quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (17 de Agosto de 1808)



Lisboa, 17 de Agosto 


Ontem, pelas 5 horas da manhã, é que o Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes partiu para o seu Exército, a fim de certificar-se pessoalmente do que vem a ser esse desembarque de ingleses efectuado na Figueira, e que ainda não se adiantou, sem embargo de se dar aí por feito há mais de 15 dias.
Sua Excelência não estará por muito tempo ausente, segundo todas as aparências; porque parece estar no intento de colocar-se de sorte que possa ficar repartido entre a capital e o Exército, já para ter mão em tudo, por uma parte; já para dirigir tudo, pela outra, com a sua presença. É pois de esperar que dentro de poucos dias tornemos a ver aqui o General em Chefe.
Já se receberam, duas vezes, notícias de Vila Franca e de outras partes mais para lá; Sua Excelência ficou mui satisfeito do excelente espírito dum Exército tantas vezes vitorioso e que só mostra um ardente desejo de combater com inimigos que, de 15 anos a esta parte, não tem posto pé no Continente sem nele encontrar algum desastre.
Continua reinar a maior quietação em Lisboa, onde ficou uma guarnição francesa bem respeitável, com precauções mui adequadas às circunstâncias. 
Sua Excelência, ao tempo da sua partida, mandou publicar e espalhar por toda a parte as duas peças seguintes:


Precedentemente se tinha aqui publicado a carta seguinte:



[Fonte: 2.º Supplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 3, 17 de Agosto de 1808].

Notícia publicada na Minerva Lusitana (17 de Agosto de 1808)



Leiria, 17 de Agosto às 7 horas da tarde.


Ainda aqui se acha o nosso Exército. O inimigo que tinha sucessivamente ocupado Tomar, Torres Novas e Santarém entrou ontem em Rio Maior, o que obrigou o nosso Exército a redobrar a vigilância; mas não se atreveu nem a caminhar para nós, nem a atacar o flanco inglês; de maneira que os dois exércitos se sustiveram sem combate, e só pela boa correspondência das posições.
Esta tarde chega a notícia de ter o inimigo abandonado Rio Maior e caminhado para Alenquer.
É quase certo que marcharemos para diante, e que o Exército comandado pelo General Bacelar ficará cobrindo Tomar e Punhete [= actual vila de Constância].
Os ingleses fazem frente às Caldas e a Óbidos.


Carta do General Bernardim Freire de Andrade ao General Arthur Wellesley (17 de Agosto de 1808)



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor:

Recebendo neste momento a notícia de que os franceses se retiraram além de Rio Maior, e que por consequência se reconcentram no intuito de oferecerem resistência ao Exército de que eu não quero deixar de fazer parte por muita honra minha; amanhã me porei em marcha dirigindo-me ao Quartel-General de Vossa Excelência, aonde me acharei com a maior brevidade possível.
O General comandante da província da Beira, tendo descido a Castelo Branco com a força de três mil homens, responderá de Abrantes e Santarém, e com o socorro dos paisanos armados, animados de um excelente espírito, pode afiançar o sossego da província.
Da Praça de Almeida tive agora notícia de que na última sortida perderam os franceses os quarenta homens com que a fizeram, e que a guarnição fica reduzida a extremidades; apresso-me em levar a Vossa Excelência estas notícias agradáveis.
Deus Guarde a Vossa Excelência.
Quartel-General, 17 de Agosto de 1808.

Bernardim Freire d'Andrada [sic].

[Fonte: António Pedro Vicente, "Um soldado da Guerra Peninsular - Bernardim Freire de Andrade e Castro", in Boletim do Arquivo Histórico Militar, n.º 40, 1970, pp. 202-571, p. 448].

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Carta dum agente do Coronel Moretti ao Capitão-General da Junta da Extremadura (16 de Agosto de 1808)



