quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Observações de Bernardim Freire de Andrade sobre o Armistício assinado no dia 22 de Agosto (24 de Agosto de 1808)




Observações substanciadas sobre alguns artigos e fórmulas do Armistício do Exército francês e britânico em Portugal, comunicadas por cópia ao General Comandante do Exército português



1.º Parece não poder deixar de fazer estranheza que na Convenção feita entre o General Sir Arthur Wellesley e o General Kellermann não se anuncie de algum modo o fim político que se tem em vista na presente guerra, que pela constante lealdade da nação britânica e à vista das proclamações publicadas pelo Comandante das suas forças navais e terrestres, e finalmente pelo unânime consentimento tão honrada e tão energicamente expressado de todo o povo português, não é nem pode ser outro senão o restabelecimento da Monarquia portuguesa e da Real Casa de Bragança.


2.º Parece que também se poderá reputar estranho que na dita Convenção não se contemple em nada a Junta Suprema do Governo Provisório de Portugal, estabelecida na cidade do Porto e reconhecida por todo o país que se acha livre do inimigo francês, assim como o Exército português, que pelas expressões do Artigo 4.º não parece dignamente enunciado.

3.º Ainda que a dita Convenção pareça não ter por objecto mais do que uma transacção entre os dois Exércitos, contudo nas circunstâncias actuais, tendo o inimigo comum fomentado partidos em diferentes classes e procurado por todos os meios, entre nós como na Espanha e em toda a Europa, indispor a massa geral contra as rectas intenções do Governo britânico na parte activa que há tomado na guerra do continente, seria muito possível aquela falta de consideração pelo Príncipe, Governo e Exército português produzir efeitos contrários aos fins que sem dúvida se propõe a Grã-Bretanha, propagando as desconfianças que os partidistas franceses desejam há muito tempo excitar. 


4.º Nas estipulações já ajustadas na mesma Convenção se encontram artigos que podem ser prejudicialíssimos aos interesses deste país e da causa comum, como são:


     I. Tendo-se estipulado simplesmente no artigo 3.º que a linha de demarcação entre os dois Exércitos inglês e francês fosse o rio Sizandro, mas não se determinando que os Exércitos ocupassem as mesmas posições que actualmente têm; e declarando-se no artigo seguinte que a linha de demarcação para a tropa portuguesa fosse a linha de Leiria a Tomar, fica à disposição do inimigo e sujeito às suas vinganças todo o país [=região] intermediário que as nossas tropas têm já ocupado, sem que por isso possa o mesmo inimigo ser arguido de faltar às estipulações. 


     II. Que pelo mesmo motivo pode ficar absolutamente perdido este Exército, que se acha nesta posição pela vontade com que se prestou a cooperar juntamente com o Exército inglês, uma vez que o inimigo queira interceptar a sua comunicação com o país.


     III. Que tendo-se convencionado pelo Artigo 6.º uma amnistia geral para os franceses e seus aderentes, ainda mesmo portugueses, o que parece exceder as faculdades de um General do Exército Auxiliar, não se estipule com muita mais razão a segurança das vidas e fazendas dos povos leais que por aquela demarcação ficam expostos a todo o ressentimento dos Generais e Exército francês.
     
     IV. Que a concessão feita pelo Artigo 5.º de poderem os indivíduos do Exército francês conduzir consigo as suas bagagens e efeitos particulares de qualquer natureza que sejam, vai a reduzir este país à maior miséria, porque não só levarão a este título o fruto dos imensos roubos e concussões que têm feito os Generais e mais indivíduos deste Exército; mas as muitas propriedades e fundos públicos acumulados em Lisboa e que eles têm já subtraído ou podem subtrair dos depósitos respectivos onde se deveriam achar; e que deste modo paralisariam a nação para a defesa a que se deve preparar, ou seja no interior do país, ou ajudando aos seus vizinhos os espanhóis; parecendo por isso muito conveniente que na redacção da Convenção definitiva se modifique este artigo de tal modo que não venham a resultar dele os funestos efeitos que se receiam.


5.º Que prestando-se à Suspensão de armas por ora, mas exigindo que lhe seja requerida formalmente por escrito da parte do General em Chefe do Exército britânico, o General do Exército português se julga necessitado a pretender do mesmo General em Chefe a segurança de que o Comandante do Exército francês não ocupará povoação alguma ou atacará algum povo compreendido entre o rio Sizandro e a linha que das suas vertentes atravessa a Serra de Montejunto, passando por diante do Cercal, Alcoentre, Rio Maior e Santarém, no caso que se ache ocupado já pelo Exército combinado da Beira e Espanha, como é natural que acontença em consequência das ordens que tinham aqueles Comandantes e das posições que já ocupavam.


Quartel-General da Lourinhã, 24 de Agosto de 1808.

Bernardim Freire de Andrada [sic].



[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, pp. 205-206 (incluído no doc. 35)].


