quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Relações do total de mortos, feridos e desaparecidos do exército britânico na batalha da Roliça (17 de Agosto de 1808)


Relação do total de mortos, feridos e desaparecidos do exército comandado pelo Tenente General o Muito Honrável Sir Arthur Wellesley, K. B., no dia 17 de Agosto de 1808


Mortos: 1 Tenente Coronel, 2 Capitães, 1 Alferes, 3 Sargentos, 63 Soldados e 1 cavalo.
Feridos: 1 Tenente Coronel, 3 Majores, 6 Capitães, 8 Tenentes, 1 Alferes, 1 oficial do Estado Maior, 20 Sargentos, 295 Soldados e 2 cavalos.
Desaparecidos: 1 Capitão, 3 Tenentes, 1 Sargento, 1 tambor, 68 Soldados.



Nome dos oficiais mortos, feridos e desaparecidos no dia 17 de Agosto de 1808

Estado Maior General: Capitão K. J. Bradford, 3.º Regimento de Guarda a pé, deputado assistente ajudante-general, morto.
Artilharia Real: Capitão H. Geary, morto.
Engenheiros Reais: Capitão H. Ephinstone, gravemente ferido.
Regimento de Infantaria a pé n.º 5: Major Emes, ligeiramente ferido; Tenente Doyle, ferido.
Regimento de Infantaria a pé n.º 9: Tenente Coronel Stuart, severamente ferido; Major Molle, Capitão Sankey e Alferes Nichols, feridos.
Regimento de Infantaria a pé n.º 29: Tenente Coronel G. A. F. Lake, morto; Majores G. Way e T. Egerson, feridos; Capitães P. Hodge e A. Patison, feridos; Tenentes R. Birmingham, St. John W. Lucas e Robert Stannus, feridos; Capitão Geo. Todd, Tenentes W. Birmingham, Ambrose Newbold e Thomas Langton, desaparecidos.
Regimento de Infantaria a pé n.º 6: Capitão John Currey, ligeiramente ferido.
Regimento de Infantaria a pé n.º 45: Alferes Dawson, morto; Tenente Burke, ligeiramente ferido.
Regimento de Infantaria a pé n.º 82: Tenente R. Reid, perigosamente ferido.
Regimento de Infantaria a pé n.º 60: Tenente Kiety, Alferes Fawes,e Ajudante De Gilso, ligeiramente feridos.
Regimento de Infantaria a pé n.º 95: Capitão Creagh e Tenentes Hill e Cortman, ligeiramente feridos.

Total de oficiais, oficiais inferiores, soldados e cavalos mortos, feridos e desaparecidos: 482.

G. B. Tucker, Deputado Ajudante General

[Fonte: John Joseph Stockdale (org.), Proceedings on the Enquiry into the Armistice and Convention of Cintra, and into the conduct of the Officers concerned, London, Printed for Stockdale Junior, 1809, pp. 11-12].




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Relação detalhada e com ligeiras alterações


[Fonte: The London Gazette, n.º 16177, September 3, 1808, p. 1187]. 

Carta do General Wellesley ao Secretário de Estado da Guerra, Lord Castlereagh, sobre a batalha da Roliça (17 de Agosto de 1808)



Quartel-General de Vila Verde, 17 de Agosto de 1808

Meu Senhor:

Como o General francês Laborde continuou na Roliça desde que cheguei às Caldas no passado dia 15, determinei atacar a sua posição hoje de manhã. A Roliça está situada numa elevação, diante duma planície, no final dum vale que começa nas Caldas e se fecha a sul por montanhas que se unem com as colinas que formam o vale à esquerda. Observando a partir das Caldas, no centro do vale e a cerca de oito milhas da Roliça está a vila e o antigo castelo mourisco de Óbidos, donde foram expulsos os piquetes do inimigo no dia 15; e desde então o inimigo tem postos nas colinas de ambos os lados do vale, tal como na planície em frente do seu exército, que estava postado nas alturas em frente da Roliça, com a sua direita disposta nas colinas, e a sua esquerda sobre um monte onde havia um moinho de vento; protegendo quatro ou cinco passagens para as montanhas na sua retaguarda. 
Tenho razões para acreditar que a sua força consistia em pelo menos seis mil homens, dos quais cerca de quinhentos eram de cavalaria, com 5 peças de artilharia; e tinha algumas razões para supor que o General Loison, que estava ontem em Rio Maior, juntar-se-ia ao General Laborde pela sua direita, durante o decorrer da noite. 
O plano de ataque foi formado em consequência disto, e o exército [britânico], tendo-se dividido hoje de manhã nas Caldas, formou-se em três colunas. A direita consistia em 1.200 homens de infantaria portuguesa e 50 de cavalaria também portuguesa, destinados a girar o flanco esquerdo do inimigo e a penetrar nas montanhas que ficavam na sua retaguarda. A esquerda, que consistia nas brigadas de infantaria do Major General Ferguson e do Brigadeiro General Bowes, em três companhias de caçadores, uma brigada de artilharia ligeira e 20 britânicos e 20 portugueses de cavalaria, estava destinada, sob o comando do Major General Ferguson, a subir as colinas em Óbidos e a fazer girar os postos do inimigo na esquerda do vale, bem como a direita dos seus postos na Roliça. Este corpo estava também destinado a observar os movimentos do General Loison, na direita do inimigo, sobre o qual fui informado que fizera um movimento de Rio Maior para Alcoentre na noite anterior. A coluna do centro, que consistia nas brigadas do Major General Hill, do Brigadeiro General Nightingale, do Brigadeiro General Crauford e do Brigadeiro General Fane (à excepção dos caçadores destacados com o Major General Ferguson) e em 400 homens de infantaria ligeira portuguesa, na cavalaria inglesa e portuguesa, numa brigada de artilharia de calibre 9 e noutra de calibre 6, estava destinada a atacar a posição frontal do General Laborde. 
Sendo assim formadas as colunas, marcharam as tropas de Óbidos pelas 7 horas da manhã. Os caçadores do Brigadeiro General Fane foram imediatamente destacados para as colinas à esquerda do vale, para manter a comunicação entre o centro e a coluna esquerda e para proteger a marcha desta ao longo do vale; e os postos do inimigo foram sucessivamente batidos. A brigada do Major General Hill, formada em três colunas de batalhões, marchou pela direita do vale, sustentada pela cavalaria, a fim de atacar a esquerda do inimigo; e os Brigadeiros Generais Nightingale e Crauford marcharam com a artilharia ao longo da estrada real, até que finalmente o primeiro formou-se na planície imediata e frontal ao inimigo, sustentado pelas companhias de infantaria ligeira e pelo Regimento n.º 45 da brigada do Brigadeiro General Crauford, enquanto que os outros dois Regimentos desta brigada (os n.os 50 e 91) e metade da brigada da artilharia de calibre 9 mantiveram-se como reserva na retaguarda. 
O Major General Hill e o Brigadeiro General Nightingale avançaram sobre as posições do inimigo, e, ao mesmo tempo, os caçadores do Brigadeiro General Fane estavam nas colinas à sua direita, a infantaria portuguesa estava numa aldeia à esquerda, e a coluna do Major General Ferguson ia descendo das alturas para a planície. Perante esta situação, o inimigo retirou-se pelas passagens das montanhas com a maior regularidade e com grande celeridade; e não obstante o rápido avanço da infantaria britânica, a falta de um corpo suficiente de cavalaria foi a causa de dita infantaria ter sofrido um pouco na planície, embora com escassas baixas. 
Foi então necessário fazer os preparativos para um ataque à formidável posição que o inimigo tinha tomado. 
Os caçadores do Brigadeiro General Fane estavam já nas montanhas à sua direita, e não perderam tempo para atacar as diferentes passagens, quer para se sustentarem, quer para baterem completamente o inimigo. 
A infantaria portuguesa recebeu ordens para subir até uma passagem à direita; as companhias ligeiras da brigada do Major General Hill e o Regimento n.º 5 marcharam a uma passagem próxima, à direita; e o Regimento n.º 29, sustentado pelo Regimento n.º 9, sob o comando do Brigadeiro General Nightingale, marcharam a uma terceira passagem; e os Regimentos n.os 45 e 82 marcharam a umas passagens à esquerda. 
Todas estas passagens eram de difícil acesso, e algumas delas foram bem defendidas pelo inimigo, particularmente aquela que foi atacada pelos Regimentos n.os 9 e 29. Estes Regimentos atacaram com grande impetuosidade e alcançaram o inimigo antes dos outros regimentos, que deveriam atacar os seus flancos.
A defesa do inimigo foi desesperada, e foi sobretudo neste ataque que tivemos as baixas que temos de lamentar, particularmente a dum bravo oficial, o Tenente Coronel Lake, que se distinguiu nesta ocasião. Não obstante, o inimigo foi batido em todas as posições que tinha tomado nas passagens das montanhas, e as nossas tropas avançaram até ao terreno plano que está no cimo. Durante um tempo considerável, os Regimentos n.os  29 e 9 marcharam sozinhos até este ponto, com os caçadores do General Fane a alguma distância à esquerda, sendo depois sustentados pelo Regimento n.º 5 e pelas companhias ligeiras da brigada do Major General Hill, que tinham vindo pela sua direita, e ainda pelas outras tropas que receberam ordens para subir as montanhas, que ascendem gradualmente. 
No topo das montanhas, o inimigo fez três ataques dos mais bravos sobre os Regimentos n.os  29 e 9, que estavam sustentados como acima indiquei, com o objectivo de cobrir a retirada do seu exército batido, embora em todos eles tenha sido repelido; ainda assim, conseguiu efectuar a sua retirada em boa ordem, o que se deveu, em primeiro lugar, à minha falta de cavalaria, e, em segundo lugar, à dificuldade de trazer rapidamente às passagens do cimo das montanhas um número suficiente de tropas e de canhões para sustentar os que tinham subido primeiro. As perdas do inimigo, no entanto, foram bastante grandes, deixando ainda em nossas mãos três peças de artilharia.
Não posso aplaudir suficientemente a conduta das tropas durante esta acção. As posições do inimigo eram formidáveis, tinham sido tomadas com a sua habitual habilidade e rapidez, e ele defendeu-as valentemente. Mas devo observar que, apesar de termos uma grande superioridade no número de tropas empregadas neste dia, as que realmente entraram no calor da acção, por circunstâncias inevitáveis, foram somente os Regimentos n.os  5, 9 e 29, os caçadores dos [Regimentos] n.os 95 e 63, e as companhias dos flancos da brigada do Major General Hill; cujo número total era certamente inferior ao do inimigo. Por este motivo, a sua conduta merece a mais alta recomendação. 
Não posso deixar de aproveitar esta ocasião para expressar os meus reconhecimento pela ajuda e suporte que recebi de todos os Generais e doutros oficiais deste exército: estou particularmente em dívida ao Major General Spencer pelos conselhos e assistência que dele recebi; ao Major General Ferguson, pela maneira como comandou a coluna esquerda; e ao Major General Hill e aos Brigadeiros Generais Nightingale e Fane, pela maneira como conduziram os diferentes ataques que lideraram. 
Obtive mais assistência material também do Tenente Coronel Tucker e do Tenente Coronel Bathurst, nos cargos [respectivos] de deputado-Ajudante e de deputado-Quartel-mestre General, e dos oficiais do Estado-Maior às suas ordens. Devo também mencionar de que tive toda a razão para ficar satisfeito com a artilharia comandada pelo Tenente Coronel Robe. Tenho a honra de incluir aqui a conta dos mortos, feridos e desaparecidos.
Tenho a honra de ser, etc.

Arthur Wellesley


Carta de Gaspar de Sousa Pizarro, Coronel adido ao Quartel-General britânico, ao General Bernardim Freire de Andrade (17 de Agosto de 1808)




Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor: 

