sábado, 20 de agosto de 2011

Carta de Lord Castlereagh, Secretário de Estado da Guerra, ao General Dalrymple (20 de Agosto de 1808)





Stanmore Park, 20 de Agosto de 1808.



Senhor:

Como creio que não falta muito para que a vossa força tenha cumprido o objectivo para o qual foi inicialmente destinada, estou ansioso para ser informado sobre quais são as vossas opiniões em relação às operações posteriores.
Uma vez restaurado Portugal, os nossos objectivos parecem ser dois: em primeiro lugar, ajudar os espanhóis a expulsar o inimigo; em segundo lugar, ao fazê-lo, alvejar, se possível, a destruição ou a captura da totalidade ou de parte do exército francês.
Os meios que dispomos para pôr isto em prática são os 30.000 homens reunidos em Portugal, e os 10.000 homens que estão agora prontos para embarcar aqui (para além de 16.000 homens na Sicília, dos quais talvez possam ser dispensados 10.000). Nesta estimativa apenas falo da infantaria. Os nossos meios para fornecer cavalaria são limitados, principalmente devido à forma de transportá-los. 
Quando chegarem aqui os navios-transportes de cavalos que receberam ordens para regressar [da costa portuguesa], juntamente com os que já cá estão, estaremos habilitados para enviar quatro regimentos completos, para além da artilharia e dos cavalos do Estado-Maior agregado aos 10.000 homens que partem agora; e quando regressarem pela segunda vez os mesmos transportes, enviar-se-ão mais suprimentos de cavalaria.
Dirigindo a vossa atenção aos pontos que parecem necessitar maior investigação, suponho que podemos abandonar, presentemente, toda a linha de costa desde o Tejo até à fronteira francesa do Roussillon. Parece que o inimigo não sustenta outra posição no sul da Espanha a não ser Barcelona; e apesar de se poder considerar que esta praça, próxima da França pelos Pirenéus Orientais, é de grande importância militar, ainda assim é comparativamente de muito menor importância que a entrada pelos Pirenéus Ocidentais, pela qual o exército francês irá certamente receber os seus reforços principais. Para além disto, é uma região inconvenientemente remota para nela agir uma força britânica, longe de todos os seus recursos; e se a nossa força, apesar de grande, não conseguir estar dispersa em diversos objectivos sem perder muito do seu efeito de comando, é preferível que, se houver oportunidade, esteja num campo de não menor importância perto da Inglaterra, deixando a força da Sicília a agir segundo as circunstâncias, para incomodar o inimigo, quer na costa de Itália quer na Espanha, dentro do Mediterrâneo.
Se, então, a nossa força for ordenada a agir no lado de Portugal ou no norte da Espanha, estareis disposto a recomendar (tendo observado a posição, força, e aplicação provável do exército do inimigo) que cada e qualquer parte da força agora debaixo das vossas ordens seja equipada e avance em direcção à fronteira de Portugal, quer com o fim de ser empregue no interior da Espanha, em cooperação com os exércitos da Espanha contra o inimigo defronte, quer agindo como um corpo de observação, debaixo da aprovação com a qual o exército português possa ser reunido e preparado para a defesa do seu país, no caso dos franceses tentarem penetrar novamente na fronteira de Portugal?
Supondo que o exército francês não avançou para além de Segóvia e Burgos, não seria um movimento vindo de Lisboa, com o fim de agir ofensivamente contra tal exército, observado com muita inconveniência, devido à distância da vossa linha de comunicações, e à distância a que se afastaria o exército dos seus suprimentos e da Inglaterra? É a ajuda da força britânica requerida a opor-se à frente do exército francês? E, se sim, qual é a vossa opinião sobre a quantidade que ela deveria ter, observando os meios de a mover e de a prover com suprimentos? Ou considerais que os espanhóis podem ter meios e disposição de empregá-la em operações combinadas, para efectivamente opor-se defronte do inimigo? Neste cálculo, tereis em conta naturalmente os exércitos de Valencia, Múrcia, Andaluzia, Extremadura e Galiza. Não incluo o das Astúrias, que parece mais naturalmente destinado (e não empregue defensivamente) a levar a cabo as suas incursões pela parte oriental, para incomodar o flanco e a retaguarda do inimigo. Podemos esperar alguma ajuda de Castela e Leão, pois os franceses retiraram-se das suas respectivas capitais. 
Se a força nativa da Espanha se puder sustentar contra o inimigo pela frente, poderia uma força britânica operar a partir das províncias do norte com igual efeito, se não maior, e com melhores comunicações com a sua frota, do que entrando pelo lado de Portugal? Se sim, a que número ascenderia a composição do exército que seria empregada? E entraríeis por Gijón ou por Santander, assumindo que a Coruña, apesar de ser o melhor retiro, é demasiado afastada para ser um ponto conveniente donde se parta?
Estaria um corpo britânico de 20.000 homens, com uma parte proporcional de cavalaria, e apoiado por recrutas espanhóis, demasiado exposto, na vossa opinião, nas Astúrias, ou no principado [sic] de Santander, tendo em consideração a natureza defensiva da região? E, se o exército inimigo for ocupado na fronte pelo exército principal da Espanha, reunido nas províncias anteriormente referidas, seria conveniente que os corpos britânicas agissem ofensivamente, não avançando muito pela grande estrada de Oviedo a Leão, ou pela estrada de Santander a Burgos?
Supondo que o estado das circunstâncias em Portugal admite que, ademais dos 20.000 homens que acima se supuseram que seriam empregues no norte, parta ao mesmo tempo de Portugal um destacamento de 10.000 homens, sois da opinião de que seria prudente, com 30.000 tropas britânicas, tomarmos uma posição em Santander ou a oeste desta cidade, tendo em vista agir, em conjunção com a força da região, contra a linha de comunicações francesa, e também contra o flanco e retaguarda do seu exército, enquanto somos pressionados pela frente, como anteriormente se supôs? Poderia uma força tão considerável, levada a agir em tal direcção, tornar impraticável que [o exército francês] avançasse mais na Espanha, até que fosse subjugado? Estais induzido a pensar que os franceses têm actualmente na Espanha, ou que terão em breve, uma tal quantidade de força reunida naquela parte que lhes permita defender-se contra um tal ataque?
Se se sentirem obrigados a retirar-se para a França, é provável que possam salvar o seu exército com tanta pressão sobre eles, sendo as passagens dos Pirenéus tão difíceis, escasseando as provisões, e com as montanhas possivelmente ocupadas por paisanos armados?
Supondo que os franceses conseguem superar e desarmar os asturianos, e assim entrar na Galiza antes desta província estar apoiada por nós ou antes que os exércitos do sul da Espanha aí cheguem, que efeito teria este esmagamento dos esforços militares que surgiram nas províncias do norte sobre as operações posteriores do inimigo contra Portugal e contra o resto da Espanha? Não ficaria a manutenção da linha de comunicações com a França a dever-se a um corpo comparativamente fraco? E não ficaria uma proporção muito maior desta força  livre para continuar a subjugar a restante Península? Não se provaria, por fim, que é menos arriscado para o exército britânico, tal como mais vantajoso para a causa comum, reunir os nossos esforços aos da Espanha para expulsar o inimigo, enquanto o norte da Espanha não está subjugado, do que reservar a nossa força para a defesa de Portugal, e termos que nos contentarmos com ela quando a resistência da Espanha se tornar eventualmente menos geral do que é agora?
Disse o suficiente para sugerir para vossa consideração o esboço que desejo que examineis e aperfeiçoeis, pois algumas partes das questões dependem das informações locais, particularmente o relativo à natureza das defesas militares nas Astúrias e no principado de Santander, e na região a leste do último lugar. Parece-me aconselhável que deveis enviar, sem perda de tempo, um oficial experiente de confiança para entrar em Gijón, para observar toda aquela linha, e para vos relatá-la. Se não tiverdes uma necessidade urgente dos seus serviços em Portugal, o que espero que seja o caso quando esta carta vos alcançar, ficaria satisfeito que enviásseis Sir Arthur Wellesley para este serviço, com qualquer assistente científico que possais requerer. Ele achará um progresso considerável através da recolha de informações pelo Major-General Leith, que enviei para aquela região, ajudado pelo Capitães Lefevre e Birch, ambos bons oficiais engenheiros.
Lamento que o estado das nossas informações não nos permita ter chegado ainda a uma decisão sobre a aplicação da nossa força na Inglaterra, ou sobre o uso que se fará às vossas; o progresso dos acontecimentos possibilitar-me-ão, segundo espero, que vos escreva muito em breve sobre estes pontos, de modo mais claro do que agora me é possível. Entretanto, e enquanto continuarem a executar-se as medidas necessárias para se reunirem informações, espero que não hesitareis em usar a plena discrição em que vos haveis comprometido, de tal modo que o vosso excelente julgamento possa indicar-vos o que é vantajoso para o serviço de Sua Majestade, sem achardes necessário esperar pela autorização ou instruções vindas da Inglaterra; e posso seguramente garantir-vos que encontrareis, não somente em mim mas em todos os meus colegas, a disposição mais sincera e cordial de serdes apoiado no exercício da responsabilidade que tendes, segundo penso, sempre que as vossas acções possam promover o bem do serviço sem que seja feita referência alguma à Inglaterra.
Tenho a honra de ser, etc., 

