segunda-feira, 18 de julho de 2011

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (18 de Julho de 1808)



Lisboa, 18 de Julho


Havendo muitos mancebos que se acham em Lisboa pedido ao Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes que lhes permitisse armar-se, equipar-se à sua custa e servir junto da sua pessoa como voluntários de ordens, anuiu Sua Excelência ao seu pedimento. Portanto, o dito corpo, comandado por mr. Bastia, militar que fora, se apresentou já a Sua Excelência, por quem foi acolhido dum modo muito afável e benigno.
O General em Chefe lhe prometeu fornecer-lhe ocasião de distinguir-se, combatendo, se o caso o pedisse, a seu lado contra todos e quaisquer inimigos de Sua Majestade o Imperador e Rei.

O corpo de tropas que se expedira para varrer a costa desde Peniche até acima de Leiria não pôde achar aí nem inimigos que combater, nem rebeldes que punir; o que tão somente se encontrou foram alguns indivíduos semelhantes que se atreveram a esperar no forte da Nazaré, à roda do qual se dissera que se tinha efectuado um desembarque, que nunca existiu. Aquele forte foi tomado num instante, ficando prisioneiro o pequeno número dos que nele se achavam. Os ingleses, na persuasão de que os indivíduos que seduzem para conduzi-los à morte estavam nessas paragens em grande número, puseram ali em terra poucos dias antes alguns morteiros e obuses duma forma particular, os quais não deixarão de nos ser úteis; deles nos apoderámos, em vez de deixá-los ir à sua destinação.

Lisboa continua a gozar duma grande tranquilidade, apesar do vão terror que certos indivíduos, que se conhecem e sobre os quais se vigia de perto, procuram espalhar; e apesar das exagerações que a malevolência divulga ou que a inadvertida crueldade adopta cegamente sobre a entrada de alguns pequenos corpos de paisanos espanhóis em algumas partes das fronteiras. Sem dúvida é esse um mal momentâneo a que certas combinações de uma ordem superior não permitem dar remédio tão prontamente como se desejara, porque convém esperar que se desenvolva um plano geral ditado pela mais profunda sabedoria. Que são porém algumas partidas espanholas contra um exército tal como o do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes, pronto a esmagá-las a elas e aos seus cúmplices, quando menos o esperarem? Como é possível que se deixe de ver por outra parte que esses espanhóis, afora qualquer outra causa coactiva, terão de voltar precipitadamente à sua pátria, à medida que as tropas francesas, que se vão adiantando, submeterem o interior do seu país, assim como já têm submetido o norte e a capital do mesmo; e que então, ao mais tardar, abandonarão aqueles dos portugueses que tiverem desatinadamente abraçado a sua causa à animosidade de um vencedor justamente irritado?
Para ajuizar do resultado dos acontecimentos actuais, não se deve fugir deste pensamento decisivo e bem próprio para conter na ordem e no dever todos os homens de razão: Que pode a Espanha, que poderiam até mesmo algumas províncias revoltadas de Portugal, quando, em vez de estarem sem chefes, sem concentração, sem interesses comuns, se vissem reunidas contra aquele gigante da França tantas vezes vitoriosa da Europa e dirigida pelo Grande NAPOLEÃO?

[Fonte: Gazeta de Lisboa, n.º 28, 18 de Julho de 1808].

domingo, 17 de julho de 2011

Carta do Comandante do Exército da Andaluzia, General Castaños, à Junta de Sevilha, sobre os prolegómenos da batalha de Bailén (17 de Julho de 1808)



