terça-feira, 26 de julho de 2011
Carta do General Wellesley a Lord Castlereagh, Secretário de Estado da Guerra (26 de Julho de 1808)
H.M.S. Crocodile, 26 de Julho de 1808
Meu Senhor:
Tenho a honra de vos informar que no passado dia 22 reuni-me com a esquadra [britânica] diante do Cabo Finisterra, e que continuei a minha viagem neste navio em direcção ao Porto (deixando para trás a esquadra, com ordens para me seguir), onde cheguei no dia 24, e a esquadra na manhã seguinte.
Nessa noite vi o Bispo do Porto, que está à frente da Junta, bem como os oficiais Generais comandantes das tropas portuguesas; e fui informado por eles e pelo Tenente Coronel Brown que as milícias e as tropas regulares portuguesas que foram reunidas totalizam cerca de 5.000 homens, que foram postados em Coimbra, na província da Beira, a cerca de oitenta milhas do Porto, na direcção de Lisboa. Para além destas tropas, estavam previamente no Porto cerca de 1.200 paisanos armados de diferentes maneiras, e um corpo de cerca de 1.500 portugueses e 300 espanhóis de infantaria, para além de voluntários e paisanos. A totalidade destas tropas, contudo, está mal armada e mal equipada. Creio que os paisanos não têm armas mas sim chuços, e aquilo que se chama infantaria regular está composta por indivíduos pertencentes a diferentes corpos do exército português. O corpo da infantaria espanhola que consiste em 2.000 homens que foram ordenados a marchar da Galiza para Portugal, sobre o qual informei V.ª S.ª na minha carta do passado dia 21, não deixou o primeiro reino, segundo as últimas notícias, e não era esperado no Porto.
Trezentos soldados da marinha pertencentes à esquadra comandada pelo Capitão Bligh, do H.M.S. Alfred, que também se deteve aqui, estão ocupando um posto na Figueira, sobre o rio Mondego, que desagua para o mar na baía do Mondego.
Quando cheguei ao Porto, recebi uma carta de Sir Charles Cotton do passado dia 9, cuja cópia vai anexa, na qual o Almirante recomenda que eu devo deixar a frota ancorada a norte e dirigir-me à boca do Tejo para me comunicar consigo, visto que supõe que é mais aconselhável que as tropas desembarquem na baía do Mondego ou em Peniche. Pedi por conseguinte ao Capitão Malcolm para ancorar no Mondego, e estou indo agora para a boca do Tejo.
Enquanto estive no Porto, requeri ao Bispo para me providenciar 150 cavalos para a remonta do regimento n.º 20 de Dragões, cujo corpo tem aproximadamente esse número de homens desmontados. Também lhe requeri para providenciar às tropas 500 mulas de tais características que tanto pudessem ser utilizadas para levar cargas como para montarem os transportes, as quais tenciono empregar nos transportes das munições dos mosquetes e das ferramentas de trincheiras (por não haver no exército carroças ou carros para as ditas munições e ferramentas), de uma certa quantidade de provisões, e, se o achar necessário, do equipamento de campo do exército. O Bispo prometeu que eu teria os cavalos e mulas em Coimbra quando o exército desembarcasse, se eu decidir ordenar o desembarque na baía do Mondego. Também fiz um acordo com ele para que as tropas fossem abastecidas de carne fresca, e com forragens e grão os cavalos da cavalaria e da artilharia, bem como as mulas do exército.
Tendo combinado todas estas disposições, voltei a embarcar e parti do Porto durante a noite do passado dia 24, juntei-me à esquadra na manhã do dia 25, e agora estou indo para o Tejo.
Tenho a honra de ser, etc.
Arthur Wellesley
[Fonte: Lieut. Colonel Gurwood (org.), The Dispatches of Field Marshal the Duke of Wellington, K. G. during his various campaigns in India, Denmark, Portugal, Spain, the Low Countries, and France, from 1799 to 1818 – Volume Fourth, London, John Murray, 1835, pp. 34-35].
segunda-feira, 25 de julho de 2011
Carta de William Warre ao seu pai, sobre a chegada do exército britânico à foz do Douro (25 de Julho de 1808)
Enseada do Porto, 25 de Julho de 1808
Meu querido pai:
Hoje de manhã chegámos aqui, onde se tinha convocado o encontro e reunião [das várias embarcações vindas da Inglaterra]. Ainda não consegui comunicar com a costa, e é pouco provável que consiga ver os meus amigos aqui ou mesmo em terra. Acabaram de me informar que uma fragata parte para a Inglaterra, e esta embarcação só está espera que acabe a minha carta para poder partir, de maneira que somente tenho tempo para dizer que todos estamos bem. Penso que iremos desembarcar em Lisboa e atacar Junot. Esta é a minha ideia, mas nada se sabe. Seria impossível, para não dizer frustrante (por não ser capaz de descrevê-lo), expressar os sentimentos que tive ao ver o lugar do meu nascimento, o sítio onde vivi alguns dos dias mais importantes da minha vida. Se desembarcarmos, tereis novas notícias minhas, logo que tiver oportunidade. Agora estão a chamar-me para que lhes entregue minha carta.
O vosso filho sempre afeiçoado,
William Warre
[P.S.] Abri esta carta para dizer que tenho uma mensagem do Comodoro, que diz que lamenta por não me ter sido possível desembarcar, pois [os oficiais] apenas esperam que Sir Arthur Wellesley regresse para se fazerem à vela. Eles estão a combinar disposições para a ancoragem da frota e para o desembarque. Spencer irá reunir-se connosco. Estou bastante desapontado por não ter desembarcado ou comunicado com a costa.
Adeus,
Com as maiores saudades.
[Fonte: William Warre: Letters from the Peninsula - 1808-1812, London, John Murray, 1909].