Castlereagh

[Fonte: Charles William Vane (org.), Correspondence, Despatches, and other Papers of Viscount Castlereagh, second Marquess of Londonderry – Vol. VI, London, William Shoberl Publisher, 1851, pp. 403-407]. 

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Reclamação de D. Carlota Joaquina e de D. Pedro Carlos de Borbon e Bragança ao Príncipe Regente, sobre as suas legítimas pretensões ao trono da Espanha, resposta à mesma, e respectivos manifestos (19 e 20 de Agosto de 1808)



Reclamação de D. Carlota Joaquina e de D. Pedro Carlos de Borbon e Bragança ao Príncipe Regente





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Resposta do Príncipe Regente




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Manifesto de D. Carlota Joaquina




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Manifesto de D. Pedro Carlos

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Nota: 

D. Pedro Carlos de Bourbon e Bragança (1786-1812), nascido em Aranjuez, tinha ido para Portugal com tenra idade, pouco depois de aos 2 anos ter ficado órfão de ambos os pais. Foi aí criado inicialmente pela rainha D. Maria I (da qual era neto) e depois adoptado como filho pelo próprio Príncipe D. João, seu tio. Era igualmente sobrinho, mas por via paterna, de D. Carlota Joaquina (bem como neto de D. Carlos III, o que lhe valia o título de Infante de Espanha). Como fica entendido, D. Pedro Carlos acompanhara a viagem da família real para o Rio de Janeiro.

Carta do Secretário de Estado da Guerra do Governo britânico, Lord Castlereah, ao General Wellesley (19 de Agosto de 1808)



Downing Street, 19 de Agosto de 1808.