No dia onze deste mês, manifestei a Vossa Alteza ter sido aprovado o plano de operações na reunião [dos Generais do exército espanhol], cujos detalhes omitia para não importunar, oferecendo-me para dar parte a Vossa Alteza dos seus resultados, anunciando ao mesmo tempo que começava a realizá-lo na noite do mesmo dia. 
Para o devido conhecimento de Vossa Alteza e melhor se inteirar do estado actual, é necessário fazer algumas indicações sobre as circunstâncias antecedentes. O General Reding, com uma divisão de nove mil homens de boas tropas, devia dirigir-se por Mengíbar para atacar Bailén, cair depois sobre Andújar, e impedir as reuniões das tropas inimigas. Efectivamente, começou a executá-lo, e a sua vanguarda, comandada pelo Brigadeiro Venegas, encontrou os inimigos já a catorze de Julho, como se deduz da carta n.º 1. O dito General, cumprindo acertadamente as minhas instruções, atacou os inimigos no dia dezasseis, com o feliz sucesso que acredita a carta n.º 2. Teria sido mais completo se o calor, fome, sede, a devastação do terreno e a falta de meios e socorros com que marcham os nossos exércitos  não o tivessem detido.
Marquês de Coupigny, com uma divisão de cinco mil homens, devia ir por Higuereta e Villanueva para sustentar o General Reding, combinado os seus movimentos com este e com o resto do meu exército. Ele cumpriu perfeitamente as minhas instruções e conseguiu as vantagens que se acreditam pelas cartas n.º 3 e n.º 4 de quinze e dezasseis deste mês, como também interceptar um correio com a correspondência do General Dupont, cujas cópias traduzidas remeto com o n.º 5, n.º 6 e n.º 7.
Tenente Coronel D. Juan de la Cruz Mourgeon, com um corpo de mais de dois mil homens, devia passar por Marmolejo, para evitar e incomodar os inimigos, se estes intentassem escapar pela Serra. Teve os confrontos que se comprovam na carta n.º 8.
Finalmente, de acordo com o plano, no dia 15 ao amanhecer ocupei sem desgraças as alturas dos Visos de Andujar, posição vantajosa, forte, que conservo convencido da sua utilidade, apesar de não ter tendas, faltar água e sentir-se uns calores excessivos, incomodidades que sofre a tropa com a paciência e constância que caracteriza a nação espanhola. É tal o rigor da estação, que teria perdido alguns homens afogados pelo calor, se não os tivesse socorrido prontamente. Procurar-se-á por todos os meios o remédio, pois enquanto Reding e Coupigny agem, é preciso manter esta posição.
Incomodo continuamente os inimigos pela minha frente, ameaçando-os por todos os lados, tendo conseguido desta forma alarmá-los, com as armas a postos, impossibilitados de incomodar Reding e Coupigny e sem que possam recolher grãos e amassar pão, em cujo extremo se acham por falta de paisanos que o executem. Também os incomodo frequentemente com os meus fogos [de artilharia], e, ainda que me respondam, não experimentei da minha parte mais desgraças que as de três mortos e cinco feridos no dia de ontem.
Como o principal objectivo das divisões de Reding e Coupigny é bater as tropas de Bailén e atacar os inimigos pelo seu flanco, dei ordens para que os ditos Generais reúnam as suas divisões, cujas forças são respeitáveis para qualquer ataque, enquanto eu pela frente não os deixarei sossegar até reduzi-los ao último extremo.
Não posso ocultar a Vossa Alteza que me encontro muito satisfeito da conduta dos Generais, Tropa e Oficialidade, em termos que prometo continuar a dar a Vossa Alteza notícias de seu agrado.
Deus guarde a Vossa Alteza muitos anos.
Quartel-General, no acampamento dos Visos de Andújar, a 17 de Julho de 1808.


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Nota: 

Esta carta foi recebida em Sevilha pouco depois das dez horas da manhã do dia 18 de Julho, sendo logo mandada imprimir-se (juntamente com os documentos citados) para ser afixada em Edital.

Soneto e Réplica tendo como mote: Vendo-se Terça-Feira 17 de Julho pelas ruas de Lisboa avultadíssimos bandos de mosquitos




Soneto

Parabéns, parabéns Sebastianistas!
Consumou-se o mistério, é certo, é certo,
Não tarda o nevoeiro, e o Encoberto
Vem aos Galos vencer, cortar as cristas:

Dos profetas santões as longas distas
Estão de eternizar-se muito perto,
Testemunho infalível vos oferto,
No que há pouco passou às nossas vistas:

Já em vosso favor virou a Roda
Uma destas manhãs, abençoada!
Houve um sinal, que à vinda se acomoda;

Mandou o Grande Rei tropa esforçada,
Mas por maior disfarce, veio toda
Em nuvens de mosquitos transformada.

De José Daniel Rodrigues da Costa


Resposta pelos mesmos consoantes.

Aceitai parabéns Sebastianistas,
Que os contrários não vencem; nem decerto
Há de afrouxar a fé desse Encoberto,
Enquanto o Mundo der Galos com cristas.