Depois de ter passado os incómodos do costume, cheguei aqui às Caldas ontem, dezasseis do corrente, já quase Avé-Marias*. Aqui se uniram as duas colunas, a da direita e a do centro, e ainda com ar de dia fomos com os Caçadores ingleses para diante, e depois de os pôr em via voltámos ao nosso Quartel; passado pouco tempo ouviram-se tiros, e tudo montou a cavalo para observar o que se passava, menos eu, que ainda não sabia onde se tinham alojado os meus cavalos, e por isso fui a pé unir-me à coluna da direita que, estando em batalha, fica com o flanco esquerdo quase no fim desta vila. Passada uma hora voltou o General e a dita coluna tornou a pôr-se em liberdade, mas sempre prontos os soldados sem sair do seu posto. Soube-se hoje que os Caçadores foram dar com uma emboscada junto de Óbidos e que os franceses lhe deram uma descarga, em que lhe mataram um Oficial, feriram o Capitão, cunhado do General, numa perna, e morreram alguns soldados; porém, os ingleses dos Caçadores foram sobre eles e dizem [que] lhe[s] mataram quinhentos, que eu não posso por ora [as]segurar, mas sempre se diz que a vantagem fora da nossa parte, e o que o confirma é termos já hoje desalojado os franceses daqueles arredores de Óbidos. Thomières é quem temos à frente na Roliça e tem um parque [de artilharia] emboscado na Columbeira de 5 peças coberto com lenha; isto é na distância de duas léguas daqui. Laborde está no Bombarral, distante 3 léguas desta vila, e um e outro não têm muita gente. Peniche foi hoje atacada por mar logo na madrugada, mas não se sabe ainda o resultado dos imensos tiros que aqui ouvimos. Pelo que tenho observado do terreno, todo cheio de pinhais, temos a sofrer muita emboscada. Não tenho mais tempo, e desejando dar a Vossa Excelência continuadamente as notícias que for havendo, creio que eu não o poderei fazer por falta de correios de posta, e faz isto falta bastante mesmo para Vossa Excelência. Não tenho mais tempo. 
Deus guarde a Vossa Excelência muitos anos, e ao Excelentíssimo Senhor D. Miguel, a quem mando os meus respeitos. 
De Vossa Excelência criado e muito obrigado, 

Gaspar de Sousa Pizarro

P.S. A carta que escrevo a Vossa Excelência foi ditada por Sua Excelência inglesa [Wellesley].


[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, pp. 191-192 (doc. 20)].


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Nota: 

* Entre as seis e as seis e meia da tarde.

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (17 de Agosto de 1808)



Lisboa, 17 de Agosto 


Ontem, pelas 5 horas da manhã, é que o Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes partiu para o seu Exército, a fim de certificar-se pessoalmente do que vem a ser esse desembarque de ingleses efectuado na Figueira, e que ainda não se adiantou, sem embargo de se dar aí por feito há mais de 15 dias.
Sua Excelência não estará por muito tempo ausente, segundo todas as aparências; porque parece estar no intento de colocar-se de sorte que possa ficar repartido entre a capital e o Exército, já para ter mão em tudo, por uma parte; já para dirigir tudo, pela outra, com a sua presença. É pois de esperar que dentro de poucos dias tornemos a ver aqui o General em Chefe.
Já se receberam, duas vezes, notícias de Vila Franca e de outras partes mais para lá; Sua Excelência ficou mui satisfeito do excelente espírito dum Exército tantas vezes vitorioso e que só mostra um ardente desejo de combater com inimigos que, de 15 anos a esta parte, não tem posto pé no Continente sem nele encontrar algum desastre.
Continua reinar a maior quietação em Lisboa, onde ficou uma guarnição francesa bem respeitável, com precauções mui adequadas às circunstâncias. 
Sua Excelência, ao tempo da sua partida, mandou publicar e espalhar por toda a parte as duas peças seguintes:


Precedentemente se tinha aqui publicado a carta seguinte:



[Fonte: 2.º Supplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 3, 17 de Agosto de 1808].

Notícia publicada na Minerva Lusitana (17 de Agosto de 1808)



Leiria, 17 de Agosto às 7 horas da tarde.


Ainda aqui se acha o nosso Exército. O inimigo que tinha sucessivamente ocupado Tomar, Torres Novas e Santarém entrou ontem em Rio Maior, o que obrigou o nosso Exército a redobrar a vigilância; mas não se atreveu nem a caminhar para nós, nem a atacar o flanco inglês; de maneira que os dois exércitos se sustiveram sem combate, e só pela boa correspondência das posições.
Esta tarde chega a notícia de ter o inimigo abandonado Rio Maior e caminhado para Alenquer.
É quase certo que marcharemos para diante, e que o Exército comandado pelo General Bacelar ficará cobrindo Tomar e Punhete [= actual vila de Constância].
Os ingleses fazem frente às Caldas e a Óbidos.


Carta do General Bernardim Freire de Andrade ao General Arthur Wellesley (17 de Agosto de 1808)



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor:

Recebendo neste momento a notícia de que os franceses se retiraram além de Rio Maior, e que por consequência se reconcentram no intuito de oferecerem resistência ao Exército de que eu não quero deixar de fazer parte por muita honra minha; amanhã me porei em marcha dirigindo-me ao Quartel-General de Vossa Excelência, aonde me acharei com a maior brevidade possível.
O General comandante da província da Beira, tendo descido a Castelo Branco com a força de três mil homens, responderá de Abrantes e Santarém, e com o socorro dos paisanos armados, animados de um excelente espírito, pode afiançar o sossego da província.
Da Praça de Almeida tive agora notícia de que na última sortida perderam os franceses os quarenta homens com que a fizeram, e que a guarnição fica reduzida a extremidades; apresso-me em levar a Vossa Excelência estas notícias agradáveis.
Deus Guarde a Vossa Excelência.
Quartel-General, 17 de Agosto de 1808.

Bernardim Freire d'Andrada [sic].

[Fonte: António Pedro Vicente, "Um soldado da Guerra Peninsular - Bernardim Freire de Andrade e Castro", in Boletim do Arquivo Histórico Militar, n.º 40, 1970, pp. 202-571, p. 448].

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Carta dum agente do Coronel Moretti ao Capitão-General da Junta da Extremadura (16 de Agosto de 1808)