 
Senhor:

Recebi e entreguei ao Rei os vossos dois ofícios de 26 e de 28 de Julho*, dando os detalhes das vossas operações, desde o tempo do vosso desembarque no Porto, até ao desembarque das vossas forças, no rio Mondego, na expectativa imediata de serdes reforçado pela divisão comandada pelo General Spencer. Esta circunstância, associada à rendição do exército do General Dupont, à retirada do Marechal Bessières, e à evacuação de Madrid, ligada à assistência que devereis ter recebido dos portugueses, permitir-vos-ão começardes as vossas operações sem demora; e a máxima confiança é colocada não menos nas vossas decisões do que na vossa prudência.
Também devo expressar a aprovação de Sua Majestade pela autoridade com que vos julgastes incumbido para permitirdes ao Major General Spencer para fazer um empréstimo de dinheiro aos espanhóis, e de tomardes sobre vós a responsabilidade de tal medida, caso o Major General Spencer tivesse sentido a necessidade de agir em conformidade com as vossas instruções.
Tenho a honra de ser, etc.,

Castlereagh

[Fonte: 
Lieut. Colonel Gurwood (org.), The Dispatches of Field Marshal the Duke of Wellington, K. G. during his various campaigns in India, Denmark, Portugal, Spain, the Low Countries, and France, from 1799 to 1818 – Volume Fourth, London, John Murray, 1835, pp. 89-90].


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Nota: 

* Refere o editor da obra donde extraímos esta carta que como não houve nenhum ofício de Wellesley datado de 28 de Julho, tal referência deve tratar-se de uma gralha, e que a passagem deveria ler-se da seguinte maneira: “os vossos dois ofícios de
26 de Julho e de 1 de Agosto” . Deve-se porém acrescentar que nesta última data Wellesley escreveu duas cartas a Castlereagh, uma de teor público, e uma outra privada ou secreta.

Diário do General John Moore (19 de Agosto de 1808)



Audacious, 19 de Agosto.

Partimos de St. Helens na manhã de 31 de Julho. O vento estava muito desfavorável, e somente dobrámos o cabo Finisterra no dia 16 de Agosto. Encontrámos uma fragata, através da qual fomos informados que Sir Arthur Wellesley tinha desembarcado com as suas tropas no rio Mondego. Sir Harry Burrard passou a uma fragata e partiu para o Porto, esperando orientar-se pelas informações que aí deveria receber. Ele ordenou-me a ficar na barra de Vigo até que tivesse notícias suas. Soprava então um vento de nordeste, e chegámos a Vigo logo no dia 17. Comunicámos com outra fragata, através da qual se confirmou o desembarque de Sir Arthur Wellesley no Mondego. Com o vento que soprava então de nordeste, Sir Harry Burrard viu-se impossibilitado para me enviar ordens. Pensei que, como estavam as coisas, era melhor partir o Porto. Quando chegámos, no dia de ontem, fomos informados que Sir Harry tinha partido na tarde anterior para o Mondego. Fomos ainda informados da rendição do corpo do General Dupont e também que Sir Arthur estava na sua marcha para Lisboa, pois tinha-se reunido com o corpo do General Spencer vindo de Cádis. Partimos, e estamos agora à vista do Mondego, mas privados de vento.

Carta do Capitão William Warre a remetente desconhecido (19 de Agosto de 1808)



Lourinhã, a 12 milhas a sul de Peniche, 19 de Agosto de 1808.


Tenho apenas tempo de vos dizer que estou bem e em perfeita segurança. Tivemos uma acção muito disputada anteontem, numa forte posição na Roliça, perto de Óbidos. No início, os franceses estavam solidamente posicionados na planície, e depois retiraram-se para uma montanha quase inacessível. Mas o que pode resistir à valentia dos nossos bravos camaradas? Eles subiram a montanha expostos a um fogo tremendo, e impeliram os inimigos a retirarem-se para várias milhas de distância, matando um grande número e tomando duas peças de canhão. O nosso exército perdeu cerca de 500 homens, entre mortos e feridos, e uma proporção muito grande de oficiais. O 29.º Regimento foi o que sofreu mais, tendo perdido 19 oficiais entre mortos e feridos, estando o Coronel (Lake) no número dos primeiros. O 9.º [Regimento] também sofreu, e o meu pobre amigo Stuart foi ferido gravemente, e receio que venha a morrer. Morreu o Capitão Bradford, do 3.º Regimento de Guardas [escocesas], e um Tenente, R. Dawson, um camarada bastante bravo. A nossa brigada, tendo sido enviada para girar sobre a direita, chegou muito tarde, e pouco participou na acção. Perdemos uns poucos homens – 5 ou 6 – e o pobre Capitão Geary da artilharia, depois de ter disparado 4 tiros sobre o inimigo no mais perfeito estilo. 
Os franceses combateram com a máxima bravura, e a sua retirada honra o seu carácter militar. Eles eram muito inferiores a nós em números, e foram inicialmente comandados por Laborde, que, segundo se diz, está gravemente ferido, e depois por Junot, que chegou de Lisboa, apesar da sua coluna não ter chegado a tempo. Todas as contagens apontam que as suas baixas são perto de 1.000 homens. A ordem do dia agradece aos Regimentos n.os 9, 29, 5 e aos corpos de caçadores pela sua nobre conduta. Apesar de obrigados de vez em quando a trepar com as mãos e pés, nada pôde travar a sua impetuosidade. Coitado do Stuart, que ao cair chamou os seus oficiais para verem que o seu jovem regimento cumpria o seu dever, e não para se preocuparem consigo. Pobre e querido amigo, receio que acabe por morrer.
Marchámos para este lugar ontem, a fim de proteger o desembarque das tropas comandadas pelo General Anstruther, e acabámos de receber ordens para avançar em direcção a Lisboa.
Os franceses retiraram-se, durante toda a noite da acção, pela estrada nova. Desejava que os tivéssemos perseguido, mas confio em Sir Arthur Wellesley.
Até agora tivemos uma marcha bastante incómoda debaixo do sol, e temos sofrido muito devido ao calor, apesar de todos estarmos com saúde e muito animados. Daremos aos franceses umas boas bofetadas onde quer que os encontremos, e em 3 ou 4 dias estaremos em Lisboa vitoriosos...