Dos sábios defensores, grandes listas
As futuras verdades vêm de perto;
Nos seus contraditores vos oferto,
Um bando de Tafices, faltos de vistas:

'Inda em vosso favor remove a Roda
Uma e outra manhã abençoada,
Às provas de que vem, mais se acomoda;

Do encoberto Real, Gente esforçada,
Dos Galos fará ver a tropa toda
Em montes de mosquitos transformada.

Por um Franciscano

[Fonte: Discurso do Imortal Guilherme Pitt..., fls 441-442]. 

sábado, 16 de julho de 2011

Carta do General Dalrymple ao General Wellesley (16 de Julho de 1808)




Gibraltar, 16 de Julho de 1808

Senhor:

Tendo recebido ordens de Lord Castlereagh para remeter-vos todas as informações possíveis relativas ao estado e progresso dos acontecimentos nas partes meridionais de Espanha, não perco tempo em comunicar a substância das informações que tenho tido oportunidade de coligir sobre tais pontos, como também as minhas consequentes observações.
No fim de Maio a insurreição era geral (segundo creio) em todas as províncias e subdivisões do Reino não submetidas aos Exércitos franceses, e no clero em geral; e a populaça revelou um grau de fúria revolucionária e fanática que creio que excedeu até a que surgiu durante a Revolução francesa; porém, como os motivos (Lealdade e Religião) eram muito diferentes dos da França, houve obviamente diferenças nos resultados.
Em quase todos os lugares consideráveis está formada uma Junta Suprema de Gobierno [sic]; a de Sevilha (com a qual nos comunicámos mais, até agora) revela claramente querer assumir o carácter de Governo Nacional, uma pretensão que irá produzir más consequências, se não for examinada a tempo. Devo acrescentar que cada Junta age em nome de Fernando VII, para o qual o entusiasmo popular está ao presente principalmente direccionado. 
Apesar do General Spencer ter ido reunir-se com o Almirante Purvis, na barra de Cádis, debaixo da minha autoridade, penso necessário referir que não tive parte alguma nas negociações que foram tomadas entre esse oficial e o Almirante Purvis duma parte, e o Governador Morla e o General Herrera doutra parte.
Estou seguro que se decidiu na Junta de Sevilha, por uma grande maioria dos membros, que as nossas tropas não seriam admitidas, como guarnição, em qualquer praça-forte. Também estou informado, por uma boa autoridade, que o General Morla, Governador de Cádis, é o adepto mais enérgico desta resolução: julgo ser meu dever referir este facto, pois parece que o General Spencer ficou convencido que este General Morla prevê que o seu corpo seja utilizado para a defesa de Cádis, caso os Exércitos espanhóis sofressem algum revés.
Presentemente, tenho um Oficial do Quartel-Mestre do Estado-Maior siciliano (o Capitão Whittingham) junto do Exército do General Castaños; ordenar-lhe-ei para comunicar-se convosco daqui para diante, e permiti-me recomendá-lo a vós com um homem de grande zelo e actividade, e um perfeito espanhol. Também tenho em Sevilha um Oficial, o Major Cox, do Regimento n.º 61, através do qual Lord Collingwood e eu próprio temos comunicado com a Junta; também recomendo este Oficial à vossa atenção, por ter revelado talentos consideráveis na missão que foi encarregado. 
Junto um extracto de um dos ofícios do Major Cox, sobre a nossa permissão para ocuparmos Cádis, através do qual julgareis nas mesmas bases sobre a qual a minha opinião foi formada.
Provavelmente, antes deste ofício vos alcançar, o General Castaños terá lutado contra Dupont. Em caso de desastre, ele desejava que o General Spencer ocupasse uma posição em Jerez [de la Frontera], com uma parte da sua força, mantendo outra parte embarcada, para conceder ajuda ao General Morla para a defesa de Cádis. Ele também pretendia ter um destacamento no Puerto de Santa María. 
Em Valencia a Junta Suprema formou-se alguns dias antes da de Sevilha; e a conduta da populaça (pela qual se formaram todos os governos em todos os sítios) era, em Valencia, marcada por uma violência particular; e logo no início, mais de 300 comerciantes franceses foram mortos. Desde então, é bastante claro que a populaça da cidade de Valencia cercou, se não bateu completamente, a Divisão de Moncey, que alcançou aquele lugar com um poder avassalador, e, depois duma acção desesperada, um Regimento suíço e outro regular foram quase aniquilados, numa passagem chamada Cabrillas, e conseguiram escapar doutros corpos que os valencianos tinham no campo; em Valencia acredita-se que estes últimos corpos tinham cortado a retirada de Moncey, e destruído o seu próprio corpo. Não confirmo a precisão de qualquer destas notícias; mas julgo que é indubitável que, em geral, os franceses foram aí desconcertados.
Barcelona está nas mãos dos franceses; e as notícias que temos da Catalunha são vagas e imprecisas. Aragão está em armas, certamente; e temos notícias oficiais duma derrota que os franceses sofreram em Zaragoza, com imensas baixas; parece haver algo fabuloso na narrativa, apesar de acreditada em geral em toda a Espanha, onde se atribuiu tal derrota a N.ª S.ª la Virgen del Pilar. Tais são as ideias do povo neste momento. 
Depois do General Castaños esperar que derivasse um auxílio, em caso de desastre, da posição que ele desejava que o Major General Spencer tomasse em Jerez, ele ultimamente afincou-se na opinião de que as forças britânicas deveriam ser empregadas sobre o Tejo; mas entendo que tal viragem foi originada pelo ressentimento das nossas intenções em relação a Cádis. Achei que os espanhóis retrocediam perante qualquer proposta que tendesse a colocar à nossa disposição as suas frotas e as suas fortalezas; e penso que uma grande força [britânica] na barra de Cádis poderá motivar que os espanhóis enviem uma guarnição para ali, destacando-a até do próprio do exército que se opõe a Dupont.
Transmito-vos uma publicação da Junta de Múrcia* (na qual se afixou o nome de Floridablanca), que pinta, em cores vivas e verdadeiras, o perigo presente da Espanha. De Bonaparte não se ouve nada; os seus exércitos parecem ter sido deixados à sua sorte.
Recebi deputações de Sevilha, Jáen, Granada, Valencia, Cartagena, das Ilhas Baleares, e da maioria das cidades na costa do Mediterrâneo entre o estreito [de Gibraltar] e a Catalunha, e até de Tortosa, nesta última província; todos expressam os mesmos sentimentos, e todos fazem os mesmos pedidos - dinheiro, armas e munições.
Tenho a honra de ser, etc., etc.,