Tendo sido comissionado pelo Senhor Coronel D. Federico Moretti, Comandante das tropas espanholas na cidade de Évora, para levar ofícios desta Suprema Junta e do mencionado Senhor Comandante às Juntas de Coimbra e do Porto, e aos Generais português e inglês, parti no passado dia 26 de Julho, juntamente com quatro indivíduos da minha partida volante e um indivíduo da Legião de Voluntários Estrangeiros, dirigindo a minha marcha por Tancos, em direcção a Coimbra, em cujo primeiro ponto me vi cercado por uns 300 franceses de cavalaria e artilharia volante, que dirigiam a sua marcha a Abrantes; e ainda que o muito conhecimento que tinha dos caminhos me proporcionou pôr-me a salvo, fui perseguido durante três léguas por uma grande partida do inimigo, à distância de um tiro de canhão; devendo a nossa salvação a um bosque onde pudemos ocultarmo-nos.
Cheguei finalmente a Coimbra, e tendo-me apresentado ao General português que comandava as armas naquele ponto, entreguei-lhe os ofícios, suplicando-lhe que enviasse pelo correio os que iam dirigidos à Suprema Junta e ao General em Chefe do Porto, enquanto eu me avistava com o General inglês na Figueira; acedeu à minha petição o General português, e empreendi a minha marcha para a Figueira, que dista 7 léguas a ocidente de Coimbra, por caminho de serra.
À minha chegada apresentei-me ao General Wellesley, que o é em Chefe do Exército inglês, e que se achava acampado em Lavos, a uma légua ao sul da Figueira, o qual me recebeu com as maiores provas de júbilo e satisfação; informei-o de todos os sucessos da Espanha, servindo-me de tradutor o seu secretário; e concluída a sessão, fui lanchar com o dito General e o seu Estado-Maior.
Acabado o lanche, o General honrou-me levando-me ao seu lado a ver a revista das suas tropas, que tinham acabado de desembarcar naquele mesmo dia 7 de Agosto, e formavam um corpo de 7.000 homens e 4.000 cavalos, acompanhados por um magnífico parque de artilharia, cujo número não posso precisar por não ter podido contá-los exactamente, formando quase um exército os carros, carruagens e bagagens que o acompanham.
O dito General em Chefe disse-me que tinha estado em Ferrol com a sua esquadra, onde ofereceu a sua tropa à Junta Suprema daquele Reino [da Galiza]; mas que esta só aceitou 30.000 armas e cartucheiras e 2.000.000 de pesos fortes em dinheiro.
No dia 8 chegou uma nova esquadra inglesa proveniente de Cádis, trazendo a bordo os 5.000 homens de infantaria [comandados pelo General Spencer] que o General Castaños tinha recusado, os quais começaram a desembarcar no dia 9 pela manhã.
Antes de me retirar, comunicou-me o General inglês que ainda esperava 5.000 homens da Guarda Real da Inglaterra, e que uma vez reunidas essas forças empreenderia a sua marcha em direcção a Lisboa, procurando cortar a retirada ao resto dos franceses que tinham saído de Évora para Abrantes, e que tentarão atravessar o Tejo através de [Vila Nova da] Barquinha; tendo manifestado o dito General em Chefe a sua surpresa ao ver batido em Évora o Exército francês, formado por tropas escolhidas e em número de 8.000 homens, por 1.810 espanhóis; pedindo-me que assegurasse a Vossa Excelência que, tomando [os espanhóis] a esquerda[=sul] do Tejo (que se acha sem inimigos), ele respondia pela tomada da capital; e que a não render-se Junot à discrição, aos dez dias da sua intimação, seriam todos sem excepção passados à faca. Representei-lhe o dano que nos podia fazer a esquadra russa, e então, abraçando-me, disse-me: Esses já são nossos.
Saí no dito dia 9 para Coimbra, e o General português disse-me que tinha remetido as respostas à Suprema Junta de Évora, dando-me tanto este como o General em Chefe inglês os certificados competentes de ter entregado os ofícios e de ter executado a minha comissão com a maior exactidão.
O Exército português do Porto e de Coimbra compõe-se de 2.000 homens, todos vestidos e armados; pois os dois milhões de cruzados que devia dar a cidade do Porto de contribuição extraordinária foram utilizados para vestir a tropa, tendo contribuído voluntariamente todo o comércio e nobreza com donativos com o mesmo fim.
Quando regressei, pude apreender com a minha pequena partida, a 4 léguas de Abrantes e quase à vista da divisão francesa comandada pelo General Loison, 88 fardos de algodão fino, pesando cerca de 500 arrobas no total, os quais foram escoltados até à praça de Marvão, donde se mandou que passassem à de Campo-Maior, onde as que pus à disposição do referido Senhor Coronel D. Federico Moretti, debaixo de cujas ordens me encontrava [originalmente] em Évora; sendo este o resultado da expedição que executei por uma comissão particular.
Isto é tudo quanto devo dizer a Vossa Excelência em consequência do que mandou esta manhã.
Deus guarde a Vossa Excelência muitos anos.
Badajoz, 16 de Agosto de 1808.

Excelentíssimo Senhor Donato Gonzalez Cortes


Relatório dos mortos, feridos e desaparecidos nos confrontos entre os postos avançados dos exércitos britânico e francês, diante de Óbidos, no dia 15 de Agosto de 1808



5.º batalhão do Regimento n.º 60 de Infantaria ligeira – 1 soldado morto, 5 feridos e 17 desaparecidos.
2.º batalhão do Regimento n.º 95 de Infantaria ligeira – 4 soldado desaparecidos. 


Oficiais mortos e feridos 

Regimento n.º 95: Tenente Bunbury, morto; Capitão H. K. Pakenham, ferido. 


G. B. Tucker, Deputado-Ajudante-General

[Fonte: The London Gazette, n.º 16177, September 3, 1808, p. 1185].

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Nota: 

Sobre o cenário desta acção, vejam-se os nossos comentários à carta de Wellesley de 16 de Agosto de 1808

Carta do General Wellesley ao Secretário de Estado da Guerra, Lord Castlereagh (16 de agosto de 1808)



Caldas [da Rainha], 16 de Agosto de 1808.


Meu Senhor: 