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Carta do General Wellesley a Lord Castlereagh, secretário de Estado da Guerra da Grã-Bretanha (25 de Julho de 1808)
Crocodile, na barra do Porto, 25 de Julho de 1808
Meu caro Senhor:
Aproveito o regresso da [chalupa canhoneira] Peacock à Inglaterra para vos informar que parti da Coruña, como vos disse que faria, na noite de 21, juntei-me à frota no dia seguinte, e cheguei aqui ontem na [fragata] Crocodile; a frota está vindo agora.
Todas as províncias a norte do Tejo, excepto o território imediatamente à volta de Lisboa, estão num estado de insurreição contra os franceses, e o povo está pronto e ansioso por tomar armas, mas infelizmente estas não existem no país; para dizer a verdade, não existem armas algumas para armar as tropas que o Bispo do Porto e a Junta deste lugar reuniram. Eles têm presentemente um corpo de cerca de 5.000 homens de tropa regular e milícias, incluindo 300 de cavalaria em Coimbra, armados com 1.000 mosquetes fornecidos pela frota [inglesa], caçadeiras, etc; e 12.000 paisanos, a maioria desarmados, pelo que creio.
As tropas regulares são compostas de destacamentos de diferentes corpos, e não podem ser consideradas em aspecto algum como uma força eficiente. Apesar disto, estão aqui 300 espanhóis de infantaria e cerca de 1.500 portugueses de infantaria regular, e alguns milicianos voluntários e paisanos.
O corpo da infantaria espanhola que começou a marchar da Galiza, como vos informei na minha última carta, ainda não chegou. Foi travado na fronteira, porque não havia ordens em Bragança para se permitir que entrassem no país; e, apesar do Bispo esperá-lo, parece que os oficiais portugueses pensam que o êxito do exército francês sobre o espanhol, no dia 14, desviou este corpo da causa deste país. Perante todas estas circunstâncias, determinei levar à frente o corpo português que agora está em Coimbra, e reunir tudo o demais nesse lugar.
O Bispo está muito alarmado em relação ao êxito dos franceses na província de Valladolid, em Leão. Diz-se aqui que houve uma segunda acção; e ontem à noite vi uma carta do Bispo de Santiago, declarando que o General Cuesta, o Comandante em Chefe castelhano, o informara que tinha obtido uma vitória nesta acção, e realmente tinha no seu campo 1.500 cavalos tomados à cavalaria francesa; e ao mesmo tempo declarando que os franceses estão actualmente em Benevente. É impossível perceber a verdade.
Recebi uma carta de Sir Charles Cotton, do passado dia 9, na qual me avisava para deixar a frota a barlavento e descer até ao Tejo para conferenciar consigo. Ele mandou ocupar um posto com 400 soldados da marinha na Figueira [da Foz], perto do Mondego, diante de Coimbra; pensando que é aí, ou mesmo em Peniche, o lugar mais aconselhável para o meu desembarque. Propus assim enviar a frota para o Mondego, preparar as condições de desembarque, e descer para discutir com o Almirante; e quando tiver regressado, tudo estará já pronto para o desembarque no Mondego ou em Peniche, ou até mais para sul, se o Almirante pensar que é mais aconselhável.
Não tenho notícias certas de Spencer, exceptuando que esteve com Sir Charles Cotton no início deste mês; o seu corpo desembarcou, somente para preservar a saúde dos homens, perto do Cabo de Santa Maria [a sul de Faro]. Deduzo assim que o encontrarei com a esquadra na foz do Tejo.
O corpo francês está concentrado em ou à volta de Lisboa, e diz-se que consiste entre 13 a 14.000 homens. Sir Charles Cotton diz que eles estão reunindo-se para guarnecerem as fortificações e a cidadela da cidade, bem como o forte de S. Julião.
Devem-se adoptar medidas para fornecer armas e dinheiro a este país. Vi uma declaração ontem à noite, na qual se vê que eles conseguiriam reunir 38.000 homens com facilidade, se tivessem armas ou dinheiro para os pagar. Se encontrar tropas em Coimbra que valham a pena, tenho intenções de armá-las.
Sempre, meu caro Senhor, o vosso mais sincero,
Arthur Wellesley
PS: As tropas espanholas da Extremadura entraram na fronteira oriental de Portugal, e ocuparam todos os postos em ambos lados do Tejo, excepto Elvas e Almeida, que ainda estão seguras por pequenos destacamentos de franceses.
[Fonte: Lieut. Colonel Gurwood (org.), The Dispatches of Field Marshal the Duke of Wellington, K. G. during his various campaigns in India, Denmark, Portugal, Spain, the Low Countries, and France, from 1799 to 1818 – Volume Fourth, London, John Murray, 1835, pp. 30-31; Charles William Vane (org.), Correspondence, Despatches, and other Papers of Viscount Castlereagh, second Marquess of Londonderry – Vol. VI, London, William Shoberl Publisher, 1851, pp. 386-388].
Notícias publicadas no Correio Braziliense relativas às movimentações dos exércitos portugueses, franceses e ingleses em Portugal (25 de Julho de 1808)
Porto, 25 de Julho
O General Loison, que havia sido mandado por Junot a tomar posse do Porto, recolheu-se a Lisboa de se lhe haver frustrado a empresa e ter perdido grande parte do corpo que comandava. Depois partiu para Santarém, para formar aqui um posto avançado a Junot, sobre a estrada de Coimbra e caminho de Abrantes; ao mesmo tempo que o General Laborde se postou em Leiria para comandar a estrada nova de Coimbra. Junot concentrou em Lisboa as forças que tinha em Évora e Elvas, com o que tem junto um exército de 16.000 homens.
