segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Spanish-Patriots attacking the French-Banditti. Loyal Britons lending a lift, caricatura de James Gillray (15 de Agosto de 1808)




Patriotas espanhóis atacando os bandidos franceses. Leais bretões dando uma ajuda.
Caricatura de James Gillray, publicada a 15 de Agosto de 1808.


Publicada no mesmo dia em que Napoleão festejou os seus 39 anos, esta gravura ricamente detalhada satiriza as primeiras derrotas dos exércitos franceses na Espanha, criticando ao mesmo tempo a defesa do Ancien Régime por parte dum exército atípico donde sobressaem monges, bispos, freiras, e homens e mulheres da nobreza espanhola.



Em primeiro plano, à esquerda, duas damas espanholas (uma das quais levando um punhal ensanguentado pendurado à cintura) transportam balas para a boca dum canhão que está a ser calcado com um soquete por um monge, enquanto um nobre prepara-se para lançar fogo à peça com um morrão. No canto inferior esquerdo encontram-se barris de pólvora britânica.





Ao centro, também em primeiro plano, encontram-se freiras que empunham crucifixos e punhais ensanguentados. Uma delas, mais corpulenta, pisa um soldado francês que agoniza no chão, ao mesmo tempo que está prestes a esfaquear outro francês que agarra pelos cabelos, o qual apresenta uma expressão aterrorizada. 



Em segundo plano, no lado esquerdo, sobressaem alguns homens a cavalo, com espadas ensanguentadas, liderados por um bispo (que segura o seu báculo numa mão e na outra uma espada, também ensanguentada) e por um monge gordo que toca uma trombeta para animar a multidão de soldados. Estes últimos estão todos armados com lanças e em formação cerrada, e portam bandeiras com inscrições para animar a hoste: Viva a Liberdade, Vitória Espanhola, Viva o Rei Fernando VII. Note-se que entre o bispo e o monge também se vê uma imagem da Virgem Santa, a qual segura o menino com uma mão e uma espada com a outra. É talvez este o quadro que melhor ilustra a unidade então tão proclamada entre a Pátria, a Religião e a Monarquia.





Os motivos religiosos repetem-se em todo o lado esquerdo da gravura. Ao fundo, aparecem várias pessoas cercando uma grande cruz que está sobre o topo duma montanha, enquanto um pouco mais abaixo a artilharia espanhola (com uma bandeira da Liberdade e Lealdade) abre fogo sobre os franceses.



No lado direito, também ao fundo, vê-se em pequena escala uma multidão de soldados franceses fugindo em debandada, deixando para trás mortos, armas, tambores... Nas suas bandeiras podem-se ler expressões como A morte ou a vitória, Viva o Rei José e Dupont. Para além do cenário montanhoso, a aparição do nome do General Dupont remete inevitavelmente para a batalha de Bailén (no sopé da Sierra Morena), suposto cenário da batalha aqui representada.




No lado direito, em primeiro plano, vê-se um granadeiro britânico a trespassar com a baioneta do seu mosquete a dois dos franceses horrorizados e grotescos que aparecem mais à direita. Na sua barretina estão inscritas as letras G.R., que correspondem à expressão latina George Rex (Rei Jorge). Devemos aqui fazer um parêntesis para sublinhar, em termos de rigor histórico, que o exército britânico não participou na batalha de Bailén (de facto, o exército britânico forneceu pólvora e munições aos espanhóis e o corpo de Spencer chegou a desembarcar no Puerto de Santa María, perto de Cádis, mas pouco depois voltou a embarcar com destino a Portugal, sem ter tido qualquer tipo de confronto contra os franceses durante essa curta estadia no território espanhol). Na verdade, as primeiras tropas britânicas que lutaram contra os franceses na Península foram as comandadas por Wellesley, num pequeno confronto travado a sul de Óbidos, travado precisamente no dia em que esta caricatura foi publicada.


Note-se finalmente que um dos pés do referido granadeiro britânico pisa a bandeira duma suposta Legião Invencível do Exército francês, cujo portador jaz decapitado no chão...

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domingo, 14 de agosto de 2011

Apresentação de O Novo Argonauta, poema de José Agostinho de Macedo, no dia 17 de Setembro de 2011, em Olhão



Fazemos um novo parêntesis na ordem cronológica que estamos a tentar seguir para anunciar que no próximo dia 17 de Setembro, pelas 16:00 horas, irá decorrer a apresentação pública da reedição do poema O Novo Argonauta, de José Agostinho de Macedo, na Sociedade Recreativa Olhanense, com a presença confirmada de António Paula Brito, da parte da APOS (Associação de Valorização do Património Cultural e Ambiental de Olhão), do professor António Rosa Mendes, do Almirante Alexandre da Fonseca e de Nuno de Varennes Ramos Chaves Berquó, pretendente do marquesado de Viana (directamente do Brasil através do Skype).

Depois de ter sido publicado originalmente em 1809, O Novo Argonauta foi alvo de uma segunda edição em 1825, tendo então Agostinho de Macedo acrescentado ao poema algumas anotações novas, bem como um novo prefácio. A actual reedição baseou-se precisamente na segunda, a partir da qual o autor das presentes linhas procedeu a uma revisão ortográfica, complementando a obra com novas anotações, ademais de dois textos que visam nada mais do que contextualiar a época e a obra.
Ainda que em termos poéticos O Novo Argonauta deixe algo a desejar, a sua importância reside no contributo histórico que deu Agostinho de Macedo para perpetuar na literatura a gesta da viagem do caíque Bom Sucesso ao Brasil (o primeiro correio marítimo a levar notícias das revoltas portuguesas à Corte no Rio de Janeiro), à qual aludimos brevemente aqui e aqui, e sobre a qual tentaremos dar o devido destaque num momento mais oportuno.


