sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Carta de Manuel Pais d'Aragão Trigoso, Vice-Reitor da Universidade de Coimbra, ao General Bernardim Freire de Andrade (12 de Agosto de 1808)




Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor:


Vou comunicar a Vossa Excelência notícias da última e mais séria importância, que acabam de comunicar-se-me de viva voz, mandadas imediatamente de Lisboa por pessoa da minha amizade, e também da de Vossa Excelência. O portador aí há de ir, mas não pode chegar tão cedo como esta carta, que mando por um correio. A principal notícia que interessa mais saber-se logo para a direcção do Exército é que a coluna do inimigo comandada por Laborde, que está em Rio Maior, serve só de força para entreter o Exército português, e entretanto marchar o que se acha em Tomar para vir arrasar Coimbra, que tem sido a pedra de escândalo em todos os Conselhos de Estado; a certeza de estar já em Tomar esta coluna já aí há de constar; e o resto, uma vez que foi deliberado e decidido em Conselho de Estado, é bem de esperar [que] se execute. A minha cabeça é de pouco interesse para o Estado, mas a ruína total, decretada, de Coimbra, merece toda a contemplação, e não deve olhar-se como coisa indiferente. Queira Vossa Excelência pensar seriamente e prontamente sobre este objecto, certo de que não é o medo e a cobardia quem medita o que lhe digo, mas sim o saber que não me engana quem me manda comunicar o que lhe digo.
Deus guarde a Vossa Excelência muitos anos.
Coimbra, 12 de Agosto de 1808, às nove horas da noite.

De Vossa Excelência o mais atento fiel e obrigado criado,

Manuel Pais d'Aragão Trigoso

[Fonte: António Pedro Vicente, "Um soldado da Guerra Peninsular - Bernardim Freire de Andrade e Castro", in Boletim do Arquivo Histórico Militar, n.º 40, 1970, pp. 202-571, pp. 439-440].

Ordem de marcha do Exército Anglo-Luso (12 de Agosto de 1808)




Leiria, 12 de Agosto de 1808.


[...] O Exército marchará amanhã às 4 horas da manhã em duas colunas, pela sua direita. A coluna da direita é composta pelo Regimento n.º 20 de Dragões ligeiros, pelo Estado-Maior, pelas 6.ª, 1.ª, 3.ª e 5.ª Brigadas de Infantaria, o Parque de Artilharia, e o Depósito do Comissariado. Esta coluna será conduzida pelo major Rainey, Ajudante do Quartel-Mestre-General. O Capitão Gomme conduzirá a 3.ª e a 5.ª Brigada na segunda linha, através da cidade [de Leiria].
A coluna da esquerda, composta por cinquenta Dragões do 20.º e por cinquenta da Cavalaria portuguesa, pelas 2.ª e 3.ª brigadas de Infantaria e pelas Tropas portuguesas, passará pela Batalha. Esta coluna será conduzida pelo Capitão Langton. O Alferes Laing, do Estado-Maior, conduzirá a 4.ª Brigada a partir da sua actual posição, através da vila.
Todos os carros seguirão junto à coluna da direita. Uma peça de artilharia, sem trem, irá com a coluna da esquerda; o resto da meia Brigada de artilharia, agregada à segunda Brigada, reunir-se-á e acompanhará o parque [de artilharia]. [...]

Arthur Wellesley.

[Fonte: Supplementary Despatches and Memoranda of Field Marshal Arthur, Duke of Wellington, K.G. - Vol. VI, London, John Murray, 1860, pp. 111-112. Existe uma tradução francesa desta ordem, com pequenas modificações, que o Tenente-Coronel Nicholas Trant enviou ao General Bernardim Freire de Andrade a 14 de Agosto, e publicada posteriormente por Luís Henrique Pacheco Simões (org.), na "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, pp. 181-182 (incluída no doc. 14)].

Notícia publicada na Minerva Lusitana (12 de Agosto de 1808)




Almofala, 12 de Agosto.


Ontem pelas duas horas chegou à vila de Tomar um corpo de tropas francesas comandadas pelo General Loison, que assomavam a três para quatro mil homens. Estiveram acampados nos Olivais de S. André, arrebalde da dita vila, não entrando nela senão alguma cavalaria. Os motivos que obrigaram aquela tropa a dirigir-se inopinadamente para a vila de Tomar foram, dizia o General, para auxiliar e proteger os habitantes dela; mas a protecção não só não foi notável, porque não fizeram roubos dentro da vila, mas até durou pouco tempo, porque na manhã do dia seguinte aquele bando de protectores se retirou precipitadamente pelas nove horas, seguindo a estrada de Torres Novas, e deixando no campo alguns artigos que tinham roubado nos contornos, como roupas; e vários utensílios que tinham trazido, como caldeiras, etc. Souberam, por notícias que naquela vila se tinham derramado, que um corpo das nossas tropas, que montava a 3.000 homens, se achava já em Aldeia da Cruz; salteados de terror, curaram só de salvar-se, e se retiraram pressurosos.



Ordem de Junot a Domingos Vandelli, Director do Gabinete de História Natural da Ajuda (12 de Agosto de Junho de 1808)



Vista e aprovada a escolha de objectos de história natural da Ajuda, feita pelo sr. Geoffroy Saint-Hilaire, membro do Instituto e comissário de Sua Excelência o Ministro do Interior, consistindo a dita escolha, a saber, no seguinte resumo:


1.º Do reino animal:


Espécies
Exemplares
Em mamíferos
65
76
Em aves
238
384
Em reptéis
25
32
Em peixes
89
97
Em conchas
277
468
Em crustáceos
5
12
Em insectos
293
538

2.º Do reino vegetal, em 2.855 plantas secas e 25 pacotes de outras produções;


3.º Do reino mineral, em 59 artigos.


Autorizamos o sr. Geoffroy Saint-Hilaire a mandar encaixotar e a enviar todos estes objectos para Paris, para o endereço de Sua Excelência o Ministro do Interior.
A presente minuta ficará depositada nas mãos do sr. Vandelli, director geral das colecções da Ajuda, para lhe servir de recibo.
Feito em Lisboa, 12 de Agosto de 1808.


O Duque de Abrantes.


Por cópia conforme à minuta que fica na minha posse, em Lisboa, a 13 de Agosto de 1808.


D. Vandelli


[Fonte: E.-T. Hamy, "La mission de Geoffroy Saint-Hilaire en Espagne et en Portugal (1808). Histoire et documents", in Nouvelles Archives du Muséum d'Histoire Naturelle, Quatrième série - Tome dixième, Paris, Masson et C. Éditeurs, 1908, pp. 1-66, pp. 65-66].