Tendo sido comissionado pelo Senhor Coronel D. Federico Moretti, Comandante das tropas espanholas na cidade de Évora, para levar ofícios desta Suprema Junta e do mencionado Senhor Comandante às Juntas de Coimbra e do Porto, e aos Generais português e inglês, parti no passado dia 26 de Julho, juntamente com quatro indivíduos da minha partida volante e um indivíduo da Legião de Voluntários Estrangeiros, dirigindo a minha marcha por Tancos, em direcção a Coimbra, em cujo primeiro ponto me vi cercado por uns 300 franceses de cavalaria e artilharia volante, que dirigiam a sua marcha a Abrantes; e ainda que o muito conhecimento que tinha dos caminhos me proporcionou pôr-me a salvo, fui perseguido durante três léguas por uma grande partida do inimigo, à distância de um tiro de canhão; devendo a nossa salvação a um bosque onde pudemos ocultarmo-nos.
Cheguei finalmente a Coimbra, e tendo-me apresentado ao General português que comandava as armas naquele ponto, entreguei-lhe os ofícios, suplicando-lhe que enviasse pelo correio os que iam dirigidos à Suprema Junta e ao General em Chefe do Porto, enquanto eu me avistava com o General inglês na Figueira; acedeu à minha petição o General português, e empreendi a minha marcha para a Figueira, que dista 7 léguas a ocidente de Coimbra, por caminho de serra.
À minha chegada apresentei-me ao General Wellesley, que o é em Chefe do Exército inglês, e que se achava acampado em Lavos, a uma légua ao sul da Figueira, o qual me recebeu com as maiores provas de júbilo e satisfação; informei-o de todos os sucessos da Espanha, servindo-me de tradutor o seu secretário; e concluída a sessão, fui lanchar com o dito General e o seu Estado-Maior.
Acabado o lanche, o General honrou-me levando-me ao seu lado a ver a revista das suas tropas, que tinham acabado de desembarcar naquele mesmo dia 7 de Agosto, e formavam um corpo de 7.000 homens e 4.000 cavalos, acompanhados por um magnífico parque de artilharia, cujo número não posso precisar por não ter podido contá-los exactamente, formando quase um exército os carros, carruagens e bagagens que o acompanham.
O dito General em Chefe disse-me que tinha estado em Ferrol com a sua esquadra, onde ofereceu a sua tropa à Junta Suprema daquele Reino [da Galiza]; mas que esta só aceitou 30.000 armas e cartucheiras e 2.000.000 de pesos fortes em dinheiro.
No dia 8 chegou uma nova esquadra inglesa proveniente de Cádis, trazendo a bordo os 5.000 homens de infantaria [comandados pelo General Spencer] que o General Castaños tinha recusado, os quais começaram a desembarcar no dia 9 pela manhã.
Antes de me retirar, comunicou-me o General inglês que ainda esperava 5.000 homens da Guarda Real da Inglaterra, e que uma vez reunidas essas forças empreenderia a sua marcha em direcção a Lisboa, procurando cortar a retirada ao resto dos franceses que tinham saído de Évora para Abrantes, e que tentarão atravessar o Tejo através de [Vila Nova da] Barquinha; tendo manifestado o dito General em Chefe a sua surpresa ao ver batido em Évora o Exército francês, formado por tropas escolhidas e em número de 8.000 homens, por 1.810 espanhóis; pedindo-me que assegurasse a Vossa Excelência que, tomando [os espanhóis] a esquerda[=sul] do Tejo (que se acha sem inimigos), ele respondia pela tomada da capital; e que a não render-se Junot à discrição, aos dez dias da sua intimação, seriam todos sem excepção passados à faca. Representei-lhe o dano que nos podia fazer a esquadra russa, e então, abraçando-me, disse-me: Esses já são nossos.
Saí no dito dia 9 para Coimbra, e o General português disse-me que tinha remetido as respostas à Suprema Junta de Évora, dando-me tanto este como o General em Chefe inglês os certificados competentes de ter entregado os ofícios e de ter executado a minha comissão com a maior exactidão.
O Exército português do Porto e de Coimbra compõe-se de 2.000 homens, todos vestidos e armados; pois os dois milhões de cruzados que devia dar a cidade do Porto de contribuição extraordinária foram utilizados para vestir a tropa, tendo contribuído voluntariamente todo o comércio e nobreza com donativos com o mesmo fim.
Quando regressei, pude apreender com a minha pequena partida, a 4 léguas de Abrantes e quase à vista da divisão francesa comandada pelo General Loison, 88 fardos de algodão fino, pesando cerca de 500 arrobas no total, os quais foram escoltados até à praça de Marvão, donde se mandou que passassem à de Campo-Maior, onde as que pus à disposição do referido Senhor Coronel D. Federico Moretti, debaixo de cujas ordens me encontrava [originalmente] em Évora; sendo este o resultado da expedição que executei por uma comissão particular.
Isto é tudo quanto devo dizer a Vossa Excelência em consequência do que mandou esta manhã.
Deus guarde a Vossa Excelência muitos anos.
Badajoz, 16 de Agosto de 1808.

Excelentíssimo Senhor Donato Gonzalez Cortes


Relatório dos mortos, feridos e desaparecidos nos confrontos entre os postos avançados dos exércitos britânico e francês, diante de Óbidos, no dia 15 de Agosto de 1808



5.º batalhão do Regimento n.º 60 de Infantaria ligeira – 1 soldado morto, 5 feridos e 17 desaparecidos.
2.º batalhão do Regimento n.º 95 de Infantaria ligeira – 4 soldado desaparecidos. 


Oficiais mortos e feridos 

Regimento n.º 95: Tenente Bunbury, morto; Capitão H. K. Pakenham, ferido. 


G. B. Tucker, Deputado-Ajudante-General

[Fonte: The London Gazette, n.º 16177, September 3, 1808, p. 1185].

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Nota: 

Sobre o cenário desta acção, vejam-se os nossos comentários à carta de Wellesley de 16 de Agosto de 1808

Carta do General Wellesley ao Secretário de Estado da Guerra, Lord Castlereagh (16 de agosto de 1808)



Caldas [da Rainha], 16 de Agosto de 1808.


Meu Senhor: 

