terça-feira, 23 de agosto de 2011

Carta oficial do General Wellesley ao Capitão Pulteney Malcolm, do navio Donegal (23 de Agosto de 1808)




Ramalhal, 23 de Agosto de 1808.



Tenho a honra de vos informar que um acordo para suspensão de hostilidades entre o exército britânico e o francês, preliminar aos preparativos duma Convenção para a evacuação de Portugal por parte do exército francês, foi assinado na noite passada segundo ordens do Comandante em Chefe [Dalrymple].
O Comandante em Chefe deseja que vos informe que ele recebeu ordens para enviar para a Inglaterra todos os transportes de cavalos que agora se encontram em Portugal, com a excepção daqueles que trouxeram o regimento n.º 18 de dragões ligeiros, deduzindo ele que recebereis ordens do Almirante [Cotton] para enviá-los para a Inglaterra sem demora. Ele deseja ainda que todos os outros transportes que estão no rio Mondego, no Porto, ou na costa da Maceira, sejam levados para a boca do Tejo imediatamente; e pediu-me para requerer que dareis ordens para que eles partam para aquele destino. 
Tenho a honra de ser, 


Arthur Wellesley

Carta privada do General Wellesley ao Capitão Pulteney Malcolm, do navio Donegal (23 de Agosto de 1808)



Ramalhal, 23 de Agosto de 1808.


Meu caro Malcolm:

Torrens escreveu-vos na noite de 21 para vos informar da completa vitória que obtivemos, tendo sido uma das suas consequências uma suspensão de armas entre os franceses e nós, preliminar à sua evacuação do país, cujas condições assinei na noite passada.
Apesar de ter assinado estas condições, peço-vos para não acreditardes que aprovei inteiramente a forma como este instrumento está escrito.
Recebereis hoje uma carta pública minha sobre este assunto, na qual vos requeiro a levardes toda a vossa frota de transportes até à boca do Tejo, exceptuando os navios que transportaram os cavalos, que devem partir para a Inglaterra.
Acreditai em mim,

Arthur Wellesley

P.S.: Seria-nos muito conveniente que comunicásseis com o Capitão Bligh quando passardes por ele. Ficarei muito obrigado a vós se tiverdes outro barril do meu vinho engarrafado e posto em caixas, como o último, e deixar um deles com Bligh para mim. 


Memorando do General Wellesley ao General em Chefe Dalrymple (23 de Agosto de 1808)



I. Seria muito desejável instruir o Coronel Murray hoje bem cedo, para instar ao Almirante [Charles Cotton] a comunicar-se com o Almirante russo, a fim de que este último seja informado que, qualquer que seja o resultado das negociações entre Sir Hew [Dalrymple] e o Duque de Abrantes, a esquadra russa não deverá ser incomodada, se eles se comportarem como deve ser num porto neutro, e se não tomarem parte na contenda. 

II. Se o Almirante [Cotton] consentir nesta disposição a favor dos russos, e se estes ficarem satisfeitos com este ponto, o Comandante em Chefe francês deverá ser pressionado sobre os seguintes pontos na negociação para a Convenção: 

1.º O forte de Peniche será evacuado em dois dias; o forte de Elvas e de Lippe em quatro dias; o forte de Almeida em cinco dias; o exército francês atravessará o Tejo e evacuará Lisboa e todos os fortes do Tejo em quatro dias a partir da assinatura da Convenção, e preparar-se-á para embarcar em sete dias, ou logo depois que o Comandante em Chefe britânico o possa indicar. 
Entretanto, o exército britânico poderá usar o porto de Lisboa e navegar no Tejo. 

2.º Determinar-se-á o modo de pagamento do contrato dos transportes. 

3.º Determinar-se-á o porto para desembarcar os franceses; Rochefort ou Lorient serão os melhores, por estarem a grande distância da Espanha e da fronteira austríaca. 

4.º Será requerida uma garantia para os transportes que forem aos portos indicados, e para o regresso dos mesmos; pois cinquenta deles enviados com o exército [francês] do Egipto ficaram detidos na França. 

5.º Planear-se-á algum modo para fazer com que os Generais franceses restituam a prata das igrejas que tenham roubado. 

6.º Determinar-se-á uma troca de prisioneiros. 

7.º Não haverão transportes para os cavalos, e deve-se permitir que os franceses deixem aqui comissários para vender os cavalos ou para contratar embarcações para transportá-los para a França, mas certamente não a própria cavalaria. 

Ramalhal, 23 de Agosto de 1808. 


Diário do General John Moore (23 de Agosto de 1808)


A bordo da [chalupa canhoneira] Brazen, no alto mar, a 23 de Agosto.