Os interessados poderão comprar os livros na sessão de apresentação, na Livraria Pátio de Letras em Faro, ou através da APOS (apos@olhao.web.pt), pelo módico custo de 6 euros.

Carta do General Bernardim Freire de Andrade ao General Wellesley (14 de Agosto de 1808)



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor:


Pelo Coronel Trant tive a honra de manifestar a Vossa Excelência a impossibilidade em que me achava depois dos maiores esforços para seguir os movimentos do seu Exército, pela dificuldade de subsistências num país devastado e ocupado ainda pelo inimigo, e pelo pouco tempo que tínhamos tido para fazer vir do Porto ao longo da costa os mantimentos e sobretudo o biscoito que eu havia requerido e que me lisonjeei que Vossa Excelência me poderia fornecer logo que chegássemos a Alcobaça.
Sabendo pelo mesmo Coronel Trant a impossibilidade em que se achava de me fornecer com segurança este alimento indispensável, julguei do meu dever não me reduzir à nulidade, nem comprometer em tais circunstâncias, que naturalmente se agravariam de um dia para outro, a sorte do corpo que me está confiado; e não querendo ao mesmo tempo deixar de cooperar para o feliz êxito desta empresa do modo que me era possível nas actuais circunstâncias, me propus a dirigir para o Tejo, onde a presença das forças que comando poder[ia] ser útil para acelerar a revolução naquele país [=região], e porque ocupando a importante posição de Abrantes e Santarém, poria em sossego as províncias do norte, a quem se devem todos os esforços que puseram em levantar este Exército no menor espaço de tempo possível, do risco a que ficariam expostos se o Exército francês quisesse, ou para evitar o ataque do Exército britânico ou por efeito de desesperação, lançar-se sobre elas para as devastar e ir recolher-se à praça de Almeida, que ainda conserva.
Neste sentido fiz as minhas disposições e o participei ao Senhor Bispo do Porto*, e é depois disto que o mesmo Coronel Trant me comunica que Vossa Excelência, não aprovando esta medida, pretende que eu lhe forneça um corpo de mil homens de Infantaria de Linha, os Caçadores e Cavalaria, que Vossa Excelência se encarregava de sustentar, insinuando-me a responsabilidade a que fica exposto se me recusasse a esta requisição; querendo dar a Vossa Excelência provas da deferência para o bom êxito da empresa que nos ocupa, depois de ouvir o parecer dos Oficiais Generais e Superiores deste Exército, a quem me pareceu preciso consultar para me decidir num assunto de tanto momento, assentou-se geralmente que se devia deferir, quanto fosse possível, à requisição de Vossa Excelência, apesar de nos impossibilitar de algum modo para conseguir o fim que me tinha proposto.
Em consequência disto fiz logo marchar para Alcobaça, como Vossa Excelência o pretendia, dois Batalhões de Infantaria, um Batalhão de Caçadores - único corpo de tropas ligeiras que aqui tinha - e dois Esquadrões de Cavalaria, a que Vossa Excelência quer fornecer mantimentos, que junto a 50 cavaleiros que eu aqui tinha e, com o resto que me fica e com alguma mais que faço vir de Coimbra e Beira, passo a executar o projecto já mencionado, dirigindo-me amanhã a Ourém, e dali a Santarém, logo que os esforços que espero e o maior conhecimento do estado daquele posto nos permitam. Espero que Vossa Excelência, conhecendo a importância desta operação, que concorre eficazmente para facilitar os projectos de Vossa Excelência longe de os contrariar, e que me livra de maior responsabilidade, a que com justa causa ficaria exposto se abandonasse totalmente o cuidado e vigilância pela conservação das províncias a quem este Exército pertence, e que poderiam sofrer muito se uma porção do Exército francês não encontrasse resistência alguma na sua retirada, me fará a justiça de acreditar que os meus desejos serão sempre de conciliar o que devo à minha honra e ao bem de um país cuja sorte me interessa por tantos títulos. E para mostrar a Vossa Excelência quanto é para recear que o inimigo se lembre ainda de algum projecto de retirada, envio a Vossa Excelência a carta inclusa*, que foi interceptada em Tomar, e na qual Vossa Excelência observará as disposições que Loison faz para ter aprovisionamentos prontos em diversos lugares que lhe podem facilitar uma retirada, naturalmente para Elvas. E conhecendo Vossa Excelência a importância que há para o feliz êxito desta expedição, de obrarmos de acordo e de nos comunicarmos mutuamente as notícias que nos interessam, espero que Vossa Excelência quererá enviar para aqui o Coronel Trant ou outro qualquer com quem eu possa comunicar os objectos que nos interessam, o feliz êxito e combinação das nossas operações.
Quartel-General de Leiria, 14 de Agosto de 1808.
De Vossa Excelência,

Bernardim Freire de Andrade.

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, pp. 182-184 (doc. 15)].

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Nota: 

* Estes documentos não se encontram publicados.

Carta do Tenente-Coronel Nicholas Trant ao General Bernardim Freire de Andrade (14 de Agosto de 1808)




Alcobaça, 14 de Agosto de 1808.


