domingo, 4 de setembro de 2011

Carta do Almirante Charles Cotton ao irmão mais velho do General Wellesley, William Wellesley-Pole, Secretário do Almirantado britânico (4 de Setembro de 1808)



Hibernia, na barra do Tejo, 4 de Setembro de 1808.


Senhor:

Tenho a honra de vos incluir com esta carta, para conhecimento dos Lordes Comissários do Almirantado, uma cópia da Convenção que acordei com o Vice-Almirante Séniavin, comandante da frota russa no Tejo, pela qual pelo qual Suas Senhorias verão que esta esquadra rendeu-se a mim, a fim de ser guardada por Sua Majestade como depósito, até seis meses depois da conclusão de uma paz entre a Rússia e a Inglaterra.
Encarreguei o Capitão Halsted, Primeiro-Capitão do Hibernia, e Capitão da frota, para entregar este ofício a Suas Senhorias; como o enviei para negociar a Convenção com o Vice-Almirante Séniavin, será assim capaz de explicar todos os detalhes.
Sinto-me em grande dívida com o Capitão Halsted, pelos seus talentosos conselhos e assistência em todos os objectivos da missão; o seu zelo e diligência foram exemplares, e autorizo-o à minha alta recomendação.
Contra-Almirante Tyler recebeu ordens para supervisionar a primeira divisão da frota russa, que propus que partisse debaixo da sua protecção para Spithead imediatamente; devo bastante (desde que está comigo) a toda a sua assistência, e aos Capitães, Oficiais e tripulação dos navios que têm estado ocupados no bloqueio prolongado e tedioso (através dos quais todos esforços foram feitos com um grau de boa vontade que lhes dá uma infinita honra). Sinto-me extremamente agradecido e julgo que tal é o meu dever; oferecei qualquer testemunho possível da minha aprovação a seu favor.
Tenho a honra de ser, etc.

C. Cotton


Carta do Almirante Charles Cotton ao Vice-Almirante Séniavin (4 de Setembro de 1808)




Hibernia, defronte do Tejo, 4 de Setembro de 1808.


Senhor:

Tenho a honra de acusar a recepção da carta de Vossa Excelência na data de hoje, e permiti-me que vos assegure que, considerando o acto de rendimento da frota do vosso comando e o modo de o fazer, [como] objectos da mais delicada natureza, ambos foram deixados à vossa escolha, na maneira que pareceu menos provável o ferir a vossa sensibilidade; mas vós deveis conhecer, Senhor, que algum acto de rendimento é absolutamente necessário.
Eu não respondi às vossas duas cartas de 21 de Agosto – 2 de Setembro porque, sabendo que mr. Sass tem a vossa confiança, os pontos a que nelas se alude foram plenamente discutidos antes que ele desse o seu consentimento por vossa parte à convenção que eu assinei ontem, e que eu então esperava [que] não achasse objecção à vossa assinatura na contra-cópia, visto que a bandeira inglesa está actualmente arvorada nos fortes sobre os bancos do Tejo.
De ontem para cá me ocorreu que seria mais conforme aos vossos sentimentos que qualquer acto de rendimento (o modo ainda assim se deixa à vossa adopção) se fizesse na presença de um oficial de grau superior ao Tenente Bellamy, e que para isto mando a Vossa Excelência o Contra-Almirante Tyler, o segundo oficial no comando desta frota, o qual tomou sobre si ser o portador desta carta, e apresentará a Vossa Excelência as minhas sinceras seguranças de estimação e respeito, e da alta consideração com que tenho a honra de ser, etc.

C. Cotton

Carta do Vice-Almirante Séniavin ao Almirante Charles Cotton (4 de Setembro de 1808)



A bordo do Tuerdoi, 23 de Agosto – 4 de Setembro de 1808*.


Senhor Almirante:

Os oficiais que deputei a Vossa Excelência ontem para concluir a convenção voltaram a meu bordo e me trouxeram esta convenção assinada de vossa parte em duas cópias. Deram-me conta do que Vossa Excelência lhes fez entender, a respeito do cerimonial que vos parece conveniente ser observado na ocasião da entrega a Sua Majestade Britânica da esquadra imperial que tenho a honra de comandar. Este artigo, sendo um dos mais delicados, eu me reservo a honra de vos fazer saber os meus sentimentos; entretanto rogo-vos que me queirais responder às duas cartas que vos dirigi na data de antes de ontem**; e particularmente sobre o artigo que diz respeito à bandeira portuguesa ou inglesa, e sobre a neutralidade deste porto, da maneira que houvestes por bem dizer verbalmente aos meus sobreditos deputados. Logo que receber esta resposta não deixarei de assinar a cópia da convenção, e de a fazer remeter a Vossa Excelência com as observações relativas à bandeira de Sua Majestade Imperial [russa].
Tenho a honra de ser, etc.

De Séniavin


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Notas:

* Sobre as duas diferentes datas ver a explicação dada numa nota a uma anterior carta do mesmo remetente ao mesmo destinatário.

** Os dois documentos aludidos foram publicados aqui e aqui.

Notícias sobre os acontecimentos em Portugal, publicadas no periódico The National Register (4 de Setembro de 1808)



Acontecimentos políticos da semana.

Vitórias britânicas sobre as tropas francesas.


