quinta-feira, 19 de maio de 2011

Carta de Geoffroy Saint-Hilaire aos professores-administradores do Museu de História Natural de Paris (19 de Maio de 1808)





Lisboa, 19 de Maio de 1808.


Meus respeitáveis e caros colegas:

Acabei de visitar as colecções de história natural da Ajuda, e o que vi ultrapassou todas as minhas expectativas. Não vos arrependereis nada por terdes expedido um comissário, pois o vosso comissário desfruta de toda a liberdade que exigem as suas operações.
Metade da colecção é composta por animais brasileiros, e toda essa metade falta-vos [ao Museu de História Natural de Paris, entenda-se]. A principal riqueza das colecções da Ajuda é formada por mamíferos, aves e insectos. Como já tive a honra de vos contar, meus caros colegas, vi alguns animais novos nos gabinetes de Madrid, e [agora] reencontrei-os nos da Ajuda. Temos grandes motivos de satisfação, sobretudo porque todos estes animais estão perfeitamente conservados. Disseram-me o motivo: quase todos provêem duma remessa que foi feita há dois anos atrás*.
Vi estas colecções como um simples amador, pois ainda não recebi uma autorização formal para agir em vosso nome e em nome do Ministro. Desta forma, não conheci senão o que está exposto. Fiz algumas perguntas, e informaram-me que tinham muitas outras coisas em depósito, mas que a falta de espaço e de preparação era o motivo pelo qual não se expunham ao público.
A colecção que mais vos interessará será sobretudo a dos macacos: é bastante considerável. Exceptuando quatro ou cinco, os restantes são novos. Levar-vos-ei finalmente o verdadeiro Simia belzebuth [segundo a denominação de Lineu] ou Guaribu de Marcgrave**; ou melhor, erro ao particularizar, pois levar-vos-ei todos os animais que este antigo naturalista nos deu notícias curtas e até agora insuficientes.
Deixei o gabinete da Ajuda com a maior satisfação: ter-me-ia sido bastante penoso empreender uma viagem tão longa e tão fatigante se não tivesse chegado a um resultado importante, e ao resultado que havíeis prometido a vós mesmos.
Uma sala considerável é consagrada à mineralogia. Peço perdão ao sr. Haüy por não ter nada para lhe dizer hoje, porém, fosse pela minha ignorância sobre esse assunto, fosse por me entreter bastante com os objectos que estão ligados mais directamente aos meus estudos, passei ao de leve pela [sala da] mineralogia; tudo o que percebi é que todas as amostras são muito pequenas.
Ainda não vi as colecções botânicas. Na minha próxima carta informarei os senhores Desfontaines, Jussieu e Thouin [acerca deste assunto], pois hei-de conseguir saber alguma coisa daqui a dois dias.
Vou jantar hoje à casa do General em Chefe [Junot]; espero determinar com ele a maneira como me apropriarei de tantas riquezas.
É essencial para a minha missão que não faltem os objectos que vos devem ser levados. Espero, ademais, que o poder [dos franceses] prevalecerá sobre o querer [dos portugueses].
O General em Chefe aprecia as ciências e tudo o que possa engrandecer o domínio do espírito humano; tenho muita confiança no que ele achará adequado ordenar.
Assim que os meus [próximos] passos estejam traçados, escreverei a Sua Excelência o Ministro do Interior para lhe prestar contas; e para que sejais, meus caros colegas, mantidos perfeitamente ao corrente das minhas operações, enviar-vos-ei cópias dos meus ofícios a Sua Excelência.
Aceitai, caros e respeitáveis colegas, os meus ternos sentimentos e saudações respeituosas.

Geoffroy St-Hilaire.

[P.S.] Lalande apresenta-vos os seus respeitos; vamos separar-nos. Ele continuará junto das colecções da Ajuda, a fim de não perder nenhum tempo. No que me diz respeito, ocupo um magnífico aposento na casa dum escanção da Inquisição, um ex-negociante condecorado com a Ordem de Cristo. É o melhor dos Inquisidores, dado que tem para comigo uma bondade e uma complacência infinita.

[Fonte: E.-T. Hamy, "La mission de Geoffroy Saint-Hilaire en Espagne et en Portugal (1808). Histoire et documents", in Nouvelles Archives du Muséum d'Histoire Naturelle, Quatrième série - Tome dixième, Paris, Masson et C. Éditeurs, 1908, pp. 1-66, pp. 43-44].

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Notas:

* Segundo o autor do artigo onde foi publicada originalmente esta carta, Geoffory Saint-Hilaire alude aqui muito provavelmente às colecções de animais, plantas e minerais recolhidas pelo naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira, que tinha estado durante quase dez anos no Brasil. [Cf. Manuel José Maria da Costa e Sá, "Elogio do Doutor Alexandre Rodrigues Ferreira", in Historia e Memorias da Academia Real das Sciencias de Lisboa - Tomo V. Parte II, Lisboa, Na Typografia da mesma Academia, 1818, pp. LVI-LXXX, sobretudo a partir da p. LXV; "Notícia dos Escritos do Senhor Doutor Alexandre Rodrigues Ferreira", in id., ib., pp. LXXXI-LXXXIX].
Algumas das caixas que Alexandre Rodrigues Ferreira tinha remetido para Portugal continuavam em 1808 por abrir, facto que muito impressionou Geoffroy Saint-Hilaire, quando finalmente lhe foi concedido o acesso aos depósitos do "gabinete" da Ajuda. Em cartas que posteriormente viria a escrever aos seus colegas do Museu de História Natural de Paris, anotou a este respeito que muitos herbários com plantas do Brasil, de África ou da Índia estavam ainda virgens, precisamente porque ninguém se tinha dado ao trabalho de os abrir. Um deles, feito em 1785, foi encontrado por Geoffroy Saint-Hilaire bastante devorado por insectos. Tal desleixo impressionou tanto Saint-Hilaire que, já depois da Convenção chamada de Sintra, pressionado pelos ingleses para devolver as caixas com os materiais que entretanto tinha recolhido em Portugal, viria a apelar ao naturalista Sir Joseph Banks, presidente da Royal Society, escrevendo-lhe uma carta onde dizia preferir entregar-lhe as ditas caixas do que deixar que o seu conteúdo permanecesse assim desprezado e ignorado pela ciência, pois tinha a convicção de que "depois de mim, estas caixas não serão abertas"... 
Curiosamente, e fazendo justiça às palavras de Geoffroy Saint-Hilaire, algumas das caixas que em 1808 continuavam virgens, assim permaneceriam por mais  200 anos, como foi o caso da recente "descoberta", na Universidade de Coimbra, de uma colecção de peixes do Brasil, recolhida nos finais do século XVIII pelo citado Alexandre Rodrigues Ferreira. [Cf. André Jegundo, "Colecção raríssima do séc. XVIII de peixes do Brasil encontrada na Universidade de Coimbra", in Público, 17 de Janeiro de 2011; "Colecção rara de peixes do século XVIII descoberta na UC", Ciência Hoje, 18 de Janeiro de 2011; "Colecção de peixes do século XVIII encontrada em Coimbra", in Super Interessante].

** Geoffroy Saint-Hilaire viria a descrever este e outros símios do Brasil no seu artigo "Tableau des quadrumanes, ou des Animaux composant le premier Ordre de la Classe des Mammifères", in Annales du Muséum d'Histoire Naturelle - Tome dix-neuvième, Paris, Chez G. Dufour et Compagnie, 1812, pp. 85-122, p. 108.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Boletim de Lagarde sobre uma carta do Corregedor de Tavira de 18 de Maio de 1808




Boletim n.º 20


Lisboa, 26 de Maio de 1808


Algarves - O Corregedor de Tavira, 18 de Maio


Dez indivíduos desta zona fugiram, numa das noites passadas, numa embarcação espanhola, para passarem à Esquadra inglesa. Esta saída livrou toda a região de sujeitos malvados que não tinham nada de bom.

[Fonte: António Ferrão, A 1ª invasão francesa : a invasão de Junot vista através dos documentos da Intendência Geral da Polícia, 1807-1808: estudo politico e social, Coimbra: imprensa da Universidade, 1923, p. 363; Alberto Iria, A Invasão de Junot no Algarve (Subsídios para a História da Guerra Peninsular), Lisboa, Tip. Inácio Pereira Rosa, 1941, p. 29 (tradução nossa do texto original em francês)].



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Nota: 

Seria este grupo de fugitivos parte daqueles “malévolos” que o Corregedor mor do Algarve, mr. Goguet, mencionara a Lagarde a 11 de Maio? 
Este documento foi publicado originalmente por António Ferrão, que comentou a seu respeito o seguinte: "Vê-se que Lagarde, encontrando-se impotente para evitar a fuga dos mais audaciosos para a esquadra inglesa, apesar da determinação das mais severas medidas repressivas, desdenha dos que zombavam das suas ordens. É uma simples variante da fábula da raposa e das uvas!" [António Ferrão, A 1ª invasão francesa : a invasão de Junot vista através dos documentos da Intendência Geral da Polícia, 1807-1808: estudo politico e social, Coimbra: imprensa da Universidade, 1923, p. 363].


Carta do General Kellermann, em Elvas, ao Comandante General da província espanhola da Extremadura (18 de Maio de 1808)




Não posso já ver por mais tempo com uma indiferença que manifestaria debilidade, o procedimento dos habitantes de Badajoz em relação aos franceses que os seus negócios ou ordens conduzem a essa cidade. É inadmissível que estejam continuamente expostos aos insultos dum povo ofuscado que não conhece o respeito, nem a consideração, nem os direitos da sociedade; e que a protecção vigilante que eu concedo a todos os espanhóis que passam a Elvas ou a esta província não possa produzir sobre os espíritos o sentimento de uma justa reciprocidade. Cumpre a vós, como aos demais depositários da autoridade, que finalmente se acalmem estes excessos por muito tempo continuados, que voltem a trazer esse povo a ideias mais liberais e que lhes façam sentir a injustiça e, sobretudo, os perigos dessa conduta, que não sofrerei por mais tempo. Isto é o que vos insisto expressamente a fazer conhecer, publicando a minha carta.
Tenho a honra de vos renovar a segurança da minha alta consideração.

Elvas, 18 de Maio de 1808.

O General Kellermann


[Fonte: Correspondencia del general Kellerman con el Capitán General de Extremadura, Conde de la Torre del Fresno, sobre el restablecimiento del correo entre ambos, sobre la liberación de un carretero francés, preso en Badajoz y sobre la actitud levantisca de la población de esta ciudad, in Archivo Histórico Nacional, DIVERSOS-COLECCIONES,136,N.36].