Carta de Junot a Lagarde (19 de Agosto de 1808)


Torres Vedras, 19 de Agosto de 1808


Senhor Intendente Geral da Polícia:


Um corpo de dois mil homens do General Laborde teve antes de ontem uma acção com o Exército inglês. Esta acção durou cinco horas, sem que as minhas tropas recuassem um passo. De tarde, e durante a noite, o General Laborde veio tomar uma posição conforme eu lhe havia ordenado, para nos pudermos juntar. Com efeito, nós nos unimos ontem à noite. O inimigo está em aperto. Amanhã o hei de atacar, e espero que lhe saberemos fazer ver quanto nós podemos.
Aí haverá sem dúvida mil boatos ridículos; não deis crédito, porém, senão ao que eu vos escrever. Alguns prisioneiros feitos esta manhã me asseguraram que o 6.º e 29.º Regimentos ingleses foram destruídos; o Coronel deste último Regimento foi morto, assim como uma grande parte dos seus Oficiais. O Major e seis Oficiais foram aprisionados.
Tenho a honra de vos saudar.

O Duque de Abrantes


[Fonte: Gazeta de Lisboa, n.º 31, 24 de Agosto de 1808].

Notícias publicadas na Minerva Lusitana (19 de Agosto de 1808)



Coimbra, 19 de Agosto.


Dizem que chegara à Figueira outra frota tanto ou mais numerosa que a primeira; mas ainda não sabemos com suficiente autenticidade o número das tropas que traz, e tampouco se hão de desembarcar na Figueira ou noutro ponto da costa mais apropriado para as operações do Exército.
Chegaram Quarta-feira 10 prisioneiros franceses.

Carta do Comendador Joaquim Pais de Sá, enviado ao Quartel-General britânico, ao General Bernardim Freire de Andrade (19 de Agosto de 1808)


Vimeiro, 19 de Agosto de 1808, pelas 6 horas da tarde.


Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor:

Ontem escrevi a Vossa Excelência e escreveu também o General [Wellesley], e se mandaram as cartas por um homem da Lourinhã, pois que os dois correios não apareceram senão esta manhã. O General em Chefe [Wellesley] deseja ver cooperar o Exército português com o seu, principalmente no momento da batalha, que naturalmente terá lugar por estes dois ou três dias.
Este lugar onde actualmente se acha todo o Exército não dista senão meia légua de Maceira, onde deve desembarcar mais tropa inglesa, e uma ao sul da Lourinhã. Se o tempo o permitir, desembarcarão amanhã, pois que o comboio está na costa, mas neste mesmo caso duvido que o Exército se ponha amanhã em marcha para Torres Vedras, que é daqui distante duas léguas. 
Parece certo que Junot, Loison e Delaborde (se é vivo) estão reunidos em Torres, mas creio que nada por ora se pode ajuizar aos seus ulteriores intentos. 
A respeito do combate de anteontem, em lugar de 1.500 entre mortos e feridos em que se reputa a perda dos franceses, eu percebi 500 a 600, e assim escrevi a Vossa Excelência.
De Vossa Excelência, etc., 

Joaquim Pais de Sá

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, pp. 194-195 (doc. 25)].

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

From the Desk to the Throne. A New Quick Step by Joseph Bonaparte. The Bass by Mess.rs Nappy and Tally, caricatura gravada por Thomas Rowlandson, segundo desenho de G. Sauler Farnham (18 de Agosto de 1808)



Da escrivaninha ao trono.
Um novo passo rápido por José Bonaparte.
O baixo pelos Messieurs Nappy e Tally.
Caricatura gravada por Thomas Rowlandson, segundo desenho de G. Sauler Farnham, publicada a 18 de Agosto de 1808.


Esta caricatura alude à rápida ascensão de José Bonaparte, de simples advogado a Rei de Espanha (no entanto, tal não corresponde literalmente à verdade: ainda que de facto começasse por exercer advocacia, José Bonaparte, depois do seu irmão ascender ao poder, foi nomeado embaixador e depois ministro plenipotenciário da França, e finalmente Rei de Nápoles, cargo que abandonou em Maio de 1808 para ir ocupar o trono da Espanha). 
Um papel afixado na parede indica que a cena passa-se dentro do escritório do Notário público de Bayonne, cidade francesa onde Napoleão logrou a coroa da Espanha através da abdicação da família real espanhola, trespassando logo de seguida a dita coroa ao seu irmão. Como que interpretando um passo de dança (com música tocada por Napoleão e Talleyrand, como indica o subtítulo), José Bonaparte, vestido como um advogado, equilibra-se com a ponta do seu pé direito sobre o varão duma escrivaninha, enquanto se esforça por alcançar com o seu pé esquerdo a cidade de Madrid, no centro dum Mapa de Espanha e Portugal afixado na parede. Ao mesmo tempo, ergue sobre a sua cabeça umas almofadas franjadas, sobre as quais se vê um ceptro e a coroa de Espanha. 
Todos os funcionários do gabinete olham com espanto para tal passo. Um que se encontra na extrema direita da gravura afirma que passo prodigioso para um escriturário dum notário
Ao seu lado, outro pergunta: Porque vais tu, José, tão murcho [wither]?
José Bonaparte, que de facto é representado com uma expressão triste, olha para baixo e responde-lhe: Para onde [whither] - senão para cumprir o meu alto destino? E como o meu nobre irmão dominar o ceptro de outro! 
Em primeiro plano, outro funcionário declara que ele vai necessariamente por onde o Diabo o conduz, o que lhe pode custar o pescoço!
Finalmente, o último funcionário improvisa uma quadra inspirada no provérbio inglês There's many a slip between the cup and the lip (cujo sentido talvez seja mais compreensível através do dito português "não deites foguetes antes da festa"), mas trocando o termo cup por tankard (caneca), em aparente alusão à (injusta) fama de bêbado de José Bonaparte no território espanhol, onde ficou conhecido como Pepe Botella (literalmente, "Zé Garrafa")