Temos hoje a inexprimível satisfação de anunciar a informação há muito esperada duma assinalada vitória do nosso exército em Portugal*. Seja qual for o modo como contemplamos esta importante ocorrência, sentimos tanta exultação quanto prazer. No meio de tais sensações misturadas, não sentimos surpresa, pois o valor impassível, determinado e perseverante dos nossos soldados nunca foi dúbio. Este é um daqueles acontecimentos grandes e abrangentes que atinge o peito de todos os britânicos, e que será sentido tão entusiasticamente sobre o rio Shannon como no Thames. Graças, sincera e inexprimivelmente, ao nosso exército e ao seu bravo Comandante! Eles cumpriram gloriosamente os deveres que o seu país esperava que cumprissem. O seu país confiou-lhes o glorioso penhor da sua glória e reputação; e a sua confiança não foi desapontada. A impetuosa bazófia e a destreza táctica dos invencíveis franceses foram incapazes de resistir ao impulso irresistível do patriotismo britânico, secundado pelas baionetas britânicas. Guerreiros distinguidos! Dignos descendentes dos heróis de Agincourt, Cressy, Blenheim e Minden! Haveis iniciado gloriosamente uma campanha cujo objectivo é nada menos que a emancipação da Europa do despotismo mais repugnante e perigoso que alguma vez flagelou a humanidade. Haveis sido enviados para resgatar o país do mais fiel dos nossos aliados, das presas dos monstros que há muito atacavam os seus órgãos vitais; e depois de terdes acabado esta gloriosa façanha, estais apressando-vos para cooperar com um povo distinguido, cujo anais são apenas recapitulações de vitórias; cujos campos, cujas montanhas e cujas cidades apresentam monumentos eternos de vitórias contra os cartagineses, romanos e mouros. Cujo sentido de honra é igual à sua bravura, e cuja integridade apenas rivaliza com o seu patriotismo. Enquanto toda a Europa está tremendo e amedrontada aos pés dum aventureiro implacável e arrogante, esta nação generosa repeliu com desprezo qualquer tipo de compromisso com o ousado facínora, e formou unanimemente a resolução de preferir cobrir os seus próprios campos com os seus cadáveres, e com os dos seus pais, suas mulheres e suas crianças, do que consentir a escravidão do seu país. Os seus sucessos foram correspondentes à sua determinação e à santidade da sua causa. Estais prestes a ver não tanto como eles libertam o seu país dos seus infames invasores - eles próprios já alcançaram este feito - mas sim como rivalizam e participam nas suas futuras proezas, naquele mesmo país onde há mais de dezasseis anos miríades de harpias voaram para saquear e profanar os templos, as casas, e os campos das nações vizinhas. O vosso país seguir-vos-á incessantemente nesta assinalada carreira. A sua gratidão será até superior às vossas façanhas; e quando regressardes, coroados com vitórias e com as bendições do universo, encontrareis nos aplausos dos vossos conterrâneos e nas lágrimas de alegria dos vossos parentes e amigos uma ampla compensação pelos vossos honrosos serviços. 
Tais são as efusões agradecidas de todos os britânicos ao lerem estas importantes notícias. Nenhuma das nossas vitórias, quer no mar, quer em terra, distinguidas como têm sido, desde que começou a Guerra Revolucionária, excitou um maior entusiasmo universal. A nossa superioridade naval era reconhecida universalmente. Mas estes acontecimentos removeram qualquer dúvida da mente dos mais cépticos, qualquer partícula de ansiedade do peito dos mais receosos, que a bravura e disciplina dos nossos exércitos terrestres  não é apenas igual, mas infinitamente superior às de qualquer povo existente. Que sensações orgulhosas deve esta convicção excitar nos nossos peitos! Que campo ela abre a uma comunidade aspirante e opulenta! A história menciona que somos o único povo que o comércio e as riquezas do mundo não foram capazes de corromper. Se algo excede as nossas riquezas naturais, é a nossa energia nacional. Que nenhuma falsa impressão de mal-estar e que nenhum falso brilho de moralidade política da parte dos homens de estado metódicos nos impeça de perseguir a nossa carreira de engrandecimento, que é indicada pelos nossos recursos morais e físicos. Nada é estável neste mundo. Se um Estado não avança, necessariamente tem que recuar. Este é um axioma moral e político. Multipliquemos os nossos exércitos nesta crise portentosa. As notícias da nossa vitória espalhar-se-ão rapidamente duma ponta do Continente à outra. Haverá mais efeito em estimular [agora] as suas energias dormentes do que em qualquer outra circunstância que alguma vez ocorreu. Guiemos e encorajemos os seus esforços contra o inimigo comum; e quando eles [=os europeus] virem uns cem mil soldados britânicos, não engaiolados vergonhosamente na sua ilha - os descendentes dos Eduardos e dos Henriques confinados às suas praias!! - mas sim acampados nos planícies da Picardia, irão recordar o que os seus esforços unidos já fizeram, guiados por um Marlhorough. É esta linguagem demasiado arrojada? É esta opinião infundada por antecedentes, ou invalidada pelos acontecimentos e sentimentos presentes? Não. Na confusão universal que em breve ocorrerá no Continente, na fricção geral, moral e nacional, outra nação mais ousada pensará assim. Retomemos o nosso antigo lema: que nem um só canhão seja disparado na Europa sem a nossa permissão! Coitado do povo que não agarrar as vantagens da situação e do momento! Coitado do homem de Estado que receia perseguir um grande objectivo, devido aos escrúpulos do cioso ou à resistência duma facção! Na política, a moralidade dum povo é segurança e grandeza; a sua imoralidade nasce da fraqueza e da letargia. A mesma regra moral é aplicável aos Estados enquanto indivíduos - somente a acção e a iniciativa desenvolvem aquelas grandes virtudes que levantam Estados e indivíduos até ao topo da grandeza e do vigor; enquanto a inacção engendra todos aqueles vícios repugnantes e paixões desagradáveis que produzem uma moral vergonhosa e uma debilidade física.  


