quarta-feira, 3 de agosto de 2011

O desembarque do Exército britânico na baía do Mondego, segundo Henry L'Evêque







The landing of the british Army at Mondego Bay

O desembarque do Exército britânico na baía do Mondego


Nesta gravura, Henry L'Êveque representou o desembarque do exército britânico comandado por Wellesley em Lavos, na margem sul do Mondego, perto da Figueira da Foz (que se vê na outra margem). Deveu-se ao Capitão Pulteney Malcolm (comandante do Donegala boa execução do desembarque, que se prolongou durante os cinco primeiros dias de Agosto de 1808, devido sobretudo à arrebentação das ondas naquela parte da costa portuguesa, que dificultou as manobras. Como a gravura assinala, este exército recebeu logo a ajuda dos portugueses da zona, através do fornecimento de botes para o desembarque, cavalos, mulas e burros, carros de bois, e provisões diversas. 

Carta de vários negociantes de Coimbra para Sir Arthur Wellesley, oferecendo-lhe um refresco para o seu exército (3 de Agosto de 1808)



Excelentíssimo Senhor General em Chefe das tropas de Sua Majestade Britânica: 

Senhor: 
Apesar do esgotamento universal a que nos reduziram as rapinas dos nossos bárbaros hóspedes, ainda nos resta o sentimento da gratidão. As Nações inglesa e portuguesa, no meio de todas as diversas crises políticas, foram sempre leais e sempre amigas; porém, na presente ocasião, em que lutávamos com grande valor, mas mal armados, contra um inimigo feroz, nem os nossos desejos podiam voar tanto como os socorros que o vosso grande Monarca e a vossa ilustre Nação nos enviam. 
Em testemunho da nossa sincera amizade, do nosso sumo prazer, e do vivo interesse que tomamos pela prosperidade da Grã-Bretanha, nos afoitamos a remeter-vos esse pequeno refresco, correspondendo ao nosso actual estado, mas não aos nossos desejos. 
Confiamos que V.ª Ex.ª desculpe o arrojo que tomam os negociantes da praça de Coimbra abaixo assinados. 
Coimbra, 3 de Agosto de 1808. 

Costa, Almeida, Freitas & C.ª
André Alves Leite
Marcos José Gonçalves & C.ª
Joaquim Freire de Macedo & Irmão
João Fernandes Guimarães & C.ª
António José de Barros
Manuel José Rodrigues & Irmão
Francisco António de Macedo
João Ferreira Maia
José Rodrigues de Macedo & Filhos
João Lopes de Sousa & C.ª
Francisco Pereira
José António Ferreira de Castro
José Maria da Encarnação
Francisco José Ferreira Guimarães
Manuel Fernandes Guimarães & C.ª 
José Dias de Miranda & C.ª

[Fonte: Minerva Lusitana, n.º 21, 16 de Agosto de 1808; Simão José da Luz Soriano, História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal. Compreendendo a História Diplomática, Militar e Política deste Reino, desde 1777 até 1834 – Segunda Época - Tomo V – Parte I, Lisboa, Imprensa Nacional, 1893, pp. 94-95].

Ordens e Instruções da Junta do Governo Supremo do Porto ao General Bernardim Freire de Andrade (3 de Agosto de 1808)



Em nome do Príncipe Regente Nosso Senhor.


A Junta Provisional do Governo Supremo, tendo encarregado ao Marechal de Campo Bernardim Freire de Andrade o Comando em Chefe do Exército português, que por ordem deste mesmo Governo marcha a libertar a capital e [a] salvá-la da dominação francesa, determina que o sobredito Marechal de Campo combine as suas operações militares com o General das tropas de Sua Majestade Britânica já desembarcadas neste Reino, cooperando ao mesmo fim de restituir o trono ao Príncipe Regente de Portugal.
Que acontecendo fazer-se necessário conceder capitulação ao Exército francês, a possa tratar, indo sempre de acordo com o sobredito General britânico sobre aqueles artigos que puramente respeitarem ao Exército inimigo, segundo o uso e leis da guerra, salvos sempre a Soberania e Direitos Majestáticos que respeitam nação para nação.
É igualmente o sobredito Comndante em Chefe autorizado para fazer executar e aprovar as sentenças do Conselho de Guerra, ainda mesmo sobre penas capitais, quando os culpados forem punidos por delitos contrários à segurança pública, polícia e disciplina do Exército, sem dependência da confirmação deste Governo Supremo nos casos em que o castigo deva ser imediato ao crime.
Para o fornecimento dos Exércitos combinados, [a Junta] tem nomeado com ampla juridisção ao Dr. José de Macedo Ferreira Pinto, Ajudante do Inspector das Repartições Civis do Exército, Víveres e Assentos, a quem manda [que] esteja sempre adido ao Quartel-General do Exército português por assim convir melhor ao pronto fornecimento das tropas e bom serviço do Estado.
Dada no Palácio Episcopal do Porto, em Junta do dia 3 de Agosto de 1808.

Bispo, Presidente Governador.
Luís de Sequeira da Gama Ayala.
José de Mello Freire.
António Mateus Freire de Andrada [sic] Coutinho.
Francisco Osório da Fonseca.
António da Silva Pinto.
Manuel Lopes Loureiro.


Lugar do selo.

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, p. 165 (doc. 2)].

Proclamação de um zeloso pela pátria (3 de Agosto de 1808)





terça-feira, 2 de agosto de 2011

Carta do General Wellesley ao Governador de Pombal (2 de Agosto de 1808)



Lavos, 2 de Agosto de 1808.