Mas os provérbios falam de muitos deslizes
Entre a caneca e os lábios
E realmente estou inclinado a dar 
Crédito ao provérbio enquanto viver. 



Outras digitalizações:



Brown University Library (a preto e branco).


Ordem do dia do Exército britânico (18 de Agosto de 1808)



Quartel-General da Lourinhã, 18 de Agosto.


O Tenente-General [Wellesley] ficou plenamente satisfeito com a conduta das tropas na acção de ontem, particularmente com a bravura revelada pelos Regimentos n.os 5, 9, 29, 60 e 95, parte dos quais caiu a combater o inimigo.
Pelo exemplo proporcionado pelo seu comportamento na acção de ontem, o Tenente-General sente confiança para dizer que as tropas irão distinguir-se onde quer que o inimigo lhes possa  dar outra ocasião; e somente necessita recomendar-lhes para atenta e firmemente preservarem a ordem e regularidade, e obedecerem estritamente às ordens que os Oficiais possam dar.

G. B. Tucker, Deputado-Ajudante-General


Carta do General Wellesley ao Almirante Charles Cotton (18 de Agosto de 1808)


Lourinhã, 18 de Agosto de 1808.


Meu caro Senhor:

Tenho o prazer de informar-vos que ontem derrotei o corpo de Laborde, numa acção cujas circunstâncias estão detalhadas no ofício anexo, destinado a Sir Hew Dalrymple, que peço que examineis, e que lhe envieis na primeira oportunidade. Fui informado que o inimigo perdeu 1.500 homens. As nossas baixas são cerca de 70 mortos, 350 feridos, e uns poucos desaparecidos, incluindo oficiais.
Espero enfrentar-me com o total do seu exército num dia ou dois, e, em qualquer caso, espero estar nas vossas vizinhanças pouco depois. Se Junot, que está com o exército, decidir retirar-se, deverei estar em Mafra depois de amanhã, segundo espero; mas recomendo que não desembarqueis os vossos soldados da marinha, etc., até que tenhais novas notícias de mim. 
Estão com o Capitão Bligh 2.500 homens comandados pelo General Anstruther, e decidi desembarcá-los amanhã.
Acreditai em mim,

Arthur Wellesley

[
Fonte: Lieut. Colonel Gurwood (org.), The Dispatches of Field Marshal the Duke of Wellington, K. G. during his various campaigns in India, Denmark, Portugal, Spain, the Low Countries, and France, from 1799 to 1818 – Volume Fourth, London, John Murray, 1835, p. 88].

Carta do General Wellesley a Lord Castlereagh, Secretário de Estado da Guerra (18 de agosto de 1808)



Lourinhã, 18 de Agosto de 1808 


Meu caro Senhor: 

Os meus ofícios de ontem e de hoje informar-vos-ão sobre o estado das circunstâncias aqui. Nunca vi uma luta tão desesperada como no ataque que fez Lake à passagem [no alto das montanhas], e nos três ataques que os franceses fizeram sobre as nossas tropas nas montanhas. Estes ataques foram feitos no seu melhor estilo, e as nossas tropas defenderam-se admiravelmente; e se as dificuldades do terreno não me tivessem impedido de levar um número suficiente de tropas e de canhões, teríamos tomado todo o exército.
Eles dizem que os franceses perderam 1.500 homens, o que é um número grande; mas penso que que eles tinham mais de 6.000 homens na acção.
Logo que Anstruther desembarque, dar-vos-ei uma conta do que resta do exército francês; mas receio que não conseguirei obter uma vitória completa; isto é, não conseguirei destruí-lo completamente pela falta de cavalaria
Acreditai em mim, etc. 

Arthur Wellesley

P.S.: Incluo uma carta para o sr. Borough sobre a morte de Lake, e uma para Lord Longford, onde lhe digo que o seu irmão encontra-se bastante bem.


Carta do General Wellesley a Lord Castlereagh, Secretário de Estado da Guerra (18 de agosto de 1808)




Lourinhã, 18 de Agosto de 1808 


Meu Senhor: 

Já depois de vos ter escrito na noite passada, soube pelo Brigadeiro General Anstruther que ele se encontra na costa de Peniche, com a frota de provisões e de navios de transporte chefiada pelo Capitão Bligh, do Alfred, com uma parte da força destacada da Inglaterra, comandada pelo Brigadeiro General Acland, em consequência de ter recebido as cartas com as ordens que tinha deixado na baía do Mondego para o General Acland, as quais ele abriu. 
Ordenei ao Brigadeiro General Anstruther para desembarcar imediatamente; e marchei para este lugar, com o objectivo de proteger o seu desembarque e facilitar a sua junção. 
Durante a noite passada, o General Loison juntou-se ao General Laborde, em Torres Vedras; e fui informado que ambos começaram a marchar em direcção a Lisboa nesta manhã; também me informaram que o General Junot chegou hoje a Torres Vedras, com um pequeno corpo de Lisboa; e concluo que a totalidade do exército francês estará reunida entre Torres Vedras e a capital nos próximos dias. 
Tenho a honra de ser, etc. 