O exército dos patriotas portugueses se avançou até Coimbra, e consiste agora das seguintes tropas:
| Infantaria regular | | 7.000 |
| Infantaria de milícia | | 10.000 |
| Infantaria de ordenança | | 15.000 |
| Cavalaria montada | | 500 |
| Cavalaria desmontada | | 1.000 |
| | Total | 33.500 |
O General Manuel Jorge Gomes de Sepúlveda dispunha-se, com as tropas que ajuntou de Trás-os-Montes, a investir [sobre] Almeida, onde havia uma guarnição francesa.
O General Arthur Wellesley chegou com a divisão do seu comando a Coruña e saltou em terra; mas logo tornou a embarcar e procedeu em sua viagem; aos 23 do corrente desembarcou no Porto, e no dia seguinte, havendo tratado com o Governo, tornou para a esquadra inglesa tomando a derrota do sul.
Aos 12 de Julho desembarcaram na Figueira 350 soldados de marinha da esquadra inglesa; e neste mesmo dia entraram no Porto 64 soldados franceses que os estudantes aprisionaram em Coimbra.
[Fonte: Correio Braziliense, Agosto de 1808, pp. 248-249].
domingo, 24 de julho de 2011
O fuzilamento de Manuel José em Lisboa (24 de Julho de 1808)
A 24 de Julho de 1808, Manuel José, um doido conhecido pelas suas extravagâncias, foi fuzilado no Terreiro do Paço. Não era a primeira vez que Lisboa assistia à morte de um civil desde que os franceses a tinham ocupado (recordemos que nos tumultos principiados a 13 de Dezembro de 1807 morreram quatro portugueses), mas no entanto, como assentou José Acúrsio das Neves, "este assassinato praticado no centro da capital do reino causou grande sensação pelas suas circunstâncias", isto é, sem processo nem formalidade alguma, e precisamente um dia depois de Junot ter feito uma aparatosa revista ao enorme corpo do exército francês que estava então em Lisboa, mais numeroso do que o habitual devido à recente chegada de parte da divisão do General Loison.
Segundo um manuscrito anónimo já várias vezes aqui citado, depois dos cinco fuzilamentos anteriores (de Jacinto Correia em Mafra, de nove portugueses nas Caldas da Rainha, de Macário José em Setúbal, e de dois portugueses e dois espanhóis também fuzilados em Setúbal),
A sexta vítima da decantada justiça dos franceses foi o desgraçado Manuel José, mancebo mentecapto que divertia o povo com as suas momices, e de que não se fazia conceito algum, e cujas acções não tinham consequência, nem mereciam imputação.
Este homem, como louco, ainda no tempo da corte aqui residente, vestia-se celebremente e, ataviado de fitas e laços, com um chicote na mão, corria neste ridículo as ruas de Lisboa; o mesmo que antigamente costumava vestir, o ornou naquele dia em que lançaram mão dele os franceses, que desconfiados de revolução nesta capital imolaram este pobre diabo (como pessoa indiferente a todos e sem consequência) ao terrorismo com que nos queriam conter. E o mais acérrimo instigador desta morte foi o célebre Pitton, oficial da Guarda Real da Polícia; era francês; quanto bastava para ser acusador.
Não cometeu delito algum e foi inocente ao patíbulo, assim como outros muitos o têm sofrido. Conta-se dele esta anedota: que dizendo-lhe os assalariados dos franceses que o acompanhavam na execução que pedisse perdão ao Governo francês do delito cometido e escândalo que à sociedade [dera], respondeu ele: o Governo é quem me deve pedir perdão da injusta morte que me manda dar; teve razão e graça no que disse.
Como aos franceses sempre esquecia dar confessor aos fuzilados, a este quando lho deram foi de caminho, e mandado ao Convento dos Religiosos Calçados de N.ª S.ª do Monte do Carmo buscar o primeiro padre que encontrassem, o que fizeram com tal violência e arrebatamento no que apareceu, que este se julgou ir a justiçar e não para assistir a um padecente; e desde o Convento até ao encontro do padecente se carpiu; e só então se desenganou da sua ilusão, vendo a vítima. Prestou os ofícios do seu ministério, segundo a sandice do infeliz, [o] soçobro dele, e [a] pressa dos franceses em matá-lo, o que teve lugar à uma hora para as duas da tarde, na Praça do Comércio, com assistência de muita tropa francesa e grandes aparatos, tudo disposto à impostura e engano. No mais me remeto à Gazeta que junto [de 27 de Julho de 1808].
[Fonte: Discursos do Imortal Guilherme Pitt..., pp. 342-344. Nota: corrigimos para 24 a data que no texto original aparece como 25 de Julho, com base no texto da citada Gazeta de Lisboa, na versão de Acúrsio das Neves que abaixo se segue, e ainda num pequeno comentário manuscrito sobre este caso, compilado por Antonio Joaquim Moreira (org.), na sua Colecção de sentenças que julgarão os réos dos crimes mais graves e attrozes commetidos em Portugal e seus dominios - Vol. 4, 1863 (páginas não numeradas)].
Como abaixo se mostra, os pormenores da versão de José Acúrsio das Neves sobre este episódio diferem um pouco dos da anterior, embora ambas as versões concordem no essencial, ou seja, que Manuel José foi executado arbitrariamente, sem quaisquer fundamentos plausíveis que pudessem justificar a sua morte:
Durou a revista [de 23 de Julho] desde as 5 até às 8 horas da tarde, e entretanto toda a Lisboa tremeu de susto: é o que pretendia Junot, que não desprezava meio algum de inspirar terror aos povos, para os manter quietos.