Tenho a honra de receber a carta que Vossa Excelência me escreveu, e estou muito obrigado a Vossa Excelência pelo oferecimento dos seus serviços, que me fez. Eu sentiria muito que Vossa Excelência, para me fazer uma visita, deixasse os seus importantes negócios do seu cargo; espero ter o gosto de vos encontrar quando a derrota do inimigo nos der a ambos algum descanso.
Tenho a honra de ser.
Vosso obediente e humilde servo,

A. Wellesley

[Fonte: José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal, e da Restauração deste Reino - Tomo V, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, p. 63].

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Nota: 

Diz Acúrsio das Neves que esta carta de Wellesley foi uma resposta a uma outra missiva que o Governador e Capitão de Milícias de Pombal lhe tinha escrito: "Francisco Peregrino de Meneses (assim se chamava o Governador do Pombal), tanto que foi informado da chegada de Wellesley à baía do Mondego, escreveu-lhe uma carta mais patriótica do que eloquente, em que lhe expressava os testemunhos do seu prazer e de toda a nação pela vinda do General e do exército britânico, e lhe oferecia, em nome de todos os moradores do seu distrito [=termo], o seu dinheiro, os seus frutos, os seus transportes e as suas pessoas, e no seu nome particular os donativos da sua casa e a vontade que tinha de o ir visitar e agradecer-lhe da parte do Príncipe Regente o bem da liberdade que se esperava do seu auxílio, o que faria se lho não embaraçassem os negócios do seu Governo, que não lhe deixavam livre um momento, achando-se ocupado principalmente em impedir que os inimigos tivessem conhecimento dos nossos movimentos, pois não o haviam conseguido, tendo estado em Leiria, dali somente 5 léguas. Dava-lhe uma breve ideia do estado das coisas do país, e remetia-se ao portador da carta, que era um seu espia, para melhor o informar das forças e movimentos do inimigo.
Esta carta e estas informações deviam ser não só agradáveis mas também muito úteis a Wellesley, porque ainda que entrou logo em comunicações directas com o Governador de Coimbra, este não podia transmitir-lhe tão breve as notícias" [cf. op. cit., pp. 61-63].

Carta da Junta de Governo de Sines ao Almirante Charles Cotton (2 de Agosto de 1808)




Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor:

Representamos a Vossa Excelência as tristes circunstâncias em que actualmente nos achamos. Hoje aparece aqui um emissário, que na maior aflição nos faz ver que a cidade de Évora, capital do nosso Alentejo, se acha possuída por 6.000 homens franceses: acometeram o corpo das nossas tropas que guarneciam a mesma cidade, ficando muitas destas destruídas. Diz mais, que os inimigos têm degolado muitos dos habitantes, e que os principais destes estão debaixo de prisão tratados desumanamente. Portanto de novo imploramos o socorro de Vossa Excelência, para que sem perda de tempo nos queira subministrar as munições de que tanto carecemos, e agora mais do que antes, em virtude deste acontecimento, que acresce. Rogamos, além do que tínhamos pedido a Vossa Excelência, e para o que aí se acha ainda um emissário nosso, mais 390 clavinas, 400 pistolas, 500 espadas, e fuzis mais os que puder dispensar depois dos 400 que já exigimos, e junto a isto toda as munições que possa liberalizar-nos.
Consta-nos que em Mértola, 9 léguas distante de Beja, se tem desembarcado as bagagens de 3.000 homens espanhóis, cuja chegada ansiosamente esperamos, assim como a das tropas inglesas, para mais brevemente nos desafrontarmos do inimigo comum. Desejávamos que o porto de Setúbal nos ficasse livre dos ditos franceses, para que fazendo-nos ali reforço, obstássemos à retirada dos que estão em Évora para Lisboa, mas isto só nos parece que será favorável com a mediação de Vossa Excelência, que Deus guarde muito anos.
Sines, em Junta do Governo de 2 de Agosto de 1808.

[seguiam-se as assinaturas do Presidente e dos Deputados].

[Fonte: José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal, e da Restauração deste Reino - Tomo V, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, pp. 43-44].

Boletim n.º 6 do Exército [francês] de Portugal (2 de Agosto de 1808)



[Fonte: Gazeta de Lisboa, n.º 30, 6 de Agosto de 1808].


Notícia publicada na Gazeta de Lisboa sobre os confrontos de Évora (2 de Agosto de 1808)



Lisboa, 2 de Agosto 


O Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes acaba de receber oficialmente as particularidades seguintes de uma assinalada vitória que as tropas francesas alcançaram em Évora: anunciam elas a sorte que por toda a parte está reservada pelos vencedores da Europa àqueles dos rebeldes e dos seus partidistas que ousarem combatê-los! 

[seguia-se a transcrição da carta de Loison a Junot de 30 de Julho de 1808, intitulada Relação enviada ao Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes, General em Chefe do Exército de Portugal]

NOTA: Consta-nos ter Estremoz enviado uma deputação para implorar a clemência dos vencedores 

[Fonte: 2.º Supplemtento à Gazeta de Lisboa, n.º 29, 2 de Agosto de 1808].

Edital da Junta do Porto ordenando a livre circulação de grãos e farinhas entre todas as terras que não estivessem ocupadas pelos franceses (2 de Agosto de 1808)





Apotheosis of the Corsican-Phœnix, caricatura de James Gillray (2 de Agosto de 1808)



Fonte: British Museum


 Apoteose da Fénix-Corsa.
Caricatura de James Gillray, publicada a 2 de Agosto de 1808.