Arthur Wellesley


Carta do General Wellesley ao General Bernardim Freire de Andrade (18 de Agosto de 1808)



Quartel-General na Lourinhã, 18 de Agosto de 1808.


Senhor: 

Tive a honra de receber as vossas diversas cartas, e a mensagem que tão gentilmente me haveis enviado através do cavalheiro [Joaquim] Pais [de Sá].
Garanto-vos que nada me dará maior satisfação do que concorrer e cooperar convosco em todos os ajustes que possam parecer necessários para o reestabelecimento da Monarquia portuguesa; e creio que nenhuma medida é mais apropriada para isso do que a posse antecipada de Lisboa pelas tropas das Potências aliadas. Tenho procedido nesta base, e assim continuarei a agir. Vossa Excelência informou-me na vossa última carta* que tencionava unir as tropas debaixo do vosso comando ao Exército debaixo do meu; e haveis requerido que eu vos informasse em que lugar seria conveniente que vos reunísseis a nós. Eu vim aqui proteger o desembarque e favorecer a junção de um corpo de 5.000 homens que acabou de chegar da Inglaterra. Eles irão desembarcar amanhã, e deverei estar nos arredores de Torres Vedras depois de amanhã. 
Recomendo que estejais ali nesse dia. Tereis ouvido dizer que derrotei o corpo do General Laborde ontem. Os franceses perderam 1.500 homens, segundo fui informado; e diz-se que o próprio Laborde foi morto. Loison e Laborde juntaram-se na noite passada em Torres Vedras**, e entendo que se retiraram de Torres Vedras. 
Tenho a honra de ser o mais obediente e humilde servidor de Vossa Excelência.

Arthur Wellesley

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, p. 192-193 (doc. 23)].
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Nota: 


* Agradecemos publicamente a Moisés Gaudêncio por nos ter dado a conhecer a referida carta de Bernardim Freire de Andrade a Wellesley, a qual não se encontra publicada na citada "Serie chronologica..." (apesar de aparecer referenciada no índice de tal corpo documental).


*O excerto que sublinhámos foi publicado originalmente no chamado Diário do Exército de Operações da Estremadura.

Carta do Comendador Joaquim Pais de Sá, enviado ao Quartel-General britânico, ao General Bernardim Freire de Andrade (18 de Agosto de 1808)




Lourinhã, 18 de Agosto, pelas 9 horas da noite.


Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor:

Recebo a carta de Vossa Excelência de 17, e igualmente vi a que Vossa Excelência dirigiu ao General Sir Arthur Wellesley, o qual como responde dirá a Vossa Excelência o seu parecer sobre a direcção da sua marcha, a qual eu direi (se Vossa Excelência mo permite) [que] deve ser rápida, para ver se se pode fazer a reunião antes da batalha, que eu creio [que] se deve dar bem depressa. Os ingleses devem desembarcar amanhã mais tropas que se devem logo reunir a estas. Laborde com a sua tropa passou esta manhã por Torres Vedras, levando coisa de 30 prisioneiros ingleses; Laborde foi ferido gravemente, e se diz que morreu um General francês, mas creio que há engano nesta segunda parte. Os ingleses tiveram 300 a 400 homens entre mortos e feridos, segundo hoje me disse o General, com o qual aqui jantei, entrando no número dos primeiros alguns oficiais. Os franceses, além da sua boa situação, se bateram muito bem, mas no combate não entraram 9 Regimentos ingleses. Uma bomba caiu ao pé do General em Chefe, mas não arrebentou por sua felicidade. Por Torres passaram muitos feridos franceses e os suíços foram levados para Peniche. Calcula pois o General a sua perda em 500 a 600 homens. Agora chegam dois homens que dizem que Junot entrara em Torres Vedras ao meio-dia com 4 mil homens. Torres fica daqui distante duas léguas. Loison marchava hoje com força para se reunir a Laborde. Esta manhã mandei um dos soldados com uma carta para Vossa Excelência com as notícias que ontem pude alcançar, o outro fica enquanto Vossa Excelência dele não dispuser. Aqui achei hoje o Coronel Pizarro, o qual como escreve a Vossa Excelência dará conta de si. Logo que possa ter o gosto de ir encontrar a Vossa Excelência, lhe referirei mais alguma particular circunstância.
Sou de Vossa Excelência o mais atento venerador efectivo criado. 

O Comendador Joaquim Pais de Sá

P.S. O General me acaba de ler agora a carta que lhe escreve; nela verá Vossa Excelência que ele espera aqui reunir-se às tropas que devem desembarcar amanhã, e que deseja muito poder-se reunir a Vossa Excelência em Torres ou nas suas vizinhanças.

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, p. 194 (doc. 24)].

Carta de Gaspar de Sousa Pizarro, Coronel adido ao Quartel-General britânico, ao General Bernardim Freire de Andrade (18 de Agosto de 1808)



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor: 

Ontem escrevi a Vossa Excelência em casa do General [Wellesley], e como ele quer ver sempre o que eu escrevo, não tive remédio senão pôr um recado que me deu, tal qual, o que me aborreceu infinito por ver que era demasiado forte; porém eu não entendo como seja bem dirigido isto a Vossa Excelência, combinando-o com a resposta que Vossa Excelência me deu. Seria preciso que Vossa Excelência se aproveitasse dos bois que o Excelentíssimo Senhor Bispo enviava ao Quartel-General para ele se poder queixar, e para isto, ter Vossa Excelência a comissão de lhos mandar dar, o que não é provável, e portanto não entendo; o que eu desejo é persuadir a Vossa Excelência que eu só escrevo o que me dizem, e assim como eu digo a Vossa Excelência o que me obrigam, o que Vossa Excelência me mandar que eu diga prontamente o hei de fazer. O Exército veio hoje da Lourinhã para o Vimeiro, e aqui se espera o reforço inglês que desembarca nesta costa. Dizem que a força francesa toda veio hoje para Torres [Vedras], onde veio ajuntar-se Junot. Tudo está aqui acampado, e nada há mais de novo hoje que eu saiba. 
De Vossa Excelência criado muito afectivo e obrigado, 

Gaspar de Sousa e Quevedo Pizarro

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, p. 192 (doc. 22)].