Meu General:

Envio-vos uma cópia traduzida duma carta que o General [Wellesley] enviou-me hoje, e que recebi pelo caminho; não posso seguramente acrescentar nada à força dos argumentos que ele utiliza a fim de que vos empenheis na vossa cooperação, ou pelo menos para que abandoneis o vosso plano de campanha. Porém, da mesma maneira amigável que sempre quis empregar nas minhas exposições sobre este assunto, não posso senão recomendar-vos, e pela última vez, pois talvez não haverá tempo de cooperar daqui a três dias, que vos junteis a nós, pois é a única conduta que vos porá ao abrigo da acusação de terdes evitado a oportunidade para dardes apoio às tropas portuguesas para o objectivo da sua independência nacional. Não é o vosso carácter pessoal, meu General, que está em questão. A vossa reputação está estabelecida e informei o General Sir Arthur Wellesley acerca da proposta que haveis feito de comandar o destacamento das vossas tropas agregadas ao nosso Exército; mas é a vossa conduta política que está em questão, e para mim nada mais há a dizer-vos oficialmente sobre este assunto; não posso senão oferecer-vos o aviso dum homem que, tendo estado junto do vosso Quartel-General, sente um interesse a tudo o que vos diz respeito. Aconselho-vos a não persistirdes no vosso plano e a juntardes-vos a nós, e em duas marchas [nos] alcançareis.
Apressadamente, mas com a mais sincera consideração por vós, meu General, o vosso devotado servidor,

Trant


[Ademais da aludida carta de Wellesley a Trant e de uma ordem de marcha dos Exércitos combinados que o General inglês tinha proposto dois dias antes, a remessa da carta acima traduzida incluía ainda o seguinte aditamento de Trant, ditado pelo próprio Wellesley, certamente depois de ambos se terem reunido em Alcobaça*]



Depois de ter desaprovado o plano de operações para Tomar e daí a Santarém, o General [Wellesley] disse:


Tenho uma proposta a fazer ao General Freire: que ele me queira enviar a sua Cavalaria e a sua Infantaria Ligeira com um Corpo de 1.000 homens de tropa de linha, para serem empregados à minha discrição.
Comprometo-me a fornecer pão a esses soldados; e em relação à carne, vinho e forragem, terão uma parte igual do que se pode fornecer às nossas tropas.
Se o General aceita esta proposta, desejaria que esses corpos se reunissem comigo em Alcobaça amanhã; e em caso contrário, peço-lhe que conduza as suas operações da maneira que ele julgue apropriada; pela minha parte, executarei as ordens que recebi do meu Governo sem o apoio do Governo português, e o General Freire terá de se justificar não só ao Governo actual do Reino [= Junta do Porto] e ao seu Príncipe, mas também ao mundo inteiro, por não se ter aprontado com antecedência nesta ocasião interessante, tendo-me recusado o apoio que ele tinha o poder de me dar.



[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, pp. 179 e p. 181 (doc. 14)].

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Nota: 

* Todos estes documentos foram enviados a Bernardim Freire de Andrade traduzidos em francês.

Carta do General Wellesley ao Tenente-Coronel Nicholas Trant (14 de Agosto de 1808)



Alcobaça, 14 de Agosto de 1808.


S.P.M.



Senhor:


O Exército acaba de chegar aqui hoje. O inimigo retirou-se da sua posição durante a noite; avisareis esta circunstância ao General Freire.
É conveniente que vos comunique, para conhecimento do General [Bernardim Freire de Andrade], algumas observações que lhe tenho a fazer sobre o Plano de Operações que ele prevê seguir com o seu corpo do Exército*E em primeiro lugar, devo-lhe assinalar que ele não se considera de modo algum obrigado cooperar as suas forças com as minhas, que por consequência devem ser consideradas como distintas em si mesmas, [embora] sustentando algum objecto no qual as minhas tropas devem ser empregadas.
Quer eu seja muito fraco em termos de números [de homens] para lutar contra o General Junot, ou quer possua meios suficientes, não se poderá assim conciliar uma combinação militar entre as tropas portuguesas e as minhas; pois o meu objectivo é obter a posse de Lisboa, e é isso que necessito absolutamente fazer, sejam quais forem as consequências até que o consiga efectuar, sendo este essencialmente o meio mais eficaz para desapossar os franceses do Reino de Portugal. O inimigo pode livrar uma batalha comigo e então retirar-se, ou pode retirar-se sem lutar, ou até poderá (o que espero ser o menos provável) fugir em debandada; no primeiro caso não tenho nenhum apoio do General Freire, e nos dois primeiros, que espero serem os mais prováveis, devo pela minha parte fixar a minha atenção sobre a ocupação de Lisboa e do Tejo, e deixar o General Junot retirar-se para onde bem lhe pareça.
Consideremos assim o caso que é mais provável, atendendo à sua conduta, no caso de que ele fuja ou seja obrigado a retirar-se, deixando-me assim marchar sem interrupção até Lisboa. Tudo leva a crer que, seguramente, ele lançar-se-á sobre esse corpo do Exército que pode com justiça ser qualificado de Núcleo do Exército português, o pilar da contra-revolução e o suporte da Monarquia, o qual, no estado da sua existência actual, será certamente destruído, caso o General Freire persista em comprometer-se ao ponto de adoptar esse Plano de Operações. Que ele faça um cálculo do estado efectivo relativo aos dois exércitos e que reflicta sobre as consequências duma batalha entre mim e o General Junot. Com a superioridade da sua cavalaria**, é possível que, supondo que obterei sucesso, o [restante] exército de Junot não será suficiente para poder destruir aquele que o General Freire comanda. E Junot terá nesse caso outro objectivo [senão fugir]? Contudo, o General Freire conta com a probabilidade da minha perseguição de Junot, e que eu correrei em seu socorro para evitar o perigo que o ameaçar. Certamente o farei, mas somente se tiver assegurada a posse de Lisboa e do Tejo.
Examinemos agora porque é que esse plano tinha sido adoptado: o General diz que é necessário para [providenciar] a subsistência das tropas. A minha resposta é que não é bem assim, pois ele encontraria subsistências para as suas tropas em todo o lado, e se fizesse boas disposições, seria abastecido com abundância. Nesta mesma vila abasteci-me hoje de pão que teria sido suficiente para todo o Exército português, e estou bastante convencido, segundo esta observação, que a região costeira pela qual devo marchar é a parte mais produtiva de Portugal.
Declaro que o Plano de Operações que foi proposto tem tantos defeitos que recomendaria ao General que se não me quer acompanhar, é melhor que fique em Leiria ou que marche para aqui, onde pode igualmente subsistir, e esperar em toda a segurança o resultado da batalha que deve ocorrer dentro de poucos dias.
Diz-se que o inimigo passou a Óbidos; e eu marcharei amanhã.
Sou,