Carta da Câmara de Leiria relativa à recepção das notícias da deputação portuguesa (18 de Maio de 1808)




Ilustríssimos e Excelentíssimos Senhores:

O notório zelo e patriotismo com que Vossas Excelências têm desempenhado o importante carácter de representantes da nação portuguesa junto a Sua Majestade o Imperador e Rei, nos faz esperar que, por intervenção de Vossas Excelências, as sinceras e submissas expressões do nosso reconhecimento chegarão aos pés do Trono do nosso Augusto Protector.
A interessante carta em que Vossas Excelências se dignaram anunciar-nos as benévolas intenções de Sua Majestade Imperial e Real, tem excitado o mais vivo entusiasmo e admiração pelas virtudes daquele Grande Monarca: o nome de Napoleão o Grande, sempre pronunciado entre nós com veneração e respeito, agora voa de boca em boca misturado com o de Pai e Benfeitor.
Nem o exemplo dos Magistrados, nem a influência de pessoas autorizadas se tem feito necessários (e com que satisfação nossa!) para formar e fixar o espírito público: surdos à intriga e pérfidas insinuações dos nossos inimigos, em todos os corações se acha desenvolvido aquele antigo gérmen de afeição e simpatia, que sempre subsistiu entre as duas nações.
Em toda a parte as tropas francesas têm sido recebidas com o acolhimento devido à sua boa conduta e exacta disciplina. A posição de Leiria na estrada militar nos tem felizmente dado ocasiões de nos distinguirmos (como é constante) na cordialidade com que se devem agasalhar estes nossos irmãos primogénitos.
Ditosos os portugueses, se tornando à pureza e elevação de seus primitivos costumes, se fizerem dignos de ser vassalos de Sua Majestade Imperial e Real, e de ocupar depois da Grande Nação o primeiro lugar nos seus desvelos paternais! Se pela nossa situação geográfica não podemos lograr esta fortuna, um Príncipe da escolha do Grande Napoleão não pode deixar de fazer-nos felizes, e realizar as nossas esperanças.
Então regeneradas e restituídas a uma verdadeira existência política, devemos erigir em nossos corações e transmitir aos nossos descendentes um monumento de gratidão, eterno, e digno do Grande Restaurador da Nação Portuguesa!
Deus guarde a Vossas Excelências.
Leiria, em Câmara de 18 de Maio de 1808.

E eu, Izidoro Ignacio Vieira da Silva, escrivão da Câmara, a fiz escrever.
L. S.
António Duarte da Fonseca Lobo
Álvaro Soares da Silva Macedo
João Baptista Coutinho e Faro
Joaquim Manuel Tavares de Brito
Pedro Francisco Nattario


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Esta carta, publicada na Gazeta de Lisboa (n.º 22, 31 de Maio de 1808), era antecedida pela seguinte nota, provavelmente da autoria do Intendente Geral da Polícia, Pierre Lagarde: "Entre as numerosas cartas de congratulação chegadas de diversas partes do Reino, por ocasião da memória da deputação portuguesa, havemos notado a seguinte, da cidade de Leiria, província da Estremadura, a qual é, em certo modo, uma análise, muito bem feita, dos votos que ressoam por todas as partes em Portugal".



Carta circular do Conselho de Madrid (18 de Maio de 1808)





[Fonte: Gazeta de Lisboa, n.º 22, 31 de Maio de 1808].

terça-feira, 17 de maio de 2011

Três cartas do Comandante General da Extremadura sobre um incidente em Talavera de la Reina envolvendo um Coronel francês (17 de Maio de 1808)





À vila de Talavera, em 17 de Maio.

Um Coronel francês que acaba de chegar numa diligência de correio declarou-me que nessa vila, enquanto se ocupava dos cavalos, disse um paisano a um criado seu que por três ou quatro dias aguentavam mas que, depois, o primeiro que passasse pagaria tudo. Já sabe você as ordens tão rigorosas do Governo, que lhe comuniquei, encarregando a maior harmonia e bom trato com a tropa e passageiros da nação francesa, e agora novamente lhe encarrego, debaixo da responsabilidade da sua pessoa e dos seus bens, do seu cumprimento; e para evitar estes e semelhantes insultos, se valerá de patrulhas de homens honrados[?] e do Sargento e tropa que tem nessa vila, fazendo que se ache expedido o trânsito por essa vila e no sítio onde se encontra a casa da posta, pois de modo contrário darei parte à Junta Superior do Governo. 
Deus &tc. 


***



Ao Sargento Comandante da Partida em Talavera.


Badajoz, 17 de Maio de 1808 


Chegou ao meu conhecimento, por um Coronel francês que veio em diligência postal, que alguns paisanos dessa povoação provocaram o seu criado com palavras nada conformes ao bom tratamento que tenho ordenado que se dê a toda a tropa e passageiros da nação francesa; e para que não volte a notar-se semelhante desordem, contribuirá você com os meios possíveis às disposições dessa justiça, postando alguns dos Hussardos da sua partida na rua do trânsito e especialmente nas imediações da casa onde se encontram os cavalos da posta, para impedir que os paisanos se aproximem dos passageiros, e não omitindo você quanto saiba para contribuir a que se guarde a melhor harmonia com os daquela nação, apresentando-lhes quantos auxílios sejam possíveis, como está avisado. 
Deus &tc.


***


[Aos Comandantes das Partidas]


Badajoz, 17 de Maio de 1808


A fim de que as tropas e transeuntes da nação francesa experimentem os auxílios e boa harmonia que tão repetidamente me encarregam os superiores, vós contribuireis com os meios possíveis à disposição dessa justiça, postando nas ruas do trânsito e especialmente nas imediações da casa da posta (se existir) alguma tropa da que esteja a vosso cargo, com o fim de impedir que os paisanos se aproximem dos passageiros franceses e evitar por este meio algumas palavras ou acções que se oponham ao bom tratamento que se lhes deve dar, pois a menor falta que a este respeito se experimente será a vós imputada.
Deus &tc.

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[Fonte: Correspondencia del Comandante General de Extremadura, sobre la entrada de tropas españolas en Portugal a finales d e 1807, la llegada del Ejército francés a la región, su aprovisionamiento y colaboración con él de las autoridades españolas de Extremadura a comienzos de la guerra, in Archivo Histórico Nacional de España, ES.28079.AHN/5.1.145.4.1.1.57.2//DIVERSOS-COLECCIONES,136,N.31]. 