Ancorámos o [navio] Audacious na baía do Mondego na tarde do dia 20, mas poucas foram as embarcações do comboio que conseguiram chegar naquela noite ou no dia seguinte, devido à calmaria e aos ventos fracos. Comuniquei com o Capitão Malcolm do [navio] Donegal, que estava aí estacionado como responsável pelos transportes. Malcolm não recebia informações de Sir Arthur há seis dias, mas presumia que ele tinha avançado até perto de Óbidos. Recebi uma carta de Sir Harry Burrard, que incluía correspondência que ele tinha trocado com Sir Arthur Wellesley. Burrard não tinha ainda visto Sir Arthur, cuja carta tinha sido remetida de São Martinho, no dia 19. Por outro lado, a carta de Sir Harry declarava a sua apreensão por Sir Arthur, que, segundo ele pensava, tinha avançado demais, e como a intenção de Sir Arthur, declarada na sua carta, era marchar para Lisboa por Mafra, o General [Harry Burrard] ordenou-me para desembarcar no Mondego e dirigir-me para Leiria, de forma a que, se sofrer algum revés, Sir Arthur possa ter algum recurso. 
Desembarquei no dia 21, indiquei o terreno onde as tropas se abarracariam quando desembarcassem, pois não queria usar tendas, e, depois de fazer algumas disposições, regressei a bordo. A dificuldade de um desembarque no Mondego é muito grande: somente pode ser feito em certos períodos da maré, e nunca se o tempo não estiver calmo. A barra à entrada do rio é muito má. Até então tinham chegado poucos dos navios [do comboio que transportava o corpo de John Moore], e nenhum trazia o Comissário Geral ou o Estado-Maior do exército. Durante a noite chegou uma parte considerável dos navios, e fizeram-se disposições para o desembarque, no dia seguinte, da cavalaria, da artilharia e da primeira divisão da infantaria. Quando estive em terra vi um Capitão do regimento n.º 45, que tinha deixado o exército de Sir Arthur no dia 18. Este estava então a algumas milhas adiante de Óbidos. No dia anterior, tinha tido um combate com um corpo do inimigo de cerca de 8.000 homens, que se tinham disposto na ladeira no lado oposto duma ravina sobre a qual passa a estrada. Forçámos-los a abandonar aquela posição, mas não sem a perda de 400 ou 600 homens mortos e feridos. Entre os primeiros estavam os Tenentes-Coronéis Lake do Regimento n.º 29 e Stuart do 9.º Regimento de Infantaria. 
O desembarque das tropas, tal como se tinha disposto no dia anterior, começou às oito horas do dia 22, e, depois de ter dado as minhas ordens aos oficiais Generais em relação às disposições que iriam ser levadas a cabo nos próximos dias, eu próprio desembarquei, quando me chegou uma carta, através da Brazen, da parte de Sir Harry Burrard, remetida a poucas milhas a sul de Peniche, ao entardecer do dia 20. Ele tinha tido uma entrevista nessa tarde com Sir Arthur Wellesley, cujo exército estava postado a poucas milhas daí. Junot, com toda a sua força, tinha avançado desde Lisboa, e estava em Torres Vedras. Sir Harry Burrard dizia que julgava que era importante que eu me reunisse imediatamente ali consigo, juntamente com as tropas debaixo do meu comando; e que ele devia continuar no terreno então ocupado por Sir Arthur até que eu me juntasse a ele.
Ele queria que eu partisse imediatamente com as tropas que não tinham desembarcado ainda, e que deixasse alguns oficiais Generais para reembarcar o resto e prosseguir a viagem. Foram imediatamente dadas ordens para parar o desembarque, e, apesar da maior parte da infantaria, muita artilharia, e para cima de 150 cavalos estarem então, por volta da uma da tarde, em terra, ainda assim toda a artilharia e toda a infantaria reembarcou, e uma parte dos cavalos e da frota fez-se à vela antes de anoitecer. O Capitão Malcolm, cujo empenho foi bastante grande, garantiu-me que os cavalos deveriam reembarcar na primeira maré da manhã. Como Sir Harry Burrard declarava na sua carta a vontade de que eu me juntasse consigo sem demora, passei a esta embarcação, a qual me tinha trazido a sua carta, e deixei o General Hope no Audacious para trazer o comboio. O vento, contudo, esteve contra durante toda a noite, e pouco avançámos. Vemos o comboio à distância.

Horrid Visions or Nappy Napp'd at Last, caricatura de Thomas Rowlandson (23 de Agosto de 1808)






Visões horríveis ou Napoleão apanhado finalmente desprevenido. 
Caricatura gravada por Thomas Rowlandson, segundo desenho de George Moutard Woodward, publicada a 23 de Agosto de 1808.



No centro da caricatura aparece Napoleão com o cabelo eriçado, fustigado pelos trovões britânicos e ameaçado por todos os lados. Espantado, exclama com preocupação: O que é tudo isto que vejo e ouço? Atrás de mim o trovão britânico e um furacão espanhol! Diante de mim a Águia austríaca saindo da sua gaiola, e o urso do norte despertando da sua letargia! Ao fundo está uma nuvem de males! E escuto os sapos coaxando nos pântanos holandeses. O que será de mim?




Pormenor representando o Rei José Bonaparte apanhado no meio do furacão espanhol.




Outra digitalização:




segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Carta do Bispo e Presidente da Junta Suprema do Porto ao Almirante Séniavin, comandante da esquadra russa ancorada no Tejo (22 de Agosto de 1808)



A Junta do Supremo Governo instituído nesta cidade do Porto, à qual se têm unido e subordinado as províncias do norte de Portugal para o fim da restauração do mesmo reino, e restituição dele ao seu legítimo Soberano, o Príncipe do Brasil, tendo reintegrado as suas antigas alianças com o reino da Galiza, e com a sua fidelíssima aliada a Grã-Bretanha, estimaria muito poder renovar na Real presença do Imperador de todas as Rússias o Tratado de aliança ultimamente celebrado entre a Corte de Petersburgo e Sua Majestade Fidelíssima. Mas não permitindo o aperto do tempo nem a grande distância, que o actual Governo de Portugal dirija directamente a Sua Majestade Imperial os seus respeitosos ofícios, toma a deliberação de representar ao Ilustríssimo e Excelentíssimo Almirante da esquadra russiana [sic] fundeada no porto de Lisboa os sinceros desejos que tem de conservar a mesma inteligência e boa harmonia que entre as duas Corôas havia no tempo da partida de Sua Alteza Real para os seus Estados do Brasil.
Porto, 22 de Agosto de 1808.