Marchei de Lavos no dia 10, e no dia 12, em Leiria, reuniram-se comigo as tropas portuguesas comandadas pelo General Bernardim Freire, que consistem entre 5.000 a 6.000 homens. Contudo, lamento por ter de informar Vossa Senhoria que elas não me acompanharam para mais adiante. Desde que cheguei a este país, o General Bernardim Freire e outros oficiais portugueses declararam querer que o comissariado britânico, através dos seus abastecimentos, sustentasse as tropas portuguesas durante a campanha; particularmente num encontro que tive com eles no Porto, na noite de 24 de Julho, e noutro em Montemor-o-Velho, no passado dia 7; e em ambas estas ocasiões disse-lhes explicitamente que era impossível suprir as suas necessidades através dos abastecimentos britânicos; que estes abastecimentos foram preparados com o objectivo de serem somente para consumo dos britânicos, e apenas para pouco tempo; e que era uma proposição de natureza inédita requerer a um exército desembarcando dos seus navios para que não só suprisse o seu próprio consumo de pão, mas que igualmente suprisse o exército do Estado para cujo auxílio tinha sido enviado. Disse aos oficiais portugueses, no entanto, que julgava que não teria necessidade de pedir à região para me prover de pão durante a minha marcha em direcção a Lisboa; mas que deveria requerer carne, vinho e forragem, géneros que o Bispo do Porto se comprometera a suprir-me.
Antes de marchar para Leiria, os oficiais portugueses instaram-me a avançar sem demora, a fim de guardar um armazém que se tinha formado naquele lugar para uso, segundo entendi, das tropas britânicas, e é certo que a minha marcha evitou que o armazém caísse nas mãos do inimigo. Porém, não recebi quaisquer provimentos deste armazém, que permaneceu intacto para o uso do exército português. Ainda assim, na noite em que o exército português chegou a Leiria, recebi algumas mensagens muito extraordinárias, relativamente aos seus suprimentos; e numa conversação que tive com o General Freire durante essa noite, mostrou ele a sua ansiedade sobre este assunto. 
O plano de marcha para a manhã seguinte foi-lhe comunicado, e fixou-se a hora de partida das tropas portuguesas. No entanto, em vez de fazer a marcha tal como se tinha acordado, recebi uma proposta do General Freire para um novo plano de operações, segundo o qual as tropas portuguesas marchariam a certa distância do exército inglês, por Tomar, em direcção a Santarém, a menos que eu consentisse alimentar todas elas; e o pretexto para a adopção deste plano era a provável falta de provisões no caminho que eu tinha proposto seguir, e a sua abundância no caminho agora proposto; e que as tropas portuguesas estariam em situação de cortar a retirada dos franceses de Lisboa. 
Na minha resposta apontei a ineficácia e o perigo deste plano, e pedi ao General que me mandasse 1.000 homens de infantaria, toda a sua cavalaria e as suas tropas ligeiras, que eu me comprometia a alimentá-las; e recomendei-lhe que se juntasse a mim com o resto, ou que em todo o caso permanecesse em Leiria ou Alcobaça, ou noutro ponto na minha retaguarda, onde pelo menos as suas tropas estariam em segurança. Ele mandou-me as tropas que lhe pedi, na quantidade de 1.400 homens de infantaria e 260 de cavalaria; mas anunciou-me que tinha a intenção de manter o seu proposto plano de operações em relação ao resto do seu exército; não obstante ter-lhe informado que encontrei recursos no país que permitem alimentar adequadamente as suas tropas.  Detalho a Vossa Senhoria desta forma particular as circunstâncias que ocorreram, porque estou certo que não foram elas que ocasionaram a separação do exército português do de Sua Majestade [Britânica]. Devia haver no armazém de Leiria pão para as tropas portuguesas para dois dias. Achei em Alcobaça uma quantidade suficiente para lhes alimentar durante um dia, e mais se podia ter  obtido; e este lugar [Caldas da Rainha] poderia ter subministrado amplos provimentos.
O General Freire foi informado deste estado dos recursos, mas contudo persiste no seu plano; e reconheço que não posso atribuir essa persistência unicamente aos seus receios (que contudo nunca mos manifestou) de que nós não somos suficientemente fortes para o inimigo. Estou convencido que ele não pode ter motivos pessoais para a sua conduta, pois tenho sido sempre o mais cordial possível; forneci-lhe armas, munições e pederneiras, e tenho feito tudo quanto está ao meu alcance a favor do seu exército; e um dia antes de me ter comunicado a alteração do seu plano para a marcha do seu exército, colocou-se voluntariamente a si próprio, bem como as suas tropas, debaixo do meu comando.
Se soubesse que os recursos do país eram mais amplos do que esperava, teria certamente encarregado-me de alimentar o seu exército, de acordo com a sua vontade; pois considero ser importante, mais por motivos políticos do que militares, que as tropas portuguesas acompanhassem a nossa marcha; mas achei que o Comissariado britânico estava tão mal composto e incapaz de distribuir às próprias tropas britânicas os amplos provimentos que se lhes conseguiram obter, que não quis sobrecarregá-lo com a responsabilidade adicional de providenciar e distribuir provimentos ao exército português. Além do mais, como acima expliquei a Vossa Senhoria, não creio que o motivo alegado causou a determinação que referi.
Marchei de Leiria no dia 13 e cheguei a Alcobaça no dia 14, cujo lugar tinha sido abandonado pelo inimigo na noite anterior; e aqui cheguei ontem. O inimigo, em número de cerca de 4.000 homens, estava postado a cerca de 10 milhas daqui, em Roliça; e tinha ocupado Óbidos, a 3 milhas daqui, com a sua guarda avançada. Como a posse desta última vila era importante para as nossas futuras operações, determinei ocupá-la, e logo que a infantaria britânica chegou ao terreno, ordenei que fosse ocupada por um destacamento que consistia em quatro companhias de caçadores dos Regimentos n.os 60 e 95. 
O inimigo, que consistia num pequeno piquete de infantaria e em pouca cavalaria, fez uma resistência insignificante e retirou-se; mas foi seguido por um destacamento dos nossos caçadores até à distância de 3 milhas de Óbidos. Os caçadores foram então atacados por um corpo superior do inimigo, que tentou cortá-los do corpo principal a que pertenciam, o qual tinha então avançado para sustentá-los; em ambos os flancos do destacamento apareceram corpos maiores do inimigo, e foi com dificuldade que o Major General Spencer, que tinha partido para Óbidos quando soube que os caçadores tinham avançado em perseguição do inimigo, conseguiu efectuar a sua retirada para esta vila [das Caldas]. Eles ficaram desde então em posse dela, e o inimigo retirou-se completamente dos arredores. 
Lamento acrescentar que neste pequeno confronto dos postos avançados, que foi ocasionado somente pela ansiedade das tropas em perseguir o inimigo, foi morto o Tenente Bunburry, do 2.º Batalhão do Regimento n.º 95, e foi ferido o Capitão Pakenham, embora sem gravidade; e perdemos alguns homens, sobre cujo número ainda não recebi o relatório.
Para além do corpo de cerca de 4.000 homens, comandado pelos Generais Laborde e Thomières, que se está retirando diante do exército [britânico] pela estrada costeira a caminho de Lisboa, existe um outro corpo, de cerca de 5.000 homens, reunido em Rio Maior, debaixo das ordens do General Loison, que deduzo que retirar-se-á pela estrada real de Lisboa; corpos estes que provavelmente reunir-se-ão perto de Lisboa com quaisquer tropas de reserva das defesas das fortificações. 
O corpo de Loison foi ultimamente utilizado no Alentejo contra um destacamento espanhol de cerca de 1.000 homens e contra os insurgentes portugueses naquela região, com o objectivo de socorrer Elvas. Entendo que tal corpo sofreu muito na expedição, quer pela fadiga das marchas que fez, quer pela resistência que sofreu.
Quando estava em Alcobaça, comuniquei com o Capitão Bligh, do Alfred, que se encontrava na costa da Nazaré com um comboio de provisões e navios com material de artilharia, e ele desembarcou um abastecimento [de pão e aveia], que espero receber esta tarde; ele encontra-se agora na costa de Peniche, para onde tenciono, se possível, escrever-lhe amanhã de manhã.
Tenho a honra de ser, etc.