Arthur Wellesley




Cópia da original e traduzida,


Trant ***

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, pp. 180-181 (incluída no doc. 14)].
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Nota: 

* O aludido novo plano de operações (que não deveria diferir muito do acordado no Conselho Militar a 13 de Agosto) proposto pelo General Bernardim Freire de Andrade foi comunicado a Wellesley numa carta datada do dia 13 de Agosto (a qual, pelo que conseguimos apurar, nunca foi publicada), e tinha sido motivado pela resposta negativa que o General britânico tinha dado, nesse mesmo dia, à requisição que lhe tinha feito o dito General português, através do Tenente-Coronel Nicholas Trant, pedindo que o Comissariado britânico alimentasse com pão o Exército português. .


*Isto, é, a cavalaria portuguesa, com a qual contava Wellesley em caso de batalha, devido aos reduzidos recursos da cavalaria britânica.


**Pouco depois de receber esta carta, Nicholas Trant enviou uma cópia da mesma, traduzida em francês, ao General Bernardim Freire de Andrade. É dessa tradução que deriva a nossa, visto que o texto original em inglês não se encontra compilado na correspondência publicada de Arthur Wellesley.

Notícia publicada na Minerva Lusitana (14 de Agosto de 1808)



Leiria, 14 de Agosto



O Exército inglês, que na noite do dia 13 tinha acampado a sua esquerda em S. Jorge e a direita em Aljubarrota, marchou no dia 14 para Alcobaça, e se lhe foram unir dos nossos, mil fuzileiros, 400 caçadores, e 200 de cavalo. O nosso Exército ocupa ainda hoje o campo de Leiria; mas todas as disposições indicam próximo movimento.

Ordem do dia de Junot sobre uma derrota do exército espanhol e sobre a chegada de reforços ao exército francês em Portugal (14 de Agosto de 1808)



Quartel-General de Lisboa, 14 de Agosto de 1808.

Soldados! Houve uma grande batalha entre o Exército francês e o Exército espanhol reunido nas províncias de Castela e de Galiza, entre Benavente e o Douro: o Exército espanhol foi completamente batido; e perdeu a maior parte da sua artilharia. O General francês prossegue nas suas vantagens; e 20.000 homens do seu Exército entraram em Portugal pela cidade de Bragança. Esta forte Divisão marcha para Lisboa, e em breve, valorosos soldados, podereis abraçar os vossos camaradas. Como eles, haveis contentado a NAPOLEÃO O GRANDE: como eles sereis recompensado: o vosso General em Chefe saberá fazer-vos ante Sua Majestade a justiça que mereceis. Rodeados de inimigos, uma parte dos quais, na verdade, se acha enganada, estejamos sempre prontos a combater e a perdoar!

O Duque de Abrantes.

Por cópia conforme, 
O General, Chefe do Estado-Maior General, 
Thiebault

Carta do Juiz Vereador do Alandroal para Lagarde, sobre o restabelecimento da tranquilidade naquela zona do Alentejo (14 de Agosto de 1808)



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Conselheiro do Governo e Intendente Geral da Polícia do Reino: 

Recebi seis ofícios de V.ª Ex.ª com algumas gazetas dos acontecimentos e notícias de Portugal e da Espanha, que tudo se achava demorado nos correios por causa da revolta do Alentejo. 
Agora não tenho a noticiar a V.ª Ex.ª senão que depois do acontecimento e exemplo da cidade de Évora estamos restituídos ao antigo sossego. 
Deus Guarde a V.ª Ex.ª 
Alandroal, 14 de Agosto de 1808 

O Juiz Vereador José António Paiva[?] 