Foi sem dúvida com as mesmas vistas que ele mandou cometer no dia 24 o assassinato que vou referir. [...] Havia em Lisboa um homem chamado Manuel José, que tinha sido empregado havia anos em correio no serviço do arsenal da fundição, e desde muito tempo se reputava por mentecapto, até por extravagâncias do seu vestuário, com que se fazia muito célebre: estas extravagâncias, ou o mataram, ou serviram de pretexto para isso. Foi encontrado no mencionado dia (era um domingo) junto à igreja de Santos, vestido com uma jaqueta branca, toda cheia de laços ou bocadinhos de fita encarnada; imediatamente o prenderam e conduziram à casa do General de Laborde, Governador de Lisboa, onde concorreu Lagarde, e se lhe fez um conselho de injustiça, de que resultou ser fuzilado no meio do Terreiro do Paço contra a estátua equestre. As fitinhas passaram por insígnias da revolução, e o mentecapto por emissário dos insurgentes; e com tanta presteza se adquiriram as provas e se lhe fez o processo, que sendo preso pelas 10 horas da manhã, nesse mesmo dia cessou de existir às 3 da tarde.
Tal foi o aparato, tais os auspícios, com que saiu de Lisboa a expedição que foi cobrir de sangue e de estragos as ruas de Évora.
[Fonte: José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal - Tomo IV, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, pp. 90-91].
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Carta do Almirante Charles Cotton ao Bispo do Porto
Senhor:
Tenho a honra de confessar a Vossa Excelência o recebimento da sua carta datada de 18 do corrente [mês de Julho], e sinceramente espero que antes que esta chegue a Vossa Excelência, terá chegado de Inglaterra socorro de oficiais, tropas, armas e munições ao Porto; um exército considerável tendo embarcado e feito à vela de Cork no dia 3 do presente, como tenho sabido, destinado ao auxílio de Portugal em consequência das minhas representações feitas ao governo de Sua Majestade Britânica.
Eu espero que Vossa Excelência me faça a justiça de persuadir-se que eu sinto o mais vivo interesse no sucesso da gloriosa causa em que Vossa Excelência toma o comando, e espero que nenhum imediato perigo o possa ameaçar, antes pelo contrário (do espírito de lealdade e patriotismo agora geralmente manifestado por todo o reino de Portugal, e do grande sucesso obtido pelos espanhóis, bons patriotas contra o inimigo comum, do qual eu tenho a honra de enviar uma relação), que a mais venturosa consequência há de ser o resultado, não só a Portugal e Espanha, mas à Europa e ao mundo.
Com a maior consideração e respeito, eu tenho a honra de ser, Senhor, de Vossa Excelência o mais humilde e obediente criado.
C. Cotton
[Fonte: José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal, e da Restauração deste Reino - Tomo V, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, p. 48].
sábado, 23 de julho de 2011
Carta da Junta de Governo de Sines ao Almirante Charles Cotton (23 de Julho de 1808)
Recebemos a carta que Vossa Excelência nos fez a honra de remeter pelo emissário encarregado da condução das armas, que Vossa Excelência já na sua primeira carta nos ofereceu, secundando a mesma oferta na outra que pelo mesmo emissário nos foi enviada; e como, segundo Vossa Excelência ajustou com ele, tem já decorrido o tempo aprazado de oito dias, dentro dos quais Vossa Excelência prometeu enviar-nos o armamento, caso que até então chegasse; e como este continua a ser-nos necessário, e supomos que Vossa Excelência já o terá recebido, mandamos novamente, na forma que se ajustou com Vossa Excelência, esse emissário buscar as 400 armas, 8.000 balas e as pistolas e espadas que Vossa Excelência puder dispensar.
Acresce a isto a nova requisição que fazemos a Vossa Excelência de pólvora, o que sem dúvida não exigiríamos se estivéssemos de posse da que tínhamos, que eram dezassete barris, os quais por precaução pusemos a bordo da fragata Comus, que aqui estava, donde Vossa Excelência a poderá receber caso que a dita fragata aqui não volte, remetendo-nos agora a que puder, pois igualmente nos é de suma necessidade.
Rogamos a Vossa Excelência que haja de enviar-nos, quanto antes, ou a mesma ou qualquer outra fragata, a qual servirá não só de animar este povo e suas vizinhanças, que ficaram sumamente sentidos quando a viram sair deste porto, mas até de pôr freio a alguma incursão do inimigo, que, segundo nos consta, tem chegado em grande número a Setúbal, tendo até assestado peças no castelo de Palmela.
Esperamos de Vossa Excelência quanto lhe pedimos, pela grande falta que temos de tudo, não esquecendo a Vossa Excelência a pólvora, por ser artigo da primeira necessidade.
Deus guarde a Vossa Excelência muitos anos.
Sines, em Junta do Governo de 23 de Julho de 1808.
Fr. Eusébio da Estrela, Secretário da Junta.
[seguiam-se as assinaturas do Presidente e dos Deputados].
[Fonte: José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal, e da Restauração deste Reino - Tomo V, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, pp. 41-43].
Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (23 de Julho de 1808)
Lisboa, 23 de Julho
O Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes deve hoje, Sábado, pelas 5 horas da tarde, passar uma revista geral às tropas que se acham nesta capital.
Esta revista se fará na Praça do Comércio, aonde as sobreditas tropas se acharão postadas, como igualmente nas praças e ruas vizinhas.
As circunstâncias actuais dão motivo para de novo observar até que ponto chegam o fanatismo e o espírito de partido a alucinar os entendimentos os mais perspicazes, em certas épocas que parecem destinadas pela Providência para punir as nações pelas culpas acumuladas dos seus Governos. Portugal gozava de paz e tranquilidade, apesar da fugida dos seus antigos Príncipes.
Apenas se divisavam mudanças efectuadas, tão suave e moderada era a lei de um vencedor amigo do país, e tal era o respeito com que o Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes considerava até as instituições antigas, só a fim de remover o partido arriscado de toda a revolução. De repente, porém, se lembram alguns assalariados ingleses e alguns clérigos e frades tão inimigos de Deus como dos homens, de excitar o fogo da discórdia e da rebelião em algumas províncias, chamando a estas o saque e o incêndio em castigo dos mais graves excessos; e, à sua voz pérfida, a multidão se subleva contra a vontade da gente de bem e das pessoas ilustradas, por estarem na persuasão de que estas vãs e criminosas agitações só podiam servir para trazer sobre elas todas os desastres. Por que razão essas pessoas, em vez de se deixaram oprimir e arrastar por força a uma tão perigosa cumplicidade, não se reúnem, como se fez em Tomar, para implorar a bondade e a clemência do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor General em Chefe, o qual, ainda ao tempo de descarregar o golpe sobre os mais criminosos, só procurará perdoar às vítimas das suas seduções e enganos?