Marchei de Lavos no dia 10, e no dia 12, em Leiria, reuniram-se comigo as tropas portuguesas comandadas pelo General Bernardim Freire, que consistem entre 5.000 a 6.000 homens. Contudo, lamento por ter de informar Vossa Senhoria que elas não me acompanharam para mais adiante. Desde que cheguei a este país, o General Bernardim Freire e outros oficiais portugueses declararam querer que o comissariado britânico, através dos seus abastecimentos, sustentasse as tropas portuguesas durante a campanha; particularmente num encontro que tive com eles no Porto, na noite de 24 de Julho, e noutro em Montemor-o-Velho, no passado dia 7; e em ambas estas ocasiões disse-lhes explicitamente que era impossível suprir as suas necessidades através dos abastecimentos britânicos; que estes abastecimentos foram preparados com o objectivo de serem somente para consumo dos britânicos, e apenas para pouco tempo; e que era uma proposição de natureza inédita requerer a um exército desembarcando dos seus navios para que não só suprisse o seu próprio consumo de pão, mas que igualmente suprisse o exército do Estado para cujo auxílio tinha sido enviado. Disse aos oficiais portugueses, no entanto, que julgava que não teria necessidade de pedir à região para me prover de pão durante a minha marcha em direcção a Lisboa; mas que deveria requerer carne, vinho e forragem, géneros que o Bispo do Porto se comprometera a suprir-me.
Antes de marchar para Leiria, os oficiais portugueses instaram-me a avançar sem demora, a fim de guardar um armazém que se tinha formado naquele lugar para uso, segundo entendi, das tropas britânicas, e é certo que a minha marcha evitou que o armazém caísse nas mãos do inimigo. Porém, não recebi quaisquer provimentos deste armazém, que permaneceu intacto para o uso do exército português. Ainda assim, na noite em que o exército português chegou a Leiria, recebi algumas mensagens muito extraordinárias, relativamente aos seus suprimentos; e numa conversação que tive com o General Freire durante essa noite, mostrou ele a sua ansiedade sobre este assunto. 
O plano de marcha para a manhã seguinte foi-lhe comunicado, e fixou-se a hora de partida das tropas portuguesas. No entanto, em vez de fazer a marcha tal como se tinha acordado, recebi uma proposta do General Freire para um novo plano de operações, segundo o qual as tropas portuguesas marchariam a certa distância do exército inglês, por Tomar, em direcção a Santarém, a menos que eu consentisse alimentar todas elas; e o pretexto para a adopção deste plano era a provável falta de provisões no caminho que eu tinha proposto seguir, e a sua abundância no caminho agora proposto; e que as tropas portuguesas estariam em situação de cortar a retirada dos franceses de Lisboa. 
Na minha resposta apontei a ineficácia e o perigo deste plano, e pedi ao General que me mandasse 1.000 homens de infantaria, toda a sua cavalaria e as suas tropas ligeiras, que eu me comprometia a alimentá-las; e recomendei-lhe que se juntasse a mim com o resto, ou que em todo o caso permanecesse em Leiria ou Alcobaça, ou noutro ponto na minha retaguarda, onde pelo menos as suas tropas estariam em segurança. Ele mandou-me as tropas que lhe pedi, na quantidade de 1.400 homens de infantaria e 260 de cavalaria; mas anunciou-me que tinha a intenção de manter o seu proposto plano de operações em relação ao resto do seu exército; não obstante ter-lhe informado que encontrei recursos no país que permitem alimentar adequadamente as suas tropas.  Detalho a Vossa Senhoria desta forma particular as circunstâncias que ocorreram, porque estou certo que não foram elas que ocasionaram a separação do exército português do de Sua Majestade [Britânica]. Devia haver no armazém de Leiria pão para as tropas portuguesas para dois dias. Achei em Alcobaça uma quantidade suficiente para lhes alimentar durante um dia, e mais se podia ter  obtido; e este lugar [Caldas da Rainha] poderia ter subministrado amplos provimentos.
O General Freire foi informado deste estado dos recursos, mas contudo persiste no seu plano; e reconheço que não posso atribuir essa persistência unicamente aos seus receios (que contudo nunca mos manifestou) de que nós não somos suficientemente fortes para o inimigo. Estou convencido que ele não pode ter motivos pessoais para a sua conduta, pois tenho sido sempre o mais cordial possível; forneci-lhe armas, munições e pederneiras, e tenho feito tudo quanto está ao meu alcance a favor do seu exército; e um dia antes de me ter comunicado a alteração do seu plano para a marcha do seu exército, colocou-se voluntariamente a si próprio, bem como as suas tropas, debaixo do meu comando.
Se soubesse que os recursos do país eram mais amplos do que esperava, teria certamente encarregado-me de alimentar o seu exército, de acordo com a sua vontade; pois considero ser importante, mais por motivos políticos do que militares, que as tropas portuguesas acompanhassem a nossa marcha; mas achei que o Comissariado britânico estava tão mal composto e incapaz de distribuir às próprias tropas britânicas os amplos provimentos que se lhes conseguiram obter, que não quis sobrecarregá-lo com a responsabilidade adicional de providenciar e distribuir provimentos ao exército português. Além do mais, como acima expliquei a Vossa Senhoria, não creio que o motivo alegado causou a determinação que referi.
Marchei de Leiria no dia 13 e cheguei a Alcobaça no dia 14, cujo lugar tinha sido abandonado pelo inimigo na noite anterior; e aqui cheguei ontem. O inimigo, em número de cerca de 4.000 homens, estava postado a cerca de 10 milhas daqui, em Roliça; e tinha ocupado Óbidos, a 3 milhas daqui, com a sua guarda avançada. Como a posse desta última vila era importante para as nossas futuras operações, determinei ocupá-la, e logo que a infantaria britânica chegou ao terreno, ordenei que fosse ocupada por um destacamento que consistia em quatro companhias de caçadores dos Regimentos n.os 60 e 95. 
O inimigo, que consistia num pequeno piquete de infantaria e em pouca cavalaria, fez uma resistência insignificante e retirou-se; mas foi seguido por um destacamento dos nossos caçadores até à distância de 3 milhas de Óbidos. Os caçadores foram então atacados por um corpo superior do inimigo, que tentou cortá-los do corpo principal a que pertenciam, o qual tinha então avançado para sustentá-los; em ambos os flancos do destacamento apareceram corpos maiores do inimigo, e foi com dificuldade que o Major General Spencer, que tinha partido para Óbidos quando soube que os caçadores tinham avançado em perseguição do inimigo, conseguiu efectuar a sua retirada para esta vila [das Caldas]. Eles ficaram desde então em posse dela, e o inimigo retirou-se completamente dos arredores. 
Lamento acrescentar que neste pequeno confronto dos postos avançados, que foi ocasionado somente pela ansiedade das tropas em perseguir o inimigo, foi morto o Tenente Bunburry, do 2.º Batalhão do Regimento n.º 95, e foi ferido o Capitão Pakenham, embora sem gravidade; e perdemos alguns homens, sobre cujo número ainda não recebi o relatório.
Para além do corpo de cerca de 4.000 homens, comandado pelos Generais Laborde e Thomières, que se está retirando diante do exército [britânico] pela estrada costeira a caminho de Lisboa, existe um outro corpo, de cerca de 5.000 homens, reunido em Rio Maior, debaixo das ordens do General Loison, que deduzo que retirar-se-á pela estrada real de Lisboa; corpos estes que provavelmente reunir-se-ão perto de Lisboa com quaisquer tropas de reserva das defesas das fortificações. 
O corpo de Loison foi ultimamente utilizado no Alentejo contra um destacamento espanhol de cerca de 1.000 homens e contra os insurgentes portugueses naquela região, com o objectivo de socorrer Elvas. Entendo que tal corpo sofreu muito na expedição, quer pela fadiga das marchas que fez, quer pela resistência que sofreu.
Quando estava em Alcobaça, comuniquei com o Capitão Bligh, do Alfred, que se encontrava na costa da Nazaré com um comboio de provisões e navios com material de artilharia, e ele desembarcou um abastecimento [de pão e aveia], que espero receber esta tarde; ele encontra-se agora na costa de Peniche, para onde tenciono, se possível, escrever-lhe amanhã de manhã.
Tenho a honra de ser, etc.