Arthur Wellesley

[Fonte: Lieut. Colonel Gurwood (org.), The Dispatches of Field Marshal the Duke of Wellington, K. G. during his various campaigns in India, Denmark, Portugal, Spain, the Low Countries, and France, from 1799 to 1818 – Volume Fourth, London, John Murray, 1835, pp. 76-80; encontra-se outra tradução disponível na obra de Simão José da Luz Soriano, História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal. Compreendendo a História Diplomática, Militar e Política deste Reino, desde 1777 até 1834 – Segunda Época - Tomo V – Parte I, Lisboa, Imprensa Nacional, 1893, pp. 95-99].

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Nota: 

A 3 de Setembro de 1808, um excerto desta carta seria publicado no n.º 16177 do periódico The London Gazette [excerto esse traduzido no mesmo mês no Correio Braziliense], embora com os topónimos portugueses deformados (facto normalíssimo nos documentos da época, tanto ingleses como franceses). Se algumas destas gralhas podiam e podem ser facilmente perceptíveis e corrigidas para um português (como Lyria = Leiria; Ahobaça = Alcobaça; Boriça = Roliça), uma outra gralha, menos inteligível, deu azo a posteriores confusões sobre a localização dos primeiros confrontos entre britânicos e franceses em território português, travados a 15 de Agosto. Tratava-se do suposto topónimo Brilos [sic], que, apesar de inexistente na região, foi e tem sido sucessivamente reproduzido em bastantes obras sobre as guerras peninsulares, tanto de autores britânicos como de portugueses (por sucessivas cópias da fonte original), e isto apesar de logo no ano de 1835 (senão antes, embora não tenhamos conhecimento) ter sido publicada integralmente a carta acima transcrita (na obra que utilizámos para a traduzirmos), com os topónimos perfeitamente correctos. Segundo esta fonte, tal como acima se transcreveu, Brilos corresponde a nada mais do que Óbidos, que curiosamente também aparecia no referido excerto com o nome de Œbidos [sic].
A contribuir para uma maior confusão, o citado número do jornal The London Gazette também publicara, a seguir ao excerto desta carta, o relatório dos mortos, feridos e desaparecidos da acção da Lourinha [sic], apesar da narração de Wellesley indicar que tais baixas teriam ocorrido entre Óbidos e a Roliça (mais precisamente até à distância de 3 milhas - quase cinco quilómetros - de Óbidos), ou seja, ainda longe da Lourinhã, onde os ingleses só chegariam no dia 18 de Agosto, e onde provavelmente o General Tucker concluiu o referido relatório. 

Análise da Proclamação de Mr. Junot de 16 de Agosto de 1808, por um anónimo













Análise à Proclamação do General Junot aos habitantes de Lisboa em 16 de Agosto de 1808, pelo Deão da Sé de Braga
















[Fonte: Analyse á Proclamação do General Junot aos habitantes de Lisboa em 16 de Agosto de 1808, Coimbra, Real Imprensa da Universidade, 1808, in Discurso do Imortal Guilherme Pitt..., pp. 103-117]. 

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Segundo uma nota manuscrita no exemplar acima publicado, "o autor deste folheto [publicado anonimamente] foi o Deão da Sé de Braga, Luiz António Furtado de Mendonça, fiho natural da casa do Visconde de Barbacena, tinha gosto pela eloquência, possuía talentos, falava com actividade e calor, cortejava a todos, e todos lhe eram afeiçoados. Recolhendo-se a Lisboa com o seu Arcebispo depois da invasão dos franceses no Porto [em 1809], com [?] de vituperar os procedimentos de Bernardino Freire, o que ofendeu D. Miguel Pereira Forjaz; censurou a inércia dos regentes, o que os escandalizou. Olharam-o como homem preguiçoso, e trataram de o segurar; assim aconteceu. Foi preso repentinamente, e conduzido aos cárceres do Santo Ofício como farinação; este crime se lhe imputou para o malquistar com o público que o amava, e para sanar a violência do procedimento que aborreceu as pessoas sensatas. A capa da religião ofendida cobriu ódios particulares contra o autor preso. Nada tão mau como a malícia dos homens!". 


Proclamação do General Junot aos habitantes de Lisboa, antes de partir para ir ao encontro das tropas inglesas (16 de Agosto de 1808)



O Duque de Abrantes, General em Chefe do Exército de Portugal, aos habitantes de Lisboa. 


Habitantes de Lisboa:

Eu me separo de vós por três ou quatro dias. Vou visitar o meu exército; e se for necessário dar uma batalha aos ingleses, e qualquer que seja o sucesso, tornarei para vós. Eu vos deixo para governar Lisboa um General que, pela sua doçura e pela firmeza de carácter, soube merecer a amizade dos portugueses em Cascais e Oeiras. O sr. General Travot saberá também por estas virtudes merecer a dos habitantes de Lisboa. Vós tendes estado até agora tranquilos; é do vosso próprio interesse continuar a sê-lo. Não vos mancheis com um crime horrendo num instante sobre os interesses das três nações que entre si disputam a posse de Lisboa. A glória e a prosperidade da cidade e reino são o que querem os franceses, porque é este o interesse e a política da França. 
A Espanha quer invadir e fazer de Portugal uma das suas províncias, para se fazer assim senhora da península; e a Inglaterra quer dominar-vos para destruir o vosso porto, a vossa marinha, e impedir que a indústria faça progressos entre vós. A magnificência do vosso porto lhes causa muita inveja; eles não consentirao que exista tão perto deles, e eles não têm a esperança de o conservar. Eles sabem que um novo exército francês passou já as vossas fronteiras; e se esse não bastar, outro virá após ele; mas eles terão destruído os vossos estabelecimentos marítimos; eles terão sido a causa da destruição de Lisboa; e eis aqui o que eles procuram, o que eles querem. Eles sabem que não podem conservar-se no continente, mas quando eles podem destruir os portos e a marinha de qualquer potência estão contentes.
Eu parto cheio de confiança em vós; conto muito sobre todos os cidadãos interessados na conservação da ordem pública, e estou persuadido que ela será conservada. Considerai as desgraças que necessariamente sucederiam se esta formosa cidade obrigasse as minhas tropas a entrar nela com a força. Os soldados exasperados não poderiam conter-se; o ferro, o fogo, todos os males da guerra praticados numa cidade tomada de assalto; o saque, a morte... eis aqui o que atraireis sobre vós; só a ideia me faz estremecer.
Habitantes de Lisboa! Evitai, afastai de vós estas terríveis calamidades.

