sexta-feira, 10 de junho de 2011

Catálogo dos objectos escolhidos por Geoffroy Saint-Hilaire entre as colecções do Gabinete de História Natural da Ajuda, destinados às colecções do Museu de História Natural de Paris (10 de Junho de 1808)

















REINO ANIMAL







1.ª Classe – Os Mamíferos




Nome em português Nome em francês Números Espécies Exemplares

Macacos sakis Singes sakis 1 a 3 3 3

Macacos saguis Singes sagouins 4 a 13 10 11

Macacos cebus Singes sapajous 14 a 19 6 6

Macacos ateles Singes ateles 20 a 21 2 2

Macacos urradores Singes hurleurs 22 a 24 3 11

Lóris Loris 25 a 26 2 2

Morcegos  Vespertilion 27 1 1

Preguiça (mais um esqueleto) Paresseux 28 a 29 2 3

Mirmecófagos Myrmécophages 30 a 32 3 3

Tatus Tatous 33 a 36 1 4

Peixe-boi (mais um esqueleto) Lamantin 37 1 2

Hiena Hyène 38 1 1

Mão-pelada Chien crabier 39 1 1

Lobos Loups 40 a 41 2 2

Felis Felis 42 a 47 6 6

Jupará Potol [sic] 48 1 1

Quati Coati 49 a 50 2 2

Mustelas Musteles 51 a 52 2 2

Lontra Loutre 53 1 1

Mus Mus 54 a 56 1 3

Paca Paca 57 1 1

Esquilos Écureuils 58 a 60 3 3

Ratos de campo Loirs 61 1 1

Lebre Lièvre 62 1 1

Pika Lagomis 63 1 1

Muflão Mouflon 64 1 1

Golfinho Dauphin 65 1 1

Total de mamíferos 65 76




2.ª Classe – As Aves




Nome em português Nome em francês Números Espécies Exemplares

Aves de rapina diurnas Oiseaux de proie diurnes 1 a 14 14 14

Aves de rapina nocturnas Oiseaux de proie nocturnes 15 a 16 2 2

Picanços Piegrièches 17 a 23 7 13

Caneleiros Bécardes 24 a 30 7 17

Papagaios Perroquets 31 a 52 22 30

Tucanos Toucans 53 a 54 2 14

Barbudos Barbus 55 a 58 4 6

Gaios Geais 59 a 63 5 6

Tropeiros Troupiales 64 a 75 12 6

Curucuí Couroucous 76 1 1

Cucos Coucous 77 a 78 2 8

Pegas Pies 79 a 90 12 16

Guarda-rios Martin-Pêcheurs 91 a 94 4 4

Calau Calao 95 1 1

Colibris Colibris 96 a 100 5 5

Patos Canards 101 a 105 5 6

Albatroz  Albatros 106 1 1

Pinguim Manchot 107 1 1

Petrel Pétrel 108 1 1

Fragata Frégate 109 1 1

Mobelhas Plongeon 110 1 1

Secretário Secrétaire 111 1 1

Ostraceiro Huîtriers 112 1 1

Maçarico Courli 113 1 1

Pernilongo Échasse 114 1 1

Fuselo Barge 115 1 1

Narceja Bécassine 116 1 1

Galinhola marinha Râle 117 a 118 2 3

Arapapá Savacou 119 1 1

Galinha d'água Poule d'eau 120 1 1

Abibes Vanneaux 121 a 122 2 2

Sisão Cannepetière 123 1 1

Perdiz Perdrix 124 1 1

Tetraz Tétras 125 a 127 3 3

Tinamus Tinamous 128 a 134 7 7

Faisões Faisans 135 1 1

Mutum Hocco 136 a 138 3 3

Pombos Pigeons 139 a 144 6 7

Cruza-bicos Loxias 145 a 170 26 32

Sombrias Ortolans 171 a 177 7 7

Andorinhas Hirondelles 178 a 179 2 2

Pipridae Manaquins [sic] 180 a 189 10 20

Melros  Merles 190 a 199 10 21

Cotingas Cottingas 200 a 207 8 11

Tangarás Tangaras 208 a 222 15 75

Papa-moscas Gobemouches 223 a 233 11 13

Calhandra Alouettes 234 1 1

Jacamar Jacamar 235 a 237 3 3

Ema Thoyou 238 1 1

Total de aves 238 384 [sic]