Carta secreta do Brigadeiro-General Frederick von Decken ao General Hew Dalrymple, Comandante do Exército britânico em Portugal (22 de Agosto de 1808)


Porto, 22 de Agosto de 1808


Senhor:

Sua Excelência terá recebido a carta secreta do passado dia 18, que tive a honra de remeter-vos através do Brigadeiro-General Stewart, sobre as comunicações de Sua Excelência o Bispo do Porto relativas à sua renúncia do Governo nas mãos da Regência estabelecida pelo Príncipe Regente. Para além do que tive a honra de referir sobre este assunto, peço licença para acrescentar que Sua Excelência o Bispo quis hoje que eu acautelasse Vossa Excelência, no caso que possa ser desejável que ele mantenha o Governo nas suas mãos até que a vontade do Príncipe Regente seja conhecida, que ele não abandonará o Porto, e o assento do Governo deverá necessariamente, em tal caso, continuar nesta cidade. Sua Excelência o Bispo pensa ser seu dever informar-vos desta circunstância assim que for possível, pois prevê que a cidade de Lisboa será preferida para o assento do Governo logo que o Exército britânico a tenha em seu poder. 
Se o assento do Governo temporário permanecer no Porto, o melhor método a adoptar, em relação às outras províncias de Portugal, parece ser que enviarão deputados para tal lugar, para os propósitos de tratar os negócios relativos às suas próprias províncias; da mesma maneira como as províncias de Entre-Douro e Trás-os-Montes enviam agora os seus representantes.
Uma das principais razões pelas quais Sua Excelência o Bispo pode apenas aceder em continuar à cabeça do Governo, com a condição deste permanecer no Porto, é porque ele está convencido que os habitantes da sua cidade não lhe permitirão que a abandone, a não ser por ordem do Príncipe Regente. 
Também poder ser aconselhável manter o assento do Governo no Porto, porque supõe-se que Lisboa estará num estado de grande confusão nos dois primeiros meses depois dos franceses a abandonarem.

Carta do Almirante Cotton à Junta de Sines (22 de Agosto de 1808)


A bordo da nau de Sua Majestade Britânica a Hibernia, fora da barra do Tejo, 22 de Agosto de 1808.


Meus Senhores:

Tenho a honra de reconhecer o recebimento da sua carta com data de 16 do corrente, pedindo-me que deixasse a fragata Comus para guardar a costa de Sines. O Capitão Smith, Comandante da dita fragata, é despachado agora por mim expressamente para informar a Vossas Excelências das várias causas que motivam a sua retirada por breve tempo daquele serviço, em que tem sido tanto tempo, e tão bem empregado, a principal das quais causas é ajudar efectivamente a bloquear o Tejo e impedir que o comum inimigo já quase reduzido à última extremidade, não escape com os tesouros que tem roubado neste país; para efeito de semelhante serviço, pequenas fragatas, da natureza da Comus, são da primeira utilidade.
Além disso, tenho bem fundadas esperanças que nada tem que temer semelhante à horrível calamidade que Vossas Excelências dizem ter acontecido em Évora, pois que toda a força do inimigo está actualmente dirigida contra o exército britânico ao norte do Tejo.
O Capitão Smith os informará duma gloriosa batalha dada em Roliça entre os franceses e ingleses, auxiliados estes pelos portugueses, aos 17 do corrente, no qual a divisão do General Delaborde ficou totalmente destroçada, como também da derrota do General Junot no dia 21 seguinte. Tenho esperado com ansiosa expectação ouvir que os leais habitantes das vilas e lugares se têm unido aos de Sines e se têm aproximado a Setúbal, aonde entendo que ficam poucos ou nenhuns franceses, e onde está ancorado um navio de guerra para cooperar com os valorosos sujeitos que determinam esforçar-se para manter a sua independência, ou mesmo a sua existência.
Parece-me supérfluo repetir a Vossas Excelências que, para serem bem sucedidos, é preciso que sejam unânimes, nem intimidados por ameaços, nem seduzidos com promessas, e que a cordial e enérgica cooperação de todos os estados [=classes sociais] é necessária para sustentar uma causa tão grande e gloriosa qual é a em que todo o verdadeiro e leal português está actualmente empenhado.
Tenho a honra de ser, etc.

[Fonte: José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal, e da Restauração deste Reino - Tomo V, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, p. 46-47].

Armistício para suspensão das hostilidades entre os Exércitos britânico e francês (22 de Agosto de 1808)



Suspensão de armas concordada entre o Tenente General Sir Arthur Wellesley, da Ordem de Bath, de uma parte, e o General de Divisão Kellermann, Grão Oficial da Legião de Honra, Comendador da Ordem da Coroa de Ferro, Grão-Cruz da Ordem do Leão de Baviera, da outra parte, ambos munidos de poderes dos respectivos Generais dos exércitos francês e inglês. 




Quartel-General do Exército inglês, 22 de Agosto de 1808 


Art. I. A partir desta data haverá uma suspensão de armas entre os Exércitos de Sua Majestade Britânica e de Sua Majestade Imperial e Real, Napoleão I, com o objectivo de negociar-se uma Convenção para a evacuação de Portugal pelo exército francês. 

Art. II. Os Generais em Chefe dos dois Exércitos, bem como o Comandante em Chefe da frota britânica na barra do Tejo, ajustarão um dia para se reunirem naquela parte da costa que julgarem conveniente, para negociar e concluir a dita convenção. 