Arthur Wellesley

[Fonte: Lieut. Colonel Gurwood (org.), The Dispatches of Field Marshal the Duke of Wellington, K. G. during his various campaigns in India, Denmark, Portugal, Spain, the Low Countries, and France, from 1799 to 1818 – Volume Fourth, London, John Murray, 1835, pp. 76-80; encontra-se outra tradução disponível na obra de Simão José da Luz Soriano, História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal. Compreendendo a História Diplomática, Militar e Política deste Reino, desde 1777 até 1834 – Segunda Época - Tomo V – Parte I, Lisboa, Imprensa Nacional, 1893, pp. 95-99].

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Nota: 

A 3 de Setembro de 1808, um excerto desta carta seria publicado no n.º 16177 do periódico The London Gazette [excerto esse traduzido no mesmo mês no Correio Braziliense], embora com os topónimos portugueses deformados (facto normalíssimo nos documentos da época, tanto ingleses como franceses). Se algumas destas gralhas podiam e podem ser facilmente perceptíveis e corrigidas para um português (como Lyria = Leiria; Ahobaça = Alcobaça; Boriça = Roliça), uma outra gralha, menos inteligível, deu azo a posteriores confusões sobre a localização dos primeiros confrontos entre britânicos e franceses em território português, travados a 15 de Agosto. Tratava-se do suposto topónimo Brilos [sic], que, apesar de inexistente na região, foi e tem sido sucessivamente reproduzido em bastantes obras sobre as guerras peninsulares, tanto de autores britânicos como de portugueses (por sucessivas cópias da fonte original), e isto apesar de logo no ano de 1835 (senão antes, embora não tenhamos conhecimento) ter sido publicada integralmente a carta acima transcrita (na obra que utilizámos para a traduzirmos), com os topónimos perfeitamente correctos. Segundo esta fonte, tal como acima se transcreveu, Brilos corresponde a nada mais do que Óbidos, que curiosamente também aparecia no referido excerto com o nome de Œbidos [sic].
A contribuir para uma maior confusão, o citado número do jornal The London Gazette também publicara, a seguir ao excerto desta carta, o relatório dos mortos, feridos e desaparecidos da acção da Lourinha [sic], apesar da narração de Wellesley indicar que tais baixas teriam ocorrido entre Óbidos e a Roliça (mais precisamente até à distância de 3 milhas - quase cinco quilómetros - de Óbidos), ou seja, ainda longe da Lourinhã, onde os ingleses só chegariam no dia 18 de Agosto, e onde provavelmente o General Tucker concluiu o referido relatório. 

Análise da Proclamação de Mr. Junot de 16 de Agosto de 1808, por um anónimo













Análise à Proclamação do General Junot aos habitantes de Lisboa em 16 de Agosto de 1808, pelo Deão da Sé de Braga
















[Fonte: Analyse á Proclamação do General Junot aos habitantes de Lisboa em 16 de Agosto de 1808, Coimbra, Real Imprensa da Universidade, 1808, in Discurso do Imortal Guilherme Pitt..., pp. 103-117]. 

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Segundo uma nota manuscrita no exemplar acima publicado, "o autor deste folheto [publicado anonimamente] foi o Deão da Sé de Braga, Luiz António Furtado de Mendonça, fiho natural da casa do Visconde de Barbacena, tinha gosto pela eloquência, possuía talentos, falava com actividade e calor, cortejava a todos, e todos lhe eram afeiçoados. Recolhendo-se a Lisboa com o seu Arcebispo depois da invasão dos franceses no Porto [em 1809], com [?] de vituperar os procedimentos de Bernardino Freire, o que ofendeu D. Miguel Pereira Forjaz; censurou a inércia dos regentes, o que os escandalizou. Olharam-o como homem preguiçoso, e trataram de o segurar; assim aconteceu. Foi preso repentinamente, e conduzido aos cárceres do Santo Ofício como farinação; este crime se lhe imputou para o malquistar com o público que o amava, e para sanar a violência do procedimento que aborreceu as pessoas sensatas. A capa da religião ofendida cobriu ódios particulares contra o autor preso. Nada tão mau como a malícia dos homens!". 


Proclamação do General Junot aos habitantes de Lisboa, antes de partir para ir ao encontro das tropas inglesas (16 de Agosto de 1808)



O Duque de Abrantes, General em Chefe do Exército de Portugal, aos habitantes de Lisboa. 


Habitantes de Lisboa:

Eu me separo de vós por três ou quatro dias. Vou visitar o meu exército; e se for necessário dar uma batalha aos ingleses, e qualquer que seja o sucesso, tornarei para vós. Eu vos deixo para governar Lisboa um General que, pela sua doçura e pela firmeza de carácter, soube merecer a amizade dos portugueses em Cascais e Oeiras. O sr. General Travot saberá também por estas virtudes merecer a dos habitantes de Lisboa. Vós tendes estado até agora tranquilos; é do vosso próprio interesse continuar a sê-lo. Não vos mancheis com um crime horrendo num instante sobre os interesses das três nações que entre si disputam a posse de Lisboa. A glória e a prosperidade da cidade e reino são o que querem os franceses, porque é este o interesse e a política da França. 
A Espanha quer invadir e fazer de Portugal uma das suas províncias, para se fazer assim senhora da península; e a Inglaterra quer dominar-vos para destruir o vosso porto, a vossa marinha, e impedir que a indústria faça progressos entre vós. A magnificência do vosso porto lhes causa muita inveja; eles não consentirao que exista tão perto deles, e eles não têm a esperança de o conservar. Eles sabem que um novo exército francês passou já as vossas fronteiras; e se esse não bastar, outro virá após ele; mas eles terão destruído os vossos estabelecimentos marítimos; eles terão sido a causa da destruição de Lisboa; e eis aqui o que eles procuram, o que eles querem. Eles sabem que não podem conservar-se no continente, mas quando eles podem destruir os portos e a marinha de qualquer potência estão contentes.
Eu parto cheio de confiança em vós; conto muito sobre todos os cidadãos interessados na conservação da ordem pública, e estou persuadido que ela será conservada. Considerai as desgraças que necessariamente sucederiam se esta formosa cidade obrigasse as minhas tropas a entrar nela com a força. Os soldados exasperados não poderiam conter-se; o ferro, o fogo, todos os males da guerra praticados numa cidade tomada de assalto; o saque, a morte... eis aqui o que atraireis sobre vós; só a ideia me faz estremecer.
Habitantes de Lisboa! Evitai, afastai de vós estas terríveis calamidades.

