quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Ordem do dia do Exército britânico (18 de Agosto de 1808)



Quartel-General da Lourinhã, 18 de Agosto.


O Tenente-General [Wellesley] ficou plenamente satisfeito com a conduta das tropas na acção de ontem, particularmente com a bravura revelada pelos Regimentos n.os 5, 9, 29, 60 e 95, parte dos quais caiu a combater o inimigo.
Pelo exemplo proporcionado pelo seu comportamento na acção de ontem, o Tenente-General sente confiança para dizer que as tropas irão distinguir-se onde quer que o inimigo lhes possa  dar outra ocasião; e somente necessita recomendar-lhes para atenta e firmemente preservarem a ordem e regularidade, e obedecerem estritamente às ordens que os Oficiais possam dar.

G. B. Tucker, Deputado-Ajudante-General


Carta do General Wellesley ao Almirante Charles Cotton (18 de Agosto de 1808)


Lourinhã, 18 de Agosto de 1808.


Meu caro Senhor:

Tenho o prazer de informar-vos que ontem derrotei o corpo de Laborde, numa acção cujas circunstâncias estão detalhadas no ofício anexo, destinado a Sir Hew Dalrymple, que peço que examineis, e que lhe envieis na primeira oportunidade. Fui informado que o inimigo perdeu 1.500 homens. As nossas baixas são cerca de 70 mortos, 350 feridos, e uns poucos desaparecidos, incluindo oficiais.
Espero enfrentar-me com o total do seu exército num dia ou dois, e, em qualquer caso, espero estar nas vossas vizinhanças pouco depois. Se Junot, que está com o exército, decidir retirar-se, deverei estar em Mafra depois de amanhã, segundo espero; mas recomendo que não desembarqueis os vossos soldados da marinha, etc., até que tenhais novas notícias de mim. 
Estão com o Capitão Bligh 2.500 homens comandados pelo General Anstruther, e decidi desembarcá-los amanhã.
Acreditai em mim,

Arthur Wellesley

[
Fonte: Lieut. Colonel Gurwood (org.), The Dispatches of Field Marshal the Duke of Wellington, K. G. during his various campaigns in India, Denmark, Portugal, Spain, the Low Countries, and France, from 1799 to 1818 – Volume Fourth, London, John Murray, 1835, p. 88].

Carta do General Wellesley a Lord Castlereagh, Secretário de Estado da Guerra (18 de agosto de 1808)



Lourinhã, 18 de Agosto de 1808 


Meu caro Senhor: 

Os meus ofícios de ontem e de hoje informar-vos-ão sobre o estado das circunstâncias aqui. Nunca vi uma luta tão desesperada como no ataque que fez Lake à passagem [no alto das montanhas], e nos três ataques que os franceses fizeram sobre as nossas tropas nas montanhas. Estes ataques foram feitos no seu melhor estilo, e as nossas tropas defenderam-se admiravelmente; e se as dificuldades do terreno não me tivessem impedido de levar um número suficiente de tropas e de canhões, teríamos tomado todo o exército.
Eles dizem que os franceses perderam 1.500 homens, o que é um número grande; mas penso que que eles tinham mais de 6.000 homens na acção.
Logo que Anstruther desembarque, dar-vos-ei uma conta do que resta do exército francês; mas receio que não conseguirei obter uma vitória completa; isto é, não conseguirei destruí-lo completamente pela falta de cavalaria
Acreditai em mim, etc. 

Arthur Wellesley

P.S.: Incluo uma carta para o sr. Borough sobre a morte de Lake, e uma para Lord Longford, onde lhe digo que o seu irmão encontra-se bastante bem.


Carta do General Wellesley a Lord Castlereagh, Secretário de Estado da Guerra (18 de agosto de 1808)




Lourinhã, 18 de Agosto de 1808 


Meu Senhor: 

Já depois de vos ter escrito na noite passada, soube pelo Brigadeiro General Anstruther que ele se encontra na costa de Peniche, com a frota de provisões e de navios de transporte chefiada pelo Capitão Bligh, do Alfred, com uma parte da força destacada da Inglaterra, comandada pelo Brigadeiro General Acland, em consequência de ter recebido as cartas com as ordens que tinha deixado na baía do Mondego para o General Acland, as quais ele abriu. 
Ordenei ao Brigadeiro General Anstruther para desembarcar imediatamente; e marchei para este lugar, com o objectivo de proteger o seu desembarque e facilitar a sua junção. 
Durante a noite passada, o General Loison juntou-se ao General Laborde, em Torres Vedras; e fui informado que ambos começaram a marchar em direcção a Lisboa nesta manhã; também me informaram que o General Junot chegou hoje a Torres Vedras, com um pequeno corpo de Lisboa; e concluo que a totalidade do exército francês estará reunida entre Torres Vedras e a capital nos próximos dias. 
Tenho a honra de ser, etc. 

Arthur Wellesley


Carta do General Wellesley ao General Bernardim Freire de Andrade (18 de Agosto de 1808)



Quartel-General na Lourinhã, 18 de Agosto de 1808.