3.ª Classe – Os Répteis




Nome em português Nome em francês Números Espécies Exemplares

Iguanas Iguanes 1 a 4 4 6

Scincidae Scinques 5 a 6 2 2

Salamandras Salamandres 7 a 8 2 2

Lagartos Lézards 9 a 13 5 5

Crocodilos Crocodiles 14 a 17 4 8

Tartarugas Tortues 18 a 20 3 4

Sapo Crapaud 21 1 1

Pipa Pipa 22 1 1

Serpentes Serpens 23 a 25 3 3

Total de répteis 25 32




4.ª Classe – Os Peixes




Nome em português Nome em francês Números Espécies Exemplares

Moreia Murène 1 1 1

Gimnotos Gymnote 2 1 2

Bacalhau Gade 3 1 1

Dourada Cryphene 4 1 1

Cótido [peixe-aranha?] Cotte 5 1 1

Linguados Pleuronectes 6 a 7 2 2

Peixes-borboleta Chetodons 8 a 10 3 3

Esparídeos Spare 11 a 18 8 11

Pimpim Cabres [sic] 19 a 24 6 8

Lutjanos Lutjan 25 a 29 5 5

Bodião Bodian 30 a 31 2 2

Holocentros Holocentre 32 a 35 4 4

Perca Perche 36 a 37 2 2

Peixe-papagaio Scare 38 a 39 2 2

Esgana-gata Gasterostés 40 a 41 2 2

Carapau Scombre 42 a 43 2 2

Salmonete Trigle 44 a 46 2 3

Siluros Silures 47 a 62 17 21

Peixes-corneta Fistulaire 63 a 64 2 2

Salmão Salmone 65 a 67 3 3

Lúcios Ésoces 68 a 69 2 2

Carpas Cyprins 70 a 72 3 3

Peixes-cofre Coffre 73 a 74 2 2

Tetraodontes Tétrodons 75 a 77 3 3

Peixe-agulha Syngnathes 78 1 1

Peixe-porco Balistes 79 a 82 4 4

Tamboril Lophie 83 a 86 4 4

Raias Raies 87 a 89 3 3

Total de peixes 89 97 [sic]




5.ª Classe – As Conchas




Nome em português Nome em francês Números Espécies Exemplares


Vatelles [ou l'atelles?] 1 a 3 3 7

Abalones Ormies 4 a 5 2 5


Lelices 6 a 57 50 94


Sabots  58 a 59 2 3


Toupies 60 a 66 7 10


Murex 67 a 76 9 13


Strombes 77 a 79 3 6


Casques 80 a 95 16 20

Buccins 96 a 153 57 77


Volutes 154 a 157 4 8


Olives 158 a 180 23 35

Porcelanas Porcelaines 181 a 205 25 30


Tyaux 206 a 210 5 9

Ostras Huîtres 211 a 228 18 21


Pelermes 229 a 230 2 2

Mexilhões Moules 231 a 237 7 20


Cames 238 a 269 32 100

Lingueirão  Solens 270 a 274 4 5

Balanus Balanites 275 a 277 3 3

Total de conchas 277 468




6.ª Classe – Os Crustáceos




Nome em português Nome em francês Números Espécies Exemplares

Caranguejos Crabes 1 a 5 5 12




7.ª Classe – Os Insectos




1.º Himenópteros

Nome em português Nome em francês Números Espécies Exemplares

Donzelinhas Demoiselles 1 a 2 2 3

Vespas Guêpes 3 a 17 15 31

Vespas-cavadoras Sphex 18 1 1

Formigas Fourmies 19 a 24 6 13

2.º Coleópteros

Lucanos Lucanes 25 1 1

Escaravelhos Scarabées 26 a 48 23 35

Cetónias Cétoines 49 a 63 15 39

Gorgulhos Charançons 64 a 87 23 56

Joaninhas Coccinelles 88 a 89 2 4


Taupins 90 a 91 2 4

Besouros Richards 92 a 94 3 6

Cantárida Cantharide 95 1 1

Bicho-da-farinha Tenebriouns 96 1 1

Capricórnios Capricornes 97 a 118 21 26

Carochas Carabes 97 a 118 21


3.º Ortópteros

Baratas Blattes 119 2 3

Louva-a-Deus     Mantes 120 1 1

4.º Hemípteros

Cigarras Cigales 121 a 122 2 4


Fulgores 123 1 2

Conchonilhas Cochenille 124 Mistura

5.º Lepidópteros

Ninfas Nymphes 125 a 140 15 27

Guerreiros [?] Guerriers 141 a 264 123 234

Mariposas Sphinx 265 a 281 16 23

Falenas Phalènes 282 a 287 6 10

Bichos da seda Bombyx 288 a 291 4 4

6.º Dípteros

Moscas Mouches 292 a 294 3 9




Total de insectos 294 538


















REINO VEGETAL







§ 1. Plantas secas conservadas em herbários




Descrição Número de maços Número de plantas

1. Herbário feito no Brasil, por Alexandre Rodrigues Ferreira 22 1134

2. Herbário do Brasil, pelo Dr. Veloso 2 129

3. Herbário do Brasil, pelo Dr. Veloso 3 117

4. Herbário de Angola, por Da Silva 5 216

5. Herbário do Cabo da Boa Esperança, por Macé 1 83

6. Herbário do Perú 3 289

7. Herbário do Cabo Verde, por Feijó 12 562

8. Herbário de Goa 1 35

9. Herbário da Conchinchina, pelo Dr. Loureiro 1 88

10. Herbário de Upssala [Suécia], pelo Dr. Thunberg 1 182

Total de plantas em herbário 2855




§ 2. Outros produtos vegetais




Descrição Número de pacotes

Raízes do Brasil 4

Frutos secos 7

Cascas de árvores 14

Total 25















REINO MINERAL







§ 1. Minerais do Brasil




1.º Gemas

N.º 1 - 3 safiras das minas dos Índios Mucalizes [sic].

N.º 2 - 3 gotas de água (crisoberilos?) de [Minas] Gerais.

N.º 3 - 6  crisoberilos, ditos crisólitos.

N.º 4 - 4 outros das Minas Gerais.

N.º 5 - 3 berilos.