O sentido desta caricatura é explicado pelo seu subtítulo, que cita um trecho imaginário duma obra supostamente editada em 1808 e intitulada A Nova Enciclopédia Espanhola (The New Spanish Encyclopaedia): "Ao cansar-se de viver, a Fénix constrói um ninho sobre as montanhas, incendiando-o através do bater das suas asas e consumindo-se ela própria nas chamas! E do fumo das suas cinzas renasce uma nova Fénix para iluminar o Mundo!!!"
Napoleão é assim representado como a Fénix-corsa auto-imolando-se no topo duma escarpa das Montanhas dos Pirenéus, as quais estão envoltas por densas nuvens de fumo negro, como que aludindo às revoltas anti-francesas na Península Ibérica. O seu ninho é formado por mosquetes e baionetas, sobre as quais está um globo terrestre, em forma de ovo, com toda a Europa continental em chamas, bem como a Sicília e a Algéria. Com as asas já pegando fogo, a Fénix-corsa (adornada com um cordão de honra tricolor e um colar militar franjado com pequenos punhais) está prestes a sucumbir perante as chamas que a envolvem, tendo já saltado da sua cabeça a coroa e das suas garras o ceptro e o orbe (símbolos, respectivamente, do poder temporal e espiritual). Por cima do fumo provocado por esta combustão, surge uma pomba da paz, irradiando luz e com um ramo de oliveira no seu bico, podendo ler-se nas suas asas abertas a inscrição Paz sobre a Terra.


Outras digitalizações:



segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Carta do General Wellesley requisitando forragens ao Juiz de Fora da Figueira da Foz (1 de Agosto de 1808)





H.M.S. Donegal, 1 de Agosto de 1808 


Senhor: 

Uma parte das tropas debaixo do meu comando desembarcou e acampou perto da aldeia de Lavos; e como os seus cavalos, bem como as mulas e o gado pertencente ao povo dos arredores, têm falta de grãos e forragens, ficaria muito agradecido se os mesmos grãos e forragens pudessem ser reunidos em Lavos para o uso do gado, mulas e cavalos, cuja despesa será paga pelo Comissário. 
Tenho a honra de ser, etc. 

Arthur Wellesley 

[Fonte: Lieut. Colonel Gurwood (org.), The Dispatches of Field Marshal the Duke of Wellington, K. G. during his various campaigns in India, Denmark, Portugal, Spain, the Low Countries, and France, from 1799 to 1818 – Volume Fourth, London, John Murray, 1835, pp. 44-45].

Carta privada do General Wellesley a Lord Castlereagh, secretário de Estado da Guerra do Governo da Grã-Bretanha (1 de Agosto de 1808)



H.M.S. Donegal, 1 de Agosto de 1808 



Meu caro Senhor: 

Não tenho nada a acrescentar à minha carta pública deste dia, excepto dizer-vos que tenho razões para acreditar que a estimativa do General Spencer relativa à força francesa em Portugal é exagerada. Pretendia fazer o ataque com o meu próprio corpo ajudado pelos portugueses, se porventura Spencer não pudesse juntar-se a mim, como lhe tinha ordenado no dia 26 de Julho; mas como recebi a vossa carta do passado dia 15, na qual anunciais os reforços, marcharei logo que chegue um dos corpos. 
Pole e Burghersh deram-me a conhecer as disposições para o futuro comando deste exército; e o primeiro informou-me da vossa gentileza para comigo, a qual experienciei tantas vezes que não posso duvidar dela em caso algum. Tudo o que posso dizer sobre este assunto é que, independentemente de quem comandar o exército, darei o meu melhor para garantir o seu sucesso; e podeis estar seguro de que não irei apressar as operações, nem as executarei mais cedo do que o devido, a fim de obter os créditos pelo sucesso. 
O Governo determinar-me-á onde serei empregado posteriormente, seja aqui ou noutro lugar. A minha opinião é que a Grã-Bretanha deve levantar, organizar e pagar um exército em Portugal, consistindo em 30.000 tropas portuguesas, que facilmente se formariam nos primeiros momentos; e 20.000 tropas britânicas, incluindo 4.000 ou 5.000 de cavalaria. Este exército poderia agir nas fronteiras de Portugal na Extremadura espanhola, e serviria como conduto entre os reinos da Galiza e da Andaluzia; isto daria à Inglaterra a preponderância na orientação da guerra na Península; e qualquer que fosse o resultado das exortações espanholas, Portugal estaria a salvo do jugo francês. Sabereis melhor [do que eu] se podereis suportar as despesas, ou que parte delas seriam ou poderiam ser liquidadas pelo Governo português. Contudo, se adoptardes este plano, devereis enviar tudo da Inglaterra: armas, munições, vestuário e equipamento dos militares, artilharia, farinha, aveia, etc. Este artigos devem ser conduzidos para a fronteira, uma parte através da navegação do Douro e do Tejo, e outra parte através de outros meios. 
Acreditai em mim, etc. 

Arthur Wellesley 


P.S.: O fundamento em que me baseio para acreditar que Castaños derrotou Dupont é uma cópia dum ofício do primeiro à Junta de Sevilha, publicado na Gazeta de Coimbra [Minerva Lusitana, n.º 14, 29 de Julho de 1808]. O seu teor é aproximadamente aquele que declarei no meu ofício, exceptuando somente que Dupont pode ter-se rendido com o seu exército, e que a força francesa na Sierra Morena, que não participou na acção do dia 20, pode ter capitulado, sob a condição de ser enviada para a França pelo mar; não entendo suficientemente o português para dizer se é este o caso ou não, e alguém levou a Gazeta. 

A. W. 


P.S. 2: Observareis que excedi a minha autoridade ao ordenar a Spencer para extrair 100.000 libras à Inglaterra e adiantar essa soma à Junta de Sevilha; espero que vejais a justeza deste acto, e que me envieis a sua aprovação. Devo mencionar, contudo, que desde que o dispus, ouvi dizer que Sir Hew Dalrymple se recusou a adiantar aos membros da Junta qualquer dinheiro, apesar dele ter autoridade para o fazer. 

A. W.

[Fonte: Lieut. Colonel Gurwood (org.), The Dispatches of Field Marshal the Duke of Wellington, K. G. during his various campaigns in India, Denmark, Portugal, Spain, the Low Countries, and France, from 1799 to 1818 – Volume Fourth, London, John Murray, 1835, pp. 43-44].