***

Foi recebida uma carta no Lloyd's, remetida do Porto no dia 28 de Agosto, que declara que o exército francês comandado por Junot evacuou Lisboa, depois de ali pilhar vinte e três carros cheios de objectos de valor, e que no dia 24 tinha tido uma acção contra o exército britânico, na qual tinham sido mortos o General Loison e 5.000 franceses, enquanto Junot e o resto do seu exército tinham sido aprisionados. Quando os franceses evacuaram Lisboa, a frota russa hasteou as cores portuguesas. 

A gloriosa notícia da vitória obtida por Sir Arthur Wellesley foi levada pelo Capitão Campbell ao gabinete de Lord Castlereagh por volta das oito horas da noite de Quinta-feira [1 de Setembro]. Pouco depois Sua Senhoria comunicou-a ao Lord Mayor



Assim que o General Spencer se reuniu a Sir Arthur Wellesley, este último não perdeu tempo em avançar para dentro do país. No dia 15, os exércitos opostos aproximaram-se tanto um do outro, que ocorreu uma acção entre os postos avançados nesse mesmo dia, perto de Óbidos. No dia 17, as nossas tropas bateram-se com os corpos avançados dos franceses, que chegavam a 6.000 homens de infantaria e a 800 de cavalaria. Eles estavam postados com vantagens nas passagens [no alto das montanhas], mas como Sir Arthur caiu sobre a sua linha de marcha, teve a necessidade de atacá-los, apesar do outro lado ter melhores vantagens. Só foi empregue uma parte da nossa força, principalmente os Regimentos n.os 5, 9, 29, 60 e 95; destes, o 29.º e o 95.º suportaram o peso da batalha. Nada pode exceder a firme disciplina e a impassível e determinada coragem com que as nossas tropas avançaram para o ataque. Foi um conflito bastante severo, mas deve-se assinalar que a nossa artilharia foi infinitamente melhor empregue que a francesa, supostamente a melhor da Europa. Por fim, o inimigo rendeu-se ao valor dos nossos compatriotas, e retirou-se em confusão, com a perda de 1.500 homens, entre mortos, feridos e prisioneiros. Nos dias 18 e 19 Sir Arthur continuou em perseguição do inimigo. No dia 20, parou e afastou-se para perto do mar, a fim de proteger o desembarque da divisão do General Anstruther. Quando esta junção se realizou, todo o exército estava revigorado, depois das fatigas que tinha suportado. No dia 21, Sir Arthur viu que os inimigos estavam determinados em lutar. Começaram a atacar no Vimeiro, muito antes do que se esperava, e com a maior bravura e boa ordem. A sua impetuosidade foi extrema, como habitualmente; esperavam que assim lançariam os nossos soldados na confusão, e obteriam a vitória. Mas eram britânicas as tropas contra as quais tinham que lutar; e o nosso bravo exército, nada desencorajado pela violência da investida ou pelo furioso fogo que eles disparavam, avançou sem disparar um tiro, com as baionetas fixadas. Em breve, o inimigo desanimou-se perante esta impassibilidade e frieza, e foi forçado a recuar. O conflito começou então a tornar-se mais severo e sanguinário - porém, o inimigo, apesar de ter combatido com grande bravura e determinação, nunca foi capaz de provocar uma sensação de desvantagem nas nossas tropas. Por fim, a vitória foi decidida a nosso favor, sendo o inimigo completamente derrotado, e dispersando-se para os bosques contíguos ao cenário da acção. Junot comandava pessoalmente, e o seu ataque central foi sobre o nosso centro e esquerda - a nossa direita, que era composta por cerca de 7.000 homens, não foi esteve tão comprometida como as outras duas divisões. Dois regimentos de granadeiros, a nata do exército francês, foram completamente cortados aos pedaços. Depois da batalha, 300 deles foram encontrados mortos no mesmo lugar onde tinham sido dispostos. A batalha durou cerca de três horas, e o resultado geral foi a derrota completa e a fuga do inimigo, com a perda de cerca de 4.000 homens; o que eleva as perdas totais em ambas as acções para cima dos cinco mil homens. Proporcionalmente, as perdas dos britânicos foram pequenas. 
O veterano General Ferguson estava entre aqueles que lideraram o ataque [da batalha do Vimeiro]. Ia acompanhado pelo seu Ajudante de Campo, o Capitão Mellish, célebre desportista; e ao avançar para a carga, à frente da sua brigada, tirou o seu chapéu e acenou-o para encorajar os homens, de forma, em primeiro lugar, para que em toda a parte o reconhecessem, e em segundo lugar para assim poderem inspirar-se a imitar a sua calma e o domínio de si mesmo. O Coronel Lake caiu muito nobremente [na batalha da Roliça], enquanto conduzia os seus granadeiros por uma das passagens [no alto das montanhas], cuja dificuldades desafiam qualquer descrição. O Regimento n.º 36, comandado pelo Coronel Burns, efectuou prodígios [na batalha do Vimeiro]. Parece que este último ordenou aos seus homens para conterem o seu fogo; porém, como o inimigo continuava a abrir fogo com grande efeito, um ou dois jovens soldados descarregaram os seus mosquetes. O Coronel Burns gritou imediatamente: Se souber quem foi que disparou, eu próprio o abato. Esta observação, num momento em que tantos deles estavam a ser abatidos pelas balas do inimigo, excitou um enorme regozijo entre os seus homens, apesar da seríssima solenidade do cenário em que estavam a actuar. 
A carga do Regimento n.º 20 de Dragões foi a mais magistral; se houvesse uma força maior de cavalaria, a totalidade da força do inimigo teria sido aniquilada; apesar disto, os Generais franceses acharam-se que estavam completamente em Hors de combat [sic]. Disto ficou tão convencido pelo menos o General Brenier, que foi feito prisioneiro, e que de facto requereu a um dos oficiais do Estado-Maior britânico para tomar conta das suas propriedades (a sua parte da pilhagem), as quais estavam, segundo lhe disse, em Torres Vedras, tendo descrito a casa onde estavam escondidas.  
Quando se concluiu a batalha do dia 21, tal era o entusiasmo que o resultado tinha excitado entre os nossos Generais, que todos eles, sem excepção, foram até Sir Arthur Wellesley, dando-lhe os parabéns pelo seu sucesso, e exclamando: General, tudo isto é vossa obra! Os homens simpatizaram com os seus líderes, e expressaram em alta voz a sua satisfação pelo seu velho General, como lhe chamavam, ter vencido a batalha.
Depois da batalha decisiva, Sir Arthur propôs enviar a ala direita do seu exército, que tinha sido menos comprometida do que as outras duas divisões, para avançar em direcção a Lisboa, e interpor-se entre essa cidade e a retirada do exército do inimigo. Entendemos que esta medida foi adoptada, e as nossas tropas tomaram a estrada costeira, por Torres Vedras e Mafra. 
As negociações para a capitulação do exército francês continuavam à data dos ofícios de Sir Arthur. Diz-se que nos termos que propôs, o inimigo queria estipular que levaria os seus saques, cuja quantidade é imensa; mas é claro que isto não lhe foi garantido; e não pode haver dúvidas que, muito longe disto, o exército francês e a frota russa estão em nossa posse.
O General Kellermann, que veio propor os termos da capitulação, reconheceu que apesar da artilharia francesa ser observada até aqui como a primeira da Europa, a artilharia britânica na batalha do dia 21 serviu com uma perícia e destreza muito superior. Ao mesmo tempo, é justo dizer que o avanço em coluna das tropas francesas nesta ocasião foi considerado como um dos melhores movimentos que alguma vez foi executado. Ouvimos descrevê-lo como a visão mais sublimemente terrível.
Junot discursou para as suas tropas na manhã [de 21 de Agosto], e imediatamente antes da batalha, disse-lhes: Camaradas, aí estão os ingleses, e atrás deles o mar - ficai calmos e firmes, somente tendes de empurrá-los para o mar! A ordem emitida por Sir Arthur Wellesley às suas tropas era breve e simples: Meus bravos compatriotas! Expulsai os franceses das passagens a caminho de Lisboa; e a sua ordem foi plena e prontamente executada. O General francês Thiébault foi morto**, e o General Brenier foi ferido e feito prisioneiro. Loison estava desaparecido, e supostamente entre os mortos.
Quando o General Brenier foi capturado por um dos nossos granadeiros, ofereceu-lhe a sua bolsa [de dinheiro] e o seu relógio para o deixar partir; mas o granadeiro repeliu a oferta com desprezo, trouxe o General ao seu Coronel, e foi recompensado por Sir Arthur Wellesley com uma bolsa. O General francês expressou ao Coronel inglês muita surpresa pelo desinteresse do granadeiro. Não vos surpreendais, disse o Coronel, nós não viemos como ladrões. Brenier, dirigindo-se então a Sir Arthur Wellesley, disse: pela maneira como combatestes, suponho que tendes os homens escolhidos do exército da Inglaterra. Sir Arthur replicou: De forma alguma, estes são apenas uma amostra do resto.