Protesto formal do General Bernardim Freire sobre o Armistício de 22 de Agosto (24 de Agosto de 1808)



O General em Chefe do Exército português, Bernardim Freire de Andrada [sic], sendo-lhe comunicada por cópia a Suspensão de armas entre o Exército francês e inglês em Portugal, convencionada no dia 22 do corrente pelos Generais Sir Arthur Wellesley e Mr. Kellermann, autorizados para esse efeito pelos respectivos Generais em Chefe de ambos os Exércitos, e tendo oferecido, vocalmente, pelo Major Aires Pinto de Sousa ao General em Chefe do Exército inglês, pedido pelo Governo Provisional deste Reino a Sua Majestade Britânica em auxílio contra o inimigo comum, as observações que lhe pareceram oportunas e que remete substanciadas por cópia, sem que todavia o sobredito General [Bernardim Freire] se mostrasse convencido da justiça e importância delas, se julga obrigado interinamente a protestar do modo mais formal e solene, como de facto protesta pela presente Cédula, contra todos e cada um dos artigos e cláusulas da dita Convenção que de qualquer modo e em qualquer tempo encontrarem [ofendida] a Soberania do Príncipe Regente e Real Casa de Bragança, a Independência da Nação Portuguesa, a Autoridade do actual Governo Provisional deste Reino, a Honra e Segurança do Exército Português, e a pública manutenção das vidas, fazendas e liberdade civil de todos os Habitantes de Portugal.
Quartel-General da Lourinhã, 24 de Agosto de 1808.

Bernardim Freire de Andrada [sic].

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, p. 202 (incluída no doc. 35)].



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Nota: 

O Major Aires Pinto de Sousa não chegou a entregar este protesto formal (juntamente com as observações com que ia acompanhado) ao General Dalrymple, pelos motivos que no próprio dia 24 de Agosto viria a expor ao General Bernardim Freire de Andrade.

Instruções secretas enviadas pelo General Bernardim Freire de Andrade ao Major Aires Pinto de Sousa (24 de Agosto de 1808)



Instruções secretas para o Major Aires Pinto, organizadas no Conselho [Militar].


Assentou-se que o Major Aires Pinto passasse ao Quartel-General do Exército britânico a expor ao Comandante em Chefe do mesmo Exército o seguinte:

1.º Que ao General em Chefe e mais oficiais Chefes das diferentes Armas [infantaria, cavalaria e artilharia] do Exército português, que se convocaram em Conselho, causou a maior estranheza ver que na Convenção que se lhes comunicou, feita entre o General Sir Arthur Wellesley e o General Kellermann, não se trata do fim que se tem em vista na presente guerra, que não é nem pode ser outro, à vista das proclamações publicadas pelos Comandantes das forças navais e terrestres da Grã-Bretanha*, e pelo unânime consentimento, tão energicamente expressado, de todo o povo português, senão o restabelecimento do Governo do Príncipe Regente e da Real Casa de Bragança. 


2.º Que lhe causa uma igual estranheza e sentimento ver que nesta Convenção não se contemple em nada a Junta Suprema do Governo Provisório de Portugal, estabelecida na cidade do Porto e reconhecida por todo o país que se acha livre do inimigo francês, assim como o Exército português, que pelas expressões do Artigo 4.º se pode entender como um simples ajuntamento de rebeldes armados.

3.º Que um semelhante procedimento pode trazer após si as mais funestas consequências e excitar uma guerra civil mais desastrada do que as circunstâncias em que nos achávamos e prejudicialíssima aos fins que se propõe Inglaterra de libertar as Espanhas do jugo francês; pois que fazendo desconfiar tanto a nação portuguesa como a Espanha da sinceridade dos motivos pelos quais Inglaterra faz tão grandes esforços, longe de se prestar a aceitá-los, poderão querer tratar de os repelir com a mesma energia com que se declararam contra os franceses.

4.º Que nas estipulações já ajustadas na mesma Convenção se encontram artigos que podem ser prejudicialíssimos para os interesses deste país e da causa comum, como são:

     I. Tendo-se estipulado simplesmente no artigo 3.º que a linha de demarcação entre os dois Exércitos inglês e francês fosse o rio Sizandro, mas não se determinando que os Exércitos ocupassem as mesmas posições que actualmente têm; e declarando-se no artigo seguinte que a linha de demarcação para a tropa portuguesa fosse a linha de Leiria a Tomar, fica à disposição do inimigo e sujeito às suas vinganças todo o país [=região] intermediário que as nossas tropas têm já ocupado, sem que por isso possa o mesmo inimigo ser arguido de faltar às estipulações. 


     II. Que pelo mesmo motivo pode ficar absolutamente perdido este Exército, que se acha nesta posição pela vontade com que se prestou a cooperar juntamente com o Exército inglês, uma vez que o inimigo queira interceptar a sua comunicação com o país.


     III. Que tendo-se convencionado pelo Artigo 6.º uma amnistia geral para os franceses e seus aderentes, ainda mesmo portugueses, o que parece exceder as faculdades de um General do Exército Auxiliar, não se estipule com muita mais razão a segurança das vidas e fazendas dos povos leais que por aquela demarcação ficam expostos a todo o ressentimento dos Generais e Exército francês.