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (17 de Maio de 1808)



Lisboa, 17 de Maio. 


As notícias que nos chegam de Espanha continuam a ser satisfatórias. Alguns rebeldes quiseram induzir o povo espanhol à revolta; mas não conseguiram o seu fim; e assim, na capital como nas províncias, reina a tranquilidade. 

Segundo algumas cartas de Bayonne, parece que a mediação de Sua Majestade o Imperador e Rei teve um feliz resultado: que El-Rei Carlos IV torna a subir ao trono de Espanha, de que tentara removê-lo um partido inglês, escolhendo por instrumento e vítima da trama a seu próprio filho, o Príncipe de Astúrias; e que enquanto o pai e o filho vão a buscar momentaneamente um asilo e algum repouso em França, para dar aos partidos tempo de serenar e de aplacar as animosidades recíprocas, Sua Alteza Imperial o Grão-Duque de Berg exercerá grandes poderes em Espanha como Lugar-Tenente Geral do Reino. 

O Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor General em Chefe do Exército de Portugal houve por bem mandar remeter à Mesa do Desembargo do Paço o original da carta da deputação portuguesa, datada de 27 de Abril […] passado, para se ver e registar na mesma Mesa e passar a ser guardado no Real Arquivo da Torre do Tombo. 

Das províncias vizinhas de Lisboa consta que a memória da deputação portuguesa a respeito dos intuitos benéficos de Sua Majestade o Imperador e Rei a favor deste país, vai aí excitando o mesmo entusiasmo que em Lisboa. Nela acham os portugueses a certeza de ficarem sendo uma nação independente, visto que uma tal vantagem deve ser a recompensa da sua tranquilidade e do bom espírito que manifestam. 

As tropas portuguesas que se encaminharam para Espanha há alguns meses vão, segundo se diz, a ser postas de guarnição em Pau, no Bearn e em Auch. É esta a melhor resposta que se possa dar aos boatos da malevolência que as fazia marchar para o norte, como se aliás o primeiro dever dos militares não fosse o ir com gosto a toda a parte onde possa ser útil a sua presença. Cumpre, tanto a este como a muitos outros respeitos, seguir o exemplo das próprias tropas francesas, de cuja glória está hoje em dia cheio o Universo. 

O Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes fez executar anteontem, à vista dos seus olhos, uma grande parada na bela praça do Rossio. Este espectáculo fez acudir aí uma estranha multidão de habitantes, que receberam a Sua Excelência com o contentamento que a sua presença excita por toda a parte. Para este efeito se achavam as tropas espanholas reunidas com as francesas, procurando todas à porfia merecer a aprovação de Sua Excelência, que se mostrou mui satisfeito da sua boa disciplina e da exacção das suas manobras. 

Sua Majestade a Imperatriz-Rainha saiu de Bordeaux, e ao tempo da partida dos últimos correios, tinha já ido ter a Bayonne com o seu augusto esposo. 

Uma ordem do dia, recentemente publicada em Roma pelo General Miollis, que é quem ali comanda as tropas francesas, diz que ele está incumbido de expressar às tropas romanas a satisfação de Sua Majestade o Imperador e Rei, e de anunciar-lhes que soldados valerosos só devem ser comandados na Europa por chefes de valor, e não mais por clérigos nem por mulheres. 

[Fonte: Suplemento Extraordinário à Gazeta de Lisboa, n.º 20, 17 de Maio de 1808].


Carta de Geoffroy Saint-Hilaire a Georges Cuvier, Director do Museu de História Natural de Paris (17 de Maio de 1808)



Lisboa, 17 de Maio*.




Meu digno amigo:


Ia informar-vos da minha chegada a este país quando recebi a carta que me haveis dado o prazer de me escreverdes para Madrid. Os conselhos que me nela me dais sobre as dificuldades que teria nesta última cidade permitir-me-iam conhecer, se não tivesse já milhares de outras provas, toda a previdência do vosso espírito e toda a vossa amizade para comigo. Dado que estou em Lisboa, devo dizer-vos que tinha considerado perfeitamente o meu terreno.  
Já estive aqui com o Excelentíssimo Governador-Geral [Junot], que me recebeu da forma mais gentil. Ainda não sei se vos poderei servir relativamente à relação das massas**; tenho exactamente as mesmas ideias que vós e podeis estar seguro que farei o meu melhor.
Ainda não tive tempo para ver as colecções; assim, não tenho nada para vos dizer sobre este ponto.
Encontrei aqui um dos meus amigos, o General Loison, que desempenha o papel de segunda personalidade do exército; ele está intimamente ligado ao General Comandante em Chefe [Junot]. Quando saí da casa deste último, Loison foi visitar um amigo seu que estava doente, em cuja casa me encontrava. A conversa tornou-se mais íntima, e aproveitei algumas disposições que eu via que eram favoráveis para o nosso caro Correia, a fim de lhe preparar o restabelecimento da sua pensão; pedi-lhe que cresse que tem aqui um correspondente cheio de zelo e devoção, e pedi-lhe a graça de não ser parcimonioso comigo. 
Haveis-me dado um grande prazer ao me anunciardes um trabalho sobre as aves da colecção: tentarei retribuir [com um trabalho sobre os] moluscos o que haveis feito sobre aquela parte da minha administração.
Não foi sem trabalhos, meu caro amigo, que aqui cheguei: o que bem vejo pelos termos da vossa carta, que haveis receado por mim, acabou por me acontecer!
No dia 2 de Maio, foi dado um correctivo à populaça em Madrid. Um alcaide, a três léguas, exagerando esses acontecimentos, espalhou falsas notícias, alarmes e gritos de vingança por todo o reino (parte oeste e sul), através de mensageiros enviados por todas as estradas: num instante, o reino sublevou-se. Eu estava então a meio caminho entre Madrid e Lisboa. Ao receber tais notícias, vi-me rodeado, assim como o meu companheiro Lalande, por uma populaça em efervescência. Pronto para fugir à noite por caminhos desviados, a fim de evitar um grupo que vinha ao nosso encontro para nos desfazer aos bocados, fui preso pelos magistrados de Mérida, os quais tinham destacado cavaleiros que nos alcançaram em San Pedro. O povo esperava-nos às sete horas da tarde, porém foi enganado pelo nosso plano de fugir mais tarde: chegámos perto da uma da madrugada, mas encontrámos ainda bastante povo para provarmos todas as angústias e os combates mais penosos. Apedrejado por duas vezes, foi um milagre que tenha podido escapar [com vida] nessa ocasião. Entrei por fim num asilo que se tornou para mim num porto de salvação: era a prisão dos criminosos de Mérida. Fomos aí misturados com eles. Fomos severamente revistados e despojados. Encontrámos-nos na situação de invejar os miseráveis cujo alojamento partilhávamos, os farrapos sobre os quais repousavam a sua cabeça; os grilhões de um deles foram a minha almofada. 
Para cúmulo da desgraça, esses prisioneiros partilhavam o patriotismo dos homens livres; tínhamos assim inimigos nesse lugar, embora depressa os tenhamos conquistado pela nossa liberalidade. Ainda que seguros no interior [da prisão], estávamos bastante preocupados em relação ao seu exterior. No dia seguinte, um grupo mais numeroso de populares tentou por duas vezes assaltar a prisão, para invadi-la ou para nos extrair dela. Por fim, o objectivo foi tentado através dum incêndio. A guarda repeliu com bastante energia os nossos inimigos, mas um só homem fez mais do que todos, o alguazil mayor [sic] (chefe dos oficiais de justiça), homem extremamente forte, o qual nos tinha também maltratado enquanto o pôde fazer dentro [da prisão], mas que ainda que estivesse confiante de ter bem servido a causa dos espanhóis nesse ponto, defendeu-nos corajosamente no exterior. O seu bastão, que golpeava a cada momento, teve mais efeito que as baionetas.
Assim que soube da nossa aventura, o General de Badajoz ordenou que fossemos libertados. Essa ordem chegou no quarto dia [cerca de 8 de Maio]. O que ganhámos com isso foi irmos ocupar a cela das mulheres ou o primeiro andar da prisão, cuja porta era vigiada pelo povo, bem como as estradas por onde poderíamos fugir: foi preciso continuarmos presos mais quatro dias.
Toda esta efervescência derivava duma notícia falsa, e tudo cessou quando se soube melhor o que tinha acontecido. O receio sucede hoje ao furor; a vergonha está em todos os espíritos. Lança-se sobre o alcaide, autor da notícia, a causa de tantas desgraças; ele é acusado pelos seus com um encarniçamento que demonstra o seu arrependimento. Como o que aconteceu não voltará certamente a acontecer, pude contar-vos a nossa aventura.
O pior foi o rombo na minha carteira; foi preciso pagar todos os serviços que me foram prestados, os guardas, os carcereiros, os prisioneiros, as notícias verdadeiras ou falsas que nos vinham trazer, as mulas da carruagem que havíamos alugado a 100 francos por dia, outras mulas que se mantinham prontas para fugir por caminhos desviados, e os nossos víveres a preços 20 vezes superiores ao seu valor habitual. Encontrei-me assim na situação de ter que pedir emprestado a Lalande o seu pouco dinheiro e depois a dois outros companheiros*** que, como iam na nossa viatura, partilharam a nossa detenção.
Aqui [em Lisboa] não passo necessidades. As bolsas de Loison e Margaron abriram-se para mim, e Loison acaba de pôr à minha disposição os bens dum homem que teria uma fortuna de 40 milhões. Ou seja, vou viver em casa dum banqueiro que  dispôs toda a casa ao serviço do seu hóspede.
Contudo, caro amigo, peço-vos que queirais pedir ao Sr. Thouin para continuar a reembolsar as minhas despesas de viagem, que são contabilizadas na base de 308 postos a partir de Paris, dado que cada légua do país conta como um posto no serviço militar. Enviei de Madrid um pedido para [pagamento das despesas] de Paris a Madrid visado pelo Inspector dos Correios e pelo Intendente-Geral sob o ponto de vista da distância; vou enviar um outro para o resto do caminho.
O General Margaron empenhou-se para ter perto dele o vosso enteado, a título de Ajudante de Campo****; ele fez diligências nesse sentido que devem ter sido seguidas pelo nosso amigo o Sr. Lebreton. Se ele estava prestes a partir, que venha até aqui sem receio. A Espanha e Portugal estão na mais profunda paz: um homem sozinho pode atravessar sem riscos agora esses dois países. Ademais, ambos países estão perfeitamente observados. 
Como receio que não haveis recebido os pedidos do General Margaron, vou fazer com ele faça um duplicado, que vos remeterei sem demora. 
[Espero que] queirais, meu caro amigo, continuar a dar-me notícias vossas; não podeis ter uma ideia do prazer que elas me deram.
Apresentai os meus respeitos às vossas senhoras e recordai-me também à lembrança dos nossos colegas, tanto do Museu de História Natural [de Paris] como da sociedade do chá*****.
O vosso todo dedicado e eterno amigo,

Geoffroy Saint-Hilaire


[Fonte: E.-T. Hamy, "La mission de Geoffroy Saint-Hilaire en Espagne et en Portugal (1808). Histoire et documents", in Nouvelles Archives du Muséum d'Histoire Naturelle, Quatrième série - Tome dixième, Paris, Masson et C. Éditeurs, 1908, pp. 1-66, pp. 41-43].