Carta do General Wellesley a Lord Castlereagh, secretário de Estado da Guerra do Governo da Grã-Bretanha (1 de Agosto de 1808)




H.M.S. Donegal, na foz do rio Mondego, 1 de Agosto de 1808 



Meu Senhor: 

Tenho a honra de vos informar que no dia 26 de Julho, quando ia até à esquadra na boca do Tejo, passei pelo H.M.S. Plantagenet, no qual estava embarcado o Capitão Cooke, do regimento dos Guardas de Coldstream, que me entregou os ofícios do General Spencer cujas cópias vão inclusas, através dos quais fui informado que este oficial tinha desembarcado no Puerto de Santa María, determinado a continuar na província da Andaluzia. Depois de consultar Sir Charles Cotton sobre as actuais circunstâncias de Portugal e da Espanha, pensei que era mais apropriado enviar ordens ao General Spencer para reembarcar todo o seu corpo e juntar-se a mim, a não ser que estivesse ocupado em alguma operação activa, cujo abandono poderia prejudicar a causa dos espanhóis. 
Como o General Spencer referiu na sua carta, e mais particularmente numa mensagem verbal ao Capitão Cooke, que a Junta de Sevilha sente uma grande carência de dinheiro, determinei que ele extraísse 100.000 libras à Inglaterra, para pagar essa soma à pessoa que os membros da Junta nomearem para recebê-la. 
Tenho a honra de juntar as cópias das cartas que escrevi ao General Spencer nessa ocasião, nas quais estão suficientemente detalhadas as razões que me levaram a dar essas ordens; e as ditas razões justificarão, como espero, as ordens que dei, sem estar na necessidade de preocupar Vossa Senhoria com as razões que eu tinha para pensar que era provável que Dupont não seria suficientemente forte em relação ao General Castaños; que o corpo do General Spencer era inútil em Cádis, enquanto as minhas operações em Portugal estavam limitadas pela falta da sua assistência; que uma reunião dos dois corpos era necessária para permitir a execução eficaz de qualquer serviço; e que no quadro geral dos acontecimentos em Espanha, bem como em Portugal, era mais importante expulsar os franceses de Portugal. 
As ordens que dei pareceram-me estar em total conformidade com as intenções e objectivos do Governo de Sua Majestade, e ser consistentes com aquelas que Vossa Senhoria deu ao General [Spencer] na vossa carta de 30 de Junho; e apesar do ofício de Vossa Senhoria datado de 15 de Julho, que eu recebi aqui no dia 30 através de Lord Burghersh, referir que era da intenção de Sua Majestade dar assistência à nação espanhola com um corpo das suas tropas na Andaluzia, não achei adequado revogar aquelas ordens que tinha enviado ao General Spencer no dia 26. As segundas ordens não o alcançariam antes do dia 3 ou 4 de Agosto, quando ele já deveria estar executando a primeira, e provavelmente adiantado na sua viagem; e no mesmo dia que cheguei aqui recebi notícias, às quais dei crédito, de que o General Castaños tinha derrotado o General Dupont no passado dia 20, e assim não haveria mais nenhuma necessidade imediata da assistência dos corpos britânicos naquela parte da Espanha. Estas notícias confirmaram-se depois por outras que chegaram hoje, segundo as quais se refere que o General Dupont e todas as tropas francesas a sul da Sierra Morena se renderam, sob a condição de serem enviados para a França por mar. 
A informação do estado da força do inimigo em Portugal que me foi comunicada pelo General Spencer (que merece atenção, ainda que ele talvez tenha exagerado a conta que recebera) e a expectativa de Vossa Senhoria em que chegará aqui um reforço num período próximo, levaram-me necessariamente a atrasar o início das operações das tropas debaixo do meu comando até à chegada do corpo vindo da Inglaterra, ou o do General Spencer. Este General terá recebido a minha carta do dia 26, como espero, no dia 28, e suponho que ele estivesse pronto a navegar no dia 31. A duração da sua viagem até ao Tejo e até este lugar, dependerá então dos ventos, que sopram de sul desde o dia 28. 
A posição do inimigo à volta do Tejo parece ser tão forte que não se considera praticável um desembarque naquela parte, sem primeiro se fazer uma manobra de diversão que afaste a sua atenção, através dum ataque mais a norte. Os planos para atacar sobre a baía de Cascais falhariam, porque estamos informados que é impossível fazer uma aproximação suficiente à costa com os grandes navios para calar o forte de Cascais e os outros erigidos para defesa da baía; e mesmo que os navios de guerra fossem capazes de passar o forte de S. Julião, o forte do Bugio e as outras construções que defendem a entrada do Tejo, não é imaginável que o seu fogo pudesse calar estes fortes, a fim de permitir o desembarque das tropas em Paço d'Arcos, como estava proposto. Entre Cascais e o cabo da Roca, e a norte deste cabo, existem pequenas baías, nas quais pequenos corpos de homens podiam desembarcar com o tempo razoável. Contudo, a arrebentação é grande na totalidade da costa de Portugal, e o desembarque das últimas divisões das tropas e dos seus necessários abastecimentos e provisões nestas baías seria precário, mesmo que se tivesse achado um momento favorável para o desembarque das primeiras. A vizinhança do inimigo, bem como a falta de recursos no território à volta do cabo da Roca para o transporte dos abastecimentos e provisões necessárias para o exército, aumentariam o embaraço dum desembarque naquela parte. 
Todas estas considerações, combinadas com a devida percepção das vantagens que derivariam duma cooperação com as tropas portuguesas, levaram-me a decidir a favor dum desembarque mais a norte. 
Não existe lugar algum a norte que seja mais favorável para um desembarque perto de Lisboa do que [a foz do] Mondego, exceptuando talvez Peniche. Contudo, o forte sobre esta península é resistente, está ocupado pelo inimigo com uma guarnição suficiente, e não poderia ser tomado sem artilharia pesada; e a artilharia e munições que Vossa Senhoria me informou no vosso ofício do dia 30 de Junho que partia do rio [Thames] nesse dia, ainda não chegaram. 
Considero que a posse do porto e da cidade de Lisboa é o objectivo imediato das nossas operações, que deve ser consumado ocupando os fortes que guardam a entrada do Tejo. É provável que seja necessário atacar com artilharia pesada dois destes fortes, o de Cascais e o de S. Julião; e é óbvio que o inimigo não nos permitirá levarmos a cabo estas operações até que seja afastado do campo. 
As posições que o inimigo tomará para defender estes postos devem ficar nas elevações viradas para o norte de Lisboa; e é indubitável que, a não ser que seja obstado pela nossa posse dessas mesmas elevações, o inimigo as terá em seu poder para renovar a disputa em diferentes posições, até que se dirija para dentro de Lisboa ou se retire. A retirada será difícil, se não mesmo impossível, salvo em barcos através do Tejo, pela adopção de uma linha de ataque nas elevações viradas para o norte, o que eu também prefiro, por ser mais apropriado levar a contenda a um desenlace numa batalha no campo. 
Comecei hoje o desembarque no rio Mondego, porque tinha receio que qualquer atraso a mais podia desencorajar o país, e porque experienciei maiores facilidades para combinar o movimento e suprimento do exército quando ele estava na costa do que quando continuava em alto mar. Até aqui tem sido necessário ter cuidado com algumas dificuldades para o desembarque, que seria quase impossível se não tivéssemos a cordial assistência do país, apesar do zelo e das habilidades dos oficiais da marinha; e é quase certo que o General Spencer e os reforços da Inglaterra chegarão antes que as tropas que actualmente aqui se encontram estejam em terra; se um dos dois chegar, tenciono começar a minha marcha. 
Tenho a honra de informar Vossa Senhoria que expedi 5.000 conjuntos de armas a fim de armar as tropas regulares portuguesas, com a intenção destas cooperarem com o exército britânico no ataque aos franceses neste país. 
Tenho a honra de ser, etc. 