[seguiam-se as seguintes ordens emitidas pelo General Arthur Wellesley:


O Capitão Campbell trouxe para a Inglaterra, a bordo do [navio] Kangaroo, cerca de vinte guardas de Junot, como amostra dos homens contra os quais lutámos. O General Brenier também estava ansioso para visitar imediatamente a Inglaterra, mas o General Kellermann aconselhou-o a ficar para assistir os seus compatriotas a traçar os termos da capitulação.
O Duque de Abrantes (Junot) e o seu Secretário [Hermann?] enviaram para a Inglaterra cartas abertas para as suas Duquesas, para que possam ser enviados para a França nalguma ocasião. Estas epístolas são muito breves. Apenas asseguram às suas senhoras que gozam de perfeita saúde; e expressam o desejo de que elas também a gozem. Não há uma só palavra sobre batalhas, e muito menos sobre derrotas.






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Notas:

 Neste mesmo número do The National Register foram transcritos todos os documentos relativos a Portugal que o periódico The London Gazette tinha publicado um dia antes.

** Constava no exército britânico (o próprio Wellesley reportou o boato) que Thiébault tinha sido morto na batalha do Vimeiro, o que não correspondia à verdade.

Carta do Bispo do Porto ao General Bernardim Freire de Andrade (4 de Setembro de 1808)



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor: 