     IV. Que a concessão feita pelo Artigo 5.º de poderem os indivíduos do Exército francês conduzir consigo as suas bagagens e efeitos particulares de qualquer natureza que sejam, vai reduzir este país à maior miséria, porque não só levarão a este título o fruto dos imensos roubos e concussões que têm feito os Generais e mais indivíduos deste Exército; mas as propriedades e fundos públicos acumulados em Lisboa e que eles têm já subtraído ou podem subtrair dos depósitos respectivos onde se deveriam achar; e que deste modo paralisarão a nação para a defesa a que se deve preparar, ou seja no interior do país, ou ajudando os seus vizinhos os espanhóis; parecendo por isso muito conveniente que na redacção da Convenção definitiva se modifique este artigo de tal modo que não venham a resultar dele os funestos efeitos que se receiam.

5.º Que prestando-se à Suspensão de armas por ora, mas exigindo que lhe seja requerida formalmente por escrito da parte do General em Chefe do Exército britânico, o General do Exército português se julga necessitado a pretender do mesmo General em Chefe a segurança de que o Comandante do Exército francês não ocupará povoação alguma mesmo das que ficam fora da linha de demarcação, nem abandonará as posições actuais.


6.º Que tendo o Exército inglês recebido numerosos reforços, e ficando por isso inúteis os corpos portugueses que se lhes prestaram na ocasião em que se supunha a sua cooperação necessária, se deve requerer que os torne a mandar juntar a este Exército.


7.º Depois do Major Aires Pinto haver exposto ao General em Chefe do Exército britânico estas observações e de lhe fazer sentir a justiça e conveniência delas, quando veja que o dito General não se preste a assentir nelas, lhe entregará a Protestação formal** que se lhe confia, e de um modo que para agora e para o futuro possa consta à nação e ao mesmo Governo inglês e a toda a Europa que os Oficiais Comandantes deste Exército fizeram quanto estava da sua parte para evitar as funestas consequências que se receiam, enquanto o Governo legítimo, que reconhecem, não pode tomar, pela distância em que se acha, a determinação conveniente que imediatamente se vai solicitar.

Quartel-General da Lourinhã, 24 de Agosto de 1808.

Bernardim Freire de Andrada [sic].

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, pp. 203-204 (incluído no doc. 35)].


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Nota: 

*  Ver em particular a proclamação de Charles Cotton e Wellesley datada de 4 de Agosto.



**  Como mais adiante se verá, Aires Pinto de Sousa não chegaria a entregar ao General Dalrymple o aludido protesto, bem como as observações que nele se incluíam.

Carta do General Bernardim Freire de Andrade a Dalrymple (24 de Agosto de 1808)


Exigindo o meu dever, nas circunstâncias em que me acho, que eu ofereça à consideração de Vossa Excelência algumas observações sobre o Armistício ultimamente convencionado entre o Exército francês e o que Vossa Excelência comanda, envio para este efeito à presença de Vossa Excelência o Major Aires Pinto, que por suas qualidades pessoais e pela confiança que nele tenho, se faz digno desta comissão. As reflexões que ele é encarregado de expor a Vossa Excelência me parecem da última importância, e espero que Vossa Excelência, julgando-as [como] tais, se digne obrar em consequência delas, como pede a honra e o interesse de ambas as nações.
Deus guarde a Vossa Excelência.
Quartel-General da Lourinhã, 24 de Agosto de 1808.

Bernardim Freire de Andrada [sic].

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, p. 202 (doc. 35). Originalmente, esta carta foi publicada em inglês, in 
Copy of the Proceedings upon the Inquiry relative to the Armistice and Convention, &c. made and conclued in Portugal, in August 1808, between The Commanders of the British and French Armies, London, House of Commons Papers, 31st Jannuary 1809, p. 201 (doc. 97)].

Carta do General Bernardim Freire de Andrade ao General Dalrymple (24 de Agosto de 1808)




Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor:

Em conformidade da disposição do Armistício estipulado entre o Exército inglês e o francêsque Vossa Excelência me comunica em data de ontem, tenho em data de hoje passado ordem para se suspenderem todos os movimentos de tropas do Exército da Beira, que obrava na margem direita do Tejo, e que na praça de Almeida se conservem as que se acham encarregadas do bloqueio daquela praça, para conservar interceptada a sua comunicação, sem poderem tentar algum outro projecto; e parecendo-me ter deste modo satisfeito ao que Vossa Excelência me insinua, tenho por esta ocasião a honra de dizer-me de Vossa Excelência muito atento e obrigado servidor.

Bernardim Freire de Andrade.

Quartel-General da Lourinhã, 24 de Agosto de 1808.


[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, p. 208 (doc. 36); existe uma tradução truncada desta carta em inglês, publicada originalmente in Copy of the Proceedings upon the Inquiry relative to the Armistice and Convention, &c. made and conclued in Portugal, in August 1808, between The Commanders of the British and French Armies, London, House of Commons Papers, 31st Jannuary 1809, p. 201 (doc. 96)].