Dada no Palácio do Quartel-General de Lisboa, aos 16 de Agosto de 1808.

O Duque de Abrantes

[Fonte: 2.º Supplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 30, 17 de Agosto de 1808; Simão José da Luz Soriano, História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal. Compreendendo a História Diplomática, Militar e Política deste Reino, desde 1777 até 1834 – Segunda Época - Tomo V – Parte I, Lisboa, Imprensa Nacional, 1893, pp. 105-106; Claudio de Chaby, Excerptos Historicos e Collecção de Documentos relativos á Guerra denominada da Peninsula e ás anteriores de 1801, e do Roussillon e Cataluña - Volume VI, Lisboa, Imprensa Nacional, 1882, 44-45 (doc. 31)].

Carta do Governador interino das armas do Porto dirigida ao Juiz do povo e ao próprio povo da mesma cidade (16 de Agosto de 1808)






Carta do General Bernardim Freire de Andrade ao General Wellesley (16 de Agosto de 1808)



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor: 

Ao portador desta carta, o Comendador Joaquim Pais de Sá do Amaral e Menezes, tendo encarregado de comunicar a Vossa Excelência as notícias que por aqui temos, e as minhas intenções nas diversas circunstâncias que possam ocorrer; e de solicitar a Vossa Excelência a cooperação que deve existir para felicidade desta nação que Vossa Excelência veio socorrer. Espera que Vossa Excelência se dignará atendê-lo como ele merece, e que por ele se servirá de comunicar-me tudo o que puder interessar a causa que defendemos.
Deus guarde a Vossa Excelência muitos anos.
Quartel-General de Leiria, 16 de Agosto de 1808.

Bernardim Freire d'Andrada [sic].


[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, p. 191 (incluído no doc. 19)].

Instruções do Brigadeiro D. Miguel Pereira Forjaz ao Comendador Joaquim Pais de Sá do Amaral e Menezes, enviado ao Quartel-General britânico (16 de Agosto de 1808)




Instruções ao Senhor Joaquim Pais de Sá 


O Exército português não pode ter só em vista a ocupação de Lisboa, mas o seu primeiro objecto é a destruição dos corpos franceses que se acham em Portugal, devendo de preferência a tudo evitar que estes corpos, escapando-se de Lisboa, vão assolar as províncias, deitando-se em alguma das praças [de Elvas e Almeida] que ainda têm nas extremidades do Reino. Enquanto não consta que Loison se reúne inteiramente para a parte de Torres Vedras, etc., não está claro se o seu projecto é dar batalha ao Exército inglês ao retirar-se ao longo do Tejo, para passar à Beira ou [a] alguma [outra] parte do Reino, como deixa perceber a prevenção de viverem em Alentejo; por isso a nossa estada em Leiria não parece inútil; logo porém que conste a reunião do corpo de Loison aos outros corpos franceses, podemos avançar-nos a Rio Maior, e daí, conforme as circunstâncias, ou ocupar Santarém, ou marchar adiante para Alenquer, ou reunir-nos por Torres Vedras ao Exército inglês, se com efeito eles quiserem presentar batalha nas vizinhanças de Mafra, e se julgar para ela precisa a nossa cooperação. É preciso observar que este corpo se acha muito enfraquecido pelo destacamento que se enviou ao Exército inglês, e que, a poder, conviria reuni-lo outra vez em Rio Maior. É indispensável que o Exército inglês não abandone este corpo e persiga os corpos franceses que tentem forçá-lo, porque de outro modo seria sacrificar todo o Reino; e nestas circunstâncias, a ocupação de Lisboa não pode ser duvidosa, quando o Exército inglês se estabeleça entre esta cidade e os corpos franceses que se retiram e a abandonam. Para tudo isto se necessita uma mui rápida e seguida correspondência entre os Exércitos inglês e português, para isso se mandam já estabelecer postas por Alcobaça, que se irão avançando e encurtando à medida que nos formos adiantando.
Quartel-General de Leiria, dezasseis de Agosto de mil oitocentos e oito.

D. Miguel Pereira Forjaz, Brigadeiro Ajudante General.

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, pp. 190-191 (doc. 18)].

Carta de Manuel Pais d'Aragão Trigoso, Vice-Reitor da Universidade de Coimbra, ao General Bernardim Freire de Andrade (16 de Agosto de 1808)



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor:



Recebi a carta de Vossa Excelência e por ela vejo que o Quartel-General do nosso Exército ainda se conserva nessa cidade, contra as notícias que aqui corriam; parece-me muito bem acertado que se conserve e ponha em ponto conveniente uma força tal que obste a qualquer tentativa que o inimigo faça para atacar estas províncias, e sempre esperei que o Conselho tomasse esta deliberação. O Batalhão de Granadeiros do n.º 11 e 24 foi para Tomar com o Regimento de Penamacor, na forma das ordens que Vossa Excelência mandou a Agostinho Luís; o Batalhão de Caçadores de Trás-os-Montes ainda aqui não chegou, em vindo irá imediatamente incorporar-se a esse Exército. Agora mesmo acabo de receber uma carta do Senhor Bispo do Porto, e dentro dela a inclusa para o General inglês, que Vossa Excelência lhe fará enviar. Eu remeti a de Vossa Excelência no mesmo dia em que me chegou à mão, mas o Senhor Bispo ainda a não tinha recebido quando me escreveu; porque me diz não ter ainda notícias da marcha do Exército; e já me tinha procurado em outra carta as forças que me ficaram em Coimbra, e quem era o Comandante delas; diz-me também que ainda lhe dá bastante cuidado o inimigo pelas forças de doze ou treze mil homens que ainda tem no Reino de Leão. Os Voluntários de Aveiro que Vossa Excelência mandou vir para aqui chegaram com efeito; mas o estado em que vi esta chamada Tropa é tal que, julgando seguramente que ela me vinha a servir aqui de muito peso e de nenhuma utilidade, a mandei retirar ao terceiro dia para Aveiro.
Deus guarde a Vossa Excelência muitos anos.
Coimbra, 16 de Agosto de 1808.