Art. III. O rio Sizandro formará a linha de demarcação estabelecida entre os dois Exércitos; Torres Vedras não será ocupada por nenhum deles. 

Art. IV. O General em Chefe do Exército inglês responsabilizar-se-á por incluir os exércitos portugueses nesta suspensão de armas, e para eles será estabelecida a linha de demarcação entre Leiria a Tomar. 

Art. V. Concorda-se provisoriamente que o Exército francês não será considerado, em caso algum, como prisioneiro de guerra; e que todos os indivíduos que o compõem serão transportados à França com as suas armas, bagagens e todas as suas propriedades privadas, das quais nada se tirará. 

Art. VI. Nenhum indivíduo, seja português ou duma nação aliada da França, ou francês, será chamado para prestar contas pela sua conduta política; a sua respectiva propriedade será protegida, e ele será livre para se retirar de Portugal dentro dum prazo limitado, com as suas propriedades. 

Ar. VII. Reconhecer-se-á a neutralidade do porto de Lisboa para a frota russa, ou seja, quando o Exército ou a frota inglesa estiveram em posse da cidade e do porto, a referida frota russa não será perturbada durante a sua estadia, nem impedida quando quiser fazer-se à vela, nem perseguida quando sair do porto, senão depois do prazo fixado pelas leis marítimas. 

Art. VIII. Toda a artilharia de calibre francês, bem como os cavalos da cavalaria, serão transportados para a França. 

Art. IX. Esta suspensão de armas não se poderá romper sem um aviso prévio de quarenta e oito horas. 

Feita e concordada entre os Generais acima nomeados, no dia e ano acima mencionados. 

Arthur Wellesley 
Kellermann, General de Divisão 


Artigo adicional. As guarnições das praças ocupadas pelo exército francês serão incluídas na presente Convenção, se não tiverem capitulado antes do dia 25 deste mês. 

Arthur Wellesley 
Kellermann, General de Divisão 


[Fonte: The London Gazette Extraordinary, n.º 16182, 16 September, 1808, pp. 1257-1258. Outras traduções disponíveis in Correio Braziliense, Setembro de 1808, pp. 309-311; José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal, e da Restauração deste Reino - Tomo V, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, pp. 156-163 (inclui o texto original e respectiva tradução); Simão José da Luz Soriano, História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal. Compreendendo a História Diplomática, Militar e Política deste Reino, desde 1777 até 1834 – Segunda Época - Tomo V – Parte I, Lisboa, Imprensa Nacional, 1893, pp. 108-109; Julio Firmino Judice Biker, Suplemento á Collecção dos Tratados, Convenções, Contratos e Actos Publicos celebrados entre a Corôa de Portugal e as mais potências desde 1640 – Tomo XVI, Lisboa, Imprensa Nacional, 1878, pp. 30-35 (também inclui o texto original e respectiva tradução). Texto original em francês in Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 199-200 (doc. 32)].

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Nota: 

Este documento foi escrito originalmente em francês, e em tal língua foi publicado pela primeira vez na Inglaterra, no citado número extraordinário da London Gazette. Apesar de logo de seguida ter sido traduzido para português e publicado também em Londres no Correio Braziliense de Setembro de 1808, este armistício (tal como o texto da Convenção definitiva, erroneamente chamada "de Sintra") tardaria bastante em ser publicado em Portugal, onde, à excepção de poucos indivíduos a quem foi remetida uma cópia (truncada ou integral) dos seus artigos, ignorava-se completamente o seu teor. 
Para uma melhor contextualização deste documento, ver o que escrevemos acerca da primeira versão (não ratificada) da Convenção Definitiva para a evacuação de Portugal pelo Exército francês.

Carta do Comendador Joaquim Pais de Sá, enviado ao Quartel-General britânico, ao General Bernardim Freire de Andrade (22 de Agosto de 1808)



[Vimeiro], 22 de Agosto de 1808; às 5 horas [da tarde].


Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor: 



O General Kellermann, com um Ajudante, está fechado com o General inglês [Dalrymple], tratando, segundo se pensa, da Capitulação. 
O General Wellesley me disse que rogava a Vossa Excelência que fizesse alto junto à Lourinhã, e que não fizesse espécie um Esquadrão de Cavalaria que veio com a bandeira de trégua.
Hoje pela manhã chegou outro Tenente-General mais antigo, chamado Sir Hew Dalrymple.
Sou de Vossa Excelência, etc.

Joaquim Pais

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, p. 198 (doc. 31)].

Carta do General Wellesley a Lord Castlereagh (22 de Agosto de 1808)



Vimeiro, 22 de Agosto de 1808


Meu caro Senhor:

Depois de vos ter escrito na manhã passada, fomos atacados pela totalidade do exército francês, continuando Sir Harry Burrard a bordo do navio, e obtive uma vitória completa. Era impossível que tropas algumas se comportassem melhor do que as nossas; somente tivemos falta de umas poucas centenas mais de cavalaria para aniquilar o exército francês.  
Enviei o meu relatório sobre esta acção a Sir Harry Burrard, que o enviará para a Inglaterra. Vereis aí que mencionei o Coronel Burne do 36.º Regimento de uma maneira muito particular; e garanto-vos que nada me daria tanta satisfação quanto saber que algo se fez por este velho e louvável soldado. O 36.º Regimento é um exemplo para este exército.
Sir Harry desembarcou durante a tarde, já a meio do combate, e quis que eu continuasse as minhas próprias operações; e evitando-se assim algum desapontamento que poderia ter sentido se não tivesse uma oportunidade de concluir uma acção em que tanto estava empenhado, fui amplamente recompensado pela satisfação declarada pelo exército de que a segunda e mais importante vitória tinha sido ganha pelo seu velho General. Também tenho o prazer de acrescentar que isto teve mais efeito do que todos os argumentos que poderia ter usado para convencer o General [Burrard] a marchar, e creio que ele ordenará a marcha amanhã. De facto, se ele não o fizer, seremos envenenados aqui pelo fedor dos mortos e feridos, ou morreremos de fome, pois já se comeu tudo o que havia das redondezas.
Perante o número de franceses mortos sobre o terreno, e o número de prisioneiros e feridos, penso que eles perderam não menos de 3.000 homens. A força que nos atacou era bastante considerável, e provavelmente não inferior a 14.000 homens, incluindo 1.300 dragões e artilharia, e 300 caçadores a cavalo.
Sir Hew Dalrymple chegou na noite passada, e desembarcará esta manhã.
Acreditai em mim, etc., 