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Notícia publicada na Minerva Lusitana (11 de Agosto de 1808)



Coimbra, 11 de Agosto.


Ontem pelas duas horas da tarde saiu desta cidade o Excelentíssimo General em Chefe Bernardim Freire de Andrada [sic], acompanhado do Coronel inglês Sir Trant; e algumas horas depois o Estado-Maior, sendo precedidos de uma parte considerável do nosso Exército, que muitos dias antes tinha começado a desfilar, e continuam a sair os diferentes corpos da primeira Divisão. Em Leiria, onde deverá ter chegado um corpo de 4.000 ingleses, se há de encontrar o sobredito General com Sir Wellesley, Comandante em Chefe das tropas britânicas auxiliares de Portugal.


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Nota: 

Esta notícia era antecedida pela publicação da proclamação de Cotton e Wellesley datada de 4 de Agosto de 1808.

Proclamação do General Comandante do Exército Português aos seus Soldados (11 de Agosto de 1808)






quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Proclamação do General Comandante do Exército Português aos Soldados do Exército Francês em Portugal (10 de Agosto de 1808)



Soldados do Exército Francês! 

É chegado o momento de falar sem rebuço a quem se recusou até agora de entender a linguagem da razão. 
Abri os olhos, Soldados, sobre o abismo imenso de males que cavou debaixo de vossos pés a ambição insensata do vosso Imperador, a impolítica, a avareza e a barbaridade sanguinária dos vossos Generais. 
Escutai a voz e o clamor de um Exército que tem provado que se pode ser Soldado e humano, e reunir no mesmo peito o mais intrépido valor com a Religião e a Moral. 
Que esperais vós do Exército de portugueses, de bravos ingleses, de feros espanhóis, nossos caros aliados, inimigos jurados do vosso Governo, que há atrozmente afrontado uns e perseguido outros? Forjar grilhões à vossa pátria, ou perder a vista no campo da batalha. Que triste alternativa! Contudo, é essa a vossa sorte. 
Mas um Príncipe Aliado, e traído...! Mas um povo hospitaleiro, e roubado...! Mas uma nação pacífica, e assassinada...! reclama a nossa vingança. 
Um só meio vos resta de evitar tão dura sorte. Abandonai as vossas bandeiras: vinde unir-vos aos nossos Exércitos; e em nome do Príncipe e em nome da nação vos prometo que sereis tratados como amigos, e tereis o prazer de tornar um dia às vossas famílias desoladas pela dor da vossa perda. 
Este conselho, nem o Dever, nem a Honra bem entendida, o encontram. 
Mas, Soldados, se há alguns entre vós insensíveis às doces emoções da Religião e da Humanidade, que eles não desamparem os seus postos: Tais monstros são, pelo menos, um fardo pesado ao Universo: Eles são bem dignos da causa que defendem, e da recompensa que os espera. 
Soldados, tomai o vosso partido, enquanto é tempo: O nosso está tomado. 
Dado no Quartel-General do Exército Português, 10 de Agosto de 1808. 


[Fonte: Utilizámos para a presente transcrição um exemplar impresso desta proclamação, compilado, entre vários outros textos, num volume disponível na Biblioteca Nacional de Portugal, com a cota  S. C. 8439//5. Existe uma outra versão desta mesma proclamação, derivada provavelmente duma retradução, no Correio Braziliense de Novembro de 1808, pp. 439-440].

Carta do General Bernardim Freire de Andrade ao Bispo do Porto (10 de Agosto de 1808)



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor:

Amanhã que se contam 11 do corrente [mês], sairemos deste Quartel-General em direitura para Leiria e Estrada-Nova, para com o Exército de Sua Majestade Britânica continuarmos as operações de que estamos encarregados e de cujo resultado darei parte a Vossa Excelência. Lembro a Vossa Excelência que o transporte das munições e mantimentos, sobretudo biscoito, se deve fazer ao longo da costa, mas cumpre que ele se faça quanto antes, por serem objectos da primeira necessidade e a sua falta da mais funesta consequência. Há a mesma, senão maior, de dinheiro para fornecimento da Caixa Militar, o que tantas vezes tenho representado a Vossa Excelência. Ele pode ser dirigido a Leiria por Montemor-o-Velho pelo caminho à borda do mar. Sendo muito natural que alguma Divisão inimiga desgarrada se proponha penetrar estas províncias do norte, o que deixo providenciado segundo me foi possível, é de razão que se continuem as necessárias precauções e se tomem na ocasião todos os meios de defesa. E porque Coimbra é o ponto mais exposto e importante, queira Vossa Excelência enviar logo para aqui mais algumas munições, artilheiros e a cavalaria que se puder dispensar. 
Deus guarde a Vossa Excelência.
Quartel-General de Coimbra, 10 de Agosto de 1808.

Bernardim Freire de Andrada [sic].


P.S. Novas instâncias do Exército britânico me obrigam a adiantar-me eu, hoje mesmo, até Leiria.

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, p. 173 (doc. 9)].

Carta do Bispo do Porto a D. Miguel Pereira Forjaz, Brigadeiro Ajudante General do Exército português (10 de Agosto de 1808)



Na grande confiança que Vossa Excelência  tem em Deus Nosso Senhor, lhe considero o maior socorro nos seus grandes e incessantes trabalhos e no que eu puder concorrer para o mesmo fim, não faltarei.
Joaquim de Castro ou entendeu mal ou não disse bem; Vossa Excelência o conhecerá assim logo que ele volte da Beira. Ele está incumbido da Inspecção das Milícias, de que Vossa Excelência o incumbiu; somente lembrou que seria conveniente algum título que o fizesse reconhecer como tal, porque o mero facto poderá não ser bastante.
Isto foi o que ocorreu e nada mais.
Deus guarde a Vossa Excelência muitos anos.
Porto, 10 de Agosto de 1808.
De Vossa Excelência muito obsequioso e obrigado,

Bispo, Presidente e Governador

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, pp. 174-175 (doc. 11)].