Sinto que Vossa Excelência padeça o incómodo da moléstia de olhos, a qual provavelmente procederá do demasiado calor do sol, pois eu também desde o dia em que fomos ao alto da Bandeira tenho padecido esta moléstia, e de cada vez estou pior, talvez porque não me possa abster de aplicação, que o tempo não dispensa. Levei à Junta os dois ofícios de Vossa Excelência, aos quais se respondeu como consta da carta inclusa, e se eu de mim só posso dizer alguma coisa, devo confessar a Vossa Excelência que julgo que não me convém intervir de modo algum em negócio de tantas consequências; o meu único desejo é ver-me livre disto, porque já não posso fisicamente, além dos meus embaraços, que afligem o ânimo incessantemente. Eu já disse a Vossa Excelência que os meus desejos se limitavam unicamente a que se restituísse a Regência, ficando eu acabado de todo o respeito de Governos. Nisto estou firme, e esta é a razão porque nada posso dizer a Vossa Excelência a esse respeito. Deus Nosso Senhor, que tanto nos tem socorrido, não nos faltará com as suas luzes para o acerto em negócio de tanta importância. Segundo as notícias que tenho, tem o projecto que eu desejo a respeito da Regência, e se assim for estará tudo feto. A respeito de despedir as tropas irregulares, conviria eu de boa vontade, principalmente para minorar a despesa, porque de Inglaterra somente veio a metade da quantia pedida; os meios extraordinários de empréstimos e donativos estão aplicados, nem há esperança de outros recursos; e nesta consideração parece ser indispensável diminuir a despesa, antes que cheguemos ao ponto de não haver forças para a subsistência do Exército. Alguns dos preliminares são muito sensíveis. O arbítrio que eu lembrei a Vossa Excelência é um dos broquéis de melhor defesa em negócios políticos, mas para a minha pessoa é muito melhor não ser ouvido.
Não sei se tenho dito bem ou mal, sei que estou obrigado a dizer o que entendo. 
Deus guarde a Vossa Excelência muitos anos.
Porto, 4 de Setembro de 1808.

De Vossa Excelência amigo muito venerador e obrigado,

Bispo Presidente Governador.

[P.S.] Segundo a notícia que chega agora do Exército inglês já suponho a Vossa Excelência em Lisboa. Graças a Deus, graças a Deus.


[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, pp. 27-28 (doc. 74)].

sábado, 3 de setembro de 2011

The Spanish Pye. A Ditty for young Patriots, caricatura de Isaac Cruikshank (3 de Setembro de 1808)





A tarte espanhola. Uma cantilena para jovens patriotas.
Caricatura de Isaac Cruikshank, publicada a 3 de Setembro de 1808.


Esta caricatura satiriza o susto de José Bonaparte e dos franceses perante a inesperada irrupção das sublevações espanholas, representando o momento em que um grupo de pequenos soldados espanhóis (identificados pelas suas roupas e pela bandeira que ostentam) irrompe de dentro da tarte espanhola que o novo monarca, de faca e garfo nas mãos, se preparava para comer. Surpreendido e assustado, José Bonaparte recua, e ainda que ostente ameaçadoramente a faca do bolo, o certo é que os seus reforços estão do outro lado da mesa, também assustados... Trata-se provavelmente duma alusão directa às consequências da derrota em Bailén do General Dupont (que talvez esteja representado na caricatura como o francês com a cabeça enfaixada, as calças rasgadas e as botas gastas), facto que viria a provocar a decisão de José Bonaparte retirar-se de Madrid, apenas cerca de uma semana depois de aí ter chegado.
Por cima da tarte espanhola que dá título à caricatura encontram-se os versos da cantilena assinalada no subtítulo, que abaixo traduzimos literalmente: 

Canto uma canção de seis pences - um saco cheio de centeio, 
Quatro e vinte Patriotas - cozidos numa torta.
Quando a tarte foi aberta, os rapazes começaram a cantar. 
Ora, não era um belo prato para apresentar a um rei?



Os versos originais em inglês correspondem precisamente (ou melhor, quase inalterados) aos primeiros versos duma famosa cantilena infantil inglesa, Sing a song of sixpence, cuja fixação moderna pode ser abaixo escutada: 

 


Tendo em conta algumas variações conhecidas desta cantilena*, conseguimos apurar que a maior alteração que Cruikshank fez aos versos originais foi a introdução de um único termo que lhe era alheio (a saber, patriots), o qual, no entanto, para além de complementar o sentido da ilustração, altera significativamente o sentido dos versos originais. De facto, devemos ter em conta que o termo patriots ["patriotas"] tinha sido largamente difundido pela imprensa britânica, desde meados de Maio de 1808, em referência aos sublevados espanhóis, pelo que passara praticamente a ser sinónimo destes. Devemos finalmente acrescentar que para além da referida cantilena inglesa que indubitavelmente serviu de inspiração à caricatura, é possível ainda que a alusão à mocidade espanhola (através do termo sublinhado boys ["rapazes"] e do termo young ["jovens"], presente no subtítulo) derive do conhecimento que Cruikshank tinha de uma obra patriótica dirigida aos jovens espanhóis, nomeadamente um catecismo que começara a ser largamente divulgado na Espanha pouco depois dos incidentes de 2 de Maio de 1808 em Madrid, e que chegou mesmo a ser traduzido e publicado na Inglaterra em Setembro de 1808 (se não antes), através do periódico The Monthly Register


Outra digitalização: British Museum.

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Nota: 


* Como vulgarmente sucede em recolhas de manifestações da cultura popular, os versos desta cantilena (cuja primeira recolha foi publicada em 1744) encontram-se publicados em diferentes obras com algumas variações. Indicamos abaixo, a negrito, algumas dessas variações (relativamente ao excerto que nos interessa), acompanhadas por uma sugestiva gravura:


Sing a song of sixpence 
bag/pocket full of rye;
Four and twenty naughty boys/blackbirds 
Baked/Bak'd in a pie.

When the pie was open'd, 
the birds began to sing;
[And/NowWasn’t that a pretty/dainty dish 
to set before a/the King?