Senhor: 

Tive a honra de receber as vossas diversas cartas, e a mensagem que tão gentilmente me haveis enviado através do cavalheiro [Joaquim] Pais [de Sá].
Garanto-vos que nada me dará maior satisfação do que concorrer e cooperar convosco em todos os ajustes que possam parecer necessários para o reestabelecimento da Monarquia portuguesa; e creio que nenhuma medida é mais apropriada para isso do que a posse antecipada de Lisboa pelas tropas das Potências aliadas. Tenho procedido nesta base, e assim continuarei a agir. Vossa Excelência informou-me na vossa última carta* que tencionava unir as tropas debaixo do vosso comando ao Exército debaixo do meu; e haveis requerido que eu vos informasse em que lugar seria conveniente que vos reunísseis a nós. Eu vim aqui proteger o desembarque e favorecer a junção de um corpo de 5.000 homens que acabou de chegar da Inglaterra. Eles irão desembarcar amanhã, e deverei estar nos arredores de Torres Vedras depois de amanhã. 
Recomendo que estejais ali nesse dia. Tereis ouvido dizer que derrotei o corpo do General Laborde ontem. Os franceses perderam 1.500 homens, segundo fui informado; e diz-se que o próprio Laborde foi morto. Loison e Laborde juntaram-se na noite passada em Torres Vedras**, e entendo que se retiraram de Torres Vedras. 
Tenho a honra de ser o mais obediente e humilde servidor de Vossa Excelência.

Arthur Wellesley

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, p. 192-193 (doc. 23)].
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Nota: 


* Agradecemos publicamente a Moisés Gaudêncio por nos ter dado a conhecer a referida carta de Bernardim Freire de Andrade a Wellesley, a qual não se encontra publicada na citada "Serie chronologica..." (apesar de aparecer referenciada no índice de tal corpo documental).


*O excerto que sublinhámos foi publicado originalmente no chamado Diário do Exército de Operações da Estremadura.

Carta do Comendador Joaquim Pais de Sá, enviado ao Quartel-General britânico, ao General Bernardim Freire de Andrade (18 de Agosto de 1808)




Lourinhã, 18 de Agosto, pelas 9 horas da noite.


Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor:

Recebo a carta de Vossa Excelência de 17, e igualmente vi a que Vossa Excelência dirigiu ao General Sir Arthur Wellesley, o qual como responde dirá a Vossa Excelência o seu parecer sobre a direcção da sua marcha, a qual eu direi (se Vossa Excelência mo permite) [que] deve ser rápida, para ver se se pode fazer a reunião antes da batalha, que eu creio [que] se deve dar bem depressa. Os ingleses devem desembarcar amanhã mais tropas que se devem logo reunir a estas. Laborde com a sua tropa passou esta manhã por Torres Vedras, levando coisa de 30 prisioneiros ingleses; Laborde foi ferido gravemente, e se diz que morreu um General francês, mas creio que há engano nesta segunda parte. Os ingleses tiveram 300 a 400 homens entre mortos e feridos, segundo hoje me disse o General, com o qual aqui jantei, entrando no número dos primeiros alguns oficiais. Os franceses, além da sua boa situação, se bateram muito bem, mas no combate não entraram 9 Regimentos ingleses. Uma bomba caiu ao pé do General em Chefe, mas não arrebentou por sua felicidade. Por Torres passaram muitos feridos franceses e os suíços foram levados para Peniche. Calcula pois o General a sua perda em 500 a 600 homens. Agora chegam dois homens que dizem que Junot entrara em Torres Vedras ao meio-dia com 4 mil homens. Torres fica daqui distante duas léguas. Loison marchava hoje com força para se reunir a Laborde. Esta manhã mandei um dos soldados com uma carta para Vossa Excelência com as notícias que ontem pude alcançar, o outro fica enquanto Vossa Excelência dele não dispuser. Aqui achei hoje o Coronel Pizarro, o qual como escreve a Vossa Excelência dará conta de si. Logo que possa ter o gosto de ir encontrar a Vossa Excelência, lhe referirei mais alguma particular circunstância.
Sou de Vossa Excelência o mais atento venerador efectivo criado. 

O Comendador Joaquim Pais de Sá

P.S. O General me acaba de ler agora a carta que lhe escreve; nela verá Vossa Excelência que ele espera aqui reunir-se às tropas que devem desembarcar amanhã, e que deseja muito poder-se reunir a Vossa Excelência em Torres ou nas suas vizinhanças.

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, p. 194 (doc. 24)].

Carta de Gaspar de Sousa Pizarro, Coronel adido ao Quartel-General britânico, ao General Bernardim Freire de Andrade (18 de Agosto de 1808)



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor: 

Ontem escrevi a Vossa Excelência em casa do General [Wellesley], e como ele quer ver sempre o que eu escrevo, não tive remédio senão pôr um recado que me deu, tal qual, o que me aborreceu infinito por ver que era demasiado forte; porém eu não entendo como seja bem dirigido isto a Vossa Excelência, combinando-o com a resposta que Vossa Excelência me deu. Seria preciso que Vossa Excelência se aproveitasse dos bois que o Excelentíssimo Senhor Bispo enviava ao Quartel-General para ele se poder queixar, e para isto, ter Vossa Excelência a comissão de lhos mandar dar, o que não é provável, e portanto não entendo; o que eu desejo é persuadir a Vossa Excelência que eu só escrevo o que me dizem, e assim como eu digo a Vossa Excelência o que me obrigam, o que Vossa Excelência me mandar que eu diga prontamente o hei de fazer. O Exército veio hoje da Lourinhã para o Vimeiro, e aqui se espera o reforço inglês que desembarca nesta costa. Dizem que a força francesa toda veio hoje para Torres [Vedras], onde veio ajuntar-se Junot. Tudo está aqui acampado, e nada há mais de novo hoje que eu saiba. 
De Vossa Excelência criado muito afectivo e obrigado, 

Gaspar de Sousa e Quevedo Pizarro

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, p. 192 (doc. 22)].