Manuel Pais d'Aragão Trigoso



[Fonte: António Pedro Vicente, "Um soldado da Guerra Peninsular - Bernardim Freire de Andrade e Castro", in Boletim do Arquivo Histórico Militar, n.º 40, 1970, pp. 202-571, p. 440].

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Assento do Conselho Militar do Exército português em Leiria (15 de Agosto de 1808)



Havendo-se assentado unanimemente no Conselho que se convocou no dia 13 do corrente que se devia assentir à proposta que, em nome do General Wellesley, expôs o Coronel Trant, de se lhe mandar um reforço de mil homens de Infantaria, os Caçadores e a Cavalaria do Exército, salvo este último artigo, em que pareceu conveniente que sim se mandasse Cavalaria, mas não toda; no dia 15 do corrente, depois de haver marchado na véspera o corpo de tropas requerido, fez o Coronel Trant apresentar uma cópia autêntica duma carta do General Wellesley em que este oferecia uma certa análise dos sucessos que poderiam ter as suas operações, e a influência que teriam sobre as nossas, desaprovando o plano de operações proposto pelo General do Exército português, e finalmente declarando que o objecto dos movimentos do Exército inglês era a ocupação de Lisboa por qualquer modo que fosse, marchando directamente sobre esta capital, sem se ocupar com os movimentos do inimigo, quaisquer que eles pudessem ser, e convidando por assim o dizer o Exército português a tomar parte na empresa sem alternativa outra que não fosse ou de marchar o Exército português a unir-se com o inglês, ou de ele General Wellesley o considerar desligado das suas operações e em risco de sucumbir se o General Junto tentasse desviar-se do Exército inglês para cair sobre o nosso e efectuar a destruição do centro das nossas forças, sendo este novo incidente de suma gravidade do conceito do General do nosso Exército, cuja disposição tinha sido sempre obrar de acordo com os ingleses e apoiar os seus movimentos, na inteligência de que o Exército britânico se dirigia a combater o inimigo em qualquer parte da Estremadura por ele ocupada até o reduzir a um estado que, livrando a capital, livrasse também o Reino, e que o seu plano não era só limitado à ocupação de Lisboa, como dava a entender a requisição do Coronel Trant que deu motivo ao Conselho do dia 13; resolveu-se pois o General do Exército a propor a matéria em conselho, assim porque o negócio o pedia, como porque não se dissesse que ele tomava sobre si medidas arriscadas.
Foi o voto do Conselho:
Que não obstante poder-se aparentemente comprometido o crédito do Exército, contudo não era esse motivo suficiente para decidir o Exército português a marchar por Alcobaça em seguimento dos ingleses; porque limitando-se o objecto destes à ocupação de Lisboa, e não tendo em vista a expulsão do Exército francês de qualquer outro ponto do Reino, não preenchia os fins para que as províncias do norte concorreram em levantar o nosso Exército, pois que a ocupação de Lisboa, não se havendo anteriormente destroçado dos franceses, não punha a salvo das incursões de uns desesperados aos povos das mesmas províncias, e que consequentemente nesta diversidade de objectos, quaisquer que fossem os sucessos dos ingleses em consequência da aceleração das suas marchas, o nosso Exércio não podia nem devia acompanhá-los, o que suposto as instruções do Supremo Governo [do Porto] determinassem ao General obrar de acordo com o Exército britânico, estas mesmas instruções que exactamente se cumpriram até à chegada a Leiria, não podiam já ter lugar depois da declaração do General Wellesley, porque estas nem previram nem podiam prever a determinação deste General; em tal caso, o mesmo Conselho entendeu que o objecto das operações não devia ser outro senão postar-se o nosso Exército de forma que, podendo ser dalgum apoio ao Exército inglês, no caso de este ser repelido, estivessem os portugueses à mão de cooperar com os ingleses, se os franceses se reunissem ou de obstar-lhes a entrada das províncias, em situação que pudessem reunir-se as forças portuguesas e preencher assim as vistas dos verdadeiros patriotas, que confiaram deste Exército a conservação das suas vidas, honra e fazenda, e a essencial obrigação de promover em todos os povos a manifestação dos seus leais desejos, pondo os mesmos povos em estado de cooperar connosco para o fim da restauração do Reino, e para desempenhar pois o objecto de cobrir as províncias do norte, pareceu aos vogais do conselho que todas as operações do Exército português, depois de reforçadas com os corpos mais vizinhos, se deviam limitar ao espaço compreendido desde o Tejo até à estrada real de Leiria para Lisboa, regulando-se de alguma forma pelos movimentos dos franceses que ocupam Santarém e Rio Maior, e que estão em posição de escolher quaisquer das duas estradas, velha ou nova, quando não tentem reunir-se com as outras divisões que se acham em frente dos ingleses, e que em todo o caso não se achando os franceses em grande força em Santarém, devia o Exército português avançar-se às alturas de cá de Rio Maior. Tomando o Conselho esta deliberação, que se fará presente à Suprema Junta do Governo [do Porto], por não ser compatível com a urgência do negócio obter-se uma peremptória decisão sujeitando-se em todo o caso os Vogais do Conselho às supremas determinações da Junta do Governo, que ordenará o que for mais do Real agrado.
Quartel-General de Leiria, 15 de Agosto de 1808.

Bernardim Freire.
D. Miguel Pereira Forjaz.
Nuno Freire de Andrade*.
Francisco da Silveira Pinto da Fonseca.
Aires Pinto de Sousa.
Luís Gomes de Carvalho.
Filipe de Sousa Canavarro.



[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, pp. 189-190 (incluído no doc. 17)].
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Nota: 

* Nuno Freire d'Almeida [sic], no texto original, gralha esta que corrigimos. Tratava-se de um irmão do próprio General Bernardim Freire de Andrade. Sobre os outros nomes, ver o assento de 13 de Agosto do mesmo Conselho Militar.