Como é possível que Portugal, a não querer ir meter-se debaixo do jugo espanhol, que os seus antepassados suportaram com tanto horror, se não envergonhe do indigno modo com que algumas partes das suas fronteiras são tratadas por corpos pouco numerosos de contrabandistas espanhóis, que vêm a ditar nessas partes impunemente a lei, arrebatando daí os seus melhores Magistrados e levando-os presos para Espanha? Porventura é desta sorte que Portugal espera mostrar-se digno de ser ainda uma nação, ou uma simples província tributária e sujeita à Espanha?
A Espanha, sempre ciosa de Portugal e cheia de um ardente desejo de reconquistá-lo, viu com inveja os direitos que este país adquiria, pela sua prudência, à bondade de Sua Majestade o Imperador e Rei; e logo fez cair sobre ele os males que a devoravam, para envenenar o presente e comprometer as esperanças de independência, de prosperidade e de glória que o mui poderoso Árbitro da Europa lhe assegurara num futuro próximo! Portugueses, é ainda tempo de vos deterdes na borda do abismo a que vos impelem os espanhóis, vossos eternos inimigos, fingindo fazer convosco causa comum, a fim de subjugar-vos para sempre; é ainda tempo de merecerdes ser felizes, tornando prontamente ao vosso dever, e imitando o exemplo de submissão e de tranquilidade que vos oferece a vossa capital.
A 20 do corrente voltou a Lisboa o Senhor General Loison, Conde do Império, com o corpo numeroso de tropas que consigo levara. A sua chegada fez acudir um grande número de espectadores, entre os quais havia vários que, acalentados com os contos ridículos que a malignidade e a inconsideração obstinadamente divulgaram sobre a suposta prisão do dito General, mal podiam crer que o viam com os seus próprios olhos. O povo de Lisboa foi induzido a ajuizar assim o quão pouca confiança merecem todas aquelas exagerações e fábulas absurdas por onde se procuram agitar os ânimos, a fim de incitar os habitantes a movimentos cujo primeiro e infalível resultado seria a ruína desta capital, que deve a sua quietação às firmes e sábias disposições de Sua Excelência o General em Chefe.
[Fonte: 2.º Suplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 28, 23 de Julho de 1808].
Diário do General John Moore (23 de Julho de 1808)
Portsmouth, 23 de Julho de 1808
Recebemos uma ordem no mar para irmos para a costa de Downs em vez de para Yarmouth, e consequentemente ancorámos aí na tarde do dia 15. Procurei por cartas na costa, mas nenhuma das que obtive eram oficiais. O Capitão Owen, que era o oficial naval mais velho, recebeu ordens para completar os abastecimentos das provisões e de água dos navios o mais rápido possível. Através de um expresso, informei o Comandante em Chefe e Lord Castlereagh acerca da nossa chegada. Durante a noite chegou uma ordem endereçada ao oficial naval mais velho, para dirigir os navios-transportes para Portsmouth, e para o General Moore ir para a cidade. Deixei os transportes seguirem para o seu destino e parti para Londres, onde cheguei ao anoitecer. No dia seguinte, como era Domingo, nenhum dos Ministros estava na cidade, mas vi o Coronel Gordon, o secretário militar do Duque. Através dele soube que me devia dirigir para Espanha ou Portugal com as tropas que tivesse. Iríamos reunir-nos com as outras tropas que já tinham embarcado, nomeadamente as comandadas por Sir Arthur Wellesley, que partiram de Cork, e as comandadas por Spencer, que estavam estacionadas em Santa Maria, perto de Cádis, para formarmos um exército de 30.000 homens, que será comandado por Sir Hew Dalrymple como chefe, e tendo Sir Harry Burrard como segundo no comando.
Através de Gordon e de outros soube que surgiram muitas intrigas sobre o comando. Houve ministros que fizeram tudo o que estava ao seu alcance para dar o comando a Sir Arthur Wellesley, mas como este era um Tenente-General tão novo, o Duque opôs-se a esta medida, e eles, receosos de desagradarem o exército e a nação com tal nomeação, desistiram da ideia. Frustrado assim o seu principal objectivo, determinaram-se em não me darem o comando, e, para evitarem que eventualmente acabasse por recair sobre mim, nomearam Sir Harry Burrard como segundo no comando. Ficou combinada uma entrevista com Lord Castlereagh para a manhã seguinte (Segunda-feira) no seu escritório, às duas horas.
Castlereagh recebeu-me como usualmente, embora tivesse limitado a sua conversação à expedição à Suécia*. [...]
Sua Senhoria perguntou-me então algumas questões sobre as tropas, e, quando pensava que elas iriam receber ordens para partir, ao despedir-se disse-me que provavelmente iria querer ver-me no dia seguinte, para me falar sobre outro assunto.
Sua Senhoria perguntou-me então algumas questões sobre as tropas, e, quando pensava que elas iriam receber ordens para partir, ao despedir-se disse-me que provavelmente iria querer ver-me no dia seguinte, para me falar sobre outro assunto.