Carta do General Hew Dalrymple, Comandante do Exército britânico em Portugal, ao Brigadeiro-General Frederick von Decken (24 de Agosto de 1808)



Quartel-General do Ramalhal, 24 de Agosto de 1808


Senhor:

Tive a honra de receber a vossa carta do passado dia 18, e surpreendeu-me perceber que o Bispo do Porto tomou o Governo de Portugal nas suas mãos, por ser esta uma medida de considerável delicadeza e importância, que de modo algum consigo compreender como se pode ter realizado.
Não consigo determinar por agora que passos devem ser dados em consequência deste acontecimento, sobretudo sem o ter comunicado a Sir Charles Cotton, que, contudo, conforme penso (e não só eu) não aprovará completamente o forte passo que haveis tomado, ao recomendar ao Bispo para reter uma autoridade que não posso julgar como conferida pela voz unânime da nação portuguesa. E tenho que requerer que, de futuro, não utilizareis uma linguagem que possa ser interpretada como sendo a expressão dos sentimentos do Governo de Sua Majestade, ou a dos Oficiais Comandantes em Chefe do exército e da marinha britânica, sem terdes recebido autoridade e instruções distintas para o fazer, de forma a que depois não se venha invocar que a Grã-Bretanha acabou por decidir medidas diferentes e até opostas.

H. W. Dalrymple


Extracto de uma carta de um Oficial do Exército (24 de Agosto de 1808)


[Lourinhã, 24 de Agosto]


No dia 15 do corrente [mês] o Ajudante de Campo da segunda Divisão do Exército português, João da Silveira Pinto de Lacerda, foi encarregado de ir reconhecer as forças do inimigo postado em Rio Maior e Alcobaça. Marchou para o primeiro ponto com 25 soldados de Cavalaria, e sabendo que o Exército francês evacuava aquele posto, e lembrando-se de lhe tomar bagagens, reforçou-se com alguns dos Caçadores Voluntários de Coimbra, e apressando-se, chegou mesmo à retaguarda do inimigo, e lhe tomou 20 bois, 2.500 rações de pão, com 2 pipas de vinho, que conduziu a Leiria, onde se achava naquele dia o Exército português. É digno de notar que o dito Oficial, recolhendo-se com a presa, se portou com tanto sossego de espírito e sangue frio, que em distância somente de duas léguas de uma Divisão francesa de 5.000 homens, e 8 léguas do nosso Exército, fez descansar os soldados, que fizeram seus ranchos, comeram e deram descanso e penso aos cavalos.
No dia 17 o Exército inglês unido com 2.000 portugueses atacou os franceses fortificados no vantajoso posto da Roliça, entre a Lourinhã e Óbidos, e não obstante a forte posição por eles escolhida, foram deslocados à força viva das alturas daquele sítio, defendidas por artilharia, e postos em fugida, perdendo duas peças de artilharia, e perto de 2.000 homens entre mortos, feridos e prisioneiros, compreendidos nestes muitos Oficiais.
No dia 21, estando o Exército combinado entre a Lourinhã e Torres Vedras, no sítio do Vimeiro, foi atacado pelo inimigo, que supunha surpreendê-lo. Foi o ataque recebido com tanta valentia pelo Exército combinado, que o resultado foi perder o inimigo 3.500 homens, mortos, feridos e aprisionados, sendo do número dos últimos 2 Generais, e dos feridos o General Delaborde, 20 peças de artilharia, que ficaram em nosso poder, restando-lhe somente duas. A tropa portuguesa que entrou na acção portou-se com o maior extremo de valor, concorrendo muito para a vitória a Cavalaria, que por duas vezes rompeu a linha do inimigo, o qual depois de fugir vergonhosamente até Torres Vedras, pediu armistício para capitular.
Asseguram os prisioneiros franceses que o General Loison fora morto no conflito. É certo que não foi visto no campo da batalha, donde provavelmente seria retirado pelos franceses, segundo seu costume, para haver mesmo esta dúvida, e não dar aos portugueses este prazer tão justificado.



[Fonte: Minerva Lusitana, n.º 27, 27 de Agosto de 1808].

Notícia publicada na Minerva Lusitana (24 de Agosto de 1808)



[Figueira], 24 de Agosto


Avistou-se hoje deste porto um grande número de navios ingleses, que se presumiu ser parte da numerosa frota que havia aqui aportado há dias; mas esta noite chega uma pessoa fidedigna vinda do Porto, onde havia desembarcado uma fragata inglesa, vinda de Londres, a qual afirma vir uma nova expedição de 19.000 homens, que é muito de crer [que] seja a que hoje avistámos, e a quem a dita fragata comboiava, e que o Exército inglês destinado para Portugal montava a 60.000 homens.


[Fonte: Minerva Lusitana, n.º 27, 27 de Agosto de 1808].

The oven on fire - or Boneys last Batch entirly spoiled!!!, caricatura de Isaac Cruikshank (24 Agosto de 1808)




O forno em chamas - ou a última fornada de Boney completamente estragada!
Caricatura de Isaac Cruikshank, publicada a 24 Agosto de 1808.