Arthur Wellesley


Carta do General Wellesley ao Duque de Richmond, Lord Tenente da Irlanda (22 de agosto de 1808)


Campo do Vimeiro, 22 de Agosto de 1808


Meu caro Duque:

Sir Harry Burrard chegou aqui na noite do dia 20, mas não desembarcou, e, como sou o mais felizardo dos homens, Junot atacou-nos na manhã de ontem com toda a sua força, e nós derrotámo-lo completamente. Vereis o relatório da acção. Os franceses perderam não menos de 3.000 homens.
Desde que vos escrevi pela última vez, vim para aqui para facilitar o desembarque e reunião [do corpo] de Anstruther, o qual decorreu na manhã do dia 20. Durante a tarde chegou [o corpo de] Acland, vindo do Tejo: desembarquei-o imediatamente, e ele reuniu-se a nós antes da acção da manhã de ontem. Contudo, Sir Harry somente desembarcou quando a acção estava quase acabada. 
Apesar de termos, com a reunião de Acland, não menos de 17.000 homens, e entre 6.000 a 7.000 portugueses nas nossas vizinhanças, Sir Harry achou que estes números não eram suficientes para derrotar 12.000 ou 14.000 franceses, determinando-se a esperar pelo corpo de [John] Moore, apesar de tudo o que pude instar sobre o assunto. A acção de ontem teve, contudo, maior efeito que toda a minha eloquência, e creio que ele [= Harry Burrard] marchará amanhã. Se ele me tivesse permitido mover, na tarde de ontem, aquela parte do exército que não foi empregue na manhã, os franceses não iriam parar até que alcançassem Lisboa.
Acreditai em mim, etc.,

Arthur Wellesley


Carta do General Wellesley ao Duque de York (22 de Agosto de 1808)





Vimeiro, 22 de Agosto de 1808



Omiti escrever a Vossa Alteza Real até que tivesse que comunicar algo que merecesse a vossa Real atenção; e espero que a acção que as tropas travaram ontem corresponda a tal descrição.
Escrevi ao Coronel Gordon no dia 18, a partir da Lourinhã, e dei-lhe um relato detalhado das ocorrências até àquela data. No dia 19 marchei para o Vimeiro, de forma a garantir uma melhor protecção ao desembarque da brigada do General Anstruther, que esperava que fosse feita na Maceira [Porto Novo]. O General Brigadeiro Anstruther desembarcou durante aquela tarde e durante a noite de 19 para 20, a cerca de oito milhas a norte da Maceira, tendo reunido-se comigo na manhã do dia 20. A minha intenção era marchar, na manhã de 21, pela estrada de Mafra, à volta da esquerda da posição do inimigo em Torres Vedras e na sua retaguarda; e pretendia que a brigada do General Brigadeiro Acland, que apareceu na costa a meio desse dia, desembarcasse na Maceira durante a tarde, e se juntasse ao exército naquela noite. O General Sir Harry Burrard, contudo, chegou à costa da Maceira na tarde do dia 20, e determinou que o exército devia permanecer no Vimeiro até que fosse reforçado pelo corpo de Sir John Moore, que estava a reembarcar na baía do Mondego.
O desembarque da brigada do General Acland efectuou-se durante a tarde e noite do dia 20, tendo juntando-se ao exército por volta das seis da manhã do dia 21.
Durante a noite de 20 para 21 as minhas patrulhas deram-me informações sobre os movimentos do inimigo; mas como éramos bastante inferiores em cavalaria, as minhas patrulhas não puderam ir muito longe, e naturalmente as suas informações eram muito vagas, e não fundadas em bases muito sólidas. Mas pensei que era provável que, se não atacasse o inimigo, ele iria atacar-me; e preparei-me para o conflito ao amanhecer, posicionando a artilharia de calibre 9 e reforçando a minha direita, por onde esperava o ataque, devido à forma como o inimigo tinha patrulhado o alinhamento naquele ponto  durante os dias 19 e 20. Contudo, ele apareceu, por volta das oito horas da manhã do dia 21, sobre a esquerda, começando-se então uma acção cujo relatório detalhado é dado na cópia inclusa duma carta que escrevi a Sir Harry Burrard sobre este assunto. Incluo igualmente um plano do terreno, que explicará mais claramente a natureza dos diferentes movimentos feitos pelo inimigo e pelas nossas tropas. 
Não posso dizer muito a favor das tropas: a sua bravura e disciplina foram igualmente notáveis; e devo acrescentar que esta foi a única acção onde estive em que tudo se passou tal como foi ordenado, e em que os oficiais encarregados da conduta das tropas não cometeram erro algum. Penso que se a brigada do General Hill e as guardas avançadas tivessem avançado para Torres Vedras, assim que se tornou óbvio que a direita do inimigo seria derrotada pela nossa esquerda, tendo esta aproveitado a sua vantagem, a retirada do inimigo para Torres Vedras seria cortada, e poderíamos estar em Lisboa antes dele; isto, na verdade, se tivesse permanecido algum exército francês em Portugal. Mas Sir Harry Burrard, que já estava neste momento sobre o terreno, continuou a pensar que era mais aconselhável que o exército não saísse do Vimeiro; e o inimigo fez uma boa retirada para Torres Vedras.
Sir Hew Dalrymple chegou esta manhã, e tomou o comando do exército.
Tenho a honra de ser, etc.,