Arthur Wellesley 

[Fonte: Lieut. Colonel Gurwood (org.), The Dispatches of Field Marshal the Duke of Wellington, K. G. during his various campaigns in India, Denmark, Portugal, Spain, the Low Countries, and France, from 1799 to 1818 – Volume Fourth, London, John Murray, 1835, pp. 39-43].

Proclamação do Conde da Ega aos magistrados e empregados na administração judicial (1 de Agosto de 1808 )



O Conde da Ega, Conselheiro do Governo, Encarregado da Repartição da Justiça, aos magistrados e empregados na administração judicial.

Os deveres do Ministério que me unem convosco, sábios e respeitáveis magistrados, obrigam-me a dirigir-vos, nas actuais circunstâncias, expressões que serão sem dúvida acordes com os vossos mesmos sentimentos. Nós tínhamos esperanças bem fundadas de sermos felizes. As nossas leis, os nossos privilégios e os nossos costumes se guardavam e mantinham. Alguns defeitos e abusos que seria indispensável emendar, se iriam pouco a pouco destruindo, até que um novo Código, que o sistema seguido por toda a Europa tem feito necessário, e no qual vós mesmos há anos trabalháveis, acabasse de aperfeiçoar a nossa legislação. As leis seriam então respeitadas, a justiça administrada sem suborno, os magistrados, sendo dignos, gozariam da consideração pública; e se alguns não o fossem, as mesmas leis os privariam das suas funções. 
Tal era o brilhante quadro da nossa futura existência, se porventura, depois de termos dirigido os nossos votos ao trono augusto de Napoleão o Grande, esperássemos sossegados a sorte que o seu génio sublime nos preparava e nos havia prometido! Vós todos, respeitáveis membros da magistratura, os firmastes em testemunho autêntico de vossos sentimentos. Dissestes comigo ao Imperador que tomasse a nação portuguesa debaixo da sua poderosa protecção, que a regenerasse, que nos desse a Constituição e o Soberano que na sua alta compreensão julgasse mais adequada à nossa felicidade e à dos nossos vindouros. Rogámos-lhe, e este foi o sentimento mais expressivo dos nossos votos, que não permitisse que fossemos confundidos com outra nação, atribulados nossos ânimos com a horrível lembrança de que poderíamos fazer parte daquela que já nos havia agrilhoado. 
Que é pois o que nos acontece? Trocam-se em amargura as mais bem fundadas esperanças! A persuasão dos nossos vizinhos foi bastante para que uma parte das nossas províncias seguisse desacordada o pernicioso exemplo da rebelião, que vai sepultá-las na sua total ruína. Vós, magistrados territoriais, que, convocando a nobreza e povo dos vossos distritos, fizestes ressoar na presença do Chefe que nos governa as mais enérgicas expressões de gratidão e reconhecimento às benéficas intenções do Imperador para com Portugal, dizei que motivos vos constrangeram a excitar e promover a discórdia e a rebelião desses desgraçados povos, subindo o vosso indiscreto fanatismo ao enorme crime de saciardes o vosso particular rancor, fundados em princípios errados do interesse público? Vemos em Beja a desolação que semelhante perfídia produziu, e vemos em muitas outras partes horrores e crueldades pouco próprias de uma nação que se presava de generosa. Qual será o resultado deste desvario? Tremo quando o considero. 
O Imperador, assim que lhe conste que a nação portuguesa, faltando a si própria e aos votos que dirigiu à sua augusta presença, levantou o estandarte da rebelião, tornará aquela benevolência com que se havia proposto acolher-nos e que o nosso primeiro procedimento merecera, no desprezo e abandono. Portugal precipitado no abismo, lastimará sem remédio a sua destruição; a nação toda verá os seus lares reduzidos a cinzas e ruínas; os proprietários dispersos não possuirão os seus bens, e perderão o património dos seus antepassados, que contavam transmitir a seus descendentes; os pais chorarão a morte de seus filhos, as esposas a de seus esposos. Este país, tão agradável e tão interessante pelo seu clima e situação, será convertido num deserto pelo ferro e fogo, pela fome e miséria. Estes são, compatriotas meus, os terríveis males que uma porção de insensatos têm, por nossa desgraça, atraído sobre uma nação que se lisonjeava de esperar melhor e mais ditosa sorte. Nós, porém, guiados pela razão e pelo verdadeiro patriotismo, trabalhemos a toda a força por atalhar, enquanto é tempo, o precipício em que vamos despenhar-nos. 