N.º 6 - 2 jacintos

N.º 7 - 7 granadas cristalizadas, com mistura de ferro.

N.º 8 - Granadas em pó (um pacote).

N.º 9 - 12 pequenos rubis.

N.º 10 - 1 topázio do Rio de Janeiro.

N.º 11 - 2 gemas em bruto (jacintos?)

2.º Pedras

N.º 12 - 1 cristal de rocha, oco por dentro.

N.º 13 - 2 cristais com titânio.

N.º 14 - 1 cristal fumado.

N.º 15 - 2 cristais de ametista.

N.º 16 - 3 cristais com mica.

N.º 17 - 1 cristal com agulha de cobalto.

N.º 18 - 5 cristais polidos (pedra da mina nova?) [sic].

N.º 19 - 3 cristais sobre Gagnes [sic] em lâminas.

N.º 20 - 2 cristais provenientes de blocos polidos.

N.º 21 - 2 ágatas em bruto.

3.º Pedras magnésicas

N.º 22 - 1 fragmento de esteatite branca.

N.º 23 - 1 fragmento de pedra branca.

N.º 24 - Mica cristalizada, negra, do Maranhão.

N.º 25 - Mica cristalizada, violeta, do Maranhão.

N.º 26 - Mica cristalizada, amarela, de leste de Cobra.

N.º 27 - Mica cristalizada, verde, do Ceará.

N.º 28 - Mica cristalizada, de Rio das Velhas.

N.º 29 - Mica em lâminas (moscovita).

N.º 30 - Amianto.

4.º Pedras compostas.

N.º 31 - Granito de Syrangu [sic].

N.º 32 - Granito das Cachoeiras de Rio Negro.

5.º Metais

N.º 33 - Ouro e platina em pó.

N.º 34 - Ouro puro em pó.

N.º 35 - Ouro negro cristalizado.

N.º 36 - Ouro amarelo cristalizado.

N.º 37 - Ouro sobre pirites, sendo estas em número de 7.

N.º 38 - Filão de ouro num quartzo.

N.º 39 - Ouro em lâminas sobre jaspe.

N.º 40 - Ouro misturado com ferro.

N.º 41 - Ouro sobre e dentro dum cristal de rocha.

N.º 42 - 27 amostras de cobalto, gangas e mineralizadores diferentes.

N.º 43 - 30 amostras de ferro, em diversos estados (às quais se referem, assim como o cobalto, 2 memórias).

N.º 44 - 6 amostras de cobre.

N.º 45 - 3 de galena

N.º 46 - 1 de molibdénio.

N.º 47 - 80 das mesmas minas, tomadas em lugares diferentes das primeiras.

6.º Betumes

N.º 48 - 7 pacotes de diversos tipos (para análise).




§ 2 - Minerais do Brasil e de Portugal




N.º 49 - 3 granadas de Belas.

N.º 50 - 1 jacinto de Coimbra.

N.º 51 - Mica da Serra da Estrela.

N.º 52 - Asbesto.

N.º 53 - Xisto de Cuiabá.

N.º 54 - Galena de Coja.

N.º 55 - 4 amostras das minas de ferro do Algarve.




§ 3 - Minerais alheios ao Brasil e a Portugal.




N.º 56 - Mica cristalizada de Cabo Verde.

N.º 57 - Cobre do México.

N.º 58 - Mina de ferro de Angola.

N.º 59 - 2 amostras de produtos vulcânicos de Cabo Verde.







Todos os objectos mencionados no presente catálogo foram escolhidos por mim, ou porque faltam na colecção do Museu de História Natural [de Paris], ou porque encontram-se apenas num estado de inferioridade.
Feito em Lisboa, 10 de Junho de 1808.

O Comissário de Sua Excelência o Ministro do Interior 
[Geoffroy Saint-Hilaire].


[Fonte: E.-T. Hamy, "La mission de Geoffroy Saint-Hilaire en Espagne et en Portugal (1808). Histoire et documents", in Nouvelles Archives du Muséum d'Histoire Naturelle, Quatrième série - Tome dixième, Paris, Masson et C. Éditeurs, 1908, pp. 1-66, pp. 59-65].

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Aviso circular do Príncipe Regente aos Governadores sobre a Declaração de guerra a Napoleão (9 de Junho de 1808)




Nota: O manifesto aludido data de 1 de Maio de 1808, e foi atrás publicado. Por outro lado, a 10 de Junho, ou seja, um dia depois deste aviso, o Príncipe Regente decretava formalmente a guerra a Napoleão.

Aviso circular do Príncipe Regente aos Bispos, dando a conhecer os seus sentimentos religiosos por ocasião da Declaração de guerra a Napoleão (9 de Junho de 1808)




Nota: O manifesto aludido data de 1 de Maio de 1808, e foi atrás publicado. Por outro lado, a 10 de Junho, ou seja, um dia depois deste aviso, o Príncipe Regente decretava formalmente a guerra a Napoleão.

Proclamação do Almirante Charles Cotton informando os lisboetas dos acontecimentos do Porto e prometendo ajuda da esquadra britânica (9 de Junho de 1808)




Habitantes de Lisboa! 

