sábado, 16 de julho de 2011

Carta do Tenente Coronel D. Juan de la Cruz Mourgeon ao General Castaños (16 de Julho de 1808)



Excelentíssimo Senhor:

Ontem, como terá sido avisado Vossa Excelência, os inimigos atacaram-me, de modo que tive a necessidade de internar-me para além da montanha. A sua força consistia em 2.000 homens, e a minha em 1.500. Por fim consegui tomar uma posição vantajosa, pronta para defender a retirada dos inimigos por esta parte e para ajudar a operação da primeira divisão pelo seu flanco direito.
Tive na acção de ontem 13 mortos e 28 feridos, e os inimigos, segundo a declaração de um Sargento ferido que aprisionámos, tiveram mais de 100 mortos e feridos, e ademais fizeram retirar as suas tropas logo que tomei a nova posição.
A falta de água que há nesta terra obrigou-me, para refrescar a tropa, a passar ao Puerto de las Viñas, onde permaneci até às 4 horas da tarde, quando tomei a posição do alto do Peñascal de Morales, onde às 9 horas da noite fiz as duas grandes fogueiras.
Estou preocupado porque não sei o resultado da primeira e da segunda Divisão. 
Deus guarde a Vossa Excelência muitos anos.
Peñascal de Morales, às 8 e meia da manhã de 16 de Julho de 1808.

Juan de la Cruz Mourgeon

Carta do General Dupont ao General Belliard (16 de Julho de 1808)



Escrevi-vos, meu querido General, o resultado do dia de ontem: continuamos donos de todas as nossas posições; seguramente teremos hoje um novo ataque da parte do inimigo. Este dia é o aniversário da vitória de Tolosa sobre os mouros, e a preocupação religiosa dá uma grande importância a esta época nos entendimentos espanhóis. 
Escrevo ao General em Chefe que realmente não se deve perder um instante para sairmos da nossa posição, na qual já não podemos subsistir. Tendo o soldado todos os dias as armas nas mãos, não pode ceifar nem fazer o seu pão, como fizeram até aqui, porque os paisanos abandonaram as suas casas e as suas searas. Peço portanto reforços; numa palavra, um corpo de exército reunido, e que não esteja espalhado por tão grandes distâncias. Suplico-vos para fazerdes segurar as comunicações para que a Divisão Govert se possa reunir. Se deixamos ao inimigo manter o campo a sul, todas as províncias e as demais tropas de linhas acabarão por seguir o partido dos rebeldes. Um golpe enérgico dado na Andaluzia contribuirá muito para submeter toda a Espanha. Envie-me biscoitos, medicamentos e tecido para ligaduras, com a maior prontidão possível, porque os bandidos interceptaram nas montanhas, há um mês, os nossos hospitais ambulantes e os biscoitos que vinham de Toledo.
Sou, etc.

O General Dupont

Carta do General Dupont ao Duque de Rovigo, General em Chefe dos Exércitos franceses na Espanha (16 de Julho de 1808)


A Sua Excelência o Senhor Duque de Rovigo, General em Chefe dos Exércitos Franceses na Espanha.


Senhor General em Chefe:

Tenho a honra de dirigir a Vossa Excelência uma cópia da minha carta de ontem. O inimigo mantém-se nas mesmas posições, ocupa as alturas em frente de Andújar, e as suas baterias estão a um tiro da nossa vanguarda. Presumo que hoje renovará o seu ataque, e nós o receberemos com a maior tenacidade para conservar a nossa posição. 
O General Vedel guarda o caminho de Jaén para Bailén, e eu encarreguei-o para que observe com eficácia o caminho de Jaén a Úbeda, pelo qual poderia o inimigo passar a La Carolina; encarreguei o mesmo ao General Gobert, tendo em conta a suma importância da posição de La Carolina, para manter a nossa comunicação com Madrid. 
O ataque do inimigo revela que é concebido por projectos formais, e a nossa inação deu-lhe alentos.  Creio, como já insinuei muitas vezes a Vossa Excelência, que não devemos perder um instante para passar à ofensiva. Se não se sujeita o sul, o fogo da insurreição estender-se-á imediatamente às outras províncias, e as tropas regulamentares que se encontram espalhadas por elas deixar-se-ão arrastar para o partido dos rebeldes; é preferível que momentaneamente não se faça caso dos movimentos parciais que se podem manifestar nalguns pontos, a fim do exército francês estar em condições de marchar com forças suficientes contra este exército do sul, que está em guerra aberta contra nós. Para além disto, farei observar a Vossa Excelência que há cerca de um mês que ocupamos a posição de Andújar, que este território foi assolado pelos bandidos, e que não podemos extrair dele mais do que escassos recursos para viver. Há muito que as tropas não teriam subministros, se os soldados não se empregassem diariamente em ceifar o trigo e em fazer por si mesmos o seu pão, mas agora que a tropa está continuamente com as armas a postos, não pode usar já este meio. Vossa Excelência saberá quão impaciente está o exército para sair desta situação e marchar contra o inimigo. A reunião completa da divisão Gobert e mais outra divisão com alguma cavalaria, colocarão este exército em disposição de retomar as suas operações, mas este momento nunca poderá vir muito cedo