A fim de representar as dificuldades que Napoleão começou a sentir perante o alastramento das revoltas anti-francesas na Península Ibérica, Isaac Cruikshank concebeu uma espécie de sequela duma das caricaturas mais conhecidas de James Gillray, na qual o Imperador era representado como um padeiro a fazer fornadas de monarcas*. Contudo, dois anos e meio depois da primeira ter sido executada, o cenário alterou-se. Napoleão aparece agora vergado, de braços no ar, surpreendido pelas labaredas que irromperam do forno da Espanha e Portugal (este último nome mal se deixa ver devido ao fogo). Da boca do forno, também tapada pelas chamas, surge a expressão Um povo unido jamais pode ser conquistado, enquanto nas labaredas aparecem outras inscrições, a saber (no sentido dos ponteiros do relógio): Legiões das Astúrias, Exército de Portugal, Biscaia, Exército catalão, Exército da Galiza, Exército andaluz, Exército de Castela Velha e Nova, Exército e frota britânicaExército da Extremadura, Leão, Exército de ValenciaMúrciaExército de Granada. Perante estas chamas, Napoleão largou a pá com a qual queria meter o seu irmão José Bonaparte dentro do forno. Desequilibrado e prestes a cair como já caiu o seu ceptro, José grita ao seu irmão: "Oh Nap, Nap! O que é isto! Em vez de me tornardes um Rei, apenas me enganastes"**. Significativamente, também já caída sobre o chão debaixo de José, encontra-se uma pá em cujo cabo está inscrito o nome do General francês DupontNapoleão, que usa um avental de padeiro por cima do seu uniforme militar, bem como um chapéu bicorne exageradamente grande, exclama: "Raios, serei dominado por estas malditas chamas patrióticas; pensava que não restava uma única, mas acho que há ali mais chamas do que as que podem ser extintas por todos os meios da França". 
Na direita da imagem aparece Tayllerand, representado como assistente de padeiro, de mangas arregaçadas e avental. Observando o cenário, declara ironicamente a Napoleão: "Ai Ai! Eu disse-vos que queimaríeis os dedos nessa fornada de bolo de gengibre. Mas não tenho nada a ver com isso. Sou apenas um carcereiro, por isso toda a minha glória chegou ao fim". Tayllerand está encostado a um móvel que ostenta a inscrição Prisão do Estado, sobre o qual aparecem as cabeças de Carlos IV, da sua esposa, de Fernando VII e seus irmãos***

Outras digitalizações:

British Museum (a cores)

British Museum (a preto e branco)

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Notas: 

* Aludimos à caricatura intitulada Tiddy-Doll, the great French-Gingerbread-Baker; drawing out a new Batch of Kings, publicada originalmente a 28 de Janeiro de 1806:



** " [...] Instead of a King you've only made me a Dup - ont", no original. Trata-se de um trocadilho difícil de traduzir, entre o nome do General Dupont (que fora derrotado na batalha de Bailén), e a palavra inglesa dupe, sinónimo dos termos "ingénuo", "crédulo", "incauto" (e por extensão, "otário", "tolo", "parvo"), e dos verbos "enganar, ludibriar, lograr, iludir", sendo que a expressão be the dupe of someone significa "deixar-se enganar por alguém", enquanto que make a dupe of someone, tem o sentido de "trapacear ou enganar alguém".

*** O autor da caricatura alude ao facto de Fernando VII, o seu irmão D. Carlos, o seu tio D. António e diversas outras personalidades da alta nobreza e do alto clero espanhol terem ido viver, depois das chamadas abdicações de Bayona (e durante os 5 anos seguintes), para o Château de Valençay, propriedade do próprio Tayllerand. (Carlos IV e a sua esposa, por outro lado, foram primeiro para Compiègne, depois para Marselha, e finalmente para a Itália, acabando ambos por morrer em Roma, com poucos dias de diferença, em Janeiro de 1819). 

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Carta do Almirante Cotton ao General Dalrymple, manifestando a sua desaprovação sobre os artigos do armistício de 22 de Agosto (23 de Agosto de 1808)




H.M.S. Hibernia, defronte de Cascais, 23 de Agosto de 1808 


Senhor: 

Havendo os franceses evacuado Setúbal, segundo a informação que recebi esta manhã; e esperando-se ali a cada hora o exército português, que sobe certamente a 4 mil ou a 5 mil homens, me faz sugerir a conveniência de destacar metade ou mais das tropas que estão na Maceira [=Porto Novo], debaixo do comando do Tenente General Moore, para as desembarcar em ou junto a Setúbal, que, com a assistência dos leais portugueses, se pode certamente tomar posse da margem esquerda do Tejo e prevenir efectivamente a retirada do Exército francês para Elvas. 
Eu lembro isto na suposição de que nunca se poderá concordar nos artigos preliminares que li ontem, de maneira que façam um tratado definitivo tanto a favor do exército francês, batido duas vezes, e 30.000 homens de tropa inglesa em Portugal. Sem grande alteração nestes artigos, jamais poderei aceder a tal tratado. 
Tenho a honra de ser, etc. 

Cotton

[Fonte: Correio Braziliense, Abril de 1809, p. 310; Simão José da Luz Soriano, História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal. Compreendendo a História Diplomática, Militar e Política deste Reino, desde 1777 até 1834 – Segunda Época - Tomo V – Parte I, Lisboa, Imprensa Nacional, 1893, pp. 109-110].

Notícia publicada na Minerva Lusitana (23 de Agosto de 1808)


Figueira, 23 de Agosto


Hoje começou a desembarcar o Exército comandado pelo General John Moore, de que já haviam em terra mais de 3.000 homens, quando o dito General recebeu cartas do primeiro Exército [o de Wellesley], em consequência das quais fez logo suspender o desembarque, e voltar para bordo quantas tropas haviam saído.