Carta do Bispo do Porto ao General Bernadim Freire de Andrade (10 de Agosto de 1808)



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor:

Bem certo estou em que Vossa Excelência por sua vontade não me demoraria um momento o gosto de me dar muito boas notícias suas, porque tenho nelas o maior interesse. Estimo muito que Vossa Excelência fizesse com feliz sucesso a sua jornada; queira Nosso Senhor que a possa continuar e concluir como eu desejo e nos convém.
O nosso Serpa (segundo me parece) vai satisfeito, e eu também o fico, esperando que a Vossa Excelência suceda o mesmo, vendo que os ofícios que me mandou vão plenamente satisfeitos, à excepção de pequenas coisas de que espero explicação. O Ministro que ainda não estava, não poderia ainda ter chegado*; agora já deverá estar no Exército; se não servir bem, darei logo providência. Todas as propostas estão na Junta para serem expedidas, e António da Silva, cuja honra é bem conhecida, tem a seu cargo a expedição delas, e eu incessantemente as recomendo. Remeto a Vossa Excelência as notícias que aqui têm concorrido; elas são favoráveis, graças a Nosso Senhor, mas eu ainda não as considero decisivas a respeito das tropas [francesas] de Burgos e lugares adjacentes, e nesta consideração ainda me dão cuidado as províncias do norte, e por isso muito estimo que Vossa Excelência mandasse armas a Bacelar, que estava inconsolável com a falta delas, e eu, se não mais, não menos. Quanto a dinheiros, devemos esperar em Deus Nosso Senhor que não faltem, ainda que de Inglaterra não venham, porque Deus Nosso Senhor não necessita dos ingleses, mas nós sim, procedendo humanamente; e porque em matéria de tão graves consequências e responsabilidade têm demasiado peso, dirijo a Vossa Excelência o ofício incluso a este respeito**; até lembrando-me de que ele poderá ter lugar em alguma conferência com o General inglês, que, conhecendo o nosso aperto, talvez nos possa socorrer com algum dinheiro do que traz, enquanto não chega o que se espera de Inglaterra. Vamos todos de comum acordo, sabendo todos a verdade e conhecendo de longe os perigos e as dificuldades para se poderem remediar antes que cheguem até onde nós pudermos chegar com o auxílio de Deus Nosso Senhor. Peço a Vossa Excelência que, da minha parte, participe ao Governador dessa cidade as notícias inclusas e que depois em meu nome as mande remeter ao General Wellesley. Já mandei vir os 300 homens de Viana e as tropas espanholas já têm aviso para partirem, e por toda esta semana partirão. Parte hoje o Regimento de Cavalaria que aqui se achava, e vai descontente por falta de promoção, pretendendo ao mesmo tempo que não entrem nele oficiais de fora; eu respondi que em parte tinham razão, mas que as mãos do Soberano não podiam ser ligadas. Nosso Senhor conceda a Vossa Excelência muito feliz saúde e forças para o grande trabalho dessa campanha. Terei toda a satisfação em poder agradar a Vossa Excelência e em que se persuada e todos que sou de Vossa Excelência amigo e obsequioso venerador e obrigado.

Bispo Presidente e Governador

10 de Agosto de 1808.

[P.S.] Nesta carta respondo igualmente ao ofício que recebo de Vossa Excelência no dia de ontem pelas 11 horas.

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, pp. 173-174 (doc. 10)].

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Notas:

** Trata-se do "ministro autorizado que faça pôr em movimento todas as molas desta máquina", o qual tinha sido requerido por Bernardim Freire de Andrade ao Bispo do Porto, em carta de 6 de Agosto

** Desconhecemos que ofício seria este, ainda que, pelo contexto, se possa supor que se tratasse do edital que a Junta do Porto publicara a 8 de Agosto, o qual visava precisamente o reforço económico necessário para "sustentação do Exército que vai cada vez mais a aumentar-se na justíssima causa da defesa do Reino".

Memorando para consideração, sobre as medidas que se projectaram perante as actuais circunstâncias em Espanha e Portugal, por Lord Castlereagh (10 de Agosto de 1808)




10 de Agosto de 1808 


A redução do exército de Dupont, o regresso a Madrid dos restantes corpos de Moncey, e a retirada de Bessières de Leão e Benavente, indicam que o inimigo tenciona concentrar-se em Madrid ou retirar-se para Burgos. Estando assim as forças espanholas das províncias meridionais livres e capazes de se moverem para a capital, não é provável (a não ser que chegue um reforço poderoso) que o inimigo se aventure a sustentar Junot em Portugal. 
Se a retirada de Junot for dilatada até à chegada da totalidade da força britânica a Portugal, pode-se considerar que o destino do seu exército está decidido; e o Gabinete deve encarregar-se de determinar quais serão os passos que se devem seguir. 
Se os franceses tentarem manter-se em Madrid, pode-se esperar que a totalidade da força que o circunda, vinda da Andaluzia, Múrcia, Valência, Extremadura e Galiza, acabará por obrigá-los a retirarem-se daquela posição, se não pela força, pelo menos devido à fome. 
Para ajudar os esforços dos espanhóis, seria contudo bastante importante que se enviasse, a partir de Portugal, toda a cavalaria que possa ser sobressalente, quer britânica, quer portuguesa. Se um corpo de infantaria ligeira britânica de 8 ou 10.000 homens for suficiente para sustentar os seus esforços, servindo igualmente como protecção da nossa própria cavalaria, poder-se-á equipar rapidamente um corpo deste tamanho, mandando-o avançar; mas isto não deve interferir materialmente com as outras operações, que são talvez de maior importância do que mandar-se fazer um movimento avançado tendo o resto de todo o exército britânico no lado de Portugal, e sendo tal movimento demorado, por necessariamente ter que ser feito com equipamentos*, e exposto a ter o seu preciso objectivo frustrado com a retirada antecipada do inimigo de Madrid.
Assumindo que esta observação sobre a situação relativa dos exércitos beligerantes está provavelmente correcta, parece que é da maior importância - de forma a embaraçar o avanço dos reforços da França, e para se conseguir, se possível, a rendição final de todo o exército francês - darmos força, através dos meios em nosso poder, aos esforços das províncias setentrionais, particularmente as Astúrias e as províncias do levante, cuja permanência sobre as armas dependerá em grande parte da presença e da protecção dos corpos britânicos.
Para este objectivo seria desejável que se destacasse daqui uma força considerável, tanto de infantaria como de cavalaria, para agir em união com os recrutamentos de espanhóis daquela parte, a fim de finalmente ameaçar o flanco e a retaguarda da linha de operações do inimigo. Este corpo pode ser composto por tropas britânicas suficientemente autónomas para embaraçar consideravelmente as operações dos franceses, sem enfraquecer prematuramente o exército em Portugal; contudo, se não houver hipóteses de atacar naquela parte, e se a força [espanhola] que se move em direcção a Madrid compelir o inimigo a retirar-se em direcção à sua própria fronteira, seria apropriado então embarcar uma parte tão grande da força em Portugal quanto a que pudesse estar de reserva em Lisboa, sem que isto exponha a segurança interna do país, para se ir juntar aos corpos britânicos no norte da Espanha. Se, através de tal movimento, 30.000 tropas britânicas, sustentadas pelos exércitos espanhóis das Astúrias e de Aragão, conseguirem agir na linha de comunicações dos inimigos, estes ficarão bastante pressionados, por estarem também diante das forças que os afastaram de Madrid; não será então demais esperar que tais divisões do exército inimigo, ao tentarem retirar-se pelos Pirenéus Ocidentais, serão obrigadas a render-se, ou procurarão retirar-se através da Espanha, em circunstâncias difíceis e dificuldades extremas.
Lord Castlereagh julgou que tinha o dever de levar estas considerações aos seus colegas, a fim deles poderem agora fazer as suas determinações sobre os princípios como a guerra em Espanha e Portugal deve ser conduzida daqui para diante. 
O Gabinete sentirá que é urgente que tome uma rápida decisão, pois Sir Hew Dalrymple não tem instruções exactas para além da ocupação de Lisboa, da segurança de Cádis, e da redução de Dupont. Inicialmente considerou-se  que não se podia decidir adequadamente quais seriam as medidas posteriores sobre estes pontos, mas estes ou já se realizaram, ou estão prestes a realizar-se. As informações dos últimos dias forçam necessariamente a pôr esta importante questão debaixo da atenção do Governo.
Estão preparados navios-transportes para embarcar um corpo de 10.000 homens; e já partiram os transportes para Cork, a fim de recolherem os 5.000 que aí embarcarão. A tonelagem para os 5.000 homens adicionais (que são parte dos 10.000 debaixo das ordens da Inglaterra), estará completa em cerca de dez dias.
Com o objectivo de transportar os cavalos da artilharia de algum corpo que se julgue oportuno expedir daqui, já se mandaram regressar os transportes para 2.300 cavalos da cavalaria que tinham partido para Portugal, ficando por lá, junto com a força, provisões para cerca de 800 cavalos.
Para além dos transportes para os mencionados 2.300 cavalos, estão agora a requisitar-se outros tantos para 534 cavalos, cuja fornecimento cresce de dia para dia, embora lentamente.

