê, tudo faz e tudo anima com o seu génio, que hoje em dia abrange toda a Europa, sem que nada lhe escape.
O Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes mandou fazer todas as disposições convenientes para que o Palácio de Queluz (que fica [a] coisa de 2 léguas de Lisboa) se reparasse quanto antes e pusesse em estado de receber o Grande Napoleão, no caso que Sua Majestade se digne de honrar este país com a sua presença: as obras determinadas se vão adiantando com a maior actividade, de maneira que está já quase concluído o trabalho de o adornar e guarnecer de móveis.


Carta do secretário do Bispo de Coimbra, D. Francisco de Lemos de Faria Pereira Coutinho, a remetente desconhecido (22 de Abril de 1808)



Bayona, 22 de Abril de 1808 


Estávamos a partir para Bordeaux a cumprimentar a Imperatriz, mas veio notícias de que a mesma soberana chega aqui por estes dois dias. Aqui se acha Fernando VII, Rei de Espanha, com um Infante seu irmão, que vieram a cumprimentar ao Imperador e têm lhe feito todos os obséquios. Corre voz que também virá aqui o velho Carlos IV e a Rainha sua mulher. Enfim, está Bayona com um Congresso em si, como talvez nunca se visse em cidade alguma de França, fora de Paris. É provável que quando chegar aí esta minha carta tenha já chegado a suspensão da contribuição dos 40 milhões, que se afirma ter ido para dois ou três dias por um correio. A Deputação portuguesa vai fazendo as suas sessões e preparando-se para fazer os seus ofícios perante o Imperador e Rei, na forma da faculdade que Sua Majestade Imperial e Real se dignou a conceder. As esperanças do bom êxito não podem ser mais lisonjeiras e gratas; Deus prospere tão importante negócio, etc., etc. 


[Fonte: João Francisco Marques, "O clero nortenho e as invasões francesas - patriotismo e resistência regional", in Revista de História, Porto, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, n.º 9, 1989, pp. 165-246, p. 235].


Carta de Junot a Napoleão (22 de Abril de 1808)


Sire,

O Vice-Almirante Seniavin remeteu-me a carta anexa para ser enviada a Vossa Majestade. Informou-me do acordo de Vossa Majestade com o Imperador Alexandre, relativo à esquadra russa que está no porto de Lisboa; foram agora reparados todos os navios, e apenas um deles necessita ainda de uma limpeza do casco, na qual se está a trabalhar. Dentro de 2 meses, Vossa Majestade terá em Lisboa 11 navios de linha. Não deveis contar com os marinheiros que aqui podemos obter, a não ser para completar as tripulações.
Continuamos a gozar uma grande tranquilidade, mas Vossa Majestade deve pensar que eu não estou, pessoalmente, muito tranquilo e que muito me tarda conhecer o resultado dos acontecimentos de Espanha; se eu tivesse mais 10.000 homens, guardaria Portugal muito bem e ainda poderia ter, se necessário, uma boa divisão disponível. Todas as tropas portuguesas estão fora do Reino, com excepção de um Regimento de Cavalaria e da artilharia, de que eu tinha necessidade e conservei, mas há uma prodigiosa quantidade de desertores; era impossível outra coisa num país onde os soldados não são militares e, principalmente, onde os oficiais são o que há de pior
Mas, Sire, ao passo que o exército de terra não apresenta um aspecto que mereça um aspecto que mereça a atenção de Vossa Majestade, o porto de Lisboa merece, pelo contrário, toda a vossa protecção; a sua posição e a sua beleza devem colocá-lo no nível dos primeiros portos da Europa e, nas circunstâncias polícias em que a Península se encontra, os dedicados servidores de Vossa Majestade devem recear que haja alguma tentação de conquista de Portugal antes que Vossa Majestade tenha lançado a este sítio um desses olhares de Génio que possa determinar a importância do porto de Lisboa à beira do Grande Oceano como outrora Alexandre soube designar o ponto onde se construiu a cidade que tem o seu nome. 
Sentir-me-ia muito feliz, Sire (se alguma circunstância priva este país da felicidade de receber Vossa Majestade), que vos conviesse ordenar-me que fosse expor-vos a situação deste Reino. Creio poder assegurar a Vossa Majestade que ninguém conhece melhor que eu a sua verdadeira posição, os seus interesses políticos e o seu espírito nacional. [...]

[Fonte: Junot, Diário da I Invasão Francesa, Lisboa, Livros Horizonte, 2008, p. 160 (n.º 105)].