Carta do General Bernardim Freire de Andrade ao General Wellesley (15 de Agosto de 1808)



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor:


Quando eu tinha escrito Vossa Excelência a carta junta, recebo a cópia oficial da que Vossa Excelência dirigiu ontem ao Coronel Trant sobre o plano de operações que eu tinha proposto a Vossa Excelência, e como por ela vejo Vossa Excelência se propõe, de preferência a tudo, ocupar Lisboa, mesmo no caso de se poder evadir o Exército do General Junot, quando queira evitar uma batalha, e como semelhante acontecimento, muito possível, como Vossa Excelência mesmo observa na sua sua carta, exporia absolutamente as províncias que eu de preferência devo defender, vejo-me forçado a declarar a Vossa Excelência que eu não posso abandonar a defesa destas províncias a que este Exército pertence, e o mesmo Exército que Vossa Excelência reconhece ser o núcleo*das forças que devem sustentar esta Monarquia.
Esta guerra não é das ordinárias, na qual importa menos que o inimigo se avance em uma ou outra província; agora a desolação e a morte acompanhará por toda a parte a sua chegada, e o primeiro dever é sacrificar-me, se puder ser, para evitar que semelhantes calamidades se estendam às províncias deste Reino, cujo Exército comando.
Nestas circunstâncias, longe de me prestar à requisição de Vossa Excelência, de marchar com as poucas tropas que me restam, tendo já ontem destacado o contingente que Vossa Excelência exigiu, vou procurar reforçar-me quanto possa, a fim de obstar ao perigo que possam correr as províncias, e para concorrer com as tropas de Vossa Excelência para extinguir o inimigo comum, que era o nosso primeiro e único objecto, ou me sacrificarei sendo preciso, para retardar esta fatal consequência, que parece ameaçar-nos iminentemente e de que resultaria, sem dúvida, uma contra-revolução no país, no sentido mais desastrado.
Posso assegurar a Vossa Excelência que sinto muito não poder falar noutros termos nesta ocasião, em qualidade de comandante destas tropas, mas estou certo que o meu dever assim o pede, e muito seguro de que o Supremo Governo o há de aprovar.
Deus guarde a Vossa Excelência.
Quartel-General de Leiria, 15 de Agosto de 1808.
Sou, etc.

Bernardim Freire de Andrada [sic].

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, pp. 184-185 (doc. 16)].

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Nota: 


* Devemos notar que sublinhámos a palavra "núcleo" para destacar que a utilizámos para substituir o termo "novelo", que aparecia na carta original de Bernardim Freire de Andrade, por se tratar de uma gralha evidente, que resultou de uma má interpretação do termo francês "noyau", inserido na seguinte passagem da carta que Wellesley enviou a Nicholas Trant no dia 14 de Agosto (cuja cópia, traduzida em francês, foi enviada por este último a Bernardim Freire de Andrade): "ce corp de l'Armée qui peut avec justice être qualifié de Noyau de l'Armée Portugaise, l'appui de la contre-révolution et soutient de la Monarchie".

Carta do General Bernardim Freire de Andrade ao Bispo e Presidente da Junta do Porto (15 de Agosto de 1808)



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor:



Na minha última carta* dizia a Vossa Excelência que eu me determinava a tomar com a tropa às minhas ordens uma direcção com que, não deixando de apoiar o Exército inglês, pudesse ao mesmo tempo vigiar no que fizessem os franceses que tínhamos ainda na nossa esquerda, pois que não tendo absolutamente sido possível seguir a marcha das colunas inglesas, por falta absoluta de subsistências, uma vez que elas não me podiam fornecer alguns dias de biscoito, desde que chegassem a Alcobaça até que se pudesse arranjar essa repartição, que achei absolutamente desmontada. Verá Vossa Excelência das cópias inclusas o que se tem passado depois e a que ponto me tenho visto comprometido por falta de instruções, pois que nelas não se me diz expressamente se devo, como os ingleses, cuidar em primeiro lugar em ocupar Lisboa, ainda com o risco de deixar devastar as províncias que fizeram a Revolução, e todos os esforços que é constante, e que devem esperar de nós este serviço, ou se deve ser este o nosso objecto. Confesso a Vossa Excelência que tenho passado horas amarguradas, vendo comprometida mesmo talvez a minha reputação, pois que não me convém dar explicações a ninguém, nem fazer aparecer coisa que possa ter aparência de menos inteligência entre nós e os ingleses. Porém, Deus há de acudir a quem, como eu, não procura senão acertar, sem outra alguma paixão nem parcialidade.
Esta resolução tinha eu tomado depois de receber uma carta em que o General Wellesley se me explicava muito amigavelmente a respeito da requisição que eu lhe tinha feito fazer pelo Coronel Trant, para me fornecer biscoito, como já disse; e na minha resposta eu lhe comunicava aquele projecto que me parecia oportuno**. Nessa noite recebi uma participação feita pelo Coronel Trant, em que o General, não aprovando aquele plano, como Vossa Excelência verá  da cópia n.º 1***, me vi obrigado a chamar os principais oficiais deste Exército para ouvirem as proposições do General inglês. O resultado deste conselho verá Vossa Excelência da cópia n.º 2, em consequência do que destaquei a tropa, de cuja resolução me pareceu satisfeito o Coronel, o que prova exuberantemente quanto eu procuro prestar-me às requisições dos ingleses, para fazer ver a boa fé com que procedo a seu respeito, ainda em coisas de tanta consequência. Para substituir esta falta, mandei que de Coimbra marchassem um Batalhão de Granadeiros e o de Caçadores de Trás-os-Montes, prosseguindo no mesmo projecto de não desamparar o que nos fica à esquerda, ainda ficando sem outro apoio que o das minhas próprias forças. Quando ontem estava a marchar recebi uma carta do Coronel Trant remetendo-me a cópia da que recebera do General Wellesley, à qual respondi como Vossa Excelência verá do n.º 3Vossa Excelência poderá julgar dos motivos que me têm resolvido a tomar este partido, que se não é o mais brilhante, é o mais sólido, e nisto mesmo me confirma a notícia de que Loison se tinha recolhido a Santarém, onde estava ontem pelas 6 da manhã; mas enquanto me chegam as notícias da marcha pomposa do Exército inglês, eu fico em inacção observando os movimentos dos franceses nesta distância, sem poder adivinhar aonde hei de dirigir-me.
As medidas que se têm tomado são as seguintes: 
Mandar ao Brigadeiro Bacelar descer de Castelo Branco a Abrantes, para ocupar esta praça no caso de ser abandonada, ou de conservarem ali os franceses forças com que ele possa revolucionar os povos e vir a Tomar a observar os movimentos do inimigo; as forças de que ele pode dispor são 3.000 homens, pouco mais ou menos; 
Mandar-se proclamar o Príncipe por toda a parte onde dominamos, e armar o povo;
Mandar estabelecer vigias nas vizinhanças de Santarém para ser informado das disposições do inimigo;
Fazer as que são necessárias para que os habitantes de Ribatejo se revoltem logo que ali apareça alguma força.
São estas as disposições que se podem fazer, e ficar este Exército pronto a marchar ao primeiro aviso, com as bagagens e duas rações de pão e etapa****, que o acompanharão para qualquer parte. Mas enquanto me ocupo destes muito sério cuidados, o General inglês se avança sem puder encontrar grande oposição, pois que a Divisão de Loison ainda por cá fica, e eu deixo de entrar com ele em Lisboa, como eu devia fazer, se não me parecesse ainda mais essencialmente do meu dever procurar, quanto em mim possa caber, obstar a que os franceses vão repetir na Beira e províncias do norte as cenas que ultimamente assolaram o Alentejo.
Supondo que escolhi o melhor partido, desejo que Vossa Excelência assim o entenda, e o Supremo Conselho. Desejo mil ocasiões de servir a Vossa Excelência.
Deus guarde a Vossa Excelência.
Quartel-General de Leiria, 15 de Agosto de 1808.
Sou, etc.