Carta secreta do Brigadeiro-General Frederick von Decken ao General Hew Dalrymple, Comandante do Exército britânico em Portugal (18 de Agosto de 1808)



Porto, 18 de Agosto de 1808


Senhor:

Como o Bispo do Porto manifestou-me que me queria ver em privado, a fim de me fazer uma importante comunicação, que desejava que se mantivesse secreta, fui ao seu Palácio na noite passada, a uma hora tardia. O Bispo disse-me então que tinha tomado o Governo de Portugal nas suas mãos, mas a sua intenção era restabelecer o Governo do seu legítimo Soberano, e esperava que Sua Majestade o Rei da Grã-Bretanha não tivesse outro objecto em mente quando enviou as suas tropas para este país. Depois de lhe ter dado todas as garantias sobre este assunto, o Bispo continuou: que como o Príncipe Regente, ao deixar Portugal, estabelecera uma Regência para governar este país durante a sua ausência, ele considerava que tinha o dever de abdicar do Governo e dispô-lo nas mãos da Regência, logo que fosse possível.
Respondi que não tinha instruções do meu Governo sobre este assunto, mas roguei-lhe para considerar se a causa do seu Soberano não se prejudicaria ao abdicar do Governo nas mãos da Regência, que, como tinha agido debaixo da influência dos franceses, tinha perdido a confiança da Nação; e se não seria mais aconselhável que ele continuasse a deter o Governo, até que a vontade do Príncipe Regente fosse conhecida.
O Bispo admitiu que a Regência nomeada pelo Príncipe Regente não possui a confiança do povo,  que vários dos seus membros agiram de tal maneira que aparentam ser amigos e partidários dos franceses, e que, em todo o caso, nem todos os membros da antiga Regência podiam ser restabelecidos no seu poder anterior; contudo, ele teme que as províncias da Estremadura, Alentejo e Algarve não reconhecerão a sua autoridade, se o Governo britânico não interferir. 
Depois de uma longa conversação, acordámos que eu deveria informar aos nossos Ministros aquilo que o Bispo me comunicou, e que, de forma a não se perder tempo à espera duma resposta, o Bispo quis que comunicasse o mesmo a vós, expressando a vontade de lhe escreverdes uma carta oficial, onde lhe referireis a vossa vontade em que ele detenha o Governo, até que a vontade do seu Soberano seja conhecida, para bem das operações das tropas britânicas e portuguesas debaixo do vosso comando.
O secretário do Bispo, que serviu de tradutor, disse-me depois, em privado, que rebentaria uma enorme confusão se o Bispo abdicasse do Governo neste momento, ou se se associasse com pessoas que nem são queridas nem estimadas pela nação.
Peço licença para acrescentar que, apesar do Bispo ter expressado o contrário, todavia parece-me que ele não se opõe a manter o Governo nas suas mãos, se tal pudesse ser feito pela interferência do nosso Governo. 

Brigadeiro-General


Edital da Junta do Porto proibindo a circulação da moeda francesa (18 de Agosto de 1808)






quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Auto da Câmara de Abrantes, por ocasião da restauração da dita vila (17 de Agosto de 1808)



Ano do nascimento do nosso Senhor Jesus  Cristo de 1808, aos 17 dias do mês de Agosto do sobredito ano, nesta notável vila de Abrantes e casas da Câmara, onde se achava em auto de Câmara o Juiz pela Ordenação o Capitão mor Álvaro Soares de Castro e Ataíde, e os Vereadores José, Francisco Xavier Burgueta de Oliveira, e os Oficiais da Câmara, todos abaixo assinados, e Procurador da mesma, aí com o povo e nobreza desta vila e o clero, em presença de todos compareceu Manuel de Castro Correia de Lacerda, natural de Monforte de Rio Livre, Capitão de cavalaria novamente organizada em Coimbra, e depois de ter entrado à testa de 80 homens de caçadores paisanos das companhias de Salvaterra e Monsanto, e alguns homens armados de chuços do termo da Cortiçada, se dirigiu pelas seis horas da manhã deste dia a expulsar a tropa francesa que se achava nesta vila de guarnição, e depois de dirigir o ataque e haver um aturado fogo de parte a parte, pelas nove horas e meia se achavam cento e doze prisioneiros franceses, que se tinham fortificado no castelo, e mais de cinquenta mortos e alguns feridos, acontecendo pelas sábias disposições do dito Capitão comandante e [pelo] valor dos oficiais e soldados que atacaram não haver um só morto nem ferido dos portugueses, cuja heróica acção, para que fique de eterna memória, se mandou lavrar este auto, em que se deve acrescentar que o mesmo Capitão comandante enviou destacamentos de ordenanças para as bordas do Tejo, para aprisionar os fugitivos, e que naquele mesmo rio foram apresados dois barcos de trigo, seis fardos de roupa e a botica, assim como muitas armas e toda a cavalaria que aqui tinham, cuja soma era de quarenta e tantos cavalos, que logo depois da acção se dirigiu a casa do Corregedor mor, acompanhado do escrivão da mesma vila e de outros oficiais de ordenanças, onde se apreendeu toda a secretaria e correspondência com o Governo francês, e até os planos da guerra actual; mandando depois disto pôr travessas nas portas, para se fazer sequestro, quando o tempo o permitisse, reconhecendo todos a supremacia da Suprema Junta do Porto. E logo pelos Vereadores e [de]mais oficiais, e pela nobreza e povo desta mesma vila se deram os agradecimentos a ele, dito comandante, de tão heróica acção de os livrar com tanto valor, e prudência da escravidão em que o Governo francês tinha posto esta vila, e passaram eles Vereadores a mandar descobrir as armas e içar a bandeira de Sua Alteza Real com muitos vivas e repiques de sinos, para mostrarem quanto era do gosto de todos sues habitantes o estarem restituídos à sua antiga liberdade e a um Governo do seu antigo e amado Soberano D. João, Príncipe do Brasil, legítimo Soberano do Reino de Portugal e seus domínios; porque suposto que ausente, sempre os moradores desta vila em seus corações lhe guardaram fidelidade e amor, suspirando que se achasse o tempo de poderem respirar e declararem-se, como agora fazem; e concluíram e determinaram que por este auto haviam por aniquilados e por nulos e sem efeito todos os decretos, decisões e determinações emanadas do Governo francês, quaisquer que eles fossem, e quaisquer que fossem as autoridades donde venham, pois não queriam que desde hoje em diante tivessem vigor, e determinaram finalmente que hoje de tarde se corresse ao Altíssimo a ir prestar-lhe graças por um benefício tão inesperado, que acabavam de receber da sua Mão Omnipotente. E por haverem assim ordenado, mandaram fazer este auto, que todos assinaram com o referido comandante, e eu Anastácio José Libano de Araújo, escrivão da Câmara, o escrevi.