Eia, pois, ainda temos remédio, porque Napoleão, sempre grande nos projectos desde que lançou as suas vistas para arrancar a nação portuguesa da escravidão da Inglaterra, escolheu por seu delegado nesta empresa a um dos seus mais distintos capitães, de que conhecia os talentos e os apreciava, e que havendo ao seu lado sustentado a glória das armas do seu Império, se havia igualmente moldado com todos aqueles sentimentos generosos que formam o carácter nobre dos homens grandes. O perdoar é certamente a mais grata disposição da alma elevada do respeitável chefe que nos rege com mão benfeitora. Ele, crede-me, ainda se consola com a esperança, [se] bem que remota, de embainhar a sua espada justiceira, e de poder conseguir para Portugal os bens que lhe havia procurado. 
A vós, magistrados desta capital, não tenho que recomendar-vos senão que sustenteis firmes e constantes o que há pouco firmastes na presença do mais distinto ajuntamento da nação, num acto que supria as Cortes do Reino, antiga constituição que o nosso chefe quis respeitar. É portanto a vós, outra vez repito, magistrados territoriais, que vos achais perto ou incluídos naquelas províncias onde a revolta se tem manifestado, que eu particularmente me dirijo, e a quem devo mais persuadir. Lembrai-vos que não há muito tempo concorri para chegardes ao pé do trono, solicitardes e conseguirdes alguns dos lugares que ocupais, e que sempre em mim encontrastes todo o acolhimento possível. Recobrai, pois, essa mesma confiança, e atendei aos que vos digo: 
Se os vossos cuidados foram e são, como espero, persuadir e recomendar a tranquilidade e obediência ao Governo que todos vós reconhecestes e declarastes em actos solenes e voluntários, justamente persuadidos do direito que a nação havia reassumido, e que conspícuos magistrados sustentaram em diferentes ocasiões nos estado do Reino, vós sereis premiados; se, porém, seguirdes os absurdos que vos alucinam, sereis punidos, mas punidos se persistires no vosso delírio. Implorai, portanto, o perdão, e sereis perdoado; e eu, cooperando para ele, terei suma consolação vendo entrar nos seus deveres uma parte distinta da nação, e após ela a outra, e todas ficarão tranquilas. 
Os exércitos que nos defendem vão marchando contra essas povoações rebeladas, e levam ordem de sacudir delas aqueles indivíduos malévolos da nação vizinha que nos perturbou, e que é a causa do estado de convulsão em que nos vemos, e de oferecer aos bons portugueses o auxílio de que necessitarem. Animai-vos, portugueses! Paz aos bons e paz também aos maus, são as palavras da ordem. 
Lisboa, no 1.º de Agosto de 1808. 

Conde da Ega 

[Fonte: 2.º Supplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 30, 17 de Agosto de 1808; Simão José da Luz Soriano, História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal. Compreendendo a História Diplomática, Militar e Política deste Reino, desde 1777 até 1834 – Segunda Época - Tomo V – Parte I, Lisboa, Imprensa Nacional, 1893, pp. 64-67. Raul Brandão, ao publicar um excerto desta "Arenga do Conde da Ega", na sua obra El-Rei Junot, inseriu igualmente uma "tradução" truncada (ao jeito de réplica) do mesmo discurso, extraída muito provavelmente dum folheto da época. Cf. El-Rei Junot, Lisboa, IN-CM, s.d., pp. 166-167]. 

Ordem do Conde de Novion, Chefe da Legião de Polícia de Lisboa, ao Governador (francês) de Santarém (1 de Agosto de 1808)



Lisboa, 1 de Agosto de 1808. 


Senhor Comandante:

Uma partida de Cavalaria da minha Legião acaba de desertar com armas e bagagens, dirigindo-se talvez para Mafra ou Óbidos. Rogo-vos, da parte do Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes, que ponhais de emboscada alguns piquetes da vossa Infantaria, capazes de suspender esse reforço, que se encaminha para unir-se aos rebeldes, ou de aprisionar alguns para servirem de exemplo. Cuido que seria necessário mandar um grande piquete para a estrada de Óbidos, a fim de lhes embaraçar os passos, no caso de quererem entrar em Leiria, aonde naturalmente os esperarão. De resto, eu deixo tudo à vossa disposição para bem do serviço, e para tirar as forças aos nossos inimigos, pelo que vos ficarei em particular obrigação. Tenho a honra de vos cumprimentar com a mais alta estima. 

O Marechal de Campo, Governador das Armas e Chefe da Legião de Policia,
[Conde] de Novion

P.S.: Eles vão armados de pistolas; de seis cartuchos cada um, e a sua espada. 