Carta de D. Domingos António de Sousa Coutinho, Embaixador de Portugal em Londres, a George Canning, Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros do Governo britânico (3 de Setembro de 1808)



O abaixo assinado já comunicou à Secretaria da Guerra a cópia por ele rubricada dos artigos da suspensão de armas assinada a 22 de Agosto por Sir Arthur Wellesley e pelo General francês Kellermann; e remeteu a Mr. Hammond a tradução do ofício que o abaixo assinado recebeu do Governo Supremo do Porto, com os sentimentos do qual não pode deixar de concordar nem de pedir a Sua Excelência [para que] queira fazer-lhe saber a resolução que o Governo britânico tiver tomado a respeito desta infeliz transacção, tão pouco conforme aos direitos de Sua Alteza Real, aos esforços dos seus vassalos para lhe restituir o reino completamente, aos sentimentos expressos por Sir Arthur Wellesley na sua proclamação, quando desembarcou em Portugal, e tão pouco análoga à brilhante e gloriosa vitória que acabava de alcançar em 21 de Agosto.
O abaixo assinado aproveita esta ocasião para repetir a Sua Excelência a segurança da sua subida consideração.

O Cavalheiro de Sousa Coutinho

Londres, 3 de Setembro de 1808.


Carta do General Bernardim Freire de Andrade ao Bispo do Porto (3 de Setembro de 1808)



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor: 

Ontem comuniquei a Vossa Excelência quanto se havia resolvido em Conselho dos Oficiais Superiores deste Exército sobre as espinhosas circunstâncias a que nos conduziu a precipitada e extraordinária Convenção dos nossos aliados. Agora tenho a honra de pôr na presença de Vossa Excelência a cópia da mesma Convenção traduzida do inglês e da carta com que o General Dalrymple acompanhava esta remessa - n.º 1, como também as respostas n.º 2 e n.º 3 que ele deu aos ofícios do Major Aires Pinto de Sousa e aos que ele dirige sobre os roubos dos franceses em Lisboa e o bloqueio de Peniche, de que remeti a Vossa Excelência a cópia (n.º 3 e seguintes) na carta de ontem, sendo muito para admirar que, fazendo-se cargo de haver recebido os dois ofícios últimos, não respondeu ao que fazia parte do Conselho, e era o de maior importância, contentando-se em dizer vocalmente ao oficial que lho levou que, quando se encontrasse comigo, se trataria do seu conteúdo. Na resposta ao ofício do Major Aires Pinto certamente se falta à verdade; pois que não pode [que] se lhe comunicaram as minhas observações sobre o Armistício, a que ele satisfez vocalmente, prometendo modificá-los, e a algumas delas até me respondeu na carta que antedatou, para condizer com a comunicação do tal Armistício
Enfim, eu não sei o que se deva pensar, muito mais vendo agora que o General pretende na carta dita n.º 3 que eu passe as ordens necessárias ao Exército português para cessarem as hostilidades diante de todas as praças, e que faça com que o mesmo seja intimado aos comandantes franceses dela; pois que isto parece comprometer-me dum ou doutro modo, e algumas delas, como a de Elvas, não estão sujeitas às minhas ordens. 
Eu lhe respondo pela carta que Vossa Excelência verá na cópia n.º 4, e como em todo o caso pareça muito conveniente que este Exército todo, ou parte dele, comigo entre em Lisboa, não obstante os meus protestos sobre a capitulação eu me presto à requisição do General, e vou ter com ele uma conferência logo que chegue a Mafra, para onde movo parte do Exército amanhã.
Nesta conferência lhe farei sentir melhor o mesmo que se trata na Memória que acompanha a dita carta e cópia n.º 4, sobre a impolítica e mau efeito que pode produzir o que se acha estipulado, e pretenderei que se ponham por escrito as suas proposições.
Se a completa evacuação dos franceses der tempo a que chegue a decisão que espero de Vossa Excelência sobre o ofício de ontem, eu me referirei em tudo ao que Vossa Excelência resolver com a Junta do Governo; se porém ela se demorar como se demorou a resposta à carta sobre o Armistício, que ainda não recebi de Vossa Excelência, tendo-a solicitado com tanta instância, nesse caso eu julgo indispensável aparecer na capital com o Exército inglês. Permita-me Vossa Excelência lembrar-lhe que os objectos desta natureza, para nós os mais importantes talvez que se têm tratado depois da maldita Revolução Francesa, pedem uma pronta resolução, e que a demora de resposta pode ser da mais fatal consequência e de uma enorme responsabilidade para com o Príncipe Nosso Senhor e a Nação; não me podendo também esquecer de que realmente eu não estou autorizado pela Junta para entrar em tais negociações; excedem as força das minhas instruções; pois que se trata de mais do que a capitulação; mas não posso fazer outra coisa, uma vez que tem tanta demora em chegar um delegado que se me fez esperar para este caso, cuja presença me livraria dos maiores embaraços. Repetirei a Vossa Excelência que a falta de instruções em tais circunstâncias faz a minha posição por extremos espinhosa, e com a maior instância lhe suplico [que] mande alguém encarregado destas negociações, uma vez que me falta as noções por que deva dirigir-me; o qual pode já vir instruído vocalmente por Vossa Excelência de mil circunstâncias a que o papel e a pena não oferecem a mesma facilidade.
Deus guarde a Vossa Excelência.
Quartel-General da Encarnação, 3 de Setembro de 1808.

Bernardim Freire d'Andrada [sic].

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, pp. 26-27 (doc. 72)].

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Nota: 

Apesar de composto no dia 3 de Setembro, este documento foi enviado ao Bispo do Porto com a data de 4 de Setembro, como se pode ver na sua resposta de 7 de Setembro.