[seguiam-se as assinaturas do Comandante, Câmara, clero, nobreza e povo].

[Fonte: José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal, e da Restauração deste Reino - Tomo V, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, pp. 105-108].

Peripécias dos franceses na sequência da batalha da Roliça



A primeira [batalha], a de 17 de Agosto de 1808, junto a S. Mamede da Roliça, em que Delaborde e Thomiers, perdidos de brios, derrotadas as forças e abatidas as asas da Águia de Napoleão, vendo destroçado o seu Exército e tomada a maior parte da sua artilharia, procurou salvar o resto por meio de uma apressada fuga, deixando no campo muitos mortos e um grande número de feridos.
No resto da tarde daquele dia e a maior parte da noite caminharam com marcha dobrada, sem admitir descanso algum até o lugar de Runa (quatro léguas e meia distante do campo da batalha, e uma ao sul das Torres Vedras). Ali fizeram alto pelas duas horas depois da meia-noite; tão fatigados e oprimidos da fome, que a não acharem provimento naquela povoação, dificilmente poderiam continuar a sua marcha.
Delaborde, Thomiers e outros Oficiais militares foram hospedados em casa de uma matrona (Ana Maria, cujo marido se achava naquela ocasião em Lisboa), a qual, obrigada do temor, lhe franqueou a sua casa, para que lha não invadissem, e os tratou não como Jael a Sisara, quando voltava fugindo e desbaratado pelas tropas de Débora e de Barac, mas sim com humanidade e grandeza, o que foi muito útil à povoação, pois Delaborde deu ordem que nela não se fizesse hostilidade alguma. Curou-se da ferida de uma bala que o tinha maltratado no pescoço, e procurou mudar de roupa. Pediu de comer para si e os mais Oficiais, o qual se lhe deu; e a sua tropa municiada com duas mil e dezanove rações de vinho (4 pipas) e 130 alqueires de cevada para a Cavalaria, a qual pagou, e o vinho.
Deram-se as rações de vinho por listas, e houve Companhias em que apenas apareceram 6 ou Soldados; as duas últimas vinham quase completas, porque talvez não entraram na acção. O seu parque de artilharia constava de 3 peças e um obus. 
Pediu Delaborde que se lhe fizesse três camas para descansar ele, Thomiers e outro Oficial General; suposto que se lhes aprontaram, não chegaram a deitar-se nelas porque quando o pretendiam fazer, o piquete que tinham deixado atrás em observação, ouvindo ao longe as caixas militares, e supondo serem ingleses*, deu rebate, dizendo: anglais, anglais, allons, allons. Logo tudo tomou armas e apressadamente se retiraram, com tão violenta marcha que não fizeram alto senão na Cabeça de Montachique, quatro léguas ao sul de Runa.
Pelas duas horas da tarde naquele dia chegou Junot a Torres Vedras; e sabendo da retirada de Delaborde, lhe mandou ordem para voltar para Torres Vedras, o que fez no dia 18, e se foi achar com Junot no dia 21 na batalha do Vimeiro, onde as tropas francesas foram derrotadas, tomada a maior parte da sua artilharia, e Junot, fugitivo, se retirou a Lisboa, onde foi capitular, como se refere numa relação impressa da dita batalha.

[Fonte: Prospecto do Painel das luminarias, que se puzerão na frente da Igreja do Seminario da Caridade dos Orfãos da rua de S. Bento na cidade de Lisboa, pela feliz restauração deste Reino, Lisboa, Impressão Régia, s.d. (1808), pp. 5-7, apud Raul Brandão, El-Rei Junot, Lisboa, IN-CM, s.d., pp. 240-241].

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* [Nota original] Era Junot, que passava para Torres Vedras. 

Mapas da batalha da Roliça






Túmulo do Tenente Coronel Lake, morto na batalha da Roliça




Túmulo de George Augustus Frederik Lake, Comandante do regimento inglês n.º 29, situado nos campos da Roliça. Depois de ter sido restaurado em 1903 pelos oficiais do primeiro batalhão do Regimento n.º 29 de Worcestershire, este singelo monumento sofreu novas obras de conservação em 2008, por ocasião da comemoração do bicentenário da batalha da Roliça. No seu epitáfio pode-se ler o seguinte:

Sacred to the Memory of the Hon. Lieut. Col. G. A. F. Lake of the 29 Reg. who fell at the head of his corps in driving the enemy from the heights of Columbeira on the 17 Aug. 1808. 
This monument is erected by his brother officers as a testimony of high regard and esteem.

Dedicado à memória do Il. Tenente Coronel G. A. F. Lake, do Regimento núm. 29, que faleceu na frente do seu Regimento, acometendo o inimigo nas alturas da Columbeira no dia 17 de Agosto de 1808. 
Foi erigido este monumento pelos seus camaradas oficiais em lembrança da sua amizade.