Carta secreta do Brigadeiro-General Frederick von Decken ao General Hew Dalrymple, Comandante do Exército britânico em Portugal (18 de Agosto de 1808)



Porto, 18 de Agosto de 1808


Senhor:

Como o Bispo do Porto manifestou-me que me queria ver em privado, a fim de me fazer uma importante comunicação, que desejava que se mantivesse secreta, fui ao seu Palácio na noite passada, a uma hora tardia. O Bispo disse-me então que tinha tomado o Governo de Portugal nas suas mãos, mas a sua intenção era restabelecer o Governo do seu legítimo Soberano, e esperava que Sua Majestade o Rei da Grã-Bretanha não tivesse outro objecto em mente quando enviou as suas tropas para este país. Depois de lhe ter dado todas as garantias sobre este assunto, o Bispo continuou: que como o Príncipe Regente, ao deixar Portugal, estabelecera uma Regência para governar este país durante a sua ausência, ele considerava que tinha o dever de abdicar do Governo e dispô-lo nas mãos da Regência, logo que fosse possível.
Respondi que não tinha instruções do meu Governo sobre este assunto, mas roguei-lhe para considerar se a causa do seu Soberano não se prejudicaria ao abdicar do Governo nas mãos da Regência, que, como tinha agido debaixo da influência dos franceses, tinha perdido a confiança da Nação; e se não seria mais aconselhável que ele continuasse a deter o Governo, até que a vontade do Príncipe Regente fosse conhecida.
O Bispo admitiu que a Regência nomeada pelo Príncipe Regente não possui a confiança do povo,  que vários dos seus membros agiram de tal maneira que aparentam ser amigos e partidários dos franceses, e que, em todo o caso, nem todos os membros da antiga Regência podiam ser restabelecidos no seu poder anterior; contudo, ele teme que as províncias da Estremadura, Alentejo e Algarve não reconhecerão a sua autoridade, se o Governo britânico não interferir. 
Depois de uma longa conversação, acordámos que eu deveria informar aos nossos Ministros aquilo que o Bispo me comunicou, e que, de forma a não se perder tempo à espera duma resposta, o Bispo quis que comunicasse o mesmo a vós, expressando a vontade de lhe escreverdes uma carta oficial, onde lhe referireis a vossa vontade em que ele detenha o Governo, até que a vontade do seu Soberano seja conhecida, para bem das operações das tropas britânicas e portuguesas debaixo do vosso comando.
O secretário do Bispo, que serviu de tradutor, disse-me depois, em privado, que rebentaria uma enorme confusão se o Bispo abdicasse do Governo neste momento, ou se se associasse com pessoas que nem são queridas nem estimadas pela nação.
Peço licença para acrescentar que, apesar do Bispo ter expressado o contrário, todavia parece-me que ele não se opõe a manter o Governo nas suas mãos, se tal pudesse ser feito pela interferência do nosso Governo. 

Brigadeiro-General


Edital da Junta do Porto proibindo a circulação da moeda francesa (18 de Agosto de 1808)






quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Auto da Câmara de Abrantes, por ocasião da restauração da dita vila (17 de Agosto de 1808)