Bernardim Freire de Andrada [sic].

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, pp. 185-186 (doc. 17)].

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Nota: 

* Como atrás referimos, não nos consta que a aludida carta de Bernardim Freire de Andrade ao Bispo do Porto (escrita possivelmente a 13 de Agosto) esteja publicada.


** Já tivemos ocasião de referir que também não se encontra publicada a carta em que Bernardim Freire de Andrade comunicava a Wellesley o seu novo plano de operações, o qual somente se conhece através de referências indirectas.


*** Como também já referimos, não nos consta que esteja publicada a aludida carta de Bernardim Freire de Andrade a Wellesley, onde era comunicado o novo plano de operações proposto pelo General português.


*** Sobre este termo, ver o que atrás anotámos.

Discurso de Sebastião Martins Mestre às tropas do Exército do Sul (15 de Agosto de 1808)




Companheiros, amigos e camaradas (ditoso o que merece este nome):
Já não vamos a proteger Évora (como nos tinham ordenado). Eu que tenho a honra de ser vosso chefe e companheiro, acabo de receber ordem da Junta Suprema de Beja e do nosso Marechal de Campo José Lopes de Sousa para retroceder a nossa marcha, para ir atacar o inimigo que se acha na vila de Alcácer do Sal debaixo das ordens do General Kellermann, para saquear e incendiar esta vila, e depois passar aos mais povos da província. 
Vós, meus Soldados, não me negareis que, debaixo das ordens do nosso Marechal de campo José Lopes de Sousa, eu, com um punhado de pescadores, fizemos abater o orgulho da Legião do Meio-dia, no lugar de Olhão, tanto na abordagem que lhe demos no mar no dia 17 de Junho, como na tarde do mesmo dia na ponte de Quelfes*; para cada um destes pescadores o inimigo tinha dez vencedores do Marengo, Jena e Friedland, contudo o que não foi morto foi posto em fuga ou [feito] prisioneiro. Vós sois igualmente Algarvios, sois Soldados Generosos que sem mais auxílio do que o vosso valor fizestes afugentar do Algarve o inimigo, e com o mesmo valor e inexplicável generosidade vos oferecestes voluntários para defender a província do Alentejo, e a mesma capital de Lisboa. Pois companheiros, amigos e Irmãos, estes que vamos combater e vencer são os mesmos cobardes que nos fugiram do Algarve. É verdade que os vereis vestidos de Tigres, mas é porque estão salpicados com o sangue dos inocentes e impossibilitados moradores de Beja e Évora, de cuja maldade, se não tomarmos vingança, aquelas mesmas vítimas inocentes, se as não vingais no sepulcro, os seus ossos rechaçarão os nossos com desprezos, estas honradas palavras não vo-las digo como vosso chefe, se não como um Soldado, como um vosso companheiro que aspira a conduzir-vos à glória: ver-me-eis entrar por entre os inimigos desprezando as suas baionetas, e comendo a morte aos bocados.
Aguiar, 15 de Agosto de 1808, à uma hora da tarde.

Sebastião Martins Mestre, Tenente-Coronel.
Comandante

[Fonte: Continuação da narração dos acontecimentos que occorrerão na vanguarda do Exercito do Algarve comandada pelo Tenente Coronel Sebastião Martins Mestre, apud Alberto Iria, A Invasão de Junot no Algarve, Lisboa, s. ed., 1941, pp. 329-334, pp. 330-331 (Doc. 6)].

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Notas:

Este discurso foi pronunciado na vila de Aguiar (actualmente pertencente a Viana do Alentejo), precisamente antes do chamado Exército do Sul rumar a Alcácer do Sal. Sebastião Martins Mestre, um dos comandantes do dito exército, incentivava os seus soldados com o exemplo dos confrontos que, com escassos meios, venceu em Olhão. Pelos seus feitos desde que tinha começado a rebelião algarvia, a Junta Governativa de Beja tinha-o entretanto condecorando com a patente de Tenente-Coronel (e a José Lopes de Sousa com a referida patente de Marechal de Campo). 


* Sebastião Martins Mestre, ou a pessoa que fixou o texto, equivocou-se quando assentou que os dois citados confrontos ocorreram no dia 17 de Junho, quando os mesmos se passaram na verdade no dia 18 de Junho de 1808, como se poderá confirmar nas fontes sobre a restauração do Algarve principiada em Olhão.