H. W. Dalrymple,
Tenente-General


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Nota: 

* Tratava-se da tradução duma proclamação datada de 22 de Junho de 1808, publicada em castelhano (entre outras fontes) na Gazeta de Madrid, 9 de agosto de 1808, pp. 991-993.

Carta do Tenente Coronel D. Juan de la Cruz Mourgeon ao General Castaños (16 de Julho de 1808)



Excelentíssimo Senhor:

Ontem, como terá sido avisado Vossa Excelência, os inimigos atacaram-me, de modo que tive a necessidade de internar-me para além da montanha. A sua força consistia em 2.000 homens, e a minha em 1.500. Por fim consegui tomar uma posição vantajosa, pronta para defender a retirada dos inimigos por esta parte e para ajudar a operação da primeira divisão pelo seu flanco direito.
Tive na acção de ontem 13 mortos e 28 feridos, e os inimigos, segundo a declaração de um Sargento ferido que aprisionámos, tiveram mais de 100 mortos e feridos, e ademais fizeram retirar as suas tropas logo que tomei a nova posição.
A falta de água que há nesta terra obrigou-me, para refrescar a tropa, a passar ao Puerto de las Viñas, onde permaneci até às 4 horas da tarde, quando tomei a posição do alto do Peñascal de Morales, onde às 9 horas da noite fiz as duas grandes fogueiras.
Estou preocupado porque não sei o resultado da primeira e da segunda Divisão. 
Deus guarde a Vossa Excelência muitos anos.
Peñascal de Morales, às 8 e meia da manhã de 16 de Julho de 1808.