Os seus inimigos e opressores os franceses têm sido forçados de sair do Porto pelos espanhóis*, o Governo estabelecido pelo Príncipe Regente está outra vez restituído e a bandeira portuguesa outra vez arvorada. 
Todo o socorro que lhe poderá dar a esquadra de Sua Majestade Britânica será dado a vós e a vossos generosos aliados os espanhóis com muito gosto, no grande atentado [=tentativa] de emancipar a vossa cidade da severa opressão que ela tem sofrido desde que entrou nela a tropa francesa. 
Dado a bordo da nau Hibernia, diante da foz do Tejo, em 9 de Junho de 1808. 

C. Cotton. 

[Fonte: Archivo Histórico Nacional de España, Comunicaciones entre el general en jefe del ejército de Extremadura, José Galluzo, y el capitán general del ejército de Galicia sobre la situación de las tropas del almirante inglés Cotton en Portugal, cota: ES.28079.AHN/5.1.17.5.4//DIVERSOS-COLECCIONES,129,N.40. Inclui duas cópias manuscritas desta proclamação, ambas em português, com algumas variantes ].

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Nota: 

* Outra versão: "forçados de sair do Porto pelos seus leais nacionais e os espanhóis".


Aclamação do Príncipe Regente em Melgaço e consequentes disposições (9 de Junho de 1808)


Naquela parte da província do Minho onde o rio deste nome, descendo da Galiza, entra em terras de Portugal, terminam estas num ângulo o mais setentrional do reino, e é aqui que está situada a vila de Melgaço, pequena e pouco considerável em si mesma, que, porém, deve ficar memorável na história. É em Melgaço que prendeu o fogo sagrado em 9 de Junho, para não mais se extinguir, nem mesmo na segunda invasão dos franceses debaixo do comando do Marechal Soult: ficou livre o recanto desta vila e seus contornos da nova torrente assoladora que se espalhou por todo o resto da província e abrangeu uma grande parte da Beira Alta e Trás-os-Montes. Feliz terra! Queira o céu conservar-te o brasão de nunca mais receberes as leis do usurpador, desde que naquele fausto dia abjuraste intrépida o seu nome odioso!
D. António Maria Mosqueira de Lira, provinciano ilustre do reino da Galiza, e aparentado com alguns grandes de Espanha, apresentou-se em Melgaço em casa de seu cunhado Caetano José de Abreu Soares, e anunciando secretamente ao Corregedor, que servia de Juiz de Fora, Filipe António de Freitas Machado, aí veio este, e tiveram uma conferência. A este tempo concorreu também António de Castro Sousa Meneses Sarmento, descendente ilustre pela linha da primogenitura dos antigos Castros de Melgaço, o qual, tendo servido dignamente o Soberano e a pátria na carreira da magistratura, se achava então retirado em sua casa; do que todos conferiram e trataram, resultou ficar decidida a aclamação.
Mosqueira tinha vindo prevenido com pouca gente armada, que deixara a pouca distância, e a fez logo entrar. Vieram também incorporados o Corregedor de Milmanda, o Abade de Esteriz e outras pessoas distintas da Galiza; e sendo dia de feira em Melgaço, e por isso de um numeroso concurso, os portugueses se unem aos espanhóis, e em presença do Juiz de Fora, que os observava no próprio campo da feira, soltam alegres vivas ao Príncipe Regente e detestações violentas contra Napoleão e seus delegados. Imediata ao campo da feira está a porta da vila, sobre a qual se achavam cobertas as Armas Reais; o povo as descobre num momento; passa depois a fazer o mesmo às da casa da Câmara e da fonte da vila; e para que a obra não ficasse imperfeita, o Corregedor de Milmanda com uma partida dos seus foi também descobrir as fonte de S. João da Orada, que ficavam em alguma distância. Tomás José Goemes de Abreu, Jacinto Manuel da Rocha Pinto, o Capitão mor João António de Abreu e o Doutor Miguel Caetano foram dos primeiros, e mais activos, que trabalharam nesta empresa, mas tiveram muitos outros companheiros que mostraram o maior patriotismo.
Não contentes os habitantes de Melgaço com o que haviam praticado dentro dos muros e nos subúrbios desta vila, eles quiseram levar a revolução aos povos vizinhos. Com efeito, num dos dias seguintes eles foram aclamar o nosso legítimo Soberano e descobrir as Armas Reais na ponte de Moro, termo de Monção, tendo na sua passagem praticado o mesmo no concelho de Valadares.
Determinou-se para o dia 10 a inauguração solene do estandarte nacional em Melgaço. O da Câmara foi arvorado no revelim do castelo, por entre novos vivas e aclamações, e com repetidas salvas e toques de sinos, antes e depois de um Te Deum e sermão que se celebraram nesse mesmo dia; e como eram necessários dois estandartes, para não haver falta nas acções da Câmara, o Juiz de Fora convocou os alfaiates da terra para fazerem um novo, como realmente fizeram numa manhã, e não se afastou deles enquanto não o concluíram. Estas pequenas circunstâncias, que parecem pequenas a quem as lê de sangue frio, são as que melhor manifestam na efervescência dos espíritos os verdadeiros sentimentos que existem nos corações, a fidelidade e o entusiasmo dos que as praticam*
Até aqui era tudo alegria, mas dois dias depois houve uma terrível comoção, causada pela falsa notícia de que um exército francês havia desembarcado nas costas da Galiza, e tinha já um corpo de tropas em Caniça, povoação fronteira a Melgaço, para entrar nesta vila pela raia seca. A crise era terrível, porque achando-se estes povos absolutamente indefesos, não se lhes oferecia senão a alternativa de se humilharem ou resistirem; e em ambos os casos era muito arriscada a sua sorte: eles escolheram, sem hesitar, o mais heróico. Todos se puseram em movimento à voz dos sinos, e correram para a parte por onde se esperava o inimigo com duas peças de artilharia, as únicas que havia montadas, até o sítio da ponte das várzeas, onde residia o Capitão mor. Quando chegou o ajuntamento, já este sabia por um portador, que tinha mandado a Galiza, que tudo por lá se achava tranquilo, não havendo nem o mais leve rumor de inimigos por aquele lado.
Quando não devia já tratar-se senão de se restituírem todos a suas casas, a intriga e a discórdia, inimigos implacáveis da humanidade, que raras vezes podem separar-se destes ajuntamentos tumultuários, principiaram a derramar os seus venenos sobre gentes que não se tinham ajuntado senão para o justo fim de defenderem os direitos do Soberano, a religião e a pátria. Um paisano insolente, ostentando valentias, quando a ideia do perigo se tinha desvanecida, incita os povos para que marchem mais adiante e se façam fortes, enquanto o Capitão mor lhes ordenava prudentemente que se retirassem, prevenindo as desordens que o ajuntamento podia produzir. O paisano, inculcando patriotismo e valor, chegou a meter as mãos a duas pistolas contra o Capitão mor; mas felizmente o seu orgulho ficou confundido às mãos de outro paisano honrado, que, no meio da sua justa cólera, não pôde conter o transporte de pegar no insolente e o pisar aos pés. 
Sufocado este primeiro sintoma vertiginoso, outro se levanta, que ia tomando um aspecto mais sério. Matias de Sousa e Castro, militar distinto com o posto de Tenente no desorganizado regimento de Valença, correu com os outros ao rebate de uma quinta onde se achava; e vendo arvorada na vila a bandeira encarnada, em sina de guerra, quis persuadir ao Juiz de Fora que a mandasse arrear, não por traição ou por fraqueza, pois pelo contrário foi um dos mais activos em dar as providências de defesa, mas sinceramente porque, dizia ele, a bandeira não aumentava nem diminuía as forças e os recursos, e vendo-a, os franceses se irritariam e passariam tudo à espada. O Juiz de Fora não anuiu à proposta, mas houve quem fosse espalhar a voz entre o povo, ainda congregado, que ele tinha feito arrear a bandeira, e foi o mesmo que lançar uma faísca sobre a pólvora. Levantou-se um tumulto em que ficou desde logo decretada a morte do Juiz de Fora; e para executarem este projecto, alguns dos amotinados se encaminharam para a vila; pararam e ficaram tranquilos, à vista da bandeira, que existia arvorada como dantes. Soube-se depois o conselho que o militar havia dado, e voltaram-se contra este, que, avisado a tempo, pôde a muito custo salvar a vida nos pés do seu cavalo.
Por esse mesmo tempo recebeu o Juiz de Fora uma daquelas furiosas cartas que Lagarde tinha escrito aos ministros territoriais por ocasião dos movimentos do Porto; ele não a publicou, mostrando-a somente a algumas pessoas da sua confiança, e continuando sempre a animar os progressos da revolução. Como os povos se viam sem tropas, sem armas e sem munições, recorreram ao Bispo e à Junta de Orense, e não foi debalde, porque das tropas que ali comandava o Marquês de Valadares, se destacaram logo alguns corpos para Milmanda e Celanova, prontos a entrarem no território português em caso de precisão.