[Fonte: Charles William Vane (org.), Correspondence, Despatches, and other Papers of Viscount Castlereagh, second Marquess of Londonderry – Vol. VI, London, William Shoberl Publisher, 1851, pp. 399-401].

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Nota: 

* Equipments, no texto original. Julgamos que Castlereagh se refira aos diversos utensílios utilizados pelos sapadores para abrir caminhos. 

Marcha proposta para o Exército britânico a partir de Lavos (entre 10 e 12 de Agosto de 1808)




[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, p. 177].

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Carta do General Bernardim Freire de Andrade ao Bispo do Porto (9 de Agosto de 1808)



Ontem teve com efeito lugar a conferência proposta pelo General Wellesley em Montemor-o-Velho, mas ele chegou tão tarde que eu não pude aqui chegar a tempo de dar parte a Vossa Excelência do resultado ontem mesmo; e hoje quis comunicar a Vossa Excelência o embaraço em que nos vemos, depois de conhecer melhor as circunstâncias. O General Wellesley pretende marchar imediatamente e no caso que nós o não pudessemos acompanhar, prossegue ele só na expedição. Vossa Excelência pode bem conhecer que em tal caso é preciso forçar os meios, porque se trata da honra da Nação, da do Governo e da de cada um de nós, e portanto fiquei com ele em que Sexta-feira desta semana nos encontraríamos em Leiria, conduzindo eu [as] forças que Vossa Excelência verá na nota que com esta remeto. As razões que o General Wellesley tem para tomar este partido são palpáveis, e sobretudo, ser conveniente não deixar ao inimigo tempo de se fortificar nem de se reforçar, tendo mandado para Elvas essa tropa que assolou Évora, talvez no intuito de cooperar com o corpo de Dupont, cuja sorte pode ser que ignorassem então. Porém, Senhor, quais são as nossas circunstâncias? Ainda agora se organiza a repartição de víveres; a Caixa Militar está exausta; além de 2.000 contos de réis que se receberam e um cofre de esta cidade, já hoje foi necessário pedir a um negociante 1.200 contos de réis para socorrer a Caixa, enquanto não chega a remessa que dessa cidade [do Porto] se espera. Não posso exagerar os embaraços de toda a espécie em que me vejo e de que não poderei sair sem uma mui particular protecção do Céu, porque com efeito, faltando todos os meios, é necessário um esforço mais que humano para fazer que a ordem saia do meio da confusão mais completa.
Foi absolutamente preciso mandar declarar as promoções dos corpos que marcham; isto é, a do Regimento de Valença e de Caçadores do Porto, porque as tropas não podem marchar nem servir sem oficiais, e eu resolvi-me a praticar este meio extraordinário porque as circunstâncias também o são e eu não posso deixar por minha honra de ir solicitar a aprovação de Vossa Excelência e a da Junta do Supremo Governo, com a qual conto assim como se praticou a respeito do Zagalo.
Do General Loison não se sabe mais do que ter mandado um destacamento a Estremoz, onde entrou sem resistência nem violência; é muito preciso enviar-nos embarcações que sigam a costa com toda a quantidade de farinhas e bolacha que possa aí dispensar-se, porque conforme as notícias, vamos entrar num país [=região] onde não encontraremos recursos, porque realmente é um país devastado. Lembrarei a Vossa Excelência a remessa dalguns altares de campanha com as competentes barracas, das quais necessitamos muito nas ocasiões de marcha, em que não se pode concorrer muito aos templos.
Quartel-General de Coimbra, 9 de Agosto de 1808.


Bernardim Freire de Andrada [sic].


[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, pp. 169-170 (doc. 6)].

Carta do General Arthur Wellesley ao General Bernardim Freire de Andrade (9 de Agosto de 1808)





Quartel-General de Lavos, 9 de Agosto de 1808.