Relações do total de mortos, feridos e desaparecidos do exército britânico na batalha da Roliça (17 de Agosto de 1808)


Relação do total de mortos, feridos e desaparecidos do exército comandado pelo Tenente General o Muito Honrável Sir Arthur Wellesley, K. B., no dia 17 de Agosto de 1808


Mortos: 1 Tenente Coronel, 2 Capitães, 1 Alferes, 3 Sargentos, 63 Soldados e 1 cavalo.
Feridos: 1 Tenente Coronel, 3 Majores, 6 Capitães, 8 Tenentes, 1 Alferes, 1 oficial do Estado Maior, 20 Sargentos, 295 Soldados e 2 cavalos.
Desaparecidos: 1 Capitão, 3 Tenentes, 1 Sargento, 1 tambor, 68 Soldados.



Nome dos oficiais mortos, feridos e desaparecidos no dia 17 de Agosto de 1808

Estado Maior General: Capitão K. J. Bradford, 3.º Regimento de Guarda a pé, deputado assistente ajudante-general, morto.
Artilharia Real: Capitão H. Geary, morto.
Engenheiros Reais: Capitão H. Ephinstone, gravemente ferido.
Regimento de Infantaria a pé n.º 5: Major Emes, ligeiramente ferido; Tenente Doyle, ferido.
Regimento de Infantaria a pé n.º 9: Tenente Coronel Stuart, severamente ferido; Major Molle, Capitão Sankey e Alferes Nichols, feridos.
Regimento de Infantaria a pé n.º 29: Tenente Coronel G. A. F. Lake, morto; Majores G. Way e T. Egerson, feridos; Capitães P. Hodge e A. Patison, feridos; Tenentes R. Birmingham, St. John W. Lucas e Robert Stannus, feridos; Capitão Geo. Todd, Tenentes W. Birmingham, Ambrose Newbold e Thomas Langton, desaparecidos.
Regimento de Infantaria a pé n.º 6: Capitão John Currey, ligeiramente ferido.
Regimento de Infantaria a pé n.º 45: Alferes Dawson, morto; Tenente Burke, ligeiramente ferido.
Regimento de Infantaria a pé n.º 82: Tenente R. Reid, perigosamente ferido.
Regimento de Infantaria a pé n.º 60: Tenente Kiety, Alferes Fawes,e Ajudante De Gilso, ligeiramente feridos.
Regimento de Infantaria a pé n.º 95: Capitão Creagh e Tenentes Hill e Cortman, ligeiramente feridos.

Total de oficiais, oficiais inferiores, soldados e cavalos mortos, feridos e desaparecidos: 482.

G. B. Tucker, Deputado Ajudante General

[Fonte: John Joseph Stockdale (org.), Proceedings on the Enquiry into the Armistice and Convention of Cintra, and into the conduct of the Officers concerned, London, Printed for Stockdale Junior, 1809, pp. 11-12].




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Relação detalhada e com ligeiras alterações


[Fonte: The London Gazette, n.º 16177, September 3, 1808, p. 1187]. 

Carta do General Wellesley ao Secretário de Estado da Guerra, Lord Castlereagh, sobre a batalha da Roliça (17 de Agosto de 1808)



Quartel-General de Vila Verde, 17 de Agosto de 1808

Meu Senhor:

Como o General francês Laborde continuou na Roliça desde que cheguei às Caldas no passado dia 15, determinei atacar a sua posição hoje de manhã. A Roliça está situada numa elevação, diante duma planície, no final dum vale que começa nas Caldas e se fecha a sul por montanhas que se unem com as colinas que formam o vale à esquerda. Observando a partir das Caldas, no centro do vale e a cerca de oito milhas da Roliça está a vila e o antigo castelo mourisco de Óbidos, donde foram expulsos os piquetes do inimigo no dia 15; e desde então o inimigo tem postos nas colinas de ambos os lados do vale, tal como na planície em frente do seu exército, que estava postado nas alturas em frente da Roliça, com a sua direita disposta nas colinas, e a sua esquerda sobre um monte onde havia um moinho de vento; protegendo quatro ou cinco passagens para as montanhas na sua retaguarda. 
Tenho razões para acreditar que a sua força consistia em pelo menos seis mil homens, dos quais cerca de quinhentos eram de cavalaria, com 5 peças de artilharia; e tinha algumas razões para supor que o General Loison, que estava ontem em Rio Maior, juntar-se-ia ao General Laborde pela sua direita, durante o decorrer da noite. 
O plano de ataque foi formado em consequência disto, e o exército [britânico], tendo-se dividido hoje de manhã nas Caldas, formou-se em três colunas. A direita consistia em 1.200 homens de infantaria portuguesa e 50 de cavalaria também portuguesa, destinados a girar o flanco esquerdo do inimigo e a penetrar nas montanhas que ficavam na sua retaguarda. A esquerda, que consistia nas brigadas de infantaria do Major General Ferguson e do Brigadeiro General Bowes, em três companhias de caçadores, uma brigada de artilharia ligeira e 20 britânicos e 20 portugueses de cavalaria, estava destinada, sob o comando do Major General Ferguson, a subir as colinas em Óbidos e a fazer girar os postos do inimigo na esquerda do vale, bem como a direita dos seus postos na Roliça. Este corpo estava também destinado a observar os movimentos do General Loison, na direita do inimigo, sobre o qual fui informado que fizera um movimento de Rio Maior para Alcoentre na noite anterior. A coluna do centro, que consistia nas brigadas do Major General Hill, do Brigadeiro General Nightingale, do Brigadeiro General Crauford e do Brigadeiro General Fane (à excepção dos caçadores destacados com o Major General Ferguson) e em 400 homens de infantaria ligeira portuguesa, na cavalaria inglesa e portuguesa, numa brigada de artilharia de calibre 9 e noutra de calibre 6, estava destinada a atacar a posição frontal do General Laborde. 
Sendo assim formadas as colunas, marcharam as tropas de Óbidos pelas 7 horas da manhã. Os caçadores do Brigadeiro General Fane foram imediatamente destacados para as colinas à esquerda do vale, para manter a comunicação entre o centro e a coluna esquerda e para proteger a marcha desta ao longo do vale; e os postos do inimigo foram sucessivamente batidos. A brigada do Major General Hill, formada em três colunas de batalhões, marchou pela direita do vale, sustentada pela cavalaria, a fim de atacar a esquerda do inimigo; e os Brigadeiros Generais Nightingale e Crauford marcharam com a artilharia ao longo da estrada real, até que finalmente o primeiro formou-se na planície imediata e frontal ao inimigo, sustentado pelas companhias de infantaria ligeira e pelo Regimento n.º 45 da brigada do Brigadeiro General Crauford, enquanto que os outros dois Regimentos desta brigada (os n.os 50 e 91) e metade da brigada da artilharia de calibre 9 mantiveram-se como reserva na retaguarda. 
O Major General Hill e o Brigadeiro General Nightingale avançaram sobre as posições do inimigo, e, ao mesmo tempo, os caçadores do Brigadeiro General Fane estavam nas colinas à sua direita, a infantaria portuguesa estava numa aldeia à esquerda, e a coluna do Major General Ferguson ia descendo das alturas para a planície. Perante esta situação, o inimigo retirou-se pelas passagens das montanhas com a maior regularidade e com grande celeridade; e não obstante o rápido avanço da infantaria britânica, a falta de um corpo suficiente de cavalaria foi a causa de dita infantaria ter sofrido um pouco na planície, embora com escassas baixas. 
Foi então necessário fazer os preparativos para um ataque à formidável posição que o inimigo tinha tomado. 
Os caçadores do Brigadeiro General Fane estavam já nas montanhas à sua direita, e não perderam tempo para atacar as diferentes passagens, quer para se sustentarem, quer para baterem completamente o inimigo. 
A infantaria portuguesa recebeu ordens para subir até uma passagem à direita; as companhias ligeiras da brigada do Major General Hill e o Regimento n.º 5 marcharam a uma passagem próxima, à direita; e o Regimento n.º 29, sustentado pelo Regimento n.º 9, sob o comando do Brigadeiro General Nightingale, marcharam a uma terceira passagem; e os Regimentos n.os 45 e 82 marcharam a umas passagens à esquerda. 
Todas estas passagens eram de difícil acesso, e algumas delas foram bem defendidas pelo inimigo, particularmente aquela que foi atacada pelos Regimentos n.os 9 e 29. Estes Regimentos atacaram com grande impetuosidade e alcançaram o inimigo antes dos outros regimentos, que deveriam atacar os seus flancos.
A defesa do inimigo foi desesperada, e foi sobretudo neste ataque que tivemos as baixas que temos de lamentar, particularmente a dum bravo oficial, o Tenente Coronel Lake, que se distinguiu nesta ocasião. Não obstante, o inimigo foi batido em todas as posições que tinha tomado nas passagens das montanhas, e as nossas tropas avançaram até ao terreno plano que está no cimo. Durante um tempo considerável, os Regimentos n.os  29 e 9 marcharam sozinhos até este ponto, com os caçadores do General Fane a alguma distância à esquerda, sendo depois sustentados pelo Regimento n.º 5 e pelas companhias ligeiras da brigada do Major General Hill, que tinham vindo pela sua direita, e ainda pelas outras tropas que receberam ordens para subir as montanhas, que ascendem gradualmente. 
No topo das montanhas, o inimigo fez três ataques dos mais bravos sobre os Regimentos n.os  29 e 9, que estavam sustentados como acima indiquei, com o objectivo de cobrir a retirada do seu exército batido, embora em todos eles tenha sido repelido; ainda assim, conseguiu efectuar a sua retirada em boa ordem, o que se deveu, em primeiro lugar, à minha falta de cavalaria, e, em segundo lugar, à dificuldade de trazer rapidamente às passagens do cimo das montanhas um número suficiente de tropas e de canhões para sustentar os que tinham subido primeiro. As perdas do inimigo, no entanto, foram bastante grandes, deixando ainda em nossas mãos três peças de artilharia.
Não posso aplaudir suficientemente a conduta das tropas durante esta acção. As posições do inimigo eram formidáveis, tinham sido tomadas com a sua habitual habilidade e rapidez, e ele defendeu-as valentemente. Mas devo observar que, apesar de termos uma grande superioridade no número de tropas empregadas neste dia, as que realmente entraram no calor da acção, por circunstâncias inevitáveis, foram somente os Regimentos n.os  5, 9 e 29, os caçadores dos [Regimentos] n.os 95 e 63, e as companhias dos flancos da brigada do Major General Hill; cujo número total era certamente inferior ao do inimigo. Por este motivo, a sua conduta merece a mais alta recomendação. 
Não posso deixar de aproveitar esta ocasião para expressar os meus reconhecimento pela ajuda e suporte que recebi de todos os Generais e doutros oficiais deste exército: estou particularmente em dívida ao Major General Spencer pelos conselhos e assistência que dele recebi; ao Major General Ferguson, pela maneira como comandou a coluna esquerda; e ao Major General Hill e aos Brigadeiros Generais Nightingale e Fane, pela maneira como conduziram os diferentes ataques que lideraram. 
Obtive mais assistência material também do Tenente Coronel Tucker e do Tenente Coronel Bathurst, nos cargos [respectivos] de deputado-Ajudante e de deputado-Quartel-mestre General, e dos oficiais do Estado-Maior às suas ordens. Devo também mencionar de que tive toda a razão para ficar satisfeito com a artilharia comandada pelo Tenente Coronel Robe. Tenho a honra de incluir aqui a conta dos mortos, feridos e desaparecidos.
Tenho a honra de ser, etc.