[Fonte: José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal, e da Restauração deste Reino - Tomo III, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, pp. 126-135].

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* [Nota original de Acúrsio das Neves] Como nenhum dos escritos que a imprensa tem publicado faz menção destes sucessos de Melgaço, ficando confundidos no quadro da revolução pela distância e pequenez do seu teatro, instruirei os meus leitores dos documentos por onde eles se me fizeram constantes. Além de outras memórias que me foram transmitidas por canais verídicos, tenho em meu poder [uma] certidão de um termo em que se referem sumariamente os ditos sucessos do dia 9, lançado a folha 197 do livro do registo da Câmara daquela vila, que teve princípio em 15 de Março de 1803, e é sobrescrita a certidão pelo respectivo escrivão Joaquim Daniel Torres Salgado. Consta-me que existira outro termo, em que se referiam com mais extensão estes sucessos, mas que fora rasgado quando se aproximaram a Melgaço as tropas do Marechal Soult na segunda invasão. Tenho mais uma atestação do mesmo escrivão, outra do próprio Caetano José de Abreu Soares, e outra da mesma Câmara, que conferem nos factos essenciais; e finalmente a cópia de um requerimento apresentado à Câmara por um particular, para ela o representasse aos Governadores do Reino, a fim de se restituir a Melgaço a primazia da restauração, que se queixava estar-lhe usurpada nos papéis públicos por outras terras do reino, no qual se faz uma miúda exposição dos factos, e se acha um acórdão do teor seguinte: Acórdão em Câmara, que visto serem verdadeiros os recontados factos, que atestamos, se registe este requerimento e se remeta. Melgaço, em Câmara de 4 de Outubro de 1808. Com quatro assinaturas.