Ao deixar Lord Castlereagh encontrei-me com o Duque de York, que me recebeu com a sua habitual gentileza e assegurou-me que o Rei e que ele próprio tinham aprovado plenamente tudo o que tinha feito [na expedição à Suécia], e que ambos pensavam que tinha sido muito afortunado que o comando do exército me tivesse sido dado, por ter sido firme em resistir às incomodidades e por não ter permitido que o exército fosse desperdiçado num serviço desnecessário. Ele perguntou-me se tinha visto Lord Castlereagh. Disse-lhe que tinha acabado de o ver, e que ele me tinha declarado a aprovação do Gabinete sobre tudo o que tinha feito. O Duque perguntou-me se ele não tinha falado sobre outro assunto comigo, e respondi-lhe que não. Sua Alteza Real aparentou embaraçar-se bastante. Percebi muito bem que o que se estava passando não era da sua responsabilidade. Ele disse-me, enquanto partia, que sabia muito pouco. Nessa noite, depois de me deitar, recebi uma nota do General-Brigadeiro Charles Stewart, informando-me que Lord Castlereagh queria ver-me às três da tarde, e que devia preparar-me para deixar a cidade logo depois.
Até aqui, nenhuma palavra me tinha sido comunicada sobre a forma como seria empregado, e mesmo assim quis preparar-me para deixar a cidade nessa tarde. Felizmente, todas as minhas bagagens estavam em Portsmouth, no navio em que tinha vindo da Suécia. Tinha poucos preparativos a fazer, e ordenei que uma carruagem estivesse à porta às quatro da tarde. Quando me encontrei com Lord Castlereagh às três, começou ele por dizer que Sir Arthur Wellesley tinha partido de Cork no dia 12, e que poderia ser esperado na foz do Tejo no dia 20; que ele tinha sido instruído para desembarcar, caso se achasse suficientemente forte para atacar o inimigo, segundo as informações que deveria receber sobre a sua força; em caso contrário, deveria esperar pela chegada das tropas debaixo do meu comando e das outras que foram ordenadas [para o mesmo destino], para então Sir Harry Burrard tomar o comando das operações, pois supõe-se que Sir Hew Dalrymple ainda não terá chegado entretanto. Foi somente por este raciocínio que percebi que deveria prosseguir para este serviço como um Tenente-General debaixo das ordens de Sir Hew Dalrymple e de Sir Harry Burrard. Penso que esta maneira de se comportarem comigo foi bastante extraordinária. Tendo regressado de um Comando-em-Chefe, esperava naturalmente que me dariam alguma explicação ou desculpa, caso se achasse necessário enviar-me com as tropas que então comandei, mas agora numa posição muito inferior; contudo, o comportamento de Lord Castlereagh evidenciava que ele tinha vergonha de si próprio, e que nunca me iria dizer claramente qual seria a minha posição.
Estava completamente determinado a prosseguir para o serviço, mas antes de partir pensei que deveria declarar a Lord Castlereagh o sentimento que tive sobre a forma como tinha sido tratado. Assim, quando me pareceu que terminara tudo o que tinha para me dizer, disse-lhe eu: Meu Senhor, a carruagem está à minha porta, e depois de deixar Vossa Senhoria encaminhar-me-ei para Portsmouth, a fim de me reunir com as tropas, às quais me devo dirigir como Tenente-General, por aquilo que percebo. Talvez esteja na minha sina nunca mais vos ver. Por isso, penso que devo declarar-vos o meu sentimento sobre o deselegante tratamento que recebi de vós. Ele disse que não estava ciente do tratamento a que aludi. Recapitulei então tudo o que se tinha passado desde a minha chegada a Downs. Se fosse um alferes, dificilmente seria possível ter-me tratado com menos cerimónia. Foi apenas por dedução que soube como iria ser empregado agora, pois Vossa Senhoria nunca me disse em termos claros que eu tinha sido nomeado como Tenente-General para servir o exército debaixo do comando de Sir Hew Dalrymple, e que, como vinha dum Comando-em-Chefe, e como a intenção era empregar-me numa posição inferior, esperava que me dissesses alguma coisa. Dissestes-me que a minha conduta na Suécia tinha sido aprovada, mas as vossas acções levam-me a concluir o inverso. Não consigo perceber a causa; pois se houve um oficial ao serviço que se tenha conduzido por um caminho recto, e que se tenha empenhado pelos seus próprios esforços, sem intrigas ou difamações do mérito de outros, penso que esse oficial sou eu próprio.
Não consigo imaginar porque é que devo ser o objecto de tal descrédito; mas, meu Senhor, tenho sido tratado indignamente e duma maneira que nada na minha conduta pode justificar. Os Ministros de Sua Majestade têm o direito de empregar quaisquer oficiais que queiram, e como nesta ocasião deram o comando ao General mais novo do exército, nem deveria sentir nem dizer que me foi feita alguma ofensa; mas tenho um direito, em comum com todos os oficiais que serviram bem e zelosamente, de esperar que seja tratado com atenção, e que quando me é oferecido um emprego, que devem ser tidos em conta os meus serviços anteriores. Aludia aqui a Sir Hew Dalrymple e a Sir Harry Burrard, que, apesar de ambos serem homens respeitáveis e bons, nenhum deles é um oficial para um tal serviço como eu próprio. Lord Castlereagh mal me falou durante a conversação, mas não estava ciente de me ter dado quaisquer motivos de queixa... Quando acabei o queria dizer levantei-me abruptamente e retirei-me.