Ordem de Junot ao Director da Impressão Régia (1 de Agosto de 1808)


O Sr. Desembargador  Monteiro, Director da Impressão Régia*, remeterá ao Sr. Geoffroy Saint-Hilaire, membro do Instituto [da França], Professor de História Natural, e comissário do Governo francês para a requisição de objectos de ciências e artes, todas as [chapas de] cobre gravadas da Flore du Fleuve [sic] do Rio de Janeiro, chapas esses em número de quinhentas e cinquenta e quatro, as quais tinham sido gravadas segundo a direcção do padre Veloso, autor da dita Flora. As chapas foram requeridas pelo Governo francês para fazer parte do Museu Imperial de História Natural.
A presente ordem terá lugar de recibo.
Lisboa, 1 de Agosto de 1808**.

O Governador do Reino de Portugal, 
O Duque de Abrantes.

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Nota:


* O Desembargador  Domingos Monteiro de Albuquerque e Amaral tinha sido nomeado Director da Impressão Régia por decreto de 7 de Dezembro de 1801. [Cf. Segundo Supplemento á Gazeta de Lisboa, n.º IV, 30 de Janeiro de 1802]. 


*Apesar desta ordem estar datada de 1 de Agosto de 1808, Geoffroy Saint-Hilaire somente viria a apresentar-se na Impressão Régia para recolher as chapas da aludida obra no dia 29 do mesmo mês. Ora, precisamente um dia antes, Junot assinara a primeira versão da Convenção para a evacuação do Exército francês de Portugal. Julgamos assim que a dita datação desta ordem foi falseada para contornar o artigo XVI da aludida primeira versão da Convenção, cujas condições viriam a ser ampliadas no artigo XV da Convenção definitiva. Se esta hipótese for correcta, os franceses conseguiram o seu objectivo, pois iludindo tanto os portugueses como os ingleses, conseguiram realmente levar estas chapas para o Museu de História Natural de Paris, onde permaneceram até 1814, data em que foram restituídas a Portugal, juntamente com outros manuscritos.


Nova Grammatica Portugueza e Ingleza. A qual serve para instruir aos portuguezes na lingua ingleza (edição de 1808)






A obra cujo frontispício se pode apreciar acima poderia passar despercebida para os estudiosos das guerras napoleónicas, não fosse precisamente o contexto em que apareceu publicada e a sua suposta autoria. Impressa em Londres no ano de 1808, esta Nova Grammatica Portugueza e Ingleza tinha o propósito, como se indicava no subtítulo, de instruir aos portuguezes na lingua ingleza. Apesar de publicada anonimamente, Inocêncio da Silva, referindo-se à segunda edição desta obra, "revista e consideravelmente aumentada", diz que o seu autor teria sido nada menos do que José Hipólito da Costa [Cf. Innocencio Francisco da Silva, Diccionario Bibliographico Portuguez - Tomo Terceiro, Lisboa, Imprensa Nacional, 1859, p. 199]. Contudo, devemos ter em conta que esta gramática não era tão nova como constava no título, pois tratava-se na verdade duma cópia quase integral duma outra gramática, da autoria de Jacob de Castro Sarmento, a qual tinha sido publicada originalmente em 1751 [ou talvez melhor, inserida na segunda edição da Grammatica Anglo-Lusitanica & Lusitano-Anglica: Or, a New Grammar, English and Portuguese, and Portuguese and English, London Printed for W. Meadows, 1751; confrontar, entre outras reedições, com a edição portuguesa de 1777]. 



Ainda que o próprio prefácio da edição de 1808 se baseie no da edição original de 1751, a sua leitura permite deduzir que Nova Grammatica Portugueza e Ingleza foi publicada já depois do conhecimento, obviamente na Inglaterra, tanto das revoltas dos portugueses contra os franceses, como da abertura dos portos do Brasil às nações amigas, ou seja, a meados do terceiro trimestre de 1808:




Esta edição de 1808, que viria a ser reeditada pelo menos três vezes (em 1811, 1818 e 1828), tem a particularidade de incluir um glossário bilingue (não disponível nas edições acima mencionadas da Grammatica de Jacob de Castro) das palavras mais usadas na conversação, organizadas por temas, entre as quais se encontram as coisas pertencentes à guerra, como não podia deixar de ser pelo contexto em questão:













Finalmente, resta acrescentar nestas poucas linhas que a Nova Grammatica de 1808 mereceu a seguinte revisão crítica, dada à estampa numa publicação anti-jacobina inglesa:




The Antijacobin Review and Magazine; or, Monthly Political and Literary Censor: from January to April (inclusive) 1808. With an Appendix, containing an Ample Review of Foreign Literatura - Volume XXIX, London, 1808, pp. 491-492.