[Fonte: Arquivo Histórico Militar, 1.ª div., 14.ª sec., cx. 175, doc. 32].

sábado, 13 de agosto de 2011

Assento do Conselho Militar do Exército português em Leiria (13 de Agosto de 1808)



Havendo o Exército português, de acordo com as tropas auxiliares de Sua Majestade Britânica, marchado para Leiria com o intuito de atacar os franceses em Lisboa, e devendo nesse ponto de reunião tomar-se as medidas para a combinação dos movimentos dos dois Exércitos, se achou que o país [=região] por onde o Exército português devia marchar para seguir o movimento destinado dos ingleses, dificultosamente poderia fornecer a subsistência necessária, e que em tal caso a nossa marcha, carecendo de prevenções dificultosas de tomar, e sendo absolutamente regulada pela velocidade com que os víveres nos pudessem seguir, não podia ter aquela brevidade com que o General do Exército britânico se propunha a marchar, pela falta de subsistência, que ele mesmo anunciou; e considerando por outra parte a alternativa em que o dito General punha o General do Exército português, de marchar logo em seu seguimento em direitura a Alcobaça, a tentar a sorte de uma acção geral que devesse decidir da sorte de Portugal ou de reforçar o Exército britânico em contin[g]ente com 1.000 homens de infantaria, com os caçadores e com toda a cavalaria portuguesa, ou finalmente, em último lugar, de obrar só o Exército inglês, ficando porém a responsabilidade de qualquer revés sobre o General Bernardim Freire, se não se prestasse à requisição daquele contingente, assentou este de propor o negócio em conselho com os Generais do Exército e os principais comandantes das diferentes armas, cujo resultado foi o seguinte:
Que se devia assentir à proposição de unir parte da tropa requerida ao Exército inglês, pois que removidas quanto a esta parte as dificuldades de subsistência, convinha muito que tivessem os portugueses parte no fim de empresa tão alta, e a que estes sem auxílio externo tinham dado princípio; porém, que não era conveniente de modo algum dar-se toda a cavalaria e ficar sem alguma o Exército, nem tão pouco o podia ser empenhar-se o Exército português em seguir cegamente as operações das Tropas Auxiliares britânicas, expondo à sorte de uma acção geral todos os nossos recursos, assim de subsistências como de forças, deixando aberto pela nossa esquerda largo campo às suas incursões, e mesmo a projectos mais consequentes, tais como seria a possessão de Coimbra e mesmo vencido este primeiro obstáculo, adiantar-se o inimigo sobre o Porto, centro da nossa união, recursos e Governo, porque havia o duplo objecto não só de ir sobre Lisboa mas ao mesmo tempo o de obstar a qualquer acto de desesperação com que o inimigo comum procurasse em último lugar desembaraçar-se da crítica situação em que se acha, penetrando para a Beira Alta a procurar para si novos subsídios, e a diminuir as nossas forças; matéria esta que não só militarmente, mas também politicamente se devia considerar e atender, tendo em vista as circunstâncias em que se acham os habitantes destas províncias e o seu modo de pensar. 
E que finalmente parecia conveniente, para conseguir os objectos propostos, que o nosso Exército independente, suposto que em correlação com os ingleses, obrasse fazendo uma diversão pela direita do inimigo, pondo-se em posição de atacá-lo de concerto com as tropas da Beira Baixa em Abrantes, se ainda ali se achasse, ou pelo lado de Santarém, e mesmo atacando-o ali seriamente, tendo-se reforçado o Exército com tudo quanto e sem perda de tempo se pudesse a ele reunir; e que a nossa posição, para estar à mão de desempenhar os indicados fins, se devia tomar em Ourém, por ser um lugar dominante e reunir aquelas qualidades essenciais que podem fazer valer as nossas tropas, sem obrigar-nos a grandes manobras, para as quais a nossa tropa sem a necessária prática militar não se pode supor apta. 
Quartel-General de Leiria, 13 de Agosto de 1808.

Aires Pinto de Sousa [Major e Ajudante de Campo].
Luís Gomes de Carvalho [Coronel do Corpo de Engenheiros].
Filipe de Sousa Canavarro [Coronel da Guarda Real da Polícia de Lisboa].




[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, pp. 186-188 (incluído no doc. 17)].

Carta do General Wellesley ao General Bernardim Freire de Andrade (13 de Agosto de 1808)



Quartel-General, Calvaria,  13 de Agosto de 1808.