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Notas:


* Esta carta foi lida a 15 de Junho de 1808 em sessão do Museu de História Natural de Paris.


** O termo francês masses (em itálico no texto original), que traduzimos literalmente, é demasiado ambíguo (tanto em francês como em português) para podermos determinar com precisão a que se referia Geoffroy Saint-Hilaire.


*** Alusão aos dois soldados franceses que tinham passado (aparentemente em Madrid) a acompanhar Geoffroy Saint-Hilaire e o seu assistente Lalande na sua viagem até Portugal. Ver a este respeito a carta de Saint-Hilaire ao seu sogro, datada de 29 de Abril de1808.


**** Tratava-se de Thélème Duvaucel, um dos quatro filhos das primeiras núpcias de Madame Duvacel, a qual enviuvara e casara por segunda vez em 1804 com Georges Cuvier, que naturalmente adoptara os seus filhos. Depois de regressar à França na sequência da Convenção chamada de Sintra, Thélème voltaria a Portugal e aí acabaria por morrer, em 1809, durante a retirada do exército francês do norte do país. Curiosamente, um dos irmãos de Thélème era Alfred Duvaucel, que além de naturalista como o seu padrasto, foi também um reconhecido explorador. [Cf. Mrs. R. Lee, Memoirs of Baron Cuvier, London, Printed for Longman et al., 1833, pp. 29-30; trad. francesa: Mémoires du Baron Georges Cuvier, Paris, H. Fournier Libraire, 1833, p. 31].


***** Denominação duma sociedade, promovida por Georges Cuvier, que se reunia aos Sábados. 

domingo, 15 de maio de 2011

Comunicado de Lagarde com notícias relativas ao Algarve (15 de Maio de 1808)





Boletim n.º 14 


Lisboa, 15 de Maio de 1808


Faro


O Corregedor Mor dos Algarves escreveu-me, a 11 de Maio, que aquela província desfruta duma grande tranquilidade e que o espírito dos seus habitantes é bom; e que lhe será fácil indicar-me brevemente alguns malévolos que podem desejar a desordem. 
Foram encontradas, na costa do mar perto de Albufeira, algumas arcas contendo papéis pertencentes ao governo de Havana. 
Estas arcas parecem ter permanecido muitos dias no mar. Fizemo-las secar para transportá-las para Lisboa. 
Entre esses papéis estão alguns relativos às comunicações secretas do Príncipe da Paz com a Inglaterra; donde se pode conjecturar, nas circunstâncias actuais, que arribando os escritos como se fosse de propósito, talvez não venham da América; mas sim que foram lançados ao mar na [costa da] Espanha, assegurando-se que abordassem à costa de Portugal; e que chegariam daí ao seu destino. 
Foi ao Secretário de Estado, Mr. Hermann, que o Corregedor Mor dos Algarves enviou estas arcas. 

[Fonte: António Ferrão, A 1ª invasão francesa : a invasão de Junot vista através dos documentos da Intendência Geral da Polícia, 1807-1808: estudo politico e social, Coimbra: imprensa da Universidade, 1923, p. 346-347; Alberto Iria, A Invasão de Junot no Algarve (Subsídios para a História da Guerra Peninsular), Lisboa, Tip. Inácio Pereira Rosa, 1941, pp. 371-372 (doc. 49). Traduzimos o texto original (em francês) desta última fonte].

Aviso circular de Mr. Hermann para convocar os magistrados à casa de Junot (15 de Maio de 1808)




Tendo feito presente ao Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor General em Chefe do Exército de Portugal os desejos que o tribunal significou de cumprimentar a Sua Excelência pela ocasião da participação da carta da Deputação portuguesa, datada de 27 de Abril […] passado, tem determinado o dia de Terça-feira, 19 do corrente, pela uma hora da tarde, para receber os ministros desse tribunal. O que participo a Vossa Senhoria para que assim o faça constar.
Secretaria de Estado dos Negócios do Interior, 15 de Maio de 1808. 

Francisco António Hermann [sic] 


sábado, 14 de maio de 2011

Extracto de uma carta de Lisboa publicado no Correio Braziliense (14 de Maio de 1808)



Lisboa, 14 de Maio 


Alguns artigos têm aqui subido a um ponto extraordinário: o algodão está a 600 réis a libra, e no Porto a 700 réis; a manteiga custa de 500 a 600 réis a libra. 
Há poucos dias entrou no Porto um navio de Rostock [Alemanha], e vindo um bote cheio de gente a abordá-lo, o Capitão supôs que eram ladrões, e fez-lhes fogo, com o que malferiu alguns; em consequência deste desacato, foi o dito Capitão preso e o navio embargado, mas não sabemos ainda qual será o resultado. 

[Fonte: Correio Braziliense - Vol. I, Londres, Impresso por W. Lewis, Junho de 1808, p. 73].