Arthur Wellesley


Extracto duma carta privada dum militar britânico (22 de Agosto de 1808)



Vimeiro, a 22 milhas de Lisboa, 22 de Agosto.


No dia 17 os nossos bravos camaradas forçaram uma passagem [no alto das montanhas] sustentada por 6.000 franceses, façanha esta que somente podia ser conseguida por tropas britânicas. 
As nossas companhias ligeiras carregaram sobre os franceses, provocando-lhes uma fuga desordenada e uma matança medonha. Não podiam passar mais que dois homens ao mesmo tempo. 
Mal tenho tempo de vos informar duma acção mais gloriosa travada ontem neste lugar. Marchámos para este terreno no passado dia 18, descansámos no dia 20, e no dia 21, por volta das nove da manhã, vimos o inimigo avançar sobre as colinas, no número de cerca de 12 a 15.000 homens. Parte do nosso exército moveu-se em direcção ao mar, e a restante manteve-se nas suas linhas, esperando que o inimigo chegasse, o que este fez do modo mais determinado, impelindo os nossos pontos avançados diante dele.
Por fim, a direita do nosso exército carregou sobre o inimigo, tomando-lhe 16 peças de artilharia, carros [de munições], cavalos, etc. O inimigo pensou cortar a nossa esquerda e carregou com cerca de 5.000 homens, que no entanto foram completamente derrotados com grande matança, e perderam o seu segundo no comando*. O Regimento [britânico] n.º 82 perdeu um Oficial, o Tenente Donkin. Fomos completamente vitoriosos. O inimigo perdeu 4.000 homens; as suas mochilas estavam cheias com os seus saques: dinheiro, prata de igrejas, etc.; tenho um grande cálice, retirado de uma das suas bolsas. Há 14 dias que não tiro a roupa. O inimigo envenenou alguns poços no dia 17, e por este motivo alguns homens foram envenenados. Vi um do Regimento n.º 32 e outro do n.º 6 morrendo em agonia depois de beberem desses poços. 
Adeus! Escrevo-vos sobre o terreno.


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Nota:

* Como se depreende da carta de Wellesley a Harry Burrard sobre a batalha do Vimeiro, constava no exército britânico que Thiébault tivesse sido morto, o que não correspondia de todo à verdade.

Carta do Capitão William Warre aos seus pais (22 de Agosto de 1808)




Vimeiro, 22 de Agosto de 1808


Meus amados pais:

Desde que vos escrevi há alguns dias atrás, através do Coronel Brown, tivemos um dia bastante glorioso e memorável para a Inglaterra. Os franceses atacaram-nos ontem na nossa posição com toda a sua força, perto de 15.000 homens. Esperava-se que o ataque fosse de madrugada, e teria-o sido, se eles não se tivessem atrasado devido ao [mau estado dos] caminhos. Repousamos as nossas armas cerca de 2 horas, depois de termos descansado antes da madrugada, como habitualmente, quando chegaram os piquetes do Regimento n.º 40, que faz parte da brigada do General Ferguson, e foram dadas ordens para se prepararem as armas.  
O nosso nobre General, sobre cuja bravura e conduta é quase impossível dar-se uma ideia, foi logo para a montanha, estando os nossos postos a cerca de meia milha de distância duma pequena aldeia, Vimeiro. Conseguimos aí perceber que o inimigo avançava para atacar o centro do exército, e uma forte coluna estava marchando para circundar a colina sobre a qual estava a brigada do General, com Cavalaria e Artilharia; mas como tiveram que dar uma volta considerável, tivemos todo o tempo para nos prepararmos. 
Sir Arthur Wellesley (que foi o comandante, pois Sir Harry Burrard ainda não tinha desembarcado) deu ordens a várias brigadas, e tomou as disposições mais magistrais. O centro do exército, do qual estávamos separados por um vale fundo, foi logo atacado vigorosamente, mas [os franceses] receberam um tal revés, que rapidamente tivemos a glória de ver os franceses a vacilar e depois a afrouxar o seu ataque. Nesta ocasião, a brigada do General Ferguson e a do General Spencer, que comandava esta ala, foi vivamente atacada, mas o nosso nobre General, cerca de meia-hora depois do fogo ter começado, ordenou à sua brigada para carregar, conduzindo-a ele próprio de uma maneira que fica além de todo o louvor (basta também dizer que o Comandante em Chefe [Dalrymple]* considera que ele contribuiu bastante para a vitória mais completa que se poderia ter obtido sem cavalaria para o seguir). Os franceses cederam, e seguiram-se três vivas exclamados por toda a brigada. Uma parte reagrupou-se, mas os Regimentos n.os 36 e 71 carregaram sobre eles com uma impetuosidade irresistível, conduzidos pelo nosso bravo General, e forçaram-os a abandonar as suas armas, das quais foram tomadas quatro [peças de artilharia], juntamente com tantos atrelados. A vitória era agora certa, apesar deles se terem reunido uma vez mais, e foram novamente dispersos pelo Regimento n.º 71. A nossa artilharia completou o triunfo deste dia glorioso. Pareceria presunçoso falar da conduta de qualquer corpo. Cada soldado parecia um herói. Em algumas vezes o fogo era tremendo, e o campo encheu-se com os nossos bravos camaradas carregando as armas. O meu cavalo, uma criatura bonita e agradável que tinha recebido poucos dias antes no Porto, a troco de 38 moidores [sic], foi atingido em diferentes parte e caiu morto. Obtive um outro que pertencia a um Dragão, mas tão cansado que não se podia mexer; e quando um tiro raspou a minha capa, pensei que seria melhor desmontar a juntar-me ao Regimento n.º 36, que estava avançando, e tive a honra de ficar com ele durante o resto da acção. As baixas dos franceses são muito grandes, para cima de 1.200 mortos e feridos deixados no campo, para além dos prisioneiros. O nosso exército perdeu cerca de 500, entre mortos e feridos, e um bom número de Oficiais. O único que conheceis é o pequeno Ewart, atingido na perna, mas espero que não seja muito grave. O exército francês era comandado por Junot, Laborde, Loison, Chalot, Brennier. Os dois últimos foram aprisionados com um grande número de Oficiais, e foram tomadas treze peças de canhão.
Podemos louvar Ferguson pela sua bravura, perícia e calma sobre um fogo como granizo. Os seus homens, uma boa tropa do 20.º Drns. [sic], foram atingidos perto de mim, e receei morrer. O meu pobre amigo Stuart do Regimento n.º9 morreu há dois dias atrás, depois da batalha na Roliça, e todos o lamentam - para mim foi uma perda da qual ainda não me recuperei. Estava muito ligado a ele. Não tenho tempo para escrever mais particularidades. Estou muito fatigado, por ter estado ontem até depois das 5 da tarde recolhendo os feridos ingleses e franceses, e conduzindo-os a um lugar em segurança dos cobardes portugueses, que não lutam um décimo dum francês com armas, mas que roubam e matam os pobres e miseráveis feridos. Se tivesse tempo poderia dizer-vos tais coisas sobre estes meus compatriotas**, que não vos admiraríeis pelo meu despeito sobre eles, e por ter desagradavelmente mudado a minha opinião sobre o seu carácter.
Estou muito contente por vos dizer que nenhum membro do nosso Estado-Maior foi morto. Sofri um bom bocado durante toda a noite e o dia de hoje devido a uma dor de intestinos, mas agora estou melhor. Desejava termos avançado hoje para continuarmos a nossa vitória, sem lhes darmos tempo para se reunirem depois de um revés a que estão pouco habituados.
Adeus; Deus vos abençoe a todos. Com o melhor amor, do vosso filho mais afeiçoado,

William Warre


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Nota: 

* O General Dalrymple tinha sido nomeado General em Chefe do exército britânico destinado à Península Ibérica, mas apenas conseguiu desembarcar na praia do Porto Novo (a 4 quilómetros do Vimeiro) no dia 22 de Agosto, ou seja, um dia depois da batalha do Vimeiro.

** Como já atrás dissemos, William Warre nasceu em Portugal. 

Notícias publicadas na Minerva Lusitana sobre o combate da Roliça (22 de Agosto de 1808)



22 de Agosto

Recebeu-se ontem de pessoa fidedigna e testemunha presencial a seguinte relação da marcha do Exército combinado [luso-britânico], que se dirigiu pela estrada de Alcobaça em direitura ao inimigo, o qual se achava acampado junto a S. Mamede, ao pé da Roliça; e da acção do dia 17 do corrente, que começou às 8 horas da manhã e que acabou às 5 da tarde. 