Entendo que vários membros do Gabinete antipatizaram comigo, embora raras vezes os tenha visto, e não podem saber nada de mim. Eles querem sustentar Sir Arthur Wellesley, e queriam dar-lhe o comando de toda a força [britânica] na Espanha e em Portugal, mas o Rei e o Duque de York opuseram-se a tal, por ser ele o mais novo dos Tenentes-Generais nomeados no outro dia. Isto provocou-os, e juntamente com a sua geral antipatia, esforçaram-se por me humilhar, colocando-me numa posição semelhante à de Sir Arthur. Viram-se obrigados a aprovar o que eu tinha feito na Suécia, e mesmo assim fizeram-no contrariados, pois não tive problemas em ocultar que tinha sido a sua ignorância que nos tinha enviado para ali, quando eles deveriam saber, pelo carácter do Rei e pela fraqueza da sua força, que era impossível que qualquer coisa fosse feita. Ao deixar Lord Castlereagh parti para Portsmouth, onde cheguei ao entardecer da Quarta-feira dia 20, tendo parado em casa do meu irmão Jack, e depois estado com a minha mãe. Encontrei a frota, que acabava de chegar de Downs. Estava ocupado em ultimar os preparativos para partir, quando, no dia 23, um mensageiro do Rei trouxe-me uma carta de Lord Castlereagh, evidentemente com o objectivo de me irritar, esperando que lhe respondesse desmedidamente, para assim dar-lhe uma desculpa para me retirar deste serviço, porque, apesar de ser tão graduado como Sir Arthur e de haverem outros mais graduados que ele, eles pensam que eu estarei no seu caminho.
Contudo, desapontei-os, pois enviei-lhes uma resposta muito calma, dando-lhes um golpe que podiam sentir mas não ressentir. Enviei ao mesmo tempo cópias de ambas as cartas do Coronel Gordon para o Duque de York, juntamente com uma narrativa sobre tudo o que se tinha passado desde que tinha regressado à Inglaterra. Tenho agora a esperança de poder ir tranquilamente para o serviço para o qual fui ordenado, sem mais aborrecimentos. Sir Harry Burrard chegou ontem, e entreguei-lhe o comando.
Contudo, desapontei-os, pois enviei-lhes uma resposta muito calma, dando-lhes um golpe que podiam sentir mas não ressentir. Enviei ao mesmo tempo cópias de ambas as cartas do Coronel Gordon para o Duque de York, juntamente com uma narrativa sobre tudo o que se tinha passado desde que tinha regressado à Inglaterra. Tenho agora a esperança de poder ir tranquilamente para o serviço para o qual fui ordenado, sem mais aborrecimentos. Sir Harry Burrard chegou ontem, e entreguei-lhe o comando.
[Fonte: Major-General Sir J. F. Maurice, K.C.B. (ed.), The Diary of Sir John Moore - Vol. II, London, Edward Arnold Publisher, 1904, p. 239-251].
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Nota:
* No final de Fevereiro de 1808, os territórios unidos da Dinamarca-Noruega, pressionados por Napoleão, declararam guerra à Suécia, ao mesmo tempo que a Rússia começara a invadir a Finlândia, território então pertencente à Suécia. Como ambas medidas visavam forçar a Suécia a aderir ao bloqueio continental instaurado por Napoleão, respondeu o Governo britânico dando instruções (embora sem um plano específico) ao General John Moore para ir auxiliar o rei sueco Gustavo IV. John Moore, acompanhado por cerca de 10.000 homens que trazia debaixo do seu comando, chegou a Gotemburgo a 17 de Maio do mesmo ano, dez dias depois de sair do porto inglês de Yarmouth. Contudo, ao contrário do que esperava, Moore não obteve permissão para desembarcar os seus homens, e depois de gastar um mês trocando correspondência com o rei sueco e com o Governo britânico, acabou por partir para Estocolmo, a fim de conversar pessoalmente com o despótico Gustavo IV, monarca algo lunático e com vastos esquemas de conquista (apesar de ter acabado de perder grande parte da Finlândia para os russos, precisamente por carecer de tropas suficientes para a sua defesa), que propunha que os britânicos, juntamente com algumas tropas suecas, deviam tomar a ilha da Zelândia, para daí partirem para a Finlândia para lutar contra os russos. John Moore objectou que a sua força era insuficiente para tais projectos, o que provocou a ira de Gustavo IV, que ordenou a sua prisão. Poucos dias depois, Moore conseguiu fugir, retornando a Gotemburgo, e acabando por regressar com as suas tropas para a Inglaterra no início de Julho. É precisamente nesta viagem de regresso que John Moore recebe a ordem mencionada no início do texto acima transcrito.
Deve ser notado que, enquanto tudo isto se passava, John Moore ia recebendo correspondência de amigos seus sobre os avanços das revoltas populares da península ibérica contra as tropas de Napoleão, bem como sobre as primeiras disposições do Governo britânico para auxiliar a Espanha e Portugal.
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Carta do General John Moore a Lord Castlereagh, Secretário de Estado da Guerra (23 de Julho de 1808)
Portsmouth, 23 de Julho de 1808
Meu Senhor:
Fui honrado agora mesmo com a carta de Vossa Senhoria datada de ontem, que foi trazida por um mensageiro. Como já tive a honra de declarar completamente os meus sentimentos a Vossa Senhoria na minha última entrevista, penso que será desnecessário incomodar-vos com a repetição do que então disse.
Estou prestes a partir para o serviço que fui ordenado, e esforçar-me-ei para me conduzir com o mesmo zelo com que sempre agi desde que tenho estado ao serviço do meu país; a comunicação que se julga ser adequada fazer a Sua Majestade não pode deixar de me dar prazer. Tenho a confiança mais perfeita na justiça de Sua Majestade, e nunca poderia sentir mais segurança, enquanto a minha conduta, o meu carácter e a minha honra estão debaixo da protecção de Sua Majestade.
Tenho a honra de ser,
John Moore
[Fonte: Major-General Sir J. F. Maurice, K.C.B. (ed.), The Diary of Sir John Moore - Vol. II, London, Edward Arnold Publisher, 1904, p. 252].
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Nota:
Para maior compreensão desta carta, veja-se um excerto do diário John Moore adiante publicado.