O Tenente-Coronel Trant informou-me esta manhã acerca da aflição que as vossas tropas poderão estar prestes a sofrer devido à falta de pão, e instou-me seriamente, da parte de Vossa Excelência, para que o Comissariado britânico enviasse pão para as tropas portuguesas*. Devo pedir licença para recordar a Vossa Excelência que disse-vos repetidamente que não tinha poder para abastecer as tropas portuguesas com pão; e de facto, quando Vossa Excelência reflectir sobre a minha situação neste país, na remota esperança que Portugal iria a qualquer momento ver supridas as suas necessidades de pão pelas tropas britânicas, na distância a que estamos da Grã-Bretanha, donde devemos obter o nosso fornecimento de pão perante estas circunstâncias, e, acima de tudo, no facto de que não fiz quaisquer preparativos anteriores para responder a um pedido tão extraordinário da parte de Vossa Excelência, estou convencido que dar-me-eis a justiça de acreditardes que, ao declinar aquiescer com as vossas vontade sobre este assunto, sou levado a agir apenas tendo em conta estas circunstâncias, atendendo à nossa situação no momento presente, circunstâncias essas que podem ter uma influência fatal sobre o sucesso do serviço onde ambos nós estamos empregados. Peço licença para voltar a lembrar que disse a Vossa Excelência, no Porto, que não posso suprir pão às tropas portuguesas; que repeti-vos isto em Montemor-o-Velho e informei-vos nessas duas conferências que deveria pedir vinho e carne para os meus soldados, e palha e grãos para os cavalos e para o gado agregado ao Exército. Marchei para diante a toda a pressa, e com grandes inconvenientes para o Exército, de maneira a obter o depósito formado em Leiria, pois entendi que o mesmo era para o uso da tropas britânicas, mas quando ali cheguei, fui informado pelo Comissariado português que se ele entregasse o pão às minhas tropas, não haveria nenhum para aquelas que estão debaixo do comando de Vossa Excelência, e assim sendo, desisti de o pedir; e de facto nada recebi em Leiria, à excepção de vinho para um dia.
Estou realmente muito preocupado que as tropas de Vossa Excelência venham a sofrer algumas dificuldades; mas deveis estar consciente que não é sobre mim que devem recair os preparativos para abastecê-las; e que não pedi uma parte maior dos recursos do país (particularmente, não pedi pão), mas sim a necessária para as tropas de Sua Majestade [Britânica]; e confio que vereis que é apropriado adoptar alguns preparativos que permitam alimentar eficazmente o Exército que conduzireis para Lisboa; ao mesmo tempo que permitireis que as tropas de Sua Majestade [Britânica] desfrutem daqueles recursos do país que acima mencionei, os quais fazem-lhes falta.
Como agora é certo que o General Loison marchou de Tomar para Torres Novas, não vejo que possa resultar inconveniente algum em Vossa Excelência parar em Leiria hoje ou talvez amanhã; em cujo momento espero que tenhais tido o poder de fazer os preparativos que recomendei para os vossos abastecimentos.
Tenho a honra de ser, Senhor, o mais obediente e humilde servidor de Vossa Excelência.

Arthur Wellesley

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, pp. 175-176 (doc. 13)].
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Nota: 

É estranho que Bernardim Freire de Andrade tenha voltado a fazer tal requerimento, não só pelas razões que Wellesley expõe nesta carta, mas sobretudo porque, aparentemente, tal assunto não tinha sido abordado na noite anterior, quando ambos os Generais se encontraram em Leiria, onde ficara acordado plano de marcha proposto pelo General britânico e inclusive a hora de partida das tropas portuguesas, como contará Wellesley a Lord Castelereagh, em carta de 16 de Agosto

Notícia publicada na Minerva Lusitana (13 de Agosto de 1808)



Leiria, 13 de Agosto.


Toda a estrada desde Coimbra até Leiria está tão deserta, que não dá o menor indício de guerra. O nosso Exército combinado chegou aqui na melhor ordem, disciplina, harmonia e disposição, que só se pode imaginar. É muito para admirar que nem um único soldado ficasse atrás.
O nosso Exército acantonado em Pombal fez ontem um movimento geral para adiantar-se e unir-se ao Exército inglês em Leiria.
Hoje chegaram 3 franceses presos por uma patrulha nossa em Tomar.
O General Wellesley tem já uma boa carta[=mapa] destes contornos.
Pelas 7 horas da manhã saiu daqui hoje uma Brigada inglesa para diante, composta de 1.500 homens.
Todo o Exército marchou também.



Carta do Bispo do Porto ao General Bernardim Freire de Andrade (13 de Agosto de 1808)



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor:

Tenho por certo que esta [carta] vai aparecer a Vossa Excelência em marcha para Lisboa; não posso ocultar-lhe o cuidado que me aflige bastante, se terão esses malditos cortado ou minado as estradas para Lisboa; não estou livre de cuidado a respeito de franceses pelo norte, porque diferentes cartas de Espanha concordam em que andam doze a treze mil homens no Reino de Leão, e na Junta daquele Governo tem havido alguma desordem por causa de traidores, dos quais um já se acha preso. Para Lamego marchou o Regimento de Basto e para Amarante dois Esquadrões de Braga, para poderem com mais brevidade acudir onde convier. Agradeço muito a Vossa Excelência o mimo das suas muito eloquentes proclamações*, que espero [que] sejam muito úteis para animar os nossos aflitos lisboetas; se eles fizerem como os matritenses [=madrilenos], bem estamos. Na ida de Sebastião Correia [Superintendente da Alfândega do Porto] não há dúvida alguma, senão uma resposta que ele espera de Vossa Excelência. Tenho em toda a consideração uma carta que recebi do Sr. Nuno Freire, e responderei como o caso pede.
Deus guarde a Vossa Excelência muitos anos.
Porto, 13 de Agosto de 1808.
De Vossa Excelência muito atento venerador e obrigado,

Bispo Presidente Governador

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, p. 176 (doc. 12)].

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Nota: 


sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Carta de Manuel Pais d'Aragão Trigoso, Vice-Reitor da Universidade de Coimbra, ao General Bernardim Freire de Andrade (12 de Agosto de 1808)




Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor:


Vou comunicar a Vossa Excelência notícias da última e mais séria importância, que acabam de comunicar-se-me de viva voz, mandadas imediatamente de Lisboa por pessoa da minha amizade, e também da de Vossa Excelência. O portador aí há de ir, mas não pode chegar tão cedo como esta carta, que mando por um correio. A principal notícia que interessa mais saber-se logo para a direcção do Exército é que a coluna do inimigo comandada por Laborde, que está em Rio Maior, serve só de força para entreter o Exército português, e entretanto marchar o que se acha em Tomar para vir arrasar Coimbra, que tem sido a pedra de escândalo em todos os Conselhos de Estado; a certeza de estar já em Tomar esta coluna já aí há de constar; e o resto, uma vez que foi deliberado e decidido em Conselho de Estado, é bem de esperar [que] se execute. A minha cabeça é de pouco interesse para o Estado, mas a ruína total, decretada, de Coimbra, merece toda a contemplação, e não deve olhar-se como coisa indiferente. Queira Vossa Excelência pensar seriamente e prontamente sobre este objecto, certo de que não é o medo e a cobardia quem medita o que lhe digo, mas sim o saber que não me engana quem me manda comunicar o que lhe digo.
Deus guarde a Vossa Excelência muitos anos.
Coimbra, 12 de Agosto de 1808, às nove horas da noite.