Domingo [dia 14] pela manhã marchou o Exército inglês em direitura ao inimigo, que se achava acampado em número de 2.000 homens para lá de Cela, em distância de Alcobaça coisa de meia légua. O inimigo levantou imediatamente o campo com a notícia da marcha das nossas tropas, e se retirou para o campo de S. Mamede, junto ao lugar da Roliça, meia légua para lá de Óbidos, aonde se fez forte com a demais tropa que aí havia deixado, ganhando uma posição muito vantajosa, e de mui difícil tomada.
O Exército que seguia a estrada de Alcobaça parecia ser de 10.000 homens ingleses, além de uma divisão de portugueses de batalhão e meio de Valença, outro de Chaves, e dois esquadrões de Cavalaria. 
As tropas inglesas chegaram na Segunda-feira a Alcobaça, acampando-se uma légua para diante, junto à Calvaria; mas logo depois continuaram no caminho para as Caldas. Na noite desse mesmo dia continuou-se a marcha até Salir do Mato, distante meia-légua das Caldas.
Na Terça-feira partiu a tropa aliada para o campo das Caldas, aonde chegou a divisão portuguesa pelo meio da tarde, ficando acampada na vanguarda da coluna esquerda. Na noite de Terça para Quarta-feira se deram as ordens necessárias para a acção do outro dia, e todos mostraram estarem animados dos mais briosos sentimentos.
A tropa aliada prosseguiu a marcha até a saída de Óbidos, aonde o Exército se dividiu em três colunas, marchando uma pelo centro, outra pela direita, e outra pela esquerda. A pouca distância de Óbidos começou a fazer-se o cerco das montanhas, enquanto a coluna do centro marchava direito ao inimigo, e daí a pouco principiou o fogo dos caçadores sobre os franceses. O inimigo pôs-se em fugida para o sítio aonde tinha a artilharia, que era um monte que descobria todos os campos circunvizinhos, tendo ao mesmo tempo todas as vantagens da posição. Mas os caçadores da tropa aliada apossaram-se de um outro monte, donde fizeram sobre o inimigo um fogo tão vivo e tão bem dirigido que os caçadores do inimigo se puseram em retirada.
Os ingleses avançaram-se ao monte a peito descoberto e com a maior valentia; e o General, vendo que a posição favorecia muito o inimigo, mandou que uma coluna subisse pela direitura a cortá-lo; ao que ele não deu lugar pela precipitada fugida em que se pôs, deixando 2 canhões de grosso calibre. Perderam por fim a posição; mas foram ganhar outra, que apesar de ser inferior à primeira, era contudo muito boa.
Começou aqui o forte da acção, com o fogo dos caçadores; e durou desde as 7 para as 8 horas da manhã até às 5 da tarde. É superior a todo o elogio o valor com que a tropa inglesa se portou, metendo-se por meio dum fogo vivíssimo. Os franceses disputaram por muito tempo o campo, fazendo diferentes movimentos, e voltando por vezes à frente a atacar a coluna; mas viram-se por fim obrigados a uma desordenada fugida, que era protegida por um corpo de caçadores, e deixando o campo de batalha. Fizeram um último esforço para retirar os mortos e feridos, o que não conseguiram tão completamente que não ficassem os campos cobertos deles e de espingardas, espadas, mochilas, etc., etc.
O inimigo atacou o flanco esquerdo da coluna da esquerda; mas os caçadores lhe caíram em cima tão fortemente, que ele desistiu logo, tendo antes despedido três descargas; mas inutilmente, porque nem a um só desta coluna feriu.
A perda dos ingleses não se sabe ao certo; mas é bem pequena, sem dúvida, comparada com o modo descoberto e denodado com que combateram. A coluna do centro foi a única que entrou na acção, a qual descansou neste dia, enquanto o resto continuou a perseguir o inimigo. É tão grande a perda dos inimigos em feridos e prisioneiros, que se destinou um batalhão para os conduzir ao Hospital e às prisões.
Por outras notícias da mesma acção consta chegar a 2.000 homens a perda do inimigo, entre mortos, feridos e prisioneiros; mas esperamos dizer mais circunstanciadamente as particularidades desta acção, e com certeza a perda de ambas as partes.

Por notícias hoje recebidas sabemos ter sido de 150 a 200 homens a perda dos ingleses, e de 1.500 a dos franceses; esperamos um boletim do Exército, que publicaremos logo que chegue.
Consta decerto terem desembarcado em S. Martinho 6.000 ingleses, que tinham chegado à Figueira no comboio que já anunciámos; e neste último porto começaram a desembarcar Sexta-feira 15.000 ingleses, que se vão acampando em Lavos.
Agora mesmo recebemos por uma carta a notícia de que houvera Sábado uma nova acção muito porfiada, mas dedicada a favor do Exército combinado.


Carta do Comendador Joaquim Pais de Sá, enviado ao Quartel-General britânico, ao General Bernardim Freire de Andrade (22 de Agosto de 1808)



Vimeiro, pelas 6 da manhã, 22 de Agosto de 1808.


Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor: 

Chegou Sir Harry Burrard, e com o maior sentimento vejo que Sir Arthur Wellesley, que com bastante sangue frio comandou a acção de ontem, em que os franceses atacando em duas colunas perderam 21 peças (julgo que os carros manchegos são incluídos neste número) de 23 que tinham; 2 Generais, vendo eu [que] Brenier e outros muitos oficiais e soldados, talvez em número de 400 a 500, foram feitos prisioneiros; a mortandade foi grande da parte dos franceses, pois que certamente tiveram 800. Os ingleses só tiveram um oficial de consideração ferido gravemente, o Coronel dos Dragões. Eu achei-me sempre no meio do fogo e das balas, e uma ainda tocou o meu cavalo e outra matou um soldado ao pé de mim. Os franceses ainda são bastantes, mas Junot não chegou ao pé das balas, e se conservou sempre em distância, reunindo-se às suas tropas depois da fugida no caminho daqui para Torres, como eu vi. Os nossos cavalos entraram na acção, morrendo o Comandante Elesiário da Polícia, um Cadete e outros feridos, mas devo dizer que de todos quem merece maior elogio foi o Tenente António Pinto. Creio que ainda hoje aqui se fica, não obstante aqui nada haver, mas penso [que os ingleses] querem desembarcar muita mais tropa, contudo aqui nada já há, nem vinho,  nem pão, nem coisa alguma. Se Vossa Excelência quiser dirigir-me a carta que há de escrever ao General novo [Sir Harry Burrard], eu lha entregarei. Esse soldado* me acompanhou sempre ontem, e poderá contar alguma coisa, mas não lhe acho inteligência para o fazer bem. Rogo-lhe [que] queira mandar logo essa carta ao seu destino.
Sou de Vossa Excelência amigo obrigado e atento criado.

Joaquim Pais de Sá

[P.S.] Agora mesmo recebo a sua carta**, mas como o General não está em casa, não lha posso entregar; logo que ele chegue o farei. Vejo o que o primo D. Miguel diz ao Huett a respeito dos mantimentos; aqui é totalmente impossível havê-los, o que será mais fácil na Lourinhã e nos povos circunvizinhos. 

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, pp. 197-198 (doc. 30)].
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Nota: 

* Alusão ao portador desta carta a Bernardim Freire de Andrade.


** A referida carta de Bernardim Freire de Andrade a Wellesley não se encontra publicada.