[Fonte: Minerva Lusitana, n.º 27, 27 de Agosto de 1808].

Extracto duma carta de um Ajudante de Campo do Exército português (23 de Agosto de 1808)


Lourinhã, 23 de Agosto.

O General Kellermann, acompanhado de dois esquadrões de Cavalaria, chegou ontem ao Vimeiro, Quartel-General do Exército inglês, para tratar com o General em Chefe uma capitulação; mas a negociação foi-lhe deferida para hoje, e o Excelentíssimo Bernardim Freire agora partiu para o dito Quartel-General para efectuar-se a pedida capitulação.
Esta deliberação do General Junot foi tomada depois da grande acção que houve no dia 21 do corrente entre o seu Exército e o Exército combinado; e não obstante todas as instruções militares que o General Junot aprendeu do Grande Napoleão, com que queria ensinar os portugueses a vencer, mas de cujas lições não quis agora aproveitar-se, ou de que já estaria esquecido; e não obstante, além disto aparecer de surpresa ao Exército inglês, foi batido, perdendo seguramente acima de 2.000 homens entre mortos e feridos, 2 Generais prisioneiros, que se diz serem Laborde e Brenier; e não se sabe com certeza se Loison foi morto; perderam 22 peças com as suas competentes munições. 
Nas duas acções que tem havido, calcula-se a perda dos franceses 4.000 homens, muito considerável sem dúvida para um Exército de 11.000 homens.
Os grandes guerreiros que têm aterrado a Europa estão tão possuídos do medo, que já fogem como galgos. O forte do Exército estava a 3 quartos de légua do Exército inglês para cair sobre a retaguarda do inimigo, o que não foi preciso; porque a boa posição que tomou o nosso General os intimou de modo que não ousaram dar ocasião a serem atacados.

[Fonte: Minerva Lusitana, n.º 27, 27 de Agosto de 1808].

Notícia publicada na Minerva Lusitana (23 de Agosto de 1808)


Coimbra, 23 de Agosto 


Consta-nos que o Exército inglês que começara a desembarcar Sexta-feira passada na Figueira, tornou a embarcar-se, por avisos que para isso recebeu; e vai aportar noutro ponto da costa, mais ao sul.

Carta do General Dalrymple ao General Bernardim Freire (23 de Agosto de 1808)



Quartel-General do Ramalhal, 23 de Agosto de 1808.


Senhor:

Tenho a honra de anexar, para conhecimento de Vossa Excelência, uma cópia da suspensão de armas, acordada e assinada ontem por Sir Arthur Wellesley e pelo General Kellermann
Talvez seja necessário explicar a Vossa Excelência que o que se menciona sobre o Exército português é relativo a alguns corpos na parte do país mencionada no artigo [4.º]; mas que o exército que serve debaixo do comando imediato de Vossa Excelência, unido às tropas britânicas, está compreendido na mesma categoria destas.
Tenho a honra de ser, Senhor, o vosso mais obediente e humilde servidor.

Hew Dalrymple

[Fonte: Copy of the Proceedings upon the Inquiry relative to the Armistice and Convention, &c. made and conclued in Portugal, in August 1808, between The Commanders of the British and French Armies, London, House of Commons Papers, 31st Jannuary 1809, p. 201 (doc. 95); Memoir, written by General Sir Hew Dalrymple, Bart., of his proceedings as connected with the affairs of Spain, and the commencement of the Peninsular War, London, Thomas and William Bone Strand., 1830, p. 307. Existe uma outra cópia do texto original em inglês, bem como a respectiva tradução em português, in Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, p. 199(doc. 32)]. Outra tradução desta carta encontra-se disponível na obra de Julio Firmino Judice Biker, Supplemento á Collecção dos Tratados, Convenções, Contratos e Actos Públicos celebrados entre a Corôa de Portugal e as mais Potências desde 1640 - Tomo XVI, Lisboa, Imprensa Nacional, 1878, pp. 75-76]. 



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Nota:

Apesar de datada de 23 de Agosto, esta carta foi na verdade escrita a 24 de Agosto, tendo a data sido alterada em condescendência a Bernardim Freire de Andrade, como viria a referir o Major Aires Pinto de Sousa em carta do próprio dia 24 de Agosto


Carta oficial do General Wellesley ao Capitão Pulteney Malcolm, do navio Donegal (23 de Agosto de 1808)




Ramalhal, 23 de Agosto de 1808.



Tenho a honra de vos informar que um acordo para suspensão de hostilidades entre o exército britânico e o francês, preliminar aos preparativos duma Convenção para a evacuação de Portugal por parte do exército francês, foi assinado na noite passada segundo ordens do Comandante em Chefe [Dalrymple].
O Comandante em Chefe deseja que vos informe que ele recebeu ordens para enviar para a Inglaterra todos os transportes de cavalos que agora se encontram em Portugal, com a excepção daqueles que trouxeram o regimento n.º 18 de dragões ligeiros, deduzindo ele que recebereis ordens do Almirante [Cotton] para enviá-los para a Inglaterra sem demora. Ele deseja ainda que todos os outros transportes que estão no rio Mondego, no Porto, ou na costa da Maceira, sejam levados para a boca do Tejo imediatamente; e pediu-me para requerer que dareis ordens para que eles partam para aquele destino. 
Tenho a honra de ser, 


Arthur Wellesley

Carta privada do General Wellesley ao Capitão Pulteney Malcolm, do navio Donegal (23 de Agosto de 1808)



Ramalhal, 23 de Agosto de 1808.