Juan de la Cruz Mourgeon

Carta do General Dupont ao General Belliard (16 de Julho de 1808)



Escrevi-vos, meu querido General, o resultado do dia de ontem: continuamos donos de todas as nossas posições; seguramente teremos hoje um novo ataque da parte do inimigo. Este dia é o aniversário da vitória de Tolosa sobre os mouros, e a preocupação religiosa dá uma grande importância a esta época nos entendimentos espanhóis. 
Escrevo ao General em Chefe que realmente não se deve perder um instante para sairmos da nossa posição, na qual já não podemos subsistir. Tendo o soldado todos os dias as armas nas mãos, não pode ceifar nem fazer o seu pão, como fizeram até aqui, porque os paisanos abandonaram as suas casas e as suas searas. Peço portanto reforços; numa palavra, um corpo de exército reunido, e que não esteja espalhado por tão grandes distâncias. Suplico-vos para fazerdes segurar as comunicações para que a Divisão Govert se possa reunir. Se deixamos ao inimigo manter o campo a sul, todas as províncias e as demais tropas de linhas acabarão por seguir o partido dos rebeldes. Um golpe enérgico dado na Andaluzia contribuirá muito para submeter toda a Espanha. Envie-me biscoitos, medicamentos e tecido para ligaduras, com a maior prontidão possível, porque os bandidos interceptaram nas montanhas, há um mês, os nossos hospitais ambulantes e os biscoitos que vinham de Toledo.
Sou, etc.

O General Dupont

Carta do General Dupont ao Duque de Rovigo, General em Chefe dos Exércitos franceses na Espanha (16 de Julho de 1808)


A Sua Excelência o Senhor Duque de Rovigo, General em Chefe dos Exércitos Franceses na Espanha.


Senhor General em Chefe:

Tenho a honra de dirigir a Vossa Excelência uma cópia da minha carta de ontem. O inimigo mantém-se nas mesmas posições, ocupa as alturas em frente de Andújar, e as suas baterias estão a um tiro da nossa vanguarda. Presumo que hoje renovará o seu ataque, e nós o receberemos com a maior tenacidade para conservar a nossa posição. 
O General Vedel guarda o caminho de Jaén para Bailén, e eu encarreguei-o para que observe com eficácia o caminho de Jaén a Úbeda, pelo qual poderia o inimigo passar a La Carolina; encarreguei o mesmo ao General Gobert, tendo em conta a suma importância da posição de La Carolina, para manter a nossa comunicação com Madrid. 
O ataque do inimigo revela que é concebido por projectos formais, e a nossa inação deu-lhe alentos.  Creio, como já insinuei muitas vezes a Vossa Excelência, que não devemos perder um instante para passar à ofensiva. Se não se sujeita o sul, o fogo da insurreição estender-se-á imediatamente às outras províncias, e as tropas regulamentares que se encontram espalhadas por elas deixar-se-ão arrastar para o partido dos rebeldes; é preferível que momentaneamente não se faça caso dos movimentos parciais que se podem manifestar nalguns pontos, a fim do exército francês estar em condições de marchar com forças suficientes contra este exército do sul, que está em guerra aberta contra nós. Para além disto, farei observar a Vossa Excelência que há cerca de um mês que ocupamos a posição de Andújar, que este território foi assolado pelos bandidos, e que não podemos extrair dele mais do que escassos recursos para viver. Há muito que as tropas não teriam subministros, se os soldados não se empregassem diariamente em ceifar o trigo e em fazer por si mesmos o seu pão, mas agora que a tropa está continuamente com as armas a postos, não pode usar já este meio. Vossa Excelência saberá quão impaciente está o exército para sair desta situação e marchar contra o inimigo. A reunião completa da divisão Gobert e mais outra divisão com alguma cavalaria, colocarão este exército em disposição de retomar as suas operações, mas este momento nunca poderá vir muito cedo. Rogo a Vossa Excelência que assegure a Sua Majestade o zelo que anima as suas tropas pelo seu serviço; ontem adquiriram mais um grau de confiança; todos os motivos se reúnem para que dêem incessantemente uma batalha decisiva.
Tenho, etc.