Carta de Geoffroy Saint-Hilaire a Jacques Thouin, chefe da administração do Museu de História Natural de Paris (22 de Abril de 1808)



[Madrid], 22 de Abril.

Senhor:

[...]

Estamos muito tranquilos por aqui. Chegou o momento em que posso pensar em partir, e estou a preparar-me seriamente para o fazer.
Obtive permissão para descrever os objectos do Gabinete de Madrid; as ordens muito penhorantes que foram solicitadas pelo Sr. Angulo dão-me todas as facilidades. Este favor que desfruto é tão singular como muitas outras coisas que se passam aqui, o que se deve à nossa superioridade moral que nos é reputada. 
Empreguei todo este dia a descrever; continuarei amanhã e depois de amanhã, e depois, segundo creio, dirigir-me-ei para Lisboa. 
Saúdo-os com boa e franca amizade,

Geoffroy Saint-Hilaire

[Fonte: E.-T. Hamy, "La mission de Geoffroy Saint-Hilaire en Espagne et en Portugal (1808). Histoire et documents", in Nouvelles Archives du Muséum d'Histoire Naturelle, Quatrième série - Tome dixième, Paris, Masson et C. Éditeurs, 1908, pp. 1-66, p. 37].


quinta-feira, 21 de abril de 2011

Dois documentos relativos ao novo título de Duque de Abrantes (21 de Abril de 1808)



 
 


[Fonte: Pinto de Carvalho (Tinop), Lisboa d'outros tempos - II - Os Cafés, Lisboa, Parceria António Maria Pereira Livraria Editora, 1898, pp. 277-279].

Edital de Jean-Jacques Magendie, Comandante em Chefe da Marinha, mandando recolher todo o tipo de armas no Arsenal da Marinha (21 de Abril de 1808)




Lisboa, 21 de Abril.


J. J. Magendie, Capitão de Mar e Guerra, Oficial da Legião de Honra e Comandante em Chefe da Marinha de Sua Majestade Imperial e Real. 

Em consequência das ordens que recebi de Sua Excelência o General em Chefe Duque de Abrantes, Governador de Paris e do Reino de Portugal: 

Faço aviso aos senhores negociantes, homens de loja, e em geral a todos os habitantes desta cidade, [para] que façam transportar ao Arsenal da Marinha de Sua Majestade Imperial e Real todas as peças de artilharia e pólvora, armas de fogo e armas brancas que tenham em seu poder, a fim de armar os seus navios ou para comerciar; para serem depositados até que obtenham licença para a saída dos seus navios; ou até que Sua Excelência o Duque de Abrantes ordene o contrário. 

Dar-se-há um recibo do depósito, assinado pelo senhor Manuel de Sousa Ferreira, chefe dos movimentos do Porto, o qual será aprovado pelo Comandante em Chefe da Marinha. 

Os senhores negociantes, homens de loja e todos aqueles que não fizerem a sua declaração no fim de seis dias ao chefe dos movimentos do Porto, ficam sujeitos a ser presos, e castigados segundo as Leis. 

J. J. Magendie


[Fonte: Suplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 16, 22 de Abril de 1808].


quarta-feira, 20 de abril de 2011

Carta de Geoffroy Saint-Hilaire aos professores-administradores do Museu de História Natural de Paris (20 de Abril de 1808)




Madrid, 20 de Abril de 1808*.




Meus caros Colegas:


Estou em Madrid há vários dias; não sei quando partirei. Vim para aqui em circunstâncias bastante singulares, as quais me obrigam a nunca deixar o grosso do exército francês. Por outro lado, não encontraria nenhum meio de transporte, pois todos estão a ser conduzidos para Bayonne, transportando a comitiva dos príncipes espanhóis. 
Forçado a ficar aqui, tenho ocupado o tempo livre para visitar os sábios e os objectos de história natural.
Os sábios encontram-se na pobreza mais extrema; o Príncipe da Paz não pagava ninguém há 10 meses. Fez melhor, o seu agente financeiro apoderou-se duma soma de 4.000 pesos duros [piastres fortes], que um americano rico tinha legado para a continuação da flora dos Srs. Ruiz e Pavón**. 
Existem outros sábios, os Srs. Sessé e Mociño, que são dignos da maior benevolência, e seria conveniente encorajá-los: são aqueles que foram encarregados da expedição ao México. Percorreram todo esse [vice-]reino durante 5 anos, onde recolheram um número bastante considerável de desenhos de quadrúpedes, de aves, de répteis, de peixes, de insectos e de plantas; mas como não tinham consigo senão a 12ª edição de Lineu, a maior parte das suas determinações está errada. Eles crêem ter diversas espécies de animais sedentários da Europa, da África e da Ásia, e é muito provável que se tratem de outras espécies novas; por fim, possuem 4 a 5 géneros [novos] bem distintos de aves. Eles não podem trabalhar convenientemente senão forem a Paris para comparar o que possuem com as nossas colecções; mas estão longe de poder empreender uma semelhante viagem. Frustrados nas suas esperanças desde que há três anos atrás regressaram à Europa, vivem mediocremente e já têm uma idade avançada, de modo que bem se pode recear que o fruto duma tão longa e perigosa viagem será quase completamente perdido. 
Vi o Gabinete apenas uma vez. Em geral, é pouco rico; no entanto, de tempos a tempos encontram-se novidades importantes: um novo mirmecófago, vários tatus também novos, todos os crocodilos de Havana e de outros rios das duas Américas, o veado do Canadá que trouxeram do México, e muitos outros.
A mineralogia parece cuidada: contudo, foi composta por amostras mais destinadas a brilhar do que a instruir: encontra-se aí um número enorme de fluoretos calcários, carbonatos calcários, carbonatos de bário, etc., sem que esses objectos apresentem diferenças de cristalização.
O Sr. Izquierdo, que é o Director do Gabinete, está em Paris, e fará bem em permanecer por aí: o Príncipe da Paz é visto aqui como um outro Robespierre, e o seu agente é igualmente perseguido pela vingança pública. O vice-director está na Alemanha; as chaves do Gabinete estão na posse do Sr. Angulo, que tem a grande honra de corresponder-se com o Sr. Haüy. De resto, o Gabinete está sob a direcção de um funcionário dos Negócios Estrangeiros.
Pedi que me facilitassem o acesso às colecções; este assunto está pendente ainda. Contudo, se mo negam, como espero, empregarei meios que farão cessar todas as chicanas que me fazem. Sou apoiado por alguns espanhóis que me acompanham a todos os lados que vou, e que tinham sido repelidos do Gabinete devido a uma reles inveja.
Agradecer-vos-ei muito, meus caros colegas, que façam o Ministro aprovar a minha conduta, segundo o relatório da minha permanência em Madrid.
Para vos explicar o motivo [desta conduta], necessitariam de um relato dos acontecimentos políticos, sobre os quais creio que é prudente que me cale. Acreditai que quando chegar o momento, avançarei com toda a diligência possível.
Vi muitas vezes o Sr. Lagasca, professor de matérias medicinais; dei-lhe os livros e os herbários que o Sr. de Candolle me tinha encarregado de lhe entregar.
O Jardim botânico está melhor mantido do que o Gabinete: utilizam-se algumas práticas nas estufas e laranjais que creio serem boas para pôr em uso em Paris; hei-de submetê-las ao Sr.  Thouin no meu regresso.
Empreendi um grande encargo: o Sr. Faujas, que tinha manifestado alguns pontos de vista acerca do que aconteceria neste caso, vai perfeitamente ao encontro do que eu estou a suportar. Lalande, na sua qualidade de noviço, acha que esta viagem é muito singular, para não dizer de outro modo. Assusta-se facilmente e não consegue acostumar-se à comida espanhola, tal como se serve nos albergues, ao vinho que tem o sabor do odre, etc. Contudo, estou muito satisfeito com ele: recolheu insectos, preparou duas cotovias que nos faltam e ocupa-se dando o seu melhor. 
Adeus, meus caros colegas, queirais aceitar a garantia da minha mais afectuosa amizade.

Geoffroy Saint-Hilaire

[P.S.] Dou conta do que fiz até agora ao Ministro do Interior em carta que segue pelo mesmo estafeta que esta.

[Fonte: E.-T. Hamy, "La mission de Geoffroy Saint-Hilaire en Espagne et en Portugal (1808). Histoire et documents", in Nouvelles Archives du Muséum d'Histoire Naturelle, Quatrième série - Tome dixième, Paris, Masson et C. Éditeurs, 1908, pp. 1-66, pp. 34-36].


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Notas:



* Esta carta foi lida em sessão do Museu de História Natural de Paris a 4 de Maio de 1808.