Caricatura anti-francesa publicada em Sevilha




Apesar de não estar datada, esta caricatura deve ter sido publicada, pelo seu contexto, por volta de finais de Maio - inícios de Junho de 1808.
Na sua legenda pode ler-se o seguinte:

Águia francesa, nem sequer hão de te valer as asas, se desperta o leão de Espanha.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Nova apresentação da Restauração dos Algarves ou os Heróis de Faro e Olhão



Fazemos aqui um parêntesis na ordem cronológica que estamos a tentar seguir para avisarmos os interessados que vai decorrer uma nova apresentação pública duma obra publicada em 1809 e recentemente reeditada, intitulada "Restauração dos Algarves ou os Heróis de Faro e Olhão". Os vídeos da anterior apresentação (que decorreu em Faro) podem ser consultados aqui.

Deixamos abaixo o texto do convite da APOS, associação que teve a iniciativa de concorrer com este texto (revisto, actualizado, anotado e prefaciado pelo autor das presentes linhas) a um prémio de apoio à edição promovido pela Direcção Regional de Cultura do Algarve, facto que permitiu (juntamente com os outros apoios abaixo mencionados) a reedição desta obra:


A APOS (Associação de Valorização do Património Cultural e Ambiental de Olhão) convida para no próximo dia 18 de Junho (sábado) de 2011, pelas 16h, comparecerem à apresentação do livro histórico "Restauração dos Algarves ou os Heróis de Faro e Olhão", na Sociedade Recreativa Olhanense (Av. da República, nº 14, Olhão)
O livro em causa é uma peça de teatro de Luís de Sequeira Oliva, escrita em 1809, sobre a revolta ocorrida no Algarve uns meses antes, contra as tropas napoleónicas da 1ª Invasão Francesa.
O início desta revolta foi em Olhão em 16 de Junho de 1808, na época uma pequena aldeia de pescadores sem aristocracia, e que depois se alastrou a Faro e, finalmente, a todo o Algarve. Chamamos a atenção para a importância deste momento histórico para o Algarve, pois que esta 1ª Invasão Francesa foi a única ocupação por tropas estrangeiras que aqui ocorreu, desde que a província é portuguesa.
Edgar Cavaco encontrou esta peça de teatro nos arquivos da Biblioteca Nacional e foi o responsável pela adaptação e contextualização da obra. A APOS (Associação de Valorização do Património Cultural e Ambiental de Olhão) e a editora Licorne, com o apoio primeiro da Direcção Regional da Cultura do Algarve e da Câmara Municipal de Faro, e recentemente da de Olhão, publicou o livro.
Luís de Sequeira Oliva, que escreveu a peça em 1809, era então um dos autores mais fecundos da literatura patriota que na época proliferaram em Portugal, e baseou-se nesta revolta concreta de Olhão, talvez pelas razões expressas numa outra sua obra: “Os habitantes desta para sempre memorável população de pescadores não só tiveram a glória de serem os primeiros que sacudiram o tirânico jugo dos franceses em Portugal, mas a outra não menor de serem os primeiros que, embarcados num frágil esquife, afrontando as procelosas vagas do Atlântico, foram ao Rio de Janeiro noticiar ao nosso amado Príncipe a feliz Restauração de Portugal nos Algarves. Estes sim, são verdadeiros descendentes dos Gamas e Albuquerques”. 
Mais do que uma obra literária importante, é sobretudo um documento histórico muito interessante para fazer a análise da revolta algarvia, nomeadamente a importância mediática que esta revolta teve no País, a existência da censura que tentava esconder os colaboracionismos de alguns portugueses de nomeada, e o protagonismo da mulher olhanense na revolta.
A apresentação será feita pela APOS (António Paula Brito) e com algumas cenas recriados pelos jovens do projecto teatral Bom Sucesso (MOJU), dirigidos pelo actor Fernando Cabral.

Aclamação do Príncipe Regente em Braga (8 de Junho de 1808)


O Arcebispo de Braga, D. José da Costa Torres, sabendo por um expresso, no dia 8 de Junho, que os espanhóis tinham prendido na vila de Viana [do Castelo] alguns franceses que aí se achavam, e constando-lhe quase ao mesmo tempo da prisão dos do Porto, mandou imediatamente descobrir as Armas Reais no paço arquiepiscopal, e passou ordem à igreja primacial para se restituir na missa a colecta pelo Príncipe Regente e mais pessoas da Real Família. Houveram patriotas zelosos que, animados pelo exemplo do Arcebispo, fizeram soar instantaneamente pela cidade as vozes da aclamação: o clero especialmente as repetia e propagava com ardor; mas também houve um pequeno partido que se lhes opôs, composto ou de portugueses degenerados ou de espíritos fracos e vacilantes, o que quanto aos efeitos vale o mesmo; e chegando entretanto a notícia de que no Porto se havia retrocedido, também ficou tudo paralisado em Braga. 
O Arcebispo não retrocedeu, porque a fidelidade é nele a toda a prova, e constância uma das virtudes que lhe conheço por experiência. Devo este testemunho a um prelado respeitável de quem recebi as lições na Universidade no último ano, que ocupou a cadeira de História Eclesiástica, e cujo exemplar comportamento é bem patente a todos os que o conhecem. Ele porém esteve em perigo, porque o partido oposto tentou perdê-lo, procurando atestados e formando queixas contra ele ao intruso Junot, que não deixaria de vingar, se pudesse, este ultraje ao seu governo. A aclamação formal em Braga ficou demorada até 20.