Carta do Marquês de Coupigny ao General Castaños (16 de Julho de 1808)



Excelentíssimo Senhor:

Tendo-me pedido o General D. Teodoro Reding para reforçar a sua Divisão com alguma tropa do meu mando, despachei-lhe imediatamente o Batalhão de Ceuta, reforçado com 200 Voluntários de Granada e 150 Voluntários catalães. Conforme aos seus movimentos, vigiei o inimigo com a minha Divisão a partir d o amanhecer, e tendo observado que pelo caminho real se dirigia tropa e vários transportes até à cidade de Andújar, mandei o Regimento de Cavalaria de Borbón, o Batalhão de Voluntários catalães e as guerrilhas passarem o vau à minha esquerda, para que, observando o inimigo e flanqueando-o, fatigassem a sua marcha e tirassem o partido que pudessem. Assim o fizeram, apesar dos inimigos manterem a sua retirada, sustentando os transportes com alguns Batalhões de Infantaria e Esquadrões de Cavalaria formados em boa ordem à minha frente, o que não impediu que, carregando sobre o seu flanco esquerdo e retaguarda, conseguíssemos matar-lhes bastante gente e capturar vários prisioneiros, entre os quais se encontra um correio que Dupont enviava a Madrid, cujas cartas incluo, tomando-lhe ademais 10 mulas e uma tenda de campanha e inutilizando os carros com marmitas de campanha e outros artigos que levavam, tendo-se reconhecido entre os mortos um Oficial de Engenheiros, pelos papéis que trazia.
Pelas perguntas que fiz aos prisioneiros, todos respondiam que padecem muito de fome, e isto é confirmado pelas próprias cartas de Dupont; assim, não duvido que, apesar do seu estilo quando fala de nós ao seu General em Chefe, estando convencido que Vossa Excelência tem 18.000 homens na sua frente, se lhe intimassem com as vantagens que a sua honra e decoro poderiam admitir, creio que se renderia com toda a sua divisão.
Deus guarde a Vossa Excelência muitos anos.
Villanueva de la Reyna, 16 de Julho de 1808.

Carta do General Teodoro Reding ao General Francisco Xavier de Castaños (16 de Julho de 1808)



Excelentíssimo Senhor:

Às 4 horas desta tarde acabo de retirar-me com a divisão do meu mando, depois de ter conseguido desalojar os inimigos dos postos fortificados que tinham nas margens do rio, e apesar dos reforços que se lhes tinham enviado, foram igualmente obrigados a abandonar todas as posições militares que consecutivamente tinham tomado. Ficaram em nosso poder um canhão, um carro de munições e vários de transporte, as malas que tinham no seu acampamento, os seus mantimentos e alguns prisioneiros, entre os quais um Capitão de Couraceiros, tendo ficado no campo de batalha muitos deste corpo escolhido. As tropas do meu mando cumpriram os seus deveres e superaram o sofrimento das necessidades provocadas pelo calor, fome e sede; mas como a qualidade do terreno tornava interminável a série de ataques do inimigo, pelas novas posições que sucessivamente ia tomando, vi-me necessitado às duas horas da tarde a regressar a esta povoação, para que não aumentassem as vítimas do calor e do cansaço que tinham ficado no campo de batalha. A perda das melhores tropas do inimigo foi considerável, e os feitos da nossa bem servida artilharia contribuíram para batê-los em todas as suas posições, como igualmente o fizeram as nossas partidas de guerrilha e os diferentes corpos de linha, tendo-se distinguido os oficiais superiores da minha divisão e a maior parte dos chefes dos Regimentos, o que indicarei a Vossa Excelência particularmente. Na próxima carta darei parte a Vossa Excelência dos mortos e feridos, entre os quais se encontram vários oficiais de mérito e recomendação. 
Deus guarde a Vossa Excelência muitos anos.
Mengíbar, 16 de Julho de 1808.

Carta da Junta do Algarve a Sua Majestade Britânica (16 de Julho de 1808)



Senhor!