Meu caro Malcolm:

Torrens escreveu-vos na noite de 21 para vos informar da completa vitória que obtivemos, tendo sido uma das suas consequências uma suspensão de armas entre os franceses e nós, preliminar à sua evacuação do país, cujas condições assinei na noite passada.
Apesar de ter assinado estas condições, peço-vos para não acreditardes que aprovei inteiramente a forma como este instrumento está escrito.
Recebereis hoje uma carta pública minha sobre este assunto, na qual vos requeiro a levardes toda a vossa frota de transportes até à boca do Tejo, exceptuando os navios que transportaram os cavalos, que devem partir para a Inglaterra.
Acreditai em mim,

Arthur Wellesley

P.S.: Seria-nos muito conveniente que comunicásseis com o Capitão Bligh quando passardes por ele. Ficarei muito obrigado a vós se tiverdes outro barril do meu vinho engarrafado e posto em caixas, como o último, e deixar um deles com Bligh para mim. 


Memorando do General Wellesley ao General em Chefe Dalrymple (23 de Agosto de 1808)



I. Seria muito desejável instruir o Coronel Murray hoje bem cedo, para instar ao Almirante [Charles Cotton] a comunicar-se com o Almirante russo, a fim de que este último seja informado que, qualquer que seja o resultado das negociações entre Sir Hew [Dalrymple] e o Duque de Abrantes, a esquadra russa não deverá ser incomodada, se eles se comportarem como deve ser num porto neutro, e se não tomarem parte na contenda. 

II. Se o Almirante [Cotton] consentir nesta disposição a favor dos russos, e se estes ficarem satisfeitos com este ponto, o Comandante em Chefe francês deverá ser pressionado sobre os seguintes pontos na negociação para a Convenção: 

1.º O forte de Peniche será evacuado em dois dias; o forte de Elvas e de Lippe em quatro dias; o forte de Almeida em cinco dias; o exército francês atravessará o Tejo e evacuará Lisboa e todos os fortes do Tejo em quatro dias a partir da assinatura da Convenção, e preparar-se-á para embarcar em sete dias, ou logo depois que o Comandante em Chefe britânico o possa indicar. 
Entretanto, o exército britânico poderá usar o porto de Lisboa e navegar no Tejo. 

2.º Determinar-se-á o modo de pagamento do contrato dos transportes. 

3.º Determinar-se-á o porto para desembarcar os franceses; Rochefort ou Lorient serão os melhores, por estarem a grande distância da Espanha e da fronteira austríaca. 

4.º Será requerida uma garantia para os transportes que forem aos portos indicados, e para o regresso dos mesmos; pois cinquenta deles enviados com o exército [francês] do Egipto ficaram detidos na França. 

5.º Planear-se-á algum modo para fazer com que os Generais franceses restituam a prata das igrejas que tenham roubado. 

6.º Determinar-se-á uma troca de prisioneiros. 

7.º Não haverão transportes para os cavalos, e deve-se permitir que os franceses deixem aqui comissários para vender os cavalos ou para contratar embarcações para transportá-los para a França, mas certamente não a própria cavalaria. 

Ramalhal, 23 de Agosto de 1808. 


Diário do General John Moore (23 de Agosto de 1808)


A bordo da [chalupa canhoneira] Brazen, no alto mar, a 23 de Agosto.