Dada no Palácio do Quartel-General de Lisboa, aos 16 de Agosto de 1808.

O Duque de Abrantes

[Fonte: 2.º Supplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 30, 17 de Agosto de 1808; Simão José da Luz Soriano, História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal. Compreendendo a História Diplomática, Militar e Política deste Reino, desde 1777 até 1834 – Segunda Época - Tomo V – Parte I, Lisboa, Imprensa Nacional, 1893, pp. 105-106; Claudio de Chaby, Excerptos Historicos e Collecção de Documentos relativos á Guerra denominada da Peninsula e ás anteriores de 1801, e do Roussillon e Cataluña - Volume VI, Lisboa, Imprensa Nacional, 1882, 44-45 (doc. 31)].

Carta do Governador interino das armas do Porto dirigida ao Juiz do povo e ao próprio povo da mesma cidade (16 de Agosto de 1808)






Carta do General Bernardim Freire de Andrade ao General Wellesley (16 de Agosto de 1808)



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor: 

Ao portador desta carta, o Comendador Joaquim Pais de Sá do Amaral e Menezes, tendo encarregado de comunicar a Vossa Excelência as notícias que por aqui temos, e as minhas intenções nas diversas circunstâncias que possam ocorrer; e de solicitar a Vossa Excelência a cooperação que deve existir para felicidade desta nação que Vossa Excelência veio socorrer. Espera que Vossa Excelência se dignará atendê-lo como ele merece, e que por ele se servirá de comunicar-me tudo o que puder interessar a causa que defendemos.
Deus guarde a Vossa Excelência muitos anos.
Quartel-General de Leiria, 16 de Agosto de 1808.

Bernardim Freire d'Andrada [sic].


[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, p. 191 (incluído no doc. 19)].

Instruções do Brigadeiro D. Miguel Pereira Forjaz ao Comendador Joaquim Pais de Sá do Amaral e Menezes, enviado ao Quartel-General britânico (16 de Agosto de 1808)




Instruções ao Senhor Joaquim Pais de Sá 


O Exército português não pode ter só em vista a ocupação de Lisboa, mas o seu primeiro objecto é a destruição dos corpos franceses que se acham em Portugal, devendo de preferência a tudo evitar que estes corpos, escapando-se de Lisboa, vão assolar as províncias, deitando-se em alguma das praças [de Elvas e Almeida] que ainda têm nas extremidades do Reino. Enquanto não consta que Loison se reúne inteiramente para a parte de Torres Vedras, etc., não está claro se o seu projecto é dar batalha ao Exército inglês ao retirar-se ao longo do Tejo, para passar à Beira ou [a] alguma [outra] parte do Reino, como deixa perceber a prevenção de viverem em Alentejo; por isso a nossa estada em Leiria não parece inútil; logo porém que conste a reunião do corpo de Loison aos outros corpos franceses, podemos avançar-nos a Rio Maior, e daí, conforme as circunstâncias, ou ocupar Santarém, ou marchar adiante para Alenquer, ou reunir-nos por Torres Vedras ao Exército inglês, se com efeito eles quiserem presentar batalha nas vizinhanças de Mafra, e se julgar para ela precisa a nossa cooperação. É preciso observar que este corpo se acha muito enfraquecido pelo destacamento que se enviou ao Exército inglês, e que, a poder, conviria reuni-lo outra vez em Rio Maior. É indispensável que o Exército inglês não abandone este corpo e persiga os corpos franceses que tentem forçá-lo, porque de outro modo seria sacrificar todo o Reino; e nestas circunstâncias, a ocupação de Lisboa não pode ser duvidosa, quando o Exército inglês se estabeleça entre esta cidade e os corpos franceses que se retiram e a abandonam. Para tudo isto se necessita uma mui rápida e seguida correspondência entre os Exércitos inglês e português, para isso se mandam já estabelecer postas por Alcobaça, que se irão avançando e encurtando à medida que nos formos adiantando.
Quartel-General de Leiria, dezasseis de Agosto de mil oitocentos e oito.

D. Miguel Pereira Forjaz, Brigadeiro Ajudante General.

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, pp. 190-191 (doc. 18)].

Carta de Manuel Pais d'Aragão Trigoso, Vice-Reitor da Universidade de Coimbra, ao General Bernardim Freire de Andrade (16 de Agosto de 1808)



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor:



Recebi a carta de Vossa Excelência e por ela vejo que o Quartel-General do nosso Exército ainda se conserva nessa cidade, contra as notícias que aqui corriam; parece-me muito bem acertado que se conserve e ponha em ponto conveniente uma força tal que obste a qualquer tentativa que o inimigo faça para atacar estas províncias, e sempre esperei que o Conselho tomasse esta deliberação. O Batalhão de Granadeiros do n.º 11 e 24 foi para Tomar com o Regimento de Penamacor, na forma das ordens que Vossa Excelência mandou a Agostinho Luís; o Batalhão de Caçadores de Trás-os-Montes ainda aqui não chegou, em vindo irá imediatamente incorporar-se a esse Exército. Agora mesmo acabo de receber uma carta do Senhor Bispo do Porto, e dentro dela a inclusa para o General inglês, que Vossa Excelência lhe fará enviar. Eu remeti a de Vossa Excelência no mesmo dia em que me chegou à mão, mas o Senhor Bispo ainda a não tinha recebido quando me escreveu; porque me diz não ter ainda notícias da marcha do Exército; e já me tinha procurado em outra carta as forças que me ficaram em Coimbra, e quem era o Comandante delas; diz-me também que ainda lhe dá bastante cuidado o inimigo pelas forças de doze ou treze mil homens que ainda tem no Reino de Leão. Os Voluntários de Aveiro que Vossa Excelência mandou vir para aqui chegaram com efeito; mas o estado em que vi esta chamada Tropa é tal que, julgando seguramente que ela me vinha a servir aqui de muito peso e de nenhuma utilidade, a mandei retirar ao terceiro dia para Aveiro.
Deus guarde a Vossa Excelência muitos anos.
Coimbra, 16 de Agosto de 1808.