[Fonte: José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal, e da Restauração deste Reino - Tomo III, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, pp. 124-126].



Carta do General Castaños, Comandante das tropas da Andaluzia, ao General Dalrymple, Governador de Gibraltar (8 de Junho de 1808)



Excelentíssimo e caro Senhor: 


Na cidade de Sevilha foi erigida uma Junta Suprema de Governo dos quatro Reinos da Andaluzia, que, representando a Majestade do Sr. D. Fernando VII, nosso único e legítimo soberano, começou a ditar aquelas providências enérgicas que são exigidas pelas críticas circunstâncias em que se acha a nação espanhola e a justa causa da sua defesa. A mesma Junta comunicou-me as suas superiores instruções, que foram trazidas pelo Primeiro Secretário dela [D. Juan Bautista Esteller], que irá a essa praça [de Gibraltar] acompanhado do meu Primeiro Ajudante, D. Joaquin Navarro, para em nome daquela autoridade soberana tratar com V.ª Ex.ª assuntos da maior importância, cujo imediato e favorável acordo espero encontrarem em V.ª Ex.ª, que em distintas circunstâncias me tem manifestado apoio. 
Reitero a V.ª Ex.ª os meus respeitos com os sinceros sentimentos que professo à sua pessoa, cuja vida guarde Deus muitos anos. 
Quartel-General de Algeciras, 8 de Junho de 1808. 
[...] 


[Fonte: Memoir, written by General Sir Hew Dalrymple, Bart., of his proceedings as connected with the affairs of Spain, and the commencement of the Peninsular War, London, Thomas and William Bone Strand., 1830, p. 146 (tradução nossa do original espanhol)].


Notícia sobre a chegada à Inglaterra de dois emissários da Junta das Astúrias (8 de Junho de 1808)




[Londres,] Quarta-feira, 8 de Junho. 


Às 7 horas da manhã vieram ao Almirantado dois fidalgos espanhóis, o Visconde Matarrosa* e D. Diego de la Vega, acompanhados pelo Capitão Hill, vindos de Espanha num navio armado em guerra denominado Stag, e desembarcaram em Falmouth; tendo vindo para bordo daquele navio num bote que os tomou em Gijón, na província das Astúrias. Ofereceram 500 guinéus pela passagem para Inglaterra e a inteligência que trouxeram é de grande importância: estavam em Madrid quando houve o levantamento a 2 de Maio, dizem que mataram 4.000 franceses, compreendendo muitos Oficiais. Intentaram fugir depois do levantamento, apressaram-se em vir para a província das Astúrias, a qual deixaram em 30 de Maio. Afirmam que em toda a Espanha reina o espírito de indignação contra os franceses, mas muito principalmente nas províncias das Astúrias e Galiza; esta última está num estado de levantamento tal que até as mulheres, esquecendo-se da timidez e delicadeza do seu sexo, animam os homens com vozes e exemplo a tomarem armas contra os invasores. Toda a província das Astúrias se vai levantando, e já tem em pé um Exército de 40.000 homens. 
Não há falta de armas mas sim de munições, o que nós esperamos [que] lhes seja imediatamente fornecido pelo nosso Governo. Astúrias deu o exemplo de resistência e despachou comissários à Galiza convidando o povo a levantar-se de concerto com eles. 
Mr. Hunter, cônsul britânico, foi preso por ordem de Murat em Madrid, e mandado para Santander para ali ser lançado numa prisão, mas o povo que aí se levantou imediatamente o libertaram, pondo o cônsul francês em seu lugar na prisão. Então se proclamou a declaração de guerra contra os franceses em Santader. 
Estes fidalgos dizem que não duvidam que a Biscaia e Catalunha já tenha seguido o exemplo das Astúrias e Galiza, e que em breve tempo toda a Espanha esteja contra os franceses. Não trouxeram inteligência alguma de Cádis, nem o Governo a recebeu. Tal é a narração destes dois fidalgos de distinção de grande honra. 
Não se pode duvidar que este país tem agora ocasião de poder fazer alguma coisa. Pensamos que não será impolítico oferecer à Espanha todo o socorro que estiver em nosso poder, publicando a nossa vontade de fazer paz com eles, declarando que não pretendemos opormo-nos ao seu Governo interno, e que o nosso único objecto é concorrer para eles se libertarem da tirania da França. E apesar de qualquer oposição e de nos dizerem que os irlandeses católicos que estão em Cádis hão de evitar que os espanhóis aceitem as ofertas do nosso Governo, nós estamos certos que eles se fiarão em quaisquer promessas do Governo inglês. 

[Fonte: Não conseguimos encontrar a versão original desta notícia, provavelmente publicada em algum periódico inglês da época. A versão acima transcrita deriva dum manuscrito disponível no Arquivo Histórico Militar: 1.ª div., sec. 14, cx. 287, doc. 09, fls 3-4; o Correio Braziliense de Junho de 1808 também publicou (na p. 78) uma notícia do mesmo teor].