Notícia publicada na Gazeta de Lisboa sobre as intrigas no seio da Corte espanhola (14 de Maio de 1808)



El-Rei Carlos IV e a Rainha de Espanha sua esposa, chegaram a Bayonne a 2 deste mês, e foram ali recebidos com salvas de artilharia. Foram sair-lhes ao encontro o Príncipe de Neuchatel e os Camaristas do Imperador, e entraram acompanhados de mais algumas carruagens, numa das quais se achava o Príncipe das Astúrias e o Infante seu irmão; noutra delas estava o Príncipe da Paz.
Uma hora depois da chegada de El-Rei e da Rainha, foi o Imperador fazer-lhes uma visita que durou coisa de uma hora. No dia seguinte, Carlos IV e a sua esposa foram jantar com Sua Majestade.
É agora certo que El-Rei Carlos IV protestou, em data de 17 de Abril, contra a sua abdicação forçada, declarando-a por nula; e recorreu ao Imperador dos franceses contra a violência que lhe fizera seu filho.
Declara Carlos IV que só para salvar a sua vida e a da Rainha é que ele deu mostras de depor momentaneamente o poder nas mãos de seu filho, o qual dele se aproveitou para ir fazer-se coroar em Madrid, e para prender num convento seu pai e seu Rei.
De uma carta de Sua Majestade o Imperador e Rei Napoleão ao Príncipe das Astúrias, resulta que ele vituperou sempre a revolta de Aranjuez, não vendo nela senão um ultraje feito aos direitos do Trono. Sua Majestade, nesta carta, em que vai felizmente de mistura o decoro com a severidade, e que é uma obra prima comparável com o que há de mais belo neste género, dá a conhecer ao jovem Príncipe que o processo que ele intentara formar ao Príncipe da Paz era não menos que o de seu pai e de sua mãe.
Enquanto ao mais, Sua Majestade nada quis decidir sem primeiro ter ouvido as ilustres partes, e na própria cidade de Bayonne é que se vai julgar esta grande causa, em cujo êxito estão fitos os olhos da Europa.
Ao mesmo tempo consta, por notícias recebidas de Madrid pelo correio que chegou ontem de manhã, que a tranquilidade ficava ali perfeitamente restabelecida, por efeito das medidas de vigor tomadas por Sua Alteza Imperial o Grão-Duque de Berg, havendo sido desarmada toda a vila. As províncias vizinhas repeliram a voz de sedição que fizeram soar entre elas alguns cúmplices dos assassínios cometidos em Madrid. A opinião pública se declarava fortemente contra aqueles que tentaram, por um instante, misturar o fogo da guerra civil com o de uma guerra estrangeira, sobejamente desigual; e a nação espanhola, iluminada a respeito dos seus verdadeiros interesses, dava indícios de conhecer o quão necessário era esperar confiadamente os resultados da augusta mediação, sem a qual, dividida entre os seus próprios Soberanos, e não sabendo onde pudesse encontrar um ponto de apoio, ia a precipitar-se no abismo das revoluções e nos desastres da anarquia a mais horrível.

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[Fonte: Segundo Supplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 19, 14 de Maio de 1808].

Notícia publicada na Gazeta de Lisboa, relativa à carta da deputação portuguesa e aos novos decretos de Junot (14 de Maio de 1808)






Lisboa, 14 de Maio


Em todas as partes públicas desta cidade se vê hoje afixada a memória da deputação portuguesa aos seus concidadãos, tal qual a demos ontem. Esta peça é lida por todos os habitantes com um ardor igual ao reconhecimento que ela inspira para com Sua Majestade o Imperador e Rei: Portugal ficará sendo uma nação separada e independente de qualquer outra influência afora a do Dominador da Europa! Eis aqui a nova que cada um repete com alegria, e que dando a certeza dum futuro venturoso, põe o remate a todos os desejos.
Cada um conhece que nesta ocasião em especial é que aqueles que aconselhassem motins e que excitassem sedições, a existirem alguns secretamente entre nós, seriam na verdade inimigos públicos, pois que os seus esforços tenderiam a não menos que a comprometer os destinos deste país. Portanto, as agitações de um pequeno número de facciosos em Espanha servem aos portugueses de novo motivo para ficarem sossegados, visto que daqui lhes resulta maior mérito no conceito do Imperador, pelo contraste que oferecem o extravio de uma plebe momentaneamente alucinada e prontamente punida, e a disposição constantemente prudente e pacífica de um povo que tudo espera do Governo em quem põe a sua confiança.
Lisboa, neste sentido, compete com as províncias e, a exceptuarem-se alguns roubos parciais cometidos por desertores que voltam de todas as partes, desde que saiu o último decreto do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes já mais houve menos desordens no Reino.
Enquanto ao mais, para acelerar a sentença dos criminosos, sejam quais forem, acaba de publicar Sua Excelência o Governador Geral o decreto seguinte, que é o complemento do de 8 de Abril […] passado.




[Fonte: Segundo Supplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 19, 14 de Maio de 1808].

Carta de Geoffroy Saint-Hilaire às senhoritas Petit, tias-avós da sua esposa (14 de Maio de 1808)



Venda do Duque, 14 de Maio.


Excelentes e caras tias:

O meu jantar está a ser preparado pelos meus companheiros num albergue bastante mau dum lugar chamado Venda do Duque; aproveito o tempo livro que me é permitido para vos escrever. Bem sabeis, minhas boas tias, que sou ternamente afeiçoado a vós, e podeis assim ter uma ideia da satisfação que tenho em consagrar-vos todos os meus pensamentos durante o descanso das pessoas e animais que nos acompanham e conduzem.
No dia 30 de Abril, encontrámos um grupo de frades e duas viajantes no albergue do pequeno lugar de Ventas del Malcaso, que tinha somente dois quartos. Os frades, que lisonjeei da melhor forma que pude ao falar-lhes em latim, e sobretudo aparentado ser partidário da revolução que tinha estabelecido Fernando VII sobre o trono, recusaram-se a emprestar-me o seu quarto para aí tomarmos a nossa refeição: precisavam de dormir. As duas viajantes indignaram-se com tal egoísmo e convidaram-nos a usar o seu quarto. Uma dessas senhoras, esposa de um oficial superior, disse-nos: «Não há que esperar desta canalha senão procedimentos indignos: são a lepra da Espanha; espero que o meu caro Bonaparte nos livre deles. Eis o meu herói - acrescentou ela - , contemplo o [seu] retrato sempre que tenho oportunidade. Como ele é o ser pelo qual me apaixonei excessivamente, digo francamente os erros que lhe conheço. Havíamos destruído o tirano na pessoa do Príncipe da Paz [Godoy]. Porque é que ele permite a existência desse monstro? Sabei que aspirei por um momento a  ser a Judite de Espanha: vedes-me fresca e dotada de algum charme, a crer nos cumprimentos dos cavalheiros. O monstro tinha como única ocupação desonrar os leitos conjugais das famílias mais estimáveis de Madrid. Vou vos dizer que também procurei agradar-lhe: se fosse necessário, teria sofrido a mácula do meu inimigo para assegurar-me melhor do golpe que teria desembaraçado a Espanha deste outro Holofernes. Mas devo confessar que, para minha vergonha, o meu charme não surtiu efeito e, se interiormente fiquei corada por não ser a mais bela das espanholas, é porque não me foi possível fazer a       mais bela e a mais útil das acções».
Ainda que eu não aprovasse esta efervescência, estas palavras ditas com energia e com uma calma que anunciava uma mulher superior, levaram-nos a estimar a bela espanhola. Tudo o que tínhamos de precioso em vinho de Bordéus e em provisões foi desempacotado; e demos-lhe uma refeição perfeita para a circunstância, o que fez enraivecer os frades, que viram que com um pouco de complacência teriam podido regalar-se com os nossos víveres.
Não foi este o nosso único encontro com uma senhora espanhola: ao termos que atravessar um bosque durante quatro horas, entre San Pedro e Mérida, conhecido pelo nome de Confessionário [Confessonario] (ou seja, o lugar onde os ladrões fazem os viajantes confessar o que possuem para lho roubar), bosque esse onde se tinha cometido um roubo três dias antes da nossa passagem, julgámos que era apropriado irmos pedir a um oficial espanhol que estava encarregado do cofre do seu regimento e que, por consequência, tinha escolta, para permitir que marchássemos juntamente com ele. No seu carro estava a sua mulher amamentando um bebé e uma filha de cinco anos. Não tínhamos percorrido uma légua quando os cavalos da sua viatura fizeram uma travagem brusca, provocando um grave acidente. Recolhemos na nossa carruagem a senhora e as crianças com tanta cortesia e cuidados que ela não sabia como nos demonstrar toda a sua gratidão. Dois dias mais tarde, ficámos muito felizes por termos prestado esse serviço, porque recebemos um pagamento cem vezes maior; beneficiámos pela nossa parte das boas graças dos naturais da região, e a pronta gratidão da nossa senhora granjeou-nos partidários calorosos e úteis entre a boa sociedade de Mérida. 
Outro caso que não vos dará uma ideia nobre da Espanha: A justiça está excessivamente corrompida, e eis uma prova. O juiz – prefeito da cidade de Trujillo – não permite que nenhum cidadão tenha um albergue; possui uma casa grande que está convertida num estabelecimento desse género, fazendo-a explorar por alguns infelizes hipotecados, enquanto ele fica numa casinha perto da casa grande. O viajante é forçado a utilizar o seu albergue; ele aluga-o muito caro e refaz o arrendamento semanalmente, esperando ganhar cada vez mais. O arrendatário não dispõe de móveis, de provisões, enfim, de nada para uso dos viajantes. Se quer jantar, dizem-lhe: dai-nos dinheiro para comprar pão, vinho, sal, vinagre, ovos, etc., etc., e para o aluguer dos utensílios de cozinha. Quando acaba de jantar, tudo isso é contado pelo quádruplo do que pagaria se o tivesse comprado ele próprio, e depois pedem-lhe dinheiro pelo trabalho da patroa, dinheiro pelo quarto, dinheiro pelo barulho que se fez e, se é de noite, dinheiro para a luz, dinheiro para a cama… tal é o costume. As despesas que já eram muito exageradas nos outros albergues do caminho elevaram-se ao quádruplo em Trujillo; quisemos regatear: «Vós não saireis, responderam-nos. – Mas vamos até à casa do juiz-prefeito. – Fazei-o, responderam, ele é o dono do albergue; vai pedir-vos dinheiro para fazer as facturas, e pronunciar-se-á a nosso favor; porque tal é a condição do contrato que fizemos com ele!». Como demos dinheiro pelo barulho feito na casa, quisemos que esse dinheiro fosse ao menos bem adquirido pelo dono do albergue, e fizemos bastante barulho; mas como era preciso prosseguir o caminho, pagámos.
Já não tenho espaço, minhas caras tias, para começar a contar-vos um quarto episódio; além do mais, escuso de gastar todas as minhas provisões de uma só vez. Quando estiver reunido convosco, contar-vos-ei tanto quanto fordes pacientes para me ouvir. Infelizmente, estou demasiado longe para desfrutar da felicidade de vos rever [nos próximos tempos]. Há dois meses que estou afastado de vós e da vossa querida e boa sobrinha; mas enfim, paciência! até àquele momento feliz de vos beijar e de vos fazer ver todo o afecto vivo, sincero e respeitoso que tenho por vós. 

Geoffroy Saint-Hilaire

[Fonte: E.-T. Hamy, "La mission de Geoffroy Saint-Hilaire en Espagne et en Portugal (1808). Histoire et documents", in Nouvelles Archives du Muséum d'Histoire Naturelle, Quatrième série - Tome dixième, Paris, Masson et C. Éditeurs, 1908, pp. 1-66, pp. 39-41].