A chegada a Londres das primeiras notícias das vitórias do exército comandado pelo General Wellesley em Portugal, e sua respectiva publicação



Por volta das 8 horas da noite de 1 de Setembro de 1808, Lord Castlereagh, Secretário de Estado da Guerra do Governo britânico, recebeu uma visita do Capitão Campbell, Ajudante de Campo do General Arthur Wellesley. Depois de cerca de oito dias de viagem, este Capitão vinha entregar a Castlereagh os importantes ofícios que Wellesley o tinha incumbido levar ao Governo britânico, relativos às vitórias que o exército britânico tinha obtido em Portugal contra o exército francês. 
Para além de escrever ao próprio Rei, ainda nessa mesma noite Castlereagh enviou um resumo destas notícias ao Lord Mayor de Londres, onde acrescentava que, em consequência da batalha do Vimeiro, "o General Kellermann chegou ao Quartel-General [britânico], com uma bandeira de tréguas, para tratar os termos [da capitulação]". Não se davam mais detalhes, pois estes ignoravam-se completamente naquele momento. Tal se devia ao facto do Capitão Campbell ter partido de Portugal no dia 22 de Agosto, pouco depois de Kellermann chegar ao Quartel-General britânico, mas antes de se concluírem na mesma tarde ou noite os referidos termos do armistício. Assim, ignorando completamente o resultado daquela anunciada trégua, Castlereagh deu permissão para que a referida carta ao Lord Mayor fosse publicada no periódico londrino The Times dois dias depois de ter sido escrita. Esta carta foi assim o primeiro documento oficial que se publicou, no qual era feita uma referência, ainda que muito breve, sobre o armistício assinado a 22 de Agosto, cujo conteúdo, no entanto, tardaria ainda duas semanas para se tornar conhecido do grande público na Inglaterra (tal como o texto da Convenção erroneamente chamada de Sintra). 

No dia 2 de Setembro, o Rei da Grã-Bretanha respondeu a Castlereagh, com grande satisfação, às duas cartas que este lhe tinha transmitido na noite anterior. Ainda nesse mesmo dia 2, o periódico The Morning Post revelou ao grande público, em primeira mão, as "gloriosas notícias" da derrota completa do exército de Junot em Portugal, e sua consequente rendição, num número encabeçado pelo sugestivo título: Most Glorious News from Portugal - Complete Defeat of General Junot and Proposals for the Surrender of His Army

Finalmente, no dia seguinte, uma série de documentos oficiais sobre as vitórias de Wellesley em Portugal (a maior parte escritas por ele próprio) foram publicados num número extraordinário do periódico The London Gazette. Tais documentos, acolhidos com natural entusiasmo, explicam em parte a recepção bastante desfavorável, duas semanas depois, dos textos do armistício de 22 de Agosto e da Convenção de 30 de Agosto.






Neste número foram publicados excertos e cópias dos seguintes documentos oficiais, segundo a ordem que se indica:


2. Relatório dos mortos, feridos e desaparecidos da acção da Lourinha (sic) [na verdade foi travada a sul de Óbidos].










Carta do Tenente-Coronel Proby ao Capitão Dalrymple (3 de Setembro de 1808)





Lisboa, 3 de Setembro de 1808.




Caro Senhor:


Rogo que informeis Sua Excelência o Comandante em Chefe [General Dalrymple] que o General Junot deseja que me comunique com o General Kellermann sobre todos os assuntos relacionados com a execução da Convenção. A primeira divisão das tropas francesas está pronta para embarcar, e pensei que tinha o dever de comunicar imediatamente esta informação ao Almirante [Charles Cotton], e sem esperar pelo relatório detalhado que tinha pedido, acerca das tropas, cavalos da artilharia, e equipamentos de todo o tipo que os franceses tencionam embarcar. Submeti ao Almirante, ao mesmo tempo, a justeza de enviar um Oficial da marinha para supervisionar o embarque, e para responder a todas as questões que se colocam sobre este assunto.
Fiz pressão para que os prisioneiros espanhóis fossem libertados imediatamente; e fui informado pelo General Kellermann que existe um acordo privado entre ele e o Coronel Murray, segundo o qual estas tropas não serão desembarcadas na margem norte do Tejo, e que também não serão libertadas antes da entrada das tropas britânicas em Lisboa. Rogo instruções adicionais sobre este assunto; entretanto, pedi ao Comissário para inquirir quais são os artigos de equipamento que estas tropas necessitam, e para fazer todos os outros ajustes necessários para a sua marcha para Madrid, se tal for o ponto para onde o Comandante em Chefe julgar apropriado enviá-las. Ainda não vi o seu Comandante, mas o General Kellermann prometeu-me que mo enviaria imediatamente. 
O General Junot desejou saber, através de mim, se lhe seria dada permissão para apropriar-se de cinco navios dinamarqueses que estão agora no rio, nos quais seriam acolhidas as suas propriedades pessoais. Considero que a decisão desta questão deve pertencer mais apropriadamente à Marinha; porém, por quanto o exército está comprometido, respondi pela negativa, porque a única menção a transportes adicionais que consta na Convenção surge no seu 6.º artigo, e entendo que tal se aplica unicamente aos transportes de cavalos. O General Kellermann também reivindica os benefícios de um acordo privado com o Coronel Murray sobre esta questão.
Espero ser informado assim que Sua Excelência determinar o dia em que as guarnições devem ser rendidas. O sr. Kennedy encarregou-se de fazer os ajustes necessários para a sua subsistência durante a marcha. 
Assim que receber os relatórios das tropas francesas que me foram prometidos, transmitir-lhos-ei ao conhecimento do Comandante em Chefe, remetendo ao mesmo tempo uma cópia ao Almirante.
O General Kellermann deseja que informe o Comandante em Chefe que ele sente uma grande apreensão sobre os ultrajes que a populaça talvez cometa, durante o dia que se fixar para o embarque da segunda divisão das tropas francesas, e espera que as tropas britânicas que tomarem posse de Lisboa não sejam menos de 10.000 homens, e que entrarão na cidade antes dos franceses estarem embarcados.
Forneceram-me aqui uma cópia do tratado.
Sendo sempre, meu caro Senhor, muito sinceramente vosso,

Proby,
Tenente-Coronel



Diário do General John Moore (3 de Setembro de 1808)




Perto de Sintra, 3 de Setembro.