Senhor:


Tenho a honra de vos informar que ontem à noite chegaram aqui dois Deputados do Algarve, requerendo que eu lhes fornecesse 10.000 conjuntos de armas. Estou disposto a fornecer armas para as tropas regulares que possam ter sido reunidas naquela parte de Portugal; e ser-vos-ei muito agradecido se me deixardes saber a vossa opinião sobre o número de homens realmente soldados que se reuniram naquela parte, aos quais deverei dar armas. Deveis estar consciente de que o número de armas que a Grã-Bretanha pode fornecer a Espanha e a Portugal tem de ser limitado; que as armas não podem ser dadas aos meros paisanos do país com qualquer expectativa de sucesso; que se eles estão assim tão dispostos [a ser armados], o seu fornecimento diminuirá o número [de armas] que poderia de outro modo ser dado às tropas regulares; e devo confiar em vós para me informardes se é apropriado que eu deva dar à província do Algarve quaisquer armas, e em que número.
Em consequência da informação que aqui foi recebida na noite passada acerca do avanço do inimigo em direcção a Leiria, reforcei com duas Brigadas de Infantaria a minha guarda avançada, que em qualquer caso terá marchado esta manhã, as quais mandei para diante; e a parte restante do Exército marchará amanhã. 
Tenho a honra de ser o vosso mais obediente e humilde servidor.


Arthur Wellesley 


[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, pp. 171-172 (doc. 8)].

Carta do Tenente-Coronel Nicholas Trant ao General Bernardim Freire de Andrade (9 de Agosto de 1808)




Coimbra, 9 de Agosto de 1808.


Meu General:

O Coronel [do Regimento de Milícias de Chaves] Luís Maria reconhece que, segundo os relatos dos desertores*, os quais foram por ele mesmo inquiridos, os franceses não passaram Rio Maior ontem, ou melhor, no Domingo [7 de Agosto].
Ele perde assim demasiado tempo caso tenha a intenção de ocupar Leiria, dado que nos últimos três ou quatro dias continuaram a surgir rumores da aproximação [dos franceses]; porém, eu cá não creio em tudo o que chega de tão a norte. 
No total, ele não tem mais de 5.000 homens que pode actualmente dispor em plena campanha; e ficai seguro, General, que ele está empregado presentemente em operações defensivas, ou mais precisamente, que empreendeu uma invasão dessa vizinhança. As tropas que ele espera em Rio Maior são aquelas que chegaram há pouco a Alcobaça ou um reforço que se envia de Santarém ou de Lisboa à fortaleza de Peniche.
Em todo o caso, como será necessário que na jornada de hoje se envie um correio a Lavos, não se poderá esperar que um destacamento inglês chegue a Leira um dia antes, contando sobretudo com o adiamento de um dia que foi proposto pelo nosso Exército. Os ingleses encontrar-se-ão naquela cidade na manhã de Sexta-feira [12 de Agosto], e é necessário esperar por essa chegada; ou se pensais que há razões para crer que o inimigo caminha seriamente para Leiria, um destacamento de Cavalaria deverá ser enviado antes de Pombal para Leiria, na noite de hoje, com ordem para se postar a uma meia légua do outro lado da cidade, de maneira a poder dar aviso da aproximação do inimigo, e enquanto espera pelo Coronel Luís Maria de Sousa, poderá tomar as medidas necessárias para assegurar o depósito de víveres, fazendo-o retirar para Venda de Galegos, onde algumas das vossas tropas encontrar-se-ão reunidas amanhã, ou, se preferirdes, 300 homens de Infantaria podem avançar de Pombal durante esta noite, os quais poder-se-ão manter seguramente em Leiria até que as vossas tropas ou as dos ingleses se unissem em seu socorro, pois não penso que o inimigo que se fala remonta a mais de 1.000 ou 5.000 [homens].
Tenho a honra de ser, General, vosso muito humilde,


Trant


[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, pp. 170-171 (doc. 7)].

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Nota: 


Oficiais da Legião de Polícia promovidos por um decreto de Junot de 9 de Agosto de 1808




[Fonte: Gazeta de Lisboa, n.º 31, 24 de Agosto de 1808]


segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Continuação da memória sobre a viagem do Núncio Apostólico Lorenzo Caleppi, desde a Inglaterra até à sua chegada ao Rio de Janeiro, a 8 de Setembro de 1808