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Nota: 

* Tratava-se de José María Queipo de Llano, nomeado vogal da Junta Geral das Astúrias. Ficaria futuramente mais conhecido por Conde de Toreno, título com que assinou os cinco volumes da sua Historia del levantamiento, guerra y revolución de España (publicada originalmente em 1832).



Carta do Capitão John Hill ao Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, George Canning, sobre a chegada à Inglaterra de dois emissários da Junta das Astúrias (8 de Junho de 1808)


O Capitão Hill, comandante do navio de guerra de Sua Majestade Humber, era o oficial de maior graduação no porto de Falmouth quando o nobre espanhol e o seu acompanhante D. Andrés de la Vega ali aportaram na segunda feira passada, dia 6 de Junho, vindos a bordo do corsário inglês Stag de Jersey, a cujo patrão pagaram 500 guinéus. Depois de declarar guerra aos franceses, a província das Astúrias outorgou plenos poderes a estes cavalheiros para negociarem com o nosso Governo; eles são também portadores duma carta destinada ao Rei de Inglaterra. O Visconde Matarrosa informa o Capitão Hill que saiu de Gijón, nas Astúrias, a 30 de Maio passado, embarcado numa lancha, e subiu depois a bordo do corsário acima indicado. Diz ainda que a província de León e Santader também declararam guerra à França, e que pensa que a maioria das outras províncias as seguirão. O Visconde estava em Madrid aquando da insurreição [de 2 de Maio] e ali ficou até o dia 9 de Maio, quando a mesma já tinha sido sufocada, embora os franceses tenham perdido cerca de 4.000 homens e um vasto número de oficiais [atingidos a tiros pelos espanhóis] das janelas [das suas casas]. Ele também disse que que mr. Hunter, o cônsul inglês, estava em Santander por ordens de Murat, e que o povo de Santander tinha libertado mr. Hunter e prendido o cônsul francês. O Visconde é parente do Almirante espanhol que comanda a esquadra em Minorca, e o Almirante é natural das Astúrias. Dado que o administrador da alfândega em Falmouth, que actua ali como agente dos estrangeiros, não tinha autoridade para deixar estes cavalheiros dirigirem-se para Londres, o Capitão Hill, sendo o oficial de maior graduação no porto, assumiu a responsabilidade de se encarregar destes cavalheiros, e trouxe-os para Londres com os seus ofícios, tão rápido quanto foi possível. O Capitão Hill pensa que o ele fez merecerá a aprovação do Muito Honorável mr. Canning, Primeiro Secretário de Estado de Sua Majestade.
Londres, 8 de Junho.

John Hill

[Fonte: Alicia Laspra Rodríguez, "La llegada a Inglaterra de los comisionaos asturianos nel 1808: un documentu inéditu", in [revista] Asturies: Memoria encesa d'un pais, n.º 3, Fundación Belenos, Xunu de 1997].


Excerto de uma notícia publicada no órgão de imprensa da Junta Suprema de Sevilha (8 de Junho de 1808)




Sevilha, 8 de Junho 



É incrível o ardor militar que se observa nesta capital e nas povoações da sua comarca. Estas apressam-se a enviar fundos e gentes que, capitaneadas sob as suas bandeiras particulares, apressam-se a oferecer a esta Suprema Junta a sua obediência e valor. Cada dia vão entrando novas tropas do campo de San Roque e Cádis, as quais se destinam imediatamente aos pontos da fronteira e ao reforço da vanguarda. Não só se completam os regimentos veteranos com gente valorosa, mas também se criaram cinco novos de infantaria […]. Todos estão bem providos de armas; e tanto destas como das demais munições e apetrechos fazem-se contínuas remessas a todos os pontos. Apesar do muito consumo destes artigos, os nossos arsenais, armarias e armazéns podem prover a outro exército, constando o nosso ao presente de mais de 60.000 combatentes. No curtíssimo tempo de exercícios militares que têm os soldados do novo alistamento, foram feitos progressos que causam admiração aos veteranos, e que parecerão incríveis aos que não conheçam os efeitos portentosos do patriotismo, sendo de esperar que cada dia ganhem maior incremento as nossas forças, de modo que assegurem os desejos da pátria. 
Devido ao facto de se ter apresentado uma divisão francesa em Castro Marim nos Algarves, mandaram-se reforços a Ayamonte, e ordem para armar e abastecer de munições as povoações do Guadiana, para a eventualidade, muito pouco provável, dos inimigos tentarem vadeá-lo. 
Numa carta de Madrid, datada de 31 de Maio, destinada a um Oficial desta cidade, diz-se que o Duque de Berg se encontra enfermo, e que pediu tropas a Napolão e ao General Junot de Portugal, sem que nem um nem outro se encontrem em disposição de poder mandá-las. O descontentamento das tropas inimigas parece geral, e corria um boato muito válido, segundo o qual em Bayonne havia uma insurreição e que o Imperador estava oculto, acrescentando alguns que ademais se encontrava ferido. Diz-se que em Paris há movimentos iguais, e que o Imperador da Rússia estava a ponto de concluir uma paz separada com o Rei da Suécia. Assim que tenhamos notícias oficiais de tão importantes acontecimentos, apressaremo-nos a dá-las ao público. 
[…] 


[Fonte: Gazeta Ministerial de Sevilla, n.º 3, en la Imprenta de la viuda de Hidalgo y Sobrino, 8 de junio de 1808, pp. 22-23].