Ancorámos o [navio] Audacious na baía do Mondego na tarde do dia 20, mas poucas foram as embarcações do comboio que conseguiram chegar naquela noite ou no dia seguinte, devido à calmaria e aos ventos fracos. Comuniquei com o Capitão Malcolm do [navio] Donegal, que estava aí estacionado como responsável pelos transportes. Malcolm não recebia informações de Sir Arthur há seis dias, mas presumia que ele tinha avançado até perto de Óbidos. Recebi uma carta de Sir Harry Burrard, que incluía correspondência que ele tinha trocado com Sir Arthur Wellesley. Burrard não tinha ainda visto Sir Arthur, cuja carta tinha sido remetida de São Martinho, no dia 19. Por outro lado, a carta de Sir Harry declarava a sua apreensão por Sir Arthur, que, segundo ele pensava, tinha avançado demais, e como a intenção de Sir Arthur, declarada na sua carta, era marchar para Lisboa por Mafra, o General [Harry Burrard] ordenou-me para desembarcar no Mondego e dirigir-me para Leiria, de forma a que, se sofrer algum revés, Sir Arthur possa ter algum recurso. 
Desembarquei no dia 21, indiquei o terreno onde as tropas se abarracariam quando desembarcassem, pois não queria usar tendas, e, depois de fazer algumas disposições, regressei a bordo. A dificuldade de um desembarque no Mondego é muito grande: somente pode ser feito em certos períodos da maré, e nunca se o tempo não estiver calmo. A barra à entrada do rio é muito má. Até então tinham chegado poucos dos navios [do comboio que transportava o corpo de John Moore], e nenhum trazia o Comissário Geral ou o Estado-Maior do exército. Durante a noite chegou uma parte considerável dos navios, e fizeram-se disposições para o desembarque, no dia seguinte, da cavalaria, da artilharia e da primeira divisão da infantaria. Quando estive em terra vi um Capitão do regimento n.º 45, que tinha deixado o exército de Sir Arthur no dia 18. Este estava então a algumas milhas adiante de Óbidos. No dia anterior, tinha tido um combate com um corpo do inimigo de cerca de 8.000 homens, que se tinham disposto na ladeira no lado oposto duma ravina sobre a qual passa a estrada. Forçámos-los a abandonar aquela posição, mas não sem a perda de 400 ou 600 homens mortos e feridos. Entre os primeiros estavam os Tenentes-Coronéis Lake do Regimento n.º 29 e Stuart do 9.º Regimento de Infantaria. 
O desembarque das tropas, tal como se tinha disposto no dia anterior, começou às oito horas do dia 22, e, depois de ter dado as minhas ordens aos oficiais Generais em relação às disposições que iriam ser levadas a cabo nos próximos dias, eu próprio desembarquei, quando me chegou uma carta, através da Brazen, da parte de Sir Harry Burrard, remetida a poucas milhas a sul de Peniche, ao entardecer do dia 20. Ele tinha tido uma entrevista nessa tarde com Sir Arthur Wellesley, cujo exército estava postado a poucas milhas daí. Junot, com toda a sua força, tinha avançado desde Lisboa, e estava em Torres Vedras. Sir Harry Burrard dizia que julgava que era importante que eu me reunisse imediatamente ali consigo, juntamente com as tropas debaixo do meu comando; e que ele devia continuar no terreno então ocupado por Sir Arthur até que eu me juntasse a ele.
Ele queria que eu partisse imediatamente com as tropas que não tinham desembarcado ainda, e que deixasse alguns oficiais Generais para reembarcar o resto e prosseguir a viagem. Foram imediatamente dadas ordens para parar o desembarque, e, apesar da maior parte da infantaria, muita artilharia, e para cima de 150 cavalos estarem então, por volta da uma da tarde, em terra, ainda assim toda a artilharia e toda a infantaria reembarcou, e uma parte dos cavalos e da frota fez-se à vela antes de anoitecer. O Capitão Malcolm, cujo empenho foi bastante grande, garantiu-me que os cavalos deveriam reembarcar na primeira maré da manhã. Como Sir Harry Burrard declarava na sua carta a vontade de que eu me juntasse consigo sem demora, passei a esta embarcação, a qual me tinha trazido a sua carta, e deixei o General Hope no Audacious para trazer o comboio. O vento, contudo, esteve contra durante toda a noite, e pouco avançámos. Vemos o comboio à distância.

Horrid Visions or Nappy Napp'd at Last, caricatura de Thomas Rowlandson (23 de Agosto de 1808)






Visões horríveis ou Napoleão apanhado finalmente desprevenido. 
Caricatura gravada por Thomas Rowlandson, segundo desenho de George Moutard Woodward, publicada a 23 de Agosto de 1808.



No centro da caricatura aparece Napoleão com o cabelo eriçado, fustigado pelos trovões britânicos e ameaçado por todos os lados. Espantado, exclama com preocupação: O que é tudo isto que vejo e ouço? Atrás de mim o trovão britânico e um furacão espanhol! Diante de mim a Águia austríaca saindo da sua gaiola, e o urso do norte despertando da sua letargia! Ao fundo está uma nuvem de males! E escuto os sapos coaxando nos pântanos holandeses. O que será de mim?




Pormenor representando o Rei José Bonaparte apanhado no meio do furacão espanhol.




Outra digitalização:




segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Carta do Bispo e Presidente da Junta Suprema do Porto ao Almirante Séniavin, comandante da esquadra russa ancorada no Tejo (22 de Agosto de 1808)



A Junta do Supremo Governo instituído nesta cidade do Porto, à qual se têm unido e subordinado as províncias do norte de Portugal para o fim da restauração do mesmo reino, e restituição dele ao seu legítimo Soberano, o Príncipe do Brasil, tendo reintegrado as suas antigas alianças com o reino da Galiza, e com a sua fidelíssima aliada a Grã-Bretanha, estimaria muito poder renovar na Real presença do Imperador de todas as Rússias o Tratado de aliança ultimamente celebrado entre a Corte de Petersburgo e Sua Majestade Fidelíssima. Mas não permitindo o aperto do tempo nem a grande distância, que o actual Governo de Portugal dirija directamente a Sua Majestade Imperial os seus respeitosos ofícios, toma a deliberação de representar ao Ilustríssimo e Excelentíssimo Almirante da esquadra russiana [sic] fundeada no porto de Lisboa os sinceros desejos que tem de conservar a mesma inteligência e boa harmonia que entre as duas Corôas havia no tempo da partida de Sua Alteza Real para os seus Estados do Brasil.
Porto, 22 de Agosto de 1808.