Chegado à cidade de Plymouth [no dia 11 de Maio], Monsenhor Núncio foi aí acolhido do melhor modo pelo Major ou chefe da Polícia, e dali se dirigiu à vizinha cidade de Plymouth-Dock, para hospedar-se numa casa particular bastante decente, na qual noutros tempos tinha morado o Marquês de Niza, almirante português. Pouco depois da sua chegada, veio visitá-lo um sacerdote francês, Mr. Guilbert, que era pároco dos católicos naquele distrito, e o Almirante que o comandava, Mr. W. Young, mandou o seu capitão cumprimentá-lo e anunciar-lhe que o Almirante viria fazer-lhe uma visita, o que de facto fez, dando-lhe as maiores demonstrações de respeito, e convidando-o com insistência a ir na mesma manhã almoçar com algumas pessoas em sua casa. Nesse almoço, o Almirante convidou as pessoas presentes a beberem à saúde do Santo Padre, e Monsenhor Núncio, sensiblizado por essa especial atenção, correspondeu a esse gesto bebendo à saúde do Rei da Inglaterra e da Nação inglesa. Durante todo o tempo que permaneceu nessa cidade, Monsenhor Núncio recebeu as maiores demonstrações de acatamento, e as maiores atenções por parte de todas as pessoas de distinção, e particularmente da sua parte desse mesmo Almirante, que deu vários banquetes em sua honra, e no terceiro ou quarto dia depois da sua chegada a Plymouth foi à casa de Monsenhor Núncio, para declarar-lhe francamente que dali por diante todas as atenções que para com ele tivesse devia Monsenhor Núncio considerá-las a ele feitas por ordem do governo britânico, que, informado da sua chegada, acabava de mandar-lhe ordem expressa nesse sentido, por meio do telégrafo. Não omitiu Monsenhor Núncio, na manhã do dia 15, que era domingo, de ir à capela católica havia pouco construída pelo citado pároco, num lugar chamado Stonehouse, que se acha à igual distância das duas cidades de Plymouth e de Plymouth-Dock, e ali celebrou a Santa Missa, com assistência, além de católicos, de muitos protestantes, e ali assistiu depois, em hábito prelatício, à missa e ao sermão pronunciado pelo mesmo pároco. É digna de nota a observação que no mesmo dia fez à mesa o Almirante Young, já informado da missa celebrada por Monsenhor Núncio, que era ele o primeiro Núncio Pontifício que, depois das desgraças religiosas da Inglaterra, isto é, desde mais de dois séculos e meio, nela houvesse celebrado a Santa Missa, e que a havia celebrado precisamente no mesmo lugar em que os huguenotes foragidos da França tinham procurado asilo, portanto, no próprio sítio que foi o berço do protestantismo. No dia 15 desse mês de Maio, Monsenhor Núncio recebeu também uma especial distinção por parte do Lord Visconde de Strangford, que depois de ter estado em Lisboa como encarregado de negócios da Inglaterra, e que devia partir no dia seguinte para o Brasil por haver sido nomeado por Sua Majestade Britânica seu enviado extraordinário e ministro plenipotenciário junto ao Príncipe Regente, veio a cavalo a Plymouth-Dock, com dois adidos à Legação inglesa, de Forbay, distante cerca de cinquenta milhas, com o único fim de fazer a Monsenhor Núncio uma visita de cortesia. Tal, porém, foi a surpresa que causaram a Lord Strangford a magreza e o estado em que encontrou Monsenhor Núncio, em consequência dos incómodos que sofrera, como já dissemos, que o aconselhou a ficar algum tempo na Inglaterra para recuperar as forças; chegado ao Brasil, não fez dúvida em dizer que receava que Monsenhor Núncio não tivesse podido prosseguir sua viagem. A sua saúde, entretanto, foi visivelmente melhorando de dia a dia, o que lhe permitiu sem maior incómodo empreender no dia 20 de Maio a viagem por terra a Londres, a convite do Ministro Plenipotenciário do Príncipe Regente de Portugal, para celebrar na Capela Real de sua casa [um] solene Te Deum pela notícia que havia recebido nesses dias da feliz chegada da Família Real ao Brasil, e ainda para obter embarque conveniente para o Rio de Janeiro, esperançado também de que não resultasse aos católicos da Irlanda inútil a sua presença ali, pois tratava-se nessa ocasião, no Parlamento, da grande questão que lhes dizia respeito, da devolução dos seus privilégios e admissão a todos os empregos públicos, sem excepão, do mesmo modo que os outros súbditos ingleses protestantes. Mesmo antes de partir de Plymouth-Dock, Monsenhor Núncio recebeu do mesmo Almirante Young [uma] nova e inequívoca prova de sua estima e do seu afecto para com ele, pois não só por ocasião da visita de despedida chegou a prorromper em pranto, mas ainda, depois de tudo haver disposto para essa viagem até Londres, quis ele mesmo levá-lo à sua carruagem, dizendo ao mesmo tempo que essa atenção de sua parte obrigava também outros a prestarem-lhe todas as deferências no correr da viagem.
Seria longo enumerar com pormenores as homenagens, as provas de veneração e as atenções que Monsenhor Núncio recebeu em Londres (aonde chegou no dia 22 de Maio, e onde permaneceu até 30 de Junho), por parte dos Ministros de Sua Majestade Britânica, do corpo diplomático, dos senhores e damas da primeira sociedade,e de toda classe de pessoas, destacando-se entre outras o ministro plenipotenciário do Príncipe Regente de Portugal, o Sr. Cavaleiro D. Domingos de Sousa Coutinho. Bastará assinalar somente de modo particular que o Duque de Portland, chefe do ministério britânico, lhe ofereceu um lautíssimo banquete oficial, com convite prévio de vinte e tantos dias, que Sua Majestade Britância, por intermédio de Mr. Canning, seu alto Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, o presenteou com uma caixa com seu retrato rodeado de grandes brilhantes, a qual foi avaliada em cerca de 1.200 guinéus (ou sejam cinco mil e quatrocentos escudos romanos); e que o mesmo monarca se dignou de ordenar que se aprestasse um navio de guerra da sua Marinha Real, e que abastecido esse navio abundantemente com as mais delicadas provisões de boca, fosse posto à disposição de Monsenhor Núncio para transportá-lo ao Brasil. A sua estada em Londres e a alta estima que com seu procedimento e suas palavras tinha grangeado de todos os partidos, contribuiram muitíssimo para a mudança, salientada pelas próprias gazetas inglesas*, que se efectou relativamente à oposição que os católicos tinham encontrado até então, devida ao seu zelo e às esperanças concebidas pelos parlamentares amigos dos católicos a respeito dessas suas pretensões; e se a causa destes não foi no momento decidida em seu favor de modo absoluto, mas somente diferida, pôde-se, entretanto, conceber a mais fundada esperança de feliz êxito, por ocasião de ser proposta novamente mais tarde. Pondo-se nos melhores termos com Monsenhor Bispo de Cantuária, Vigário Apostólico de Londres, com Monsenhor Milner, Bispo de Castabula, Vigário Apostólico do distrito dos Middlands da Inglaterra (o qual com autorização apostólica se achava em Londres para tratar dos negócios do clero e dos católicos da Irlanda), teve a satisfação de ver por esse tempo impressa em Londres uma pastoral deles, que incitava os católicos seus subordinados a fazerem orações especiais pelo Sumo Pontífice, por motivo da perseguição que lhe fazia o Imperador dos franceses, Napoleão; esse exemplo aproveitou-o mais tarde Monsenhor Núncio para animar ainda mais o zelo dos bispos da América portuguesa, espanhola e setentrional e da Ásia a seguirem esse proceder**.