Como própria tem Vossa Majestade olhado a causa de Portugal, desde que se proporcionaram os desgraçados princípios da sua infelicidade; os tristes agouros da sua fatal desgraça não puderam ser ocultos ao mais prudente de todos os Gabinetes; as medidas para a conservação dos sagrados penhores desta Monarquia, traçados como por uma mão superior, foram maravilhosamente executadas, e o seu êxito igual ao seu proposto; saiu de seu berço a fidelíssima Casa de Bragança, deixando em nossa protecção o seu Império, e ficaram intactos os votos da nossa obediência e homenagem; eles nos obrigaram a receber tranquilos os inimigos de Deus, da Religião e dos homens, ele pretextaram o nosso sofrimento, enquanto duraram à nossa vista as Coroas e troféus da Monarquia portuguesa; pouco importaria a perda dos nossos concidadãos, riquezas e faculdades, que nova sorte e o trato do tempo restituem, se não fosse o roubo do brasão lusitano, levando após si arrebatadamente a estimação do nome português. Eis aqui, Senhor, o aleivoso sistema que desde o dia dezanove de Junho […] passado nos chama às armas, por tantas bocas quantos são os estragos que nos veio causar o pérfido inimigo, com tantas forças quantas pingas de sangue circulam em nossas veias, e com tanta constância quanta for a nossa vida; o justo furor da nossa vingança facilmente nos subministrou os instrumentos com que trabalhamos a importante obra da nossa liberdade e salvação; rompemos o estranho e abominável intruso vínculo da Sociedade Imperial, que nos havia ferido os próprios da Monarquia. O Povo recuperou os seus primeiros direitos, e reaclamando o nosso Augusto Príncipe, consistiu na capital deste Reino do Algarve um Supremo Conselho de Regência, cujo formal do seu estabelecimento temos a honra de oferecer a Vossa Majestade: operamos a favor da Religião, Pátria e liberdade, sem excepção de pessoa, e quase sem exclusão de idades, cada um disputa a ocasião de mostrar o seu patriotismo; fizemos reunir a licenciada [e] desprezada tropa, e pouco a pouco vamos na perseguição do inimigo que precitadamente pôde escapar do nosso primeiro ímpeto, e colar as montanhas que separam este Reino. 
Tudo temos felizmente conseguido; porém, Senhor, não é possível arranjar de pronto as proporcionadas finanças de que necessitamos, acabando de ser roubados; e aonde poderemos ter socorro se não for nas Reais Mãos de Vossa Majestade? Elas têm protegido a nossa causa; elas têm protegido o Nosso Príncipe; por estes sagrados penhores depositados nas próprias e Reais Mãos de Vossa Majestade, nós rogamos o empréstimo de cinquenta mil libras esterlinas; sujeitando à sua satisfação todos os fundos e propriedades deste Reino do Algarve, entretanto que o nosso amável fiel Príncipe tenha ocasião de remir-nos e auxiliar-nos; ele mesmo se lisonjeará de merecer mais uma ocasião ao magnânimo afecto de Vossa Majestade, e nós a ajuntaremos aos anais da mais distinta nação um facto tão piedoso. 
Deus Guarde a Vossa Majestade por dilatadíssimos anos. 
Faro, 16 de Julho de 1808. 

Ventura J. Crisóstomo e Sá, Secretário do Conselho 
Conde Monteiro Mor 

(com mais assinaturas) 

[Fonte: Correio Braziliense, Outubro de 1808, pp. 412-414; José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal, e da Restauração deste Reino - Tomo V, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, pp. 49-53; Alberto Iria, A Invasão de Junot no Algarve, Lisboa, s. ed., 1941, pp. 390-391 (doc. 89)].

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Carta do Marquês de Coupigny ao General Castaños (15 de Julho de 1808)



Excelentíssimo Senhor:

Tendo tido conhecimento de que os inimigos ocupavam a povoação de Villanueva [de la Reina], marchei imediatamente desde Lahiguera, enviando as tropas ligeiras às ordens de D. Pedro Grimarest, e segui com toda a cavalaria; o inimigo tinha uma excelente posição, fez um vivo fogo sobre as tropas ligeiras, obrigando-as a retroceder um pouco, pelo que vi forçado a avançar a minha artilharia enquanto manobrava para passar os vaus; com efeito, logo que viu este movimento e o acertado fogo desta tropa, o inimigo começou a retirar-se em boa ordem; continuando um vivo fogo, passei o rio [Guadalquivir] com a cavalaria, e perseguimos o inimigo até muito depois do caminho de Bailén para Andújar, acabando por retirar-se pela Serra, deixando mais de 200 mortos no campo de batalha, sem contar os feridos, tendo sido o número de prisioneiros pequeno devido ao acaloramento da nossa tropa.
Remeterei a Vossa Excelência uma relação detalhada de todos os oficiais e indivíduos que se distinguiram, particularmente os meus ajudantes. 
Deus guarde a Vossa Excelência muitos anos.
Villanueva, 15 de Julho de 1808.

O Marquês de Coupignyi

Boletim n.º 5 do Exército [francês] de Portugal (15 de Julho de 1808)




[Fonte: Gazeta de Lisboa, n.º 28, 18 de Julho de 1808].