domingo, 31 de julho de 2011

Cópia de uma carta escrita a Mr. Junot por um seu amigo



Como é volúvel a Roda da fortuna, que num momento corta a fio da mais sólida ventura! Nunca imaginei que vos havia de chegar a Santa-Unção primeiro que a Quintela. Que desconsolação para os vossos amigos e para a vossa Madame Ega, ver-vos expirar depois dum Ducado tão glorioso no Mundo como o Reinado de vosso amo! Vós tínheis os fundamentos lançados de uma fama tão assinalada como a daquele Herói que incendiou em Éfeso o Templo de Diana, e em tudo, e por tudo, seriam reproduzidas em vós as virtudes deste. Porém, quanto pôde a ingratidão dos portugueses tomando as armas contra vós! Como depressa se esqueceram da Protecção que trouxestes ao seu país, fazendo dele uma conquista de amigo, abrindo estradas, rompendo canais, e pondo a coberto o seu ouro e prata da influência maligna da Inglaterra; ah, meu amigo, quanto sinto ver-vos à borda do precipício, verificando-se em vós o rifão antigo: Entradas de leão e saídas de sendeiro. Quem me dera uma voz tão robusta que ressoasse nos montes e vales, ou tão irada como o som da artilharia; eu bradaria então: 
Portugueses, que mal vos fez o vosso protector, para assim o acometerdes com ferro e fogo? Não é à iluminada Política deste General que o pobre Tejo deve o incomparável benefício de se ver desafrontado daqueles Exércitos de vasos que faziam gemer as suas águas com o enorme peso dos trigos, queijos, manteigas, arrozes, açúcares, farinhas de pão, algodões, panos, drogas e outras ridicularias deste género? Não é à grande protecção deste virtuoso chefe que a famosa Lisboa deve o ver-se evacuada de ingleses, americanos, gregos, marroquinos, holandeses, e de outros pobretões deste género, que nunca souberam comerciar como Mr. Junot, nem possuíram a grande arte de felicitar os povos como Napoleão; e não é por ele que se viu extinta na vossa capital a grande praga da traça, ficando tudo aliviado do peso das lãs, e remediada a sórdida indigência? Não é nas suas mãos que se viu reunido como num só ponto todo o vosso comércio; as artes num vigor tão prodigioso, que não fatigavam já os membros dos operários; as ciências em tanto gás que brevemente vos dariam um novo Camões; a Religião tão despida das superstições que a desonram, que sem demora seria o vosso catecismo o Filósofo militar, o Emílio, e outros iluminados Apóstolos que não teve a Igreja nos seus fundamentos; e em conclusão, uma polícia também ordenada, que tudo era uma limpeza decidida e elevada ao seu cume. E é contra um político desta ordem que vos tomais às armas? Assim insultais o Omnipotente que o enviou a proteger-vos, e que decidiu a vossa sorte dum modo tão glorioso e honrado? Assim se recompensam as acções grandes que ele obrou entre vós, e aquela piedosa protecção que enviou aos cidadãos das Caldas, pelo ministério dum General tão grande na virtude como mesquinho nos membros? 
Amigo Junot, assim falaria eu por vós, porém a Natureza [...] não me fez gigante [como] Golias, nem me deu a lira de Orfeu. Eu ouço já o estrondo das armas portuguesas que marcham em vosso alcance, e se o vento vos deixa ainda articular alguns sons, pedi a Vossa Amante ou que tome as armas da sua casa para vingar como Heroína o insulto que se dirige à Vossa Pessoa, ou que diga um eterno adeus aos arbustos do Ramalhão, com que coroaste os seus mimosos sorrisos.

Vale

[Fonte: Arquivo Histórico Militar (cota: AHM/DIV/1/14/006/32, fls. 1-3)].

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Nota:

Devemos o conhecimento deste documento, disponível fisicamente no Arquivo Histórico Militar, ao historiador Rui Manuel C. Prudêncio, que o disponibilizou integralmente no seu Blogue de História e Estórias, respeitando a ortografia original. Como referiu então Rui Prudêncio, ainda que o documento não se encontre datado, percebe-se pelo seu conteúdo que “é provável que date do período dos levantamentos populares organizados pelas sucessivas juntas formadas ao longo do país a partir de Junho de 1808 e antes do fim do governo de Junot com a Convenção de Sintra em Agosto do mesmo ano”. Resta-nos somente acrescentar que o seu tom de (aparente) incredulidade e de (falsa) ingenuidade parece ter sido inspirado por textos como a proclamação que Junot fez aos portugueses na data de 26 de Junho de 1808, precisamente a primeira onde o General francês se manifestou contra as incipientes revoltas que tinham então começado a surgir em vários pontos do país.
Em relação à autoria deste documento anónimo, não devemos confundir a última palavra do texto (Valle, no português antigo do manuscrito original) com o nome do autor. De facto, trata-se duma palavra latina que significa "adeus", e que era antigamente usada ao jeito de despedida, aparecendo precisamente com esse sentido no final de prefácios de outras obras portuguesas da época, e sendo exactamente assim definida no Diccionario da Lingua Portugueza de Rafael Bluteau de 1799). 
Escrita por um suposto amigo e apologista de Junot, esta "carta" é na verdade um documento bastante sarcástico que satiriza subtilmente o papel de Junot em Portugal através duma aparente crítica directa (embora nitidamente irónica) à ingratidão dos portugueses para com os seus protectores. Para além de várias referências irónicas às inúmeras promessas presentes nas proclamações de Junot (particularmente a de 1 de Fevereiro de 1808), este texto anónimo também alude ao suposto affaire que as más línguas da época diziam existir entre Junot e a Condessa de Ega (contando supostamente com o consentimento do próprio Conde da Ega), havendo inclusive rumores que o General francês a instruía na arte equestre em sítios como a quinta do Ramalhão. Raul Brandão, na sua obra El-Rei Junot, recolheu algumas poesias coetâneas que abordam este caso:  "[...] O Ega a mulher / Ao Junot foi entregar. // É onde pode chegar / O génio de ser cabrão. / Enfim, já chamam à Ega / Princesa do Ramalhão"; "O tal amigo Jinó [= Junot]Sem ser do seu mandado / Fez o Ega coronel / Deixando-o mui bem armado"; "Dizem que se transformaram / O conde da Ega e a mulher, / Ele em burro paneleiro, / Ela em besta de aluguer"; "P. - Trus, trus. R.  - Quem é? / P. - Aqui é que mora o almocreve / que aluga a égua e anda a pé?" [Fonte: Raul Brandão, El-Rei Junot, Porto, Renascença Portuguesa, 1919 (2.ª ed.), p. 276, p. 449 e p. 454]. Por curiosidade, e independentemente da veracidade de tais boatos, a convivência harmónica entre os Condes da Ega e Junot viria a motivar a fuga do casal para a França após a chamada Convenção de Sintra, acabando mesmo o Conde da Ega por ser condenado à morte em 1811, pena esta que foi finalmente anulada em 1823.