Não satisfeito com tudo isso, quis, embora lhe faltassem instruções, fazer uma tentativa para alcançar, no modo que lhe era possível, a segurança da pessoa de Sua Santidade e dos Cardeais (cuja infeliz situação era denunciada pelas gazetas públicas) e para beneficiar a Roma e ao Estado Pontifíco; e para esse fim expediu uma nota, dirigida a Mr. Canning, Secretário de Estado dos Negócios estrangeiros, a fim de induzir o governo britânico a agir nesse sentido, nas ocasiões que se apresentassem. Finalmente, após haver assistido, em 31 de Maio, missa solene cantada na Real Capela portuguesa, entoando o Te Deum a que acima aludimos; depois de haver procurado edificar os católicos, comparecendo a todas as festividades, e de celebrar a Santa Missa nessa mesma capela, onde administrou um dia o crisma; depois de ter visitado para consolação espiritual delas vários mosteiros de religiosas, e outros lugares de devoção existentes nos arredores de Londres, partiu dali para o porto de Portsmouth, onde já se achava pronto o navio de guerra de que falámos acima, chamado Stork, que devia levá-lo ao Brasil, e onde recebidas que foram ali muitas atenções de parte dos católicos e das principais autoridades inglesas, partiu ele no dia 5 de Julho para Plymouth, onde tinha ficado um fâmulo com alguns caixões. Aí chegámos no dia 7 desse mês, e depois de renovadas aí as mesmas homenagens que já haviam tributado anteriormente a Monsenhor Núncio, na noite de 10 do dito mês, após haver celebrado na manhã novamente a santa missa na capela católica de Stonehouse, de que acima falámos, tornou a embarcar, acompanhado pelo ministro de Portugal já nomeado, que lhe fez a gentileza de deixar Londres para encontrar-se com ele em Plymouth; e na manhã do seguinte, 11 do [mesmo] mês, prosseguiu a bordo do Stork a viagem em direcção à Ilha da Madeira.
Nada aconteceu que merecesse particular menção até chegar-se ao Funchal, Ilha da Madeira, o que se deu na manhã de 25 de Julho, festa de São João Apóstolo. Estava ancorada no porto uma fragata inglesa, e o capitão dela, tendo sabido pelos sinais que a bordo do mesmo navio estava o Núncio Apostólico, avisou disso na noite anterior ao governador e capitão general português da ilha, em consequência do que este na manhã seguinte mandou os seus três ajudantes de ordens, numa magnífica falua (a que chamam os portugueses escaler) a cumprimentá-lo em seu nome e para conduzi-lo à terra, assim como também vieram cumprimentá-lo três cónegos da Catedral, entre os quais o vigário geral, juntamente com o reitor do seminário, oferecendo-lhe para sua morada o palácio episcopal, de acordo com as ordens que por precaução havia Monsenhor Bispo mandado de Lisboa, de onde não tivera ainda podido partir. Ao aproximar-se Monsenhor Núncio do desembarcadouro, oito fortalezas da cidade (entre elas também a que estava ocupada pelas tropas inglesas, que em número de cerca de 2.000 homens ali se mantinham como auxiliares das tropas portuguesas) o saudaram com tiros de canhão, e chegando a esse lugar, aí encontrou uma liteira (chamada cadeirinha), mandada pelo próprio governador e levada por seus criados, uma vez que nessa ilha não se faz uso de carruagens, por motivo de sua configuração montanhosa. Monsenhor Núncio, depois de haver sido saudado sob o rufo dos tambores pelas tropas ali enfileiradas, vendo a enorme quantidade de povo que se apinhava e se prostrava à sua passagem para receber a sua benção, desceu da liteira e se dignou, apesar do calor de um sol muito ardente, de satisfazer o afecto do povo, pois todos, grandes e pequenos, sacerdotes e religiosos, queriam beijar a sua mão sagrada. Também veio ao seu encontro o deão da catedral, que governava nesse tempo a diocese por encargo de Monsenhor Bispo, apesar de, pela sua idade provecta e seus incómodos de saúde, não ter podido acompanhar as outras pessoas até a bordo do navio inglês. Dirigindo-se Monsenhor Núncio à igreja catedral, para ali dizer a santa missa, e passando na vizinhança da fortaleza em que reside o governador, quis proporcionar-lhe a surpresa de sua visita, vindo ao seu encontro o mesmo governador fora da porta da casa, e nas escadarias, com alguns fidalgos e seus ajudantes de ordens. À porta da catedral veio recebê-lo o capítulo com suas vestes, o qual o acompanhou à capela do Santíssimo Sacramento, onde o pároco celebrou a Santa Missa, ficando a igreja, apesar de bastante grande, com as suas três naves repletas de gente, que continuou sem cessar durante o tempo de sua permanência no Funchal, a acorrer para beijar-lhe a mão e receber sua benção. Não só o governador português, mas também o general das tropas inglesas, Mr. Beresford, os quais foram visitar Monsenhor Núncio no palácio episcopal, lhe ofereceram uma escolta de honra, que ele recusou aceitar, e tanto um, como outro, caprichavam em dar-lhe as maiores demonstrações de homenagem e de estima, ofertando-lhe também lautos jantares em sua honra.
Nas quatro noites da permanência de Monsenhor Núncio, houve iluminação na catedral e noutras igrejas, conventos e lugares de devoção da cidade, que Monsenhor Núncio foi em pessoa visitar, recomendando em toda parte, de modo particular, que dirigissem a Deus preces fervorosas pelo Santo Padre. Suas vestes, quando andava na cidade, foram sempre o hábito prelatício de viagem, recebendo em todas as ocasiões as honras da continência com rufos de tambores, não só da parte das tropas portuguesas, mas também por parte das tropas inglesas. Mas, em vez de proporcionarem a Monsenhor Núncio esses poucos dias algum repouso dos incómodos que sofrera na viagem por mar, e para preparar-se ele à viagem mais longa que lhe restava fazer, não podiam senão torná-los ainda mais penosos por motivo das contínuas visitas e da expedição de muitos requerimentos que lhe eram apresentados por gente que queria aproveitar a sua passagem por essa ilha. Também foi muito instado para conferir ordens sacras, dado o longo tempo decorrido desde que Monsenhor Bispo se ausentara da diocese; mas ele, apesar de possuir para isso o consentimento desse mesmo Bispo, pelas palavras que este lhe dirigira em Lisboa, dado o caso que ele tocasse na Madeira, não quis, em vista da escassez do tempo, senão dar na capela do palácio episcopal a tonsura e as ordens menores a muitos eclesiásticos e a alguns franciscanos, administrando também o crisma aos ordinandos, que não o haviam recebido. Finalmente, feitos pelo capitão da nau inglesa Stork os novos abastecimentos necessários, na tarde de 29 do mês de Julho, depois de ter celebrado a santa missa na igreja catedral, à qual assistiu o capítulo dela, tornou Monsenhor Núncio a embarcar pela tarde, ao repique dos sinos da cidade, as tropas formadas diante da mesma catedral, e com um séquito de grande número de eclesiásticos, religiosos e imenso concurso de povo, ao qual, após ter-se embarcado no escaler régio, juntamente com o governador das fortalezas, e com os ajudantes de ordens do governador da cidade, deu a sua bênção. Salvaram novamente em sua honra as fortalezas da cidade e a nau inglesa Stork, a qual na manhã seguinte, 30 do mês de Julho, retomou a sua viagem em direitura ao Brasil. Quarenta dias durou essa viagem, que, embora feliz, por não ter acontecido desgraça alguma durante o seu curso, e em vista do excelente tratamento, assim das atenções recebidas do capitão e de todos os oficiais do navio, transcorreu com os muitos incómodos e com vários perigos e receios que acompanham sempre tão longas travessias por mar.
No dia da festa da Natividade da Beatíssima Virgem, que com visível protecção nos tinha sempre ajudado de modo particular, entrámos no belíssimo porto do Rio de Janeiro, capital do Brasil; reportando-me a respeito de tudo quanto aconteceu depois do navio ter ancorado, ao Diário, que à parte escrevi para dar conta de tudo quanto em coisas políticas diz respeito a Monsenhor Núncio, a partir do mesmo dia 8 de Setembro de 1808, até que praza ao Altíssimo deva durar a minha permanência no Rio de Janeiro, e até que possa quem escreve estas linhas continuar esta obra, que ele julgou não desprovida de valor, para escrever a memória daquilo que pode referir-se à honra da Santa Sé e dos seus representantes.