Ano do nascimento do nosso Senhor Jesus  Cristo de 1808, aos 17 dias do mês de Agosto do sobredito ano, nesta notável vila de Abrantes e casas da Câmara, onde se achava em auto de Câmara o Juiz pela Ordenação o Capitão mor Álvaro Soares de Castro e Ataíde, e os Vereadores José, Francisco Xavier Burgueta de Oliveira, e os Oficiais da Câmara, todos abaixo assinados, e Procurador da mesma, aí com o povo e nobreza desta vila e o clero, em presença de todos compareceu Manuel de Castro Correia de Lacerda, natural de Monforte de Rio Livre, Capitão de cavalaria novamente organizada em Coimbra, e depois de ter entrado à testa de 80 homens de caçadores paisanos das companhias de Salvaterra e Monsanto, e alguns homens armados de chuços do termo da Cortiçada, se dirigiu pelas seis horas da manhã deste dia a expulsar a tropa francesa que se achava nesta vila de guarnição, e depois de dirigir o ataque e haver um aturado fogo de parte a parte, pelas nove horas e meia se achavam cento e doze prisioneiros franceses, que se tinham fortificado no castelo, e mais de cinquenta mortos e alguns feridos, acontecendo pelas sábias disposições do dito Capitão comandante e [pelo] valor dos oficiais e soldados que atacaram não haver um só morto nem ferido dos portugueses, cuja heróica acção, para que fique de eterna memória, se mandou lavrar este auto, em que se deve acrescentar que o mesmo Capitão comandante enviou destacamentos de ordenanças para as bordas do Tejo, para aprisionar os fugitivos, e que naquele mesmo rio foram apresados dois barcos de trigo, seis fardos de roupa e a botica, assim como muitas armas e toda a cavalaria que aqui tinham, cuja soma era de quarenta e tantos cavalos, que logo depois da acção se dirigiu a casa do Corregedor mor, acompanhado do escrivão da mesma vila e de outros oficiais de ordenanças, onde se apreendeu toda a secretaria e correspondência com o Governo francês, e até os planos da guerra actual; mandando depois disto pôr travessas nas portas, para se fazer sequestro, quando o tempo o permitisse, reconhecendo todos a supremacia da Suprema Junta do Porto. E logo pelos Vereadores e [de]mais oficiais, e pela nobreza e povo desta mesma vila se deram os agradecimentos a ele, dito comandante, de tão heróica acção de os livrar com tanto valor, e prudência da escravidão em que o Governo francês tinha posto esta vila, e passaram eles Vereadores a mandar descobrir as armas e içar a bandeira de Sua Alteza Real com muitos vivas e repiques de sinos, para mostrarem quanto era do gosto de todos sues habitantes o estarem restituídos à sua antiga liberdade e a um Governo do seu antigo e amado Soberano D. João, Príncipe do Brasil, legítimo Soberano do Reino de Portugal e seus domínios; porque suposto que ausente, sempre os moradores desta vila em seus corações lhe guardaram fidelidade e amor, suspirando que se achasse o tempo de poderem respirar e declararem-se, como agora fazem; e concluíram e determinaram que por este auto haviam por aniquilados e por nulos e sem efeito todos os decretos, decisões e determinações emanadas do Governo francês, quaisquer que eles fossem, e quaisquer que fossem as autoridades donde venham, pois não queriam que desde hoje em diante tivessem vigor, e determinaram finalmente que hoje de tarde se corresse ao Altíssimo a ir prestar-lhe graças por um benefício tão inesperado, que acabavam de receber da sua Mão Omnipotente. E por haverem assim ordenado, mandaram fazer este auto, que todos assinaram com o referido comandante, e eu Anastácio José Libano de Araújo, escrivão da Câmara, o escrevi.


[seguiam-se as assinaturas do Comandante, Câmara, clero, nobreza e povo].

[Fonte: José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal, e da Restauração deste Reino - Tomo V, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, pp. 105-108].

Peripécias dos franceses na sequência da batalha da Roliça



A primeira [batalha], a de 17 de Agosto de 1808, junto a S. Mamede da Roliça, em que Delaborde e Thomiers, perdidos de brios, derrotadas as forças e abatidas as asas da Águia de Napoleão, vendo destroçado o seu Exército e tomada a maior parte da sua artilharia, procurou salvar o resto por meio de uma apressada fuga, deixando no campo muitos mortos e um grande número de feridos.
No resto da tarde daquele dia e a maior parte da noite caminharam com marcha dobrada, sem admitir descanso algum até o lugar de Runa (quatro léguas e meia distante do campo da batalha, e uma ao sul das Torres Vedras). Ali fizeram alto pelas duas horas depois da meia-noite; tão fatigados e oprimidos da fome, que a não acharem provimento naquela povoação, dificilmente poderiam continuar a sua marcha.
Delaborde, Thomiers e outros Oficiais militares foram hospedados em casa de uma matrona (Ana Maria, cujo marido se achava naquela ocasião em Lisboa), a qual, obrigada do temor, lhe franqueou a sua casa, para que lha não invadissem, e os tratou não como Jael a Sisara, quando voltava fugindo e desbaratado pelas tropas de Débora e de Barac, mas sim com humanidade e grandeza, o que foi muito útil à povoação, pois Delaborde deu ordem que nela não se fizesse hostilidade alguma. Curou-se da ferida de uma bala que o tinha maltratado no pescoço, e procurou mudar de roupa. Pediu de comer para si e os mais Oficiais, o qual se lhe deu; e a sua tropa municiada com duas mil e dezanove rações de vinho (4 pipas) e 130 alqueires de cevada para a Cavalaria, a qual pagou, e o vinho.
Deram-se as rações de vinho por listas, e houve Companhias em que apenas apareceram 6 ou Soldados; as duas últimas vinham quase completas, porque talvez não entraram na acção. O seu parque de artilharia constava de 3 peças e um obus. 
Pediu Delaborde que se lhe fizesse três camas para descansar ele, Thomiers e outro Oficial General; suposto que se lhes aprontaram, não chegaram a deitar-se nelas porque quando o pretendiam fazer, o piquete que tinham deixado atrás em observação, ouvindo ao longe as caixas militares, e supondo serem ingleses*, deu rebate, dizendo: anglais, anglais, allons, allons. Logo tudo tomou armas e apressadamente se retiraram, com tão violenta marcha que não fizeram alto senão na Cabeça de Montachique, quatro léguas ao sul de Runa.
Pelas duas horas da tarde naquele dia chegou Junot a Torres Vedras; e sabendo da retirada de Delaborde, lhe mandou ordem para voltar para Torres Vedras, o que fez no dia 18, e se foi achar com Junot no dia 21 na batalha do Vimeiro, onde as tropas francesas foram derrotadas, tomada a maior parte da sua artilharia, e Junot, fugitivo, se retirou a Lisboa, onde foi capitular, como se refere numa relação impressa da dita batalha.

[Fonte: Prospecto do Painel das luminarias, que se puzerão na frente da Igreja do Seminario da Caridade dos Orfãos da rua de S. Bento na cidade de Lisboa, pela feliz restauração deste Reino, Lisboa, Impressão Régia, s.d. (1808), pp. 5-7, apud Raul Brandão, El-Rei Junot, Lisboa, IN-CM, s.d., pp. 240-241].

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* [Nota original] Era Junot, que passava para Torres Vedras.