Marchámos de Torres Vedras no dia 1 ao meio-dia. Previa-se que alcançaríamos Mafra naquela noite, mas encontrámos os postos franceses ainda em frente daquele lugar, e tomámos o nosso terreno nos vales e montanhas opostas; parte da esquerda estava na tapada pertencente ao convento de Mafra. Os postos franceses retiraram-se durante a noite, e começámos a marchar às seis da manhã do dia 2. O exército parou em etapas do caminho, devido à conveniência da água. A divisão do General Murray, que marchou da Coutada, parou em Mafra; a divisão do General Fraser em Cheleiros; a do Major-General Paget em Sintra, [onde se instalou] o Quartel-General; a cavalaria e a artilharia [colocou-se] neste lugar, que fica a três milhas curtas de Sintra; a divisão do General Hope está a uma milha e meia da nossa esquerda. Os fortes de S. Julião, do Bugio e de Cascais foram ontem apossados pelos Regimentos n.º 42 e Buffs, os quais encontraram-se na barra de Lisboa, vindo o primeiro de Gibraltar, e o outro da Madeira, a fim de se reunirem com o exército. A região por onde marchámos durante estes dois dias é excessivamente dura e difícil; e se os franceses têm 12.000 ou 15.000 homens, é estranho que não nos tenham tentado parar, em vez de combaterem a batalha do dia 21. Se se tivessem determinado a fazer uma campanha defensiva, deveriam manter-nos fora de Lisboa durante um tempo considerável, obrigando-nos a ganhar cada milha com perdas consideráveis.


Resposta do General Wellesley à oferta dos Generais que desembarcaram com as tropas britânicas no Mondego (3 de Setembro de 1808)



Zambujal, 3 de Setembro de 1808.



Cavalheiros:

Tive a honra de receber a vossa carta de hoje, e garanto-vos que é uma fonte de grande gratificação ver que vos satisfez a minha conduta no comando com que fui nos últimos tempos investido por Sua Majestade.
Ao dirigir os meus esforços para a concretização do serviço em que estávamos empregados, nunca deixei de receber o vosso apoio e assistência; e é ao apoio cordial e aos amigáveis conselhos e assistência que invariavelmente recebi de vós, colectiva e individualmente, que atribuo o sucesso do nosso empenho em levar o exército ao estado em que se formou para encontrar-se com o inimigo, naqueles dias em que a bravura dos oficiais e soldados foi estimulada pelo vosso exemplo, e a sua disciplina ajudada e orientada pela vossa experiência e habilidade.
Perante estas circunstâncias, a minha tarefa foi proporcionalmente leve, e imagino que as dificuldades do exército foram sobrestimadas pela vossa parte; mas orgulho-me ao pensar que, mesmo que não a mereça, não possuiria a vossa estima se não tivesse cumprido o meu dever; e com estes sentimentos, e aqueles de respeito e afeição por todos vós, aceito esse testemunho da vossa estima e confiança com que agradavelmente me presenteastes. 


[Fonte: Lieut. Colonel Gurwood (org.), The Dispatches of Field Marshal the Duke of Wellington, K. G. during his various campaigns in India, Denmark, Portugal, Spain, the Low Countries, and France, from 1799 to 1818 – Volume Fourth, London, John Murray, 1835, pp. 122-123].

Carta dos Generais que desembarcaram com as tropas britânicas no Mondego ao General Wellesley (3 de Setembro de 1808)



Campo de S. Antão de Tojal, 3 de Setembro de 1808.




Meu caro Senhor:

Ansiosos por manifestar a alta estima e respeito que vos temos, e a satisfação que deveremos sempre sentir ao termos tido a boa sorte de servir debaixo do vosso comando, ordenámos hoje a preparação duma peça de prata, avaliada em 1.000 guinéus*, para vos ser oferecida.
A inscrição inclusa, que ordenámos que fosse gravada nela, expressa os nossos sentimentos nesta ocasião.
Temos a honra de ser, etc., 

B. Spencer, Major General.
R. Hill, Major General.
R. Ferguson, Major General.
M. Nightingall, Brigadeiro General.
B. F. Bowes, Brigadeiro General.
H. Fane, Brigadeiro General.
J. Catlin Crauford, Brigadeiro General.



Inscrição 


Dos Oficiais Generais servindo no exército britânico que originalmente desembarcou na Figueira, em Portugal, no ano de 1808, ao Tenente-General o Muito Honorável Sir Arthur Wellesley, K. B., etc., etc., seu Comandante.
O Major General Spencer, segundo no comando, os Majores Generais Hill e Ferguson, os Brigadeiros Generais Nightingall, Bowes, Fane, e Crauford, oferecem este presente ao seu líder, em testemunho do alto respeito e estima que sentem por ele enquanto homem, e pela confiança ilimitada que lhe têm enquanto oficial.



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* Nota do editor desta carta: O valor desta peça foi posteriormente aumentado pelas subscrições adicionais dos Generais Anstruther e Acland, e pelos Oficiais de Campo do Exército que serviram debaixo das ordens do General Sir Arthur Wellesley na batalha do Vimeiro.