Pastoral do Bispo de Lamego (15 de Julho de 1808)





Carta de Lord Castlereagh, Secretário de Estado da Guerra, ao General Dalrymple, Governador de Gibraltar (15 de Julho de 1808)



Downing Street, 15 de Julho de 1808

Senhor:

Informo-vos que Sua Majestade, aprovando bastante o zelo e juízo que marcou toda a vossa conduta durante os últimos acontecimentos importantes que tiveram lugar na Espanha, foi servida confiar-vos, presentemente, o comando em chefe das suas forças empregadas em Portugal e na Espanha, com Sir Harry Burrard como segundo no comando.
Lord Collingwood receberá ordens para colocar uma fragata à vossa disposição, de forma a terdes os meios de vos transferirdes para qualquer ponto do vosso comando onde a vossa presença possa, segundo as circunstâncias, ser mais requerida; o comando da guarnição de Gibraltar fica entregue, durante a vossa ausência, ao Major General Drummond, ou ao seguinte oficial no comando.
Junto cópias das instruções que tinham sido dadas a Sir Arthur Wellesley, n.os 1, 2, 3 e respectivos anexos, que avançou para executá-las, tendo ordens para transferir o seu comando a algum oficial mais graduado.
Sou, etc.,

Castlereagh

[Fonte: Memoir, written by General Sir Hew Dalrymple, Bart., of his proceedings as connected with the affairs of Spain, and the commencement of the Peninsular War, London, Thomas and William Boone, Strand, 1830, pp. 48-49. Os itálicos aparecem nesta fonte].

Carta de Lord Castlereagh, secretário de Estado da Guerra, ao General Sir Hew Dalrymple, participando-lhe a nomeação para comandar o exército britânico destinado à costa da Península Ibérica (15 de Julho de 1808)



Downing Street, 15 de Julho de 1808 


Senhor: 

Permiti-me dar-vos os meus parabéns pelos lisonjeiros comandos que estou encarregado de vos transmitir da parte de Sua Majestade, e requerer ao mesmo tempo que aceiteis o meu pessoal agradecimento pelo zelo e habilidade com que haveis cumprido as vossas obrigações públicas durante o último importante período. 
Creio que a força com que foste provido permitir-vos-á dar uma nova e decisiva volta nos acontecimentos de Portugal e de Espanha. 
Permiti-me recomendar à vossa confiança particular o Tenente General Sir Arthur Wellesley. Estou convencido que a sua alta reputação ao serviço como oficial bastará por si só para o seleccionardes para qualquer serviço que possa requerer uma grande prudência e integridade, combinadas com muita experiência militar. 
De qualquer maneira, tenho a certeza de que a posição em que ele tem estado desde há um longo tempo, mantendo correspondência habitual com os ministros de Sua Majestade em relação aos assuntos da Espanha e tendo sido destinado para comandar qualquer operação que as circunstâncias possam tornar necessárias para contrariar as vistas da França contra os domínios espanhóis na América do Sul, mostrar-vos-á que ele é um oficial desejável para vós em todos os aspectos, para o utilizardes segundo a forma mais relevante que as regras do serviço permitam. 
Tenho a honra de ser, etc. 

Castlereagh 



Carta de Lord Castlereagh, secretário de Estado da Guerra, ao General Wellesley, participando-lhe a nomeação do Governador de Gibraltar, Sir Hew Dalrymple, como General em Chefe do exército britânico destinado às costas da Península Ibérica (15 de Julho de 1808)



Downing Street, 15 de Julho de 1808 


Senhor: 

Informo-vos que Sua Majestade confiou o comando das suas tropas ao serviço nas costas de Espanha e Portugal ao Tenente General Sir Hew Dalrymple, com o Tenente General Sir Harry Burrard como segundo no comando. Forneceram-se ao Tenente General cópias das vossas instruções até à presente data, exclusive. Estas últimas instruções serão postas em execução com toda a rapidez que as circunstâncias o permitam, sem esperardes pela chegada do Tenente General, mas notificando-o dos vossos procedimentos. E se entretanto se reunir convosco um oficial mais velho, comunicar-lhe-eis nesse caso as vossas ordens e proporcionar-lhe-eis toda a assistência para pô-las em execução. 
Tenho a honra de ser, etc. 

Castlereagh 

Estado das forças britânicas destinadas à costa da Península Ibérica