De Vossa Excelência o mais atento fiel e obrigado criado,

Manuel Pais d'Aragão Trigoso

[Fonte: António Pedro Vicente, "Um soldado da Guerra Peninsular - Bernardim Freire de Andrade e Castro", in Boletim do Arquivo Histórico Militar, n.º 40, 1970, pp. 202-571, pp. 439-440].

Ordem de marcha do Exército Anglo-Luso (12 de Agosto de 1808)




Leiria, 12 de Agosto de 1808.


[...] O Exército marchará amanhã às 4 horas da manhã em duas colunas, pela sua direita. A coluna da direita é composta pelo Regimento n.º 20 de Dragões ligeiros, pelo Estado-Maior, pelas 6.ª, 1.ª, 3.ª e 5.ª Brigadas de Infantaria, o Parque de Artilharia, e o Depósito do Comissariado. Esta coluna será conduzida pelo major Rainey, Ajudante do Quartel-Mestre-General. O Capitão Gomme conduzirá a 3.ª e a 5.ª Brigada na segunda linha, através da cidade [de Leiria].
A coluna da esquerda, composta por cinquenta Dragões do 20.º e por cinquenta da Cavalaria portuguesa, pelas 2.ª e 3.ª brigadas de Infantaria e pelas Tropas portuguesas, passará pela Batalha. Esta coluna será conduzida pelo Capitão Langton. O Alferes Laing, do Estado-Maior, conduzirá a 4.ª Brigada a partir da sua actual posição, através da vila.
Todos os carros seguirão junto à coluna da direita. Uma peça de artilharia, sem trem, irá com a coluna da esquerda; o resto da meia Brigada de artilharia, agregada à segunda Brigada, reunir-se-á e acompanhará o parque [de artilharia]. [...]

Arthur Wellesley.

[Fonte: Supplementary Despatches and Memoranda of Field Marshal Arthur, Duke of Wellington, K.G. - Vol. VI, London, John Murray, 1860, pp. 111-112. Existe uma tradução francesa desta ordem, com pequenas modificações, que o Tenente-Coronel Nicholas Trant enviou ao General Bernardim Freire de Andrade a 14 de Agosto, e publicada posteriormente por Luís Henrique Pacheco Simões (org.), na "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, pp. 181-182 (incluída no doc. 14)].

Notícia publicada na Minerva Lusitana (12 de Agosto de 1808)




Almofala, 12 de Agosto.


Ontem pelas duas horas chegou à vila de Tomar um corpo de tropas francesas comandadas pelo General Loison, que assomavam a três para quatro mil homens. Estiveram acampados nos Olivais de S. André, arrebalde da dita vila, não entrando nela senão alguma cavalaria. Os motivos que obrigaram aquela tropa a dirigir-se inopinadamente para a vila de Tomar foram, dizia o General, para auxiliar e proteger os habitantes dela; mas a protecção não só não foi notável, porque não fizeram roubos dentro da vila, mas até durou pouco tempo, porque na manhã do dia seguinte aquele bando de protectores se retirou precipitadamente pelas nove horas, seguindo a estrada de Torres Novas, e deixando no campo alguns artigos que tinham roubado nos contornos, como roupas; e vários utensílios que tinham trazido, como caldeiras, etc. Souberam, por notícias que naquela vila se tinham derramado, que um corpo das nossas tropas, que montava a 3.000 homens, se achava já em Aldeia da Cruz; salteados de terror, curaram só de salvar-se, e se retiraram pressurosos.



Ordem de Junot a Domingos Vandelli, Director do Gabinete de História Natural da Ajuda (12 de Agosto de Junho de 1808)



Vista e aprovada a escolha de objectos de história natural da Ajuda, feita pelo sr. Geoffroy Saint-Hilaire, membro do Instituto e comissário de Sua Excelência o Ministro do Interior, consistindo a dita escolha, a saber, no seguinte resumo:


1.º Do reino animal:


Espécies
Exemplares
Em mamíferos
65
76
Em aves
238
384
Em reptéis
25
32
Em peixes
89
97
Em conchas
277
468
Em crustáceos
5
12
Em insectos
293
538

2.º Do reino vegetal, em 2.855 plantas secas e 25 pacotes de outras produções;


3.º Do reino mineral, em 59 artigos.


Autorizamos o sr. Geoffroy Saint-Hilaire a mandar encaixotar e a enviar todos estes objectos para Paris, para o endereço de Sua Excelência o Ministro do Interior.
A presente minuta ficará depositada nas mãos do sr. Vandelli, director geral das colecções da Ajuda, para lhe servir de recibo.
Feito em Lisboa, 12 de Agosto de 1808.


O Duque de Abrantes.