Manuel Pais d'Aragão Trigoso



[Fonte: António Pedro Vicente, "Um soldado da Guerra Peninsular - Bernardim Freire de Andrade e Castro", in Boletim do Arquivo Histórico Militar, n.º 40, 1970, pp. 202-571, p. 440].

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Assento do Conselho Militar do Exército português em Leiria (15 de Agosto de 1808)



Havendo-se assentado unanimemente no Conselho que se convocou no dia 13 do corrente que se devia assentir à proposta que, em nome do General Wellesley, expôs o Coronel Trant, de se lhe mandar um reforço de mil homens de Infantaria, os Caçadores e a Cavalaria do Exército, salvo este último artigo, em que pareceu conveniente que sim se mandasse Cavalaria, mas não toda; no dia 15 do corrente, depois de haver marchado na véspera o corpo de tropas requerido, fez o Coronel Trant apresentar uma cópia autêntica duma carta do General Wellesley em que este oferecia uma certa análise dos sucessos que poderiam ter as suas operações, e a influência que teriam sobre as nossas, desaprovando o plano de operações proposto pelo General do Exército português, e finalmente declarando que o objecto dos movimentos do Exército inglês era a ocupação de Lisboa por qualquer modo que fosse, marchando directamente sobre esta capital, sem se ocupar com os movimentos do inimigo, quaisquer que eles pudessem ser, e convidando por assim o dizer o Exército português a tomar parte na empresa sem alternativa outra que não fosse ou de marchar o Exército português a unir-se com o inglês, ou de ele General Wellesley o considerar desligado das suas operações e em risco de sucumbir se o General Junto tentasse desviar-se do Exército inglês para cair sobre o nosso e efectuar a destruição do centro das nossas forças, sendo este novo incidente de suma gravidade do conceito do General do nosso Exército, cuja disposição tinha sido sempre obrar de acordo com os ingleses e apoiar os seus movimentos, na inteligência de que o Exército britânico se dirigia a combater o inimigo em qualquer parte da Estremadura por ele ocupada até o reduzir a um estado que, livrando a capital, livrasse também o Reino, e que o seu plano não era só limitado à ocupação de Lisboa, como dava a entender a requisição do Coronel Trant que deu motivo ao Conselho do dia 13; resolveu-se pois o General do Exército a propor a matéria em conselho, assim porque o negócio o pedia, como porque não se dissesse que ele tomava sobre si medidas arriscadas.
Foi o voto do Conselho:
Que não obstante poder-se aparentemente comprometido o crédito do Exército, contudo não era esse motivo suficiente para decidir o Exército português a marchar por Alcobaça em seguimento dos ingleses; porque limitando-se o objecto destes à ocupação de Lisboa, e não tendo em vista a expulsão do Exército francês de qualquer outro ponto do Reino, não preenchia os fins para que as províncias do norte concorreram em levantar o nosso Exército, pois que a ocupação de Lisboa, não se havendo anteriormente destroçado dos franceses, não punha a salvo das incursões de uns desesperados aos povos das mesmas províncias, e que consequentemente nesta diversidade de objectos, quaisquer que fossem os sucessos dos ingleses em consequência da aceleração das suas marchas, o nosso Exércio não podia nem devia acompanhá-los, o que suposto as instruções do Supremo Governo [do Porto] determinassem ao General obrar de acordo com o Exército britânico, estas mesmas instruções que exactamente se cumpriram até à chegada a Leiria, não podiam já ter lugar depois da declaração do General Wellesley, porque estas nem previram nem podiam prever a determinação deste General; em tal caso, o mesmo Conselho entendeu que o objecto das operações não devia ser outro senão postar-se o nosso Exército de forma que, podendo ser dalgum apoio ao Exército inglês, no caso de este ser repelido, estivessem os portugueses à mão de cooperar com os ingleses, se os franceses se reunissem ou de obstar-lhes a entrada das províncias, em situação que pudessem reunir-se as forças portuguesas e preencher assim as vistas dos verdadeiros patriotas, que confiaram deste Exército a conservação das suas vidas, honra e fazenda, e a essencial obrigação de promover em todos os povos a manifestação dos seus leais desejos, pondo os mesmos povos em estado de cooperar connosco para o fim da restauração do Reino, e para desempenhar pois o objecto de cobrir as províncias do norte, pareceu aos vogais do conselho que todas as operações do Exército português, depois de reforçadas com os corpos mais vizinhos, se deviam limitar ao espaço compreendido desde o Tejo até à estrada real de Leiria para Lisboa, regulando-se de alguma forma pelos movimentos dos franceses que ocupam Santarém e Rio Maior, e que estão em posição de escolher quaisquer das duas estradas, velha ou nova, quando não tentem reunir-se com as outras divisões que se acham em frente dos ingleses, e que em todo o caso não se achando os franceses em grande força em Santarém, devia o Exército português avançar-se às alturas de cá de Rio Maior. Tomando o Conselho esta deliberação, que se fará presente à Suprema Junta do Governo [do Porto], por não ser compatível com a urgência do negócio obter-se uma peremptória decisão sujeitando-se em todo o caso os Vogais do Conselho às supremas determinações da Junta do Governo, que ordenará o que for mais do Real agrado.
Quartel-General de Leiria, 15 de Agosto de 1808.

Bernardim Freire.
D. Miguel Pereira Forjaz.
Nuno Freire de Andrade*.
Francisco da Silveira Pinto da Fonseca.
Aires Pinto de Sousa.
Luís Gomes de Carvalho.
Filipe de Sousa Canavarro.



[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, pp. 189-190 (incluído no doc. 17)].
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Nota: 

* Nuno Freire d'Almeida [sic], no texto original, gralha esta que corrigimos. Tratava-se de um irmão do próprio General Bernardim Freire de Andrade. Sobre os outros nomes, ver o assento de 13 de Agosto do mesmo Conselho Militar.