** Os botânicos espanhóis Hipólito Ruiz e José Antonio Pavón (juntamente com o seu colega francês Joseph Dombey) tinham estado, entre 1777 e 1788, no vice-reino do Peru (que compreendia não só o actual território do Peru, mas também o actual Chile). Dessa importante expedição botânica resultou, entre outras obras, a produção da Flora Peruviana et Chilensis, cujo primeiro tomo foi publicado em 1798, o segundo em 1799, e o terceiro em 1802. Contudo, parece que a falta de fundos inviabilizou a continuação da publicação da obra, que, como refere Geoffroy Saint-Hilaire, continuava incompleta em 1808 (e que permaneceria em grande parte inédita até meados do século XX, quando finalmente se concluiu a sua publicação, com o primeiro e o segundo tomos de mais de três centenas de estampas que ilustravam a obra).

Ofício de Lagarde ao Juiz de Fora de Vila Franca de Xira (20 de Abril de 1808)




Lisboa, 20 de Abril de 1808 




[…] 

Devo comunicar a Vossa Mercê o decreto pelo qual o Ilustríssimo e Excelentíssimo sr. Duque de Abrantes, General em Chefe do Exército de Portugal e Governador deste Reino, houve por bem chamar-me ao seu Conselho do Governo. 
Esta nova demonstração das bondades de S.ª Ex.ª lisongea- me, tanto mais quanto ela me fornece ocasiões para fazer valer perante o dito sr. e o seu Conselho as observações úteis que a correspondência de V.ª Mercê me fornece e as vistas que por ela posso conseguir para o bem deste país. 
Tenho a honra de saudar a V.ª Mercê. 


P. Lagarde 





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Nota: 


O decreto aludido neste ofício é o seguinte: 


Em nome de Sua Majestade o Imperador dos Franceses, Rei de Itália, Protector da Confederação do Reno.
Nós o Duque de Abrantes, General em Chefe do Exército de Portugal, temos decretado e decretamos o seguinte:
Monsieur Lagarde, Intendente Geral da Polícia do Reino de Portugal, é nomeado Conselheiro do Governo.
Ele assistirá às sessões do Conselho.
Dado no Palácio do Quartel-General em Lisboa, aos 16 de Abril de 1808. 
Pelo Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor General em Chefe, 
O Duque de Abrantes. 
O Secretário Geral do Conselho do Governo, 
Vaublanc 
[Fonte: Suplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 16, 22 de Abril de 1808].




Este decreto teria sido enviado muito provavelmente a todas as autoridades do país, de forma semelhante ao transcrito ofício enviado ao Juiz de Fora de Vila Franca de Xira. Segundo uma anotação anónima inserida no volume donde se extraiu o dito ofício, “este Juiz de Fora [de Vila Franca de Xira] foi meu coetâneo na Universidade de Coimbra: era óptimo estudante e muito bem comportado, mas aferrado aos franceses, e tanto que os seguiu logo que vieram a este país; e se alucinou a tal ponto com eles que, pelo [facto de] os servir tanto, se malquistou com os povos da jurisdição em que governava. E quando se restaurou o país, se reputou espia e traidor da pátria: como tal foi metido em ferros e com vilipêndio levado à cidade do Porto, perante a Junta da Inconfidência, onde o absolveram. E tornado para o lugar onde exercia o seu cargo, o povo o quis matar e não consentiram que continuasse o seu emprego ou que se demorasse naquela vila, donde se ia para a de Alenquer, sua pátria. Muitos dos magistrados, com os seus serviços em demasia, julgavam merecer a benevolência de Napoleão, que para lhos recompensar, faria a todos tribunos do Senado Conservador de Paris. Se esta ilusão surpreendeu os magistrados, outra igual atacou os militares, que todos se julgavam declarados Marechais do Império, logo que ficassem ao serviço da França. Basta, não continuaremos, guardemos silêncio sobre os outros chefes de cidadãos…”


Caricatura sobre as opiniões nacionais relativas a Bonaparte (20 de Abril de 1808)

   


National Opinions on Bononaparte [sic]



Nesta caricatura de George Moutard Woodward, publicada a 20 de Abril de 1808, quinze indivíduos, representando diversos países, opinam sobre Napoleão Bononaparte (note-se o trocadilho), inclusive um francês, que, agrilhoado, deseja longa vida ao Imperador e exclama Vive la liberté! O único que se abstém de emitir qualquer opinião é um português, dizendo simplesmente estou fora... no Brasil, entenda-se...