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sexta-feira, 22 de julho de 2011
Carta de Lord Castlereagh, Secretário de Estado da Guerra, ao General John Moore (22 de Julho de 1808)
St. James Square, 22 de Julho de 1808
Senhor:
Penso que é justo que não deixeis a Inglaterra sem saberdes que comuniquei aos Ministros do Rei (por sentir que era meu dever e por supor que teríeis a intenção de que eu o fizesse) a queixa que me fizestes na nossa última entrevista, acerca do "tratamento deselegante e indigno" que recebestes da parte do Governo do Reino, e da minha própria parte, relativamente ao modo como as suas medidas devem ser postas em execução.
Ao mesmo tempo, como tanto eles como eu sentem que esta queixa é infundada, tenho de garantir-vos que se as disposições do exército não estivessem tão adiantadas, de modos que pudessem ser desfeitas sem prejudicar consideravelmente o serviço de Sua Majestade, teríamos razões da nossa parte para humildemente aconselharmos Sua Majestade para desobrigar-vos duma situação na qual pareceis considerar-vos como tendo sido colocado sem a devida atenção aos vossos sentimentos enquanto oficial.
Ademais acrescento que se julga ser adequado que Sua Majestade seja informada da queixa que haveis feito, juntamente com os sentimentos dos funcionários de confiança de Sua Majestade.
Tenho a honra de ser o vosso mais servo mais obediente e humilde,
Castlereagh
[Fonte: Major-General Sir J. F. Maurice, K.C.B. (ed.), The Diary of Sir John Moore - Vol. II, London, Edward Arnold Publisher, 1904, pp. 251-252].
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Nota:
Para maior compreensão desta carta, veja-se um excerto do diário John Moore adiante publicado.
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The Beast as described in the Revelations, Chap. 13. Resembling Napolean Bounaparte, caricatura de Thomas Rowlandson (22 de Julho de 1808)

Fonte: Brown University Library
A Besta como descrita no livro do Apocalipse, Cap. 13.
Semelhante a Napoleão Bonaparte.
Caricatura de Thomas Rowlandson, publicada a 22 de Julho de 1808.
E vi subir do mar uma besta que tinha [...] sete cabeças, [...] e sobre as suas cabeças um nome de blasfémia. [...] E a besta que vi era semelhante a um leopardo [...] e a sua boca como a de um leão. [...] E vi uma das suas cabeças como que ferida mortalmente [...].
(Ap., 13: 1-3).
E vi subir do mar uma besta que tinha [...] sete cabeças, [...] e sobre as suas cabeças um nome de blasfémia. [...] E a besta que vi era semelhante a um leopardo [...] e a sua boca como a de um leão. [...] E vi uma das suas cabeças como que ferida mortalmente [...].
(Ap., 13: 1-3).
Inspirando-se, como indica o título, no 13.º capítulo do livro do Apocalipse, esta caricatura representa a besta de sete cabeças erguida do mar (neste caso, a Córsega natal de Napoleão), a qual ostenta o número 666 no seu corpo de leopardo (semelhante ao do "tigre" que o mesmo autor já tinha representado duas semanas antes, na caricatura intitulada The Corsican Tiger at Bay). Esta besta monstruosa é atacada por um guerreiro que representa a Espanha, inclusive na sua própria pose (reforçada pela capa), que se assemelha aos contornos geográficos do dito país. A mitra que ostenta (também presente noutras caricaturas, como por exemplo The Noble Spaniards..., King Joes Reception at Madrid, ou Sancho alias Joe Butt's...), portando as inscrições S. Pedro e Roma, alude ao facto dos monarcas espanhóis serem conhecidos como os Reis Católicos, enquanto a lâmina da sua espada representa um verdadeiro espanhol [de] Toledo, o seu escudo a Catalunha, o seu braço direito o Patriotismo espanhol e o antebraço as Astúrias, o seu boldrié Madrid e a sua coxa esquerda Córdova. O seu pé direito, que representa Cádis, pisa uma serpente, em alusão à rendição incondicional da esquadra de Rosily, reforçada pela presença, ao fundo, da esquadra do Almirante Purvis. Este personagem, vestido como um nobre espanhol, declara que O verdadeiro Patriotismo é subjugar assim a besta monstruosa e acalmar a fúria da Guerra!!!
Este herói deu um golpe certeiro numa das cabeças da besta (precisamente a de Napoleão), a qual está presa por um fio, se bem que continuando a largar chamas da boca. As outras seis cabeças da Besta ostentam caretas selvagens e arreganham os dentes. As suas coroas indicam que são os monarcas da Rússia, Prússia, Dinamarca, Holanda, Nápoles e Áustria.
Da cabeça quase completamente decepada de Napoleão caiem quatro coroas (duas da França, uma de Portugal e outra da Espanha). A Esperança, representada por uma mulher com uma âncora, corre nesse momento para tentar apanhá-las com o seu avental.
Finalmente, ademais de aparecer inscrito no corpo da besta, o número 666 aparece também associado ao próprio nome de Napoleão (aqui chamado de Napolean), através da correspondência entre as letras e a sua correspondência numérica. Note-se que esta associação entre Napoleão e a Besta do Apocalipse não era nova (ver por exemplo, a cores ou a preto e branco, a caricatura intitulada An hieroglyphic, describing the state of Great Britain and the continent of Europe, for 1804):
[...] A marca que é o nome da besta ou o número do seu nome. [...]
E o seu número é seiscentos e sessenta e seis
(Ap. 13: 17-18).
Outras digitalizações:
Proclamação espanhola por ocasião da vitória do Exército da Andaluzia sobre as forças francesas comandadas pelo General Dupont (e respectiva tradução)
[Fonte: Collecçaõ de papeis officiaes da Junta Provisional do Governo Supremo, e de varias pastoraes, e proclamaçoens, desta cidade do Porto, e de outras partes do Reino, e ainda dos estrangeiros, Porto, Typographia de Antonio Alvarez Ribeiro, 1808. Foi ainda publicada uma outra tradução portuguesa na Minerva Lusitana, n. º 33, 7 de Setembro de 1808].
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