Arthur Wellesley


Carta de Gaspar de Sousa Pizarro, Coronel adido ao Quartel-General britânico, ao General Bernardim Freire de Andrade (17 de Agosto de 1808)




Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor: 

Depois de ter passado os incómodos do costume, cheguei aqui às Caldas ontem, dezasseis do corrente, já quase Avé-Marias*. Aqui se uniram as duas colunas, a da direita e a do centro, e ainda com ar de dia fomos com os Caçadores ingleses para diante, e depois de os pôr em via voltámos ao nosso Quartel; passado pouco tempo ouviram-se tiros, e tudo montou a cavalo para observar o que se passava, menos eu, que ainda não sabia onde se tinham alojado os meus cavalos, e por isso fui a pé unir-me à coluna da direita que, estando em batalha, fica com o flanco esquerdo quase no fim desta vila. Passada uma hora voltou o General e a dita coluna tornou a pôr-se em liberdade, mas sempre prontos os soldados sem sair do seu posto. Soube-se hoje que os Caçadores foram dar com uma emboscada junto de Óbidos e que os franceses lhe deram uma descarga, em que lhe mataram um Oficial, feriram o Capitão, cunhado do General, numa perna, e morreram alguns soldados; porém, os ingleses dos Caçadores foram sobre eles e dizem [que] lhe[s] mataram quinhentos, que eu não posso por ora [as]segurar, mas sempre se diz que a vantagem fora da nossa parte, e o que o confirma é termos já hoje desalojado os franceses daqueles arredores de Óbidos. Thomières é quem temos à frente na Roliça e tem um parque [de artilharia] emboscado na Columbeira de 5 peças coberto com lenha; isto é na distância de duas léguas daqui. Laborde está no Bombarral, distante 3 léguas desta vila, e um e outro não têm muita gente. Peniche foi hoje atacada por mar logo na madrugada, mas não se sabe ainda o resultado dos imensos tiros que aqui ouvimos. Pelo que tenho observado do terreno, todo cheio de pinhais, temos a sofrer muita emboscada. Não tenho mais tempo, e desejando dar a Vossa Excelência continuadamente as notícias que for havendo, creio que eu não o poderei fazer por falta de correios de posta, e faz isto falta bastante mesmo para Vossa Excelência. Não tenho mais tempo. 
Deus guarde a Vossa Excelência muitos anos, e ao Excelentíssimo Senhor D. Miguel, a quem mando os meus respeitos. 
De Vossa Excelência criado e muito obrigado, 

Gaspar de Sousa Pizarro

P.S. A carta que escrevo a Vossa Excelência foi ditada por Sua Excelência inglesa [Wellesley].


[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, pp. 191-192 (doc. 20)].


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Nota: 

* Entre as seis e as seis e meia da tarde.

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (17 de Agosto de 1808)



Lisboa, 17 de Agosto 


Ontem, pelas 5 horas da manhã, é que o Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes partiu para o seu Exército, a fim de certificar-se pessoalmente do que vem a ser esse desembarque de ingleses efectuado na Figueira, e que ainda não se adiantou, sem embargo de se dar aí por feito há mais de 15 dias.
Sua Excelência não estará por muito tempo ausente, segundo todas as aparências; porque parece estar no intento de colocar-se de sorte que possa ficar repartido entre a capital e o Exército, já para ter mão em tudo, por uma parte; já para dirigir tudo, pela outra, com a sua presença. É pois de esperar que dentro de poucos dias tornemos a ver aqui o General em Chefe.
Já se receberam, duas vezes, notícias de Vila Franca e de outras partes mais para lá; Sua Excelência ficou mui satisfeito do excelente espírito dum Exército tantas vezes vitorioso e que só mostra um ardente desejo de combater com inimigos que, de 15 anos a esta parte, não tem posto pé no Continente sem nele encontrar algum desastre.
Continua reinar a maior quietação em Lisboa, onde ficou uma guarnição francesa bem respeitável, com precauções mui adequadas às circunstâncias. 
Sua Excelência, ao tempo da sua partida, mandou publicar e espalhar por toda a parte as duas peças seguintes:


Precedentemente se tinha aqui publicado a carta seguinte:



[Fonte: 2.º Supplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 3, 17 de Agosto de 1808].

Notícia publicada na Minerva Lusitana (17 de Agosto de 1808)



Leiria, 17 de Agosto às 7 horas da tarde.


Ainda aqui se acha o nosso Exército. O inimigo que tinha sucessivamente ocupado Tomar, Torres Novas e Santarém entrou ontem em Rio Maior, o que obrigou o nosso Exército a redobrar a vigilância; mas não se atreveu nem a caminhar para nós, nem a atacar o flanco inglês; de maneira que os dois exércitos se sustiveram sem combate, e só pela boa correspondência das posições.
Esta tarde chega a notícia de ter o inimigo abandonado Rio Maior e caminhado para Alenquer.
É quase certo que marcharemos para diante, e que o Exército comandado pelo General Bacelar ficará cobrindo Tomar e Punhete [= actual vila de Constância].
Os ingleses fazem frente às Caldas e a Óbidos.


Carta do General Bernardim Freire de Andrade ao General Arthur Wellesley (17 de Agosto de 1808)



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor:

Recebendo neste momento a notícia de que os franceses se retiraram além de Rio Maior, e que por consequência se reconcentram no intuito de oferecerem resistência ao Exército de que eu não quero deixar de fazer parte por muita honra minha; amanhã me porei em marcha dirigindo-me ao Quartel-General de Vossa Excelência, aonde me acharei com a maior brevidade possível.
O General comandante da província da Beira, tendo descido a Castelo Branco com a força de três mil homens, responderá de Abrantes e Santarém, e com o socorro dos paisanos armados, animados de um excelente espírito, pode afiançar o sossego da província.
Da Praça de Almeida tive agora notícia de que na última sortida perderam os franceses os quarenta homens com que a fizeram, e que a guarnição fica reduzida a extremidades; apresso-me em levar a Vossa Excelência estas notícias agradáveis.
Deus Guarde a Vossa Excelência.
Quartel-General, 17 de Agosto de 1808.

Bernardim Freire d'Andrada [sic].

[Fonte: António Pedro Vicente, "Um soldado da Guerra Peninsular - Bernardim Freire de Andrade e Castro", in Boletim do Arquivo Histórico Militar, n.º 40, 1970, pp. 202-571, p. 448].

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Carta dum agente do Coronel Moretti ao Capitão-General da Junta da Extremadura (16 de Agosto de 1808)



Tendo sido comissionado pelo Senhor Coronel D. Federico Moretti, Comandante das tropas espanholas na cidade de Évora, para levar ofícios desta Suprema Junta e do mencionado Senhor Comandante às Juntas de Coimbra e do Porto, e aos Generais português e inglês, parti no passado dia 26 de Julho, juntamente com quatro indivíduos da minha partida volante e um indivíduo da Legião de Voluntários Estrangeiros, dirigindo a minha marcha por Tancos, em direcção a Coimbra, em cujo primeiro ponto me vi cercado por uns 300 franceses de cavalaria e artilharia volante, que dirigiam a sua marcha a Abrantes; e ainda que o muito conhecimento que tinha dos caminhos me proporcionou pôr-me a salvo, fui perseguido durante três léguas por uma grande partida do inimigo, à distância de um tiro de canhão; devendo a nossa salvação a um bosque onde pudemos ocultarmo-nos.
Cheguei finalmente a Coimbra, e tendo-me apresentado ao General português que comandava as armas naquele ponto, entreguei-lhe os ofícios, suplicando-lhe que enviasse pelo correio os que iam dirigidos à Suprema Junta e ao General em Chefe do Porto, enquanto eu me avistava com o General inglês na Figueira; acedeu à minha petição o General português, e empreendi a minha marcha para a Figueira, que dista 7 léguas a ocidente de Coimbra, por caminho de serra.
À minha chegada apresentei-me ao General Wellesley, que o é em Chefe do Exército inglês, e que se achava acampado em Lavos, a uma légua ao sul da Figueira, o qual me recebeu com as maiores provas de júbilo e satisfação; informei-o de todos os sucessos da Espanha, servindo-me de tradutor o seu secretário; e concluída a sessão, fui lanchar com o dito General e o seu Estado-Maior.
Acabado o lanche, o General honrou-me levando-me ao seu lado a ver a revista das suas tropas, que tinham acabado de desembarcar naquele mesmo dia 7 de Agosto, e formavam um corpo de 7.000 homens e 4.000 cavalos, acompanhados por um magnífico parque de artilharia, cujo número não posso precisar por não ter podido contá-los exactamente, formando quase um exército os carros, carruagens e bagagens que o acompanham.
O dito General em Chefe disse-me que tinha estado em Ferrol com a sua esquadra, onde ofereceu a sua tropa à Junta Suprema daquele Reino [da Galiza]; mas que esta só aceitou 30.000 armas e cartucheiras e 2.000.000 de pesos fortes em dinheiro.
No dia 8 chegou uma nova esquadra inglesa proveniente de Cádis, trazendo a bordo os 5.000 homens de infantaria [comandados pelo General Spencer] que o General Castaños tinha recusado, os quais começaram a desembarcar no dia 9 pela manhã.
Antes de me retirar, comunicou-me o General inglês que ainda esperava 5.000 homens da Guarda Real da Inglaterra, e que uma vez reunidas essas forças empreenderia a sua marcha em direcção a Lisboa, procurando cortar a retirada ao resto dos franceses que tinham saído de Évora para Abrantes, e que tentarão atravessar o Tejo através de [Vila Nova da] Barquinha; tendo manifestado o dito General em Chefe a sua surpresa ao ver batido em Évora o Exército francês, formado por tropas escolhidas e em número de 8.000 homens, por 1.810 espanhóis; pedindo-me que assegurasse a Vossa Excelência que, tomando [os espanhóis] a esquerda[=sul] do Tejo (que se acha sem inimigos), ele respondia pela tomada da capital; e que a não render-se Junot à discrição, aos dez dias da sua intimação, seriam todos sem excepção passados à faca. Representei-lhe o dano que nos podia fazer a esquadra russa, e então, abraçando-me, disse-me: Esses já são nossos.
Saí no dito dia 9 para Coimbra, e o General português disse-me que tinha remetido as respostas à Suprema Junta de Évora, dando-me tanto este como o General em Chefe inglês os certificados competentes de ter entregado os ofícios e de ter executado a minha comissão com a maior exactidão.
O Exército português do Porto e de Coimbra compõe-se de 2.000 homens, todos vestidos e armados; pois os dois milhões de cruzados que devia dar a cidade do Porto de contribuição extraordinária foram utilizados para vestir a tropa, tendo contribuído voluntariamente todo o comércio e nobreza com donativos com o mesmo fim.
Quando regressei, pude apreender com a minha pequena partida, a 4 léguas de Abrantes e quase à vista da divisão francesa comandada pelo General Loison, 88 fardos de algodão fino, pesando cerca de 500 arrobas no total, os quais foram escoltados até à praça de Marvão, donde se mandou que passassem à de Campo-Maior, onde as que pus à disposição do referido Senhor Coronel D. Federico Moretti, debaixo de cujas ordens me encontrava [originalmente] em Évora; sendo este o resultado da expedição que executei por uma comissão particular.
Isto é tudo quanto devo dizer a Vossa Excelência em consequência do que mandou esta manhã.
Deus guarde a Vossa Excelência muitos anos.
Badajoz, 16 de Agosto de 1808.

Excelentíssimo Senhor Donato Gonzalez Cortes