Por cópia conforme à minuta que fica na minha posse, em Lisboa, a 13 de Agosto de 1808.


D. Vandelli


[Fonte: E.-T. Hamy, "La mission de Geoffroy Saint-Hilaire en Espagne et en Portugal (1808). Histoire et documents", in Nouvelles Archives du Muséum d'Histoire Naturelle, Quatrième série - Tome dixième, Paris, Masson et C. Éditeurs, 1908, pp. 1-66, pp. 65-66].

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Notícia publicada na Minerva Lusitana (11 de Agosto de 1808)



Coimbra, 11 de Agosto.


Ontem pelas duas horas da tarde saiu desta cidade o Excelentíssimo General em Chefe Bernardim Freire de Andrada [sic], acompanhado do Coronel inglês Sir Trant; e algumas horas depois o Estado-Maior, sendo precedidos de uma parte considerável do nosso Exército, que muitos dias antes tinha começado a desfilar, e continuam a sair os diferentes corpos da primeira Divisão. Em Leiria, onde deverá ter chegado um corpo de 4.000 ingleses, se há de encontrar o sobredito General com Sir Wellesley, Comandante em Chefe das tropas britânicas auxiliares de Portugal.


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Nota: 

Esta notícia era antecedida pela publicação da proclamação de Cotton e Wellesley datada de 4 de Agosto de 1808.

Proclamação do General Comandante do Exército Português aos seus Soldados (11 de Agosto de 1808)






quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Proclamação do General Comandante do Exército Português aos Soldados do Exército Francês em Portugal (10 de Agosto de 1808)



Soldados do Exército Francês! 

É chegado o momento de falar sem rebuço a quem se recusou até agora de entender a linguagem da razão. 
Abri os olhos, Soldados, sobre o abismo imenso de males que cavou debaixo de vossos pés a ambição insensata do vosso Imperador, a impolítica, a avareza e a barbaridade sanguinária dos vossos Generais. 
Escutai a voz e o clamor de um Exército que tem provado que se pode ser Soldado e humano, e reunir no mesmo peito o mais intrépido valor com a Religião e a Moral. 
Que esperais vós do Exército de portugueses, de bravos ingleses, de feros espanhóis, nossos caros aliados, inimigos jurados do vosso Governo, que há atrozmente afrontado uns e perseguido outros? Forjar grilhões à vossa pátria, ou perder a vista no campo da batalha. Que triste alternativa! Contudo, é essa a vossa sorte. 
Mas um Príncipe Aliado, e traído...! Mas um povo hospitaleiro, e roubado...! Mas uma nação pacífica, e assassinada...! reclama a nossa vingança. 
Um só meio vos resta de evitar tão dura sorte. Abandonai as vossas bandeiras: vinde unir-vos aos nossos Exércitos; e em nome do Príncipe e em nome da nação vos prometo que sereis tratados como amigos, e tereis o prazer de tornar um dia às vossas famílias desoladas pela dor da vossa perda. 
Este conselho, nem o Dever, nem a Honra bem entendida, o encontram. 
Mas, Soldados, se há alguns entre vós insensíveis às doces emoções da Religião e da Humanidade, que eles não desamparem os seus postos: Tais monstros são, pelo menos, um fardo pesado ao Universo: Eles são bem dignos da causa que defendem, e da recompensa que os espera. 
Soldados, tomai o vosso partido, enquanto é tempo: O nosso está tomado. 
Dado no Quartel-General do Exército Português, 10 de Agosto de 1808. 


[Fonte: Utilizámos para a presente transcrição um exemplar impresso desta proclamação, compilado, entre vários outros textos, num volume disponível na Biblioteca Nacional de Portugal, com a cota  S. C. 8439//5. Existe uma outra versão desta mesma proclamação, derivada provavelmente duma retradução, no Correio Braziliense de Novembro de 1808, pp. 439-440].

Carta do General Bernardim Freire de Andrade ao Bispo do Porto (10 de Agosto de 1808)



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor:

Amanhã que se contam 11 do corrente [mês], sairemos deste Quartel-General em direitura para Leiria e Estrada-Nova, para com o Exército de Sua Majestade Britânica continuarmos as operações de que estamos encarregados e de cujo resultado darei parte a Vossa Excelência. Lembro a Vossa Excelência que o transporte das munições e mantimentos, sobretudo biscoito, se deve fazer ao longo da costa, mas cumpre que ele se faça quanto antes, por serem objectos da primeira necessidade e a sua falta da mais funesta consequência. Há a mesma, senão maior, de dinheiro para fornecimento da Caixa Militar, o que tantas vezes tenho representado a Vossa Excelência. Ele pode ser dirigido a Leiria por Montemor-o-Velho pelo caminho à borda do mar. Sendo muito natural que alguma Divisão inimiga desgarrada se proponha penetrar estas províncias do norte, o que deixo providenciado segundo me foi possível, é de razão que se continuem as necessárias precauções e se tomem na ocasião todos os meios de defesa. E porque Coimbra é o ponto mais exposto e importante, queira Vossa Excelência enviar logo para aqui mais algumas munições, artilheiros e a cavalaria que se puder dispensar. 
Deus guarde a Vossa Excelência.
Quartel-General de Coimbra, 10 de Agosto de 1808.

Bernardim Freire de Andrada [sic].


P.S. Novas instâncias do Exército britânico me obrigam a adiantar-me eu, hoje mesmo, até Leiria.

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, p. 173 (doc. 9)].