Rio de Janeiro, 23 de Março de 1811.




[Fonte: Anais da Biblioteca Nacional - Vol. LXI, Rio de Janeiro, 1939, pp. 15-58].

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Notas: 

* Cf. "Political Events of the Week", in The National Register, n.º 21, May 22, 1808, pp. 331-332; "State of Public Affairs", in The Universal Magazine, n.º LIV - Vol. IX, May, 1808pp. 444-445; "Monthly Retrospect of Public Affair's; or, the Chrisian's Survey of the Political World", in The Monthly Repository of Theology and General Literature, n.º XXIX - Vol. III, May, 1808, p. 274 e in The Monthly Repository of Theology and General Literature, n.º XXX - Vol. III, June, 1808, p. 339 e ss; "Pope's Nuncio in London", in The Literary Panorama, July, 1808, p. 799.


** Cf. Carta do Núncio Apostólico aos Excellentíssimos e Reverendíssimos Prelados dos Estados Hespanhoes, com algumas peças relativas, entre ellas: Notificação que o SS. Padre mandou publicar no dia em que entrárão as Tropas francesas em Roma, Rio de Janeiro, Impressão Régia, 1808.

Carta de William Warre à sua mãe (8 de Agosto de 1808)



Campo de Lavos, perto da Figueira, 8 de Agosto de 1808.


Minha queridíssima Mãe:

Aproveito algum tempo livre para lhe escrever algumas linhas, apenas para lhe dizer que estou muito bem, embora bastante fatigado e queimado por estar constantemente exposto ao sol, devido às actividades que o meu conhecimento da língua [portuguesa] e da nossa situação tornam indispensáveis; contudo, sinto o prazer mais sincero por ser de qualquer modo útil ao meu país ou ao serviço, e por isso sinto-me recompensado por cada fadiga.
Desembarcámos no primeiro dia deste mês. O desembarque de todo o exército demorou três dias, e, se tivéssemos sido contrariados por alguma resistência na costa, estou seguro que nunca o conseguiríamos ter efectuado, tão grande é a arrebentação na costa e na barra. Contudo, graças a Deus, todo o exército desembarcou sem mais baixas que um ou dois cavalos, e ocupamos por agora uma posição neste lugar, mais precisamente com a aldeia [de Lavos] à nossa esquerda e o mar à direita, onde esperámos pela chegada do General Spencer e do seu corpo, que acabou por desembarcar ontem e hoje, penso que sem baixas, apesar da arrebentação estar muito forte.
Iremos avançar para atacar Monsieur Junot depois de amanhã; a guarda avançada sob o comando do General Fane partirá amanhã. Serão vários dias de marcha. A parte mais severa deste desígnio está nestas estradas infames e no sol abrasador, que, juntamente com o enorme trem de artilharia e da bagagem, irão obrigar-nos a mover-mo-nos muito devagar. Junot tem um total de cerca de 14.000 homens, mas não poderá resistir durante muito tempo, estando prestes a ser rodeado por nós, que totalizamos cerca de 13.000 a 15.000, vindos do norte, e por um corpo de cerca de 6.000 portugueses; e ainda, na margem norte do Tejo, pelo lado de Badajoz, por um corpo de 10.000 homens do exército do General Castaños na Espanha, que se ouve dizer que são os melhores camaradas possíveis, tal como o seu General, e certamente como a totalidade dos espanhóis em armas. Nada pode exceder a sua coragem e animosidade em relação aos franceses. Até agora a sua conduta tem sido bastante notável, e todas as bocas os elogiam. A Andaluzia está livre de franceses. Dupont e o seu exército capitularam para serem enviados para a França com as suas armas, concessão curiosa da parte dos espanhóis, visto estarem muito necessitados de armas. Três exércitos dos franceses foram aprisionados ou destruídos, e Castaños está a marchar rapidamente para Madrid, e todos esperam celebrar o seu sucesso. Entre os franceses que se renderam, 8.000 foram massacrados pelos paisanos espanhóis, tão grande é a sua animosidade. Todas estas informações são certas. Castaños tem 45.000 homens, entre os quais 4.000 de uma excelente cavalaria, e 23.000 de infantaria regular. Ele é um homem muito brando, mas sempre foi um excelente camarada; a sua conduta é a mais nobre, sendo louvado por todo o exército. Nomearam-no como Coronel ao serviço da Espanha, como prova da estima que sustenta. O exército português tem cerca de 28.000 homens em todo o reino, em todos os ramos [infantaria, cavalaria e artilharia], mas todos estão muito mal armados, e receio que não estejam tão entusiasmados (embora se vangloriem muito) como os seus vizinhos espanhóis. Assim, não acredites em nenhuma palavra dos jornais ingleses. Nunca li tantos disparates. 
O Estado-Maior do General Ferguson ocupa aqui a casa de um velho camarada, onde estamos bastante confortáveis, devido à atenção da senhora William Archer da Figueira, que nos enviou tudo o que podemos necessitar. De outra forma não sei o que deveríamos ter feito, estando a Figueira a quatro milhas e meia de distância, e sem encontramos nada para comer ou para beber (aparte das rações) mais perto. Levantamo-nos às 3 da manhã, e, depois de termos visitado os postos avançados, a linha ou os guardas, montados num cavalo ou numa mula durante 7 ou 8 horas por dia, estamos prontos para nos deitarmos 3 num pequeno quarto (cujo luxo não invejamos), às nove da noite, e dormir como se estivéssemos nas melhores camas do mundo; embora às vezes tenha de me levantar durante a noite, para traduzir ou para fazer alguma outra ninharia, porque à excepção de mim, ninguém fala português na Brigada; esta consiste agora nos Regimentos 66.º, 40.º, 71.º Highlanders, todos eles com experiência no serviço, e ansiosos por se encontrarem com estes franceses tão gabarolas.
Do vosso filho sempre mais afeiçoado,

William Warre

[P.S.] O General envia-lhe as melhores saudações.
Ele é o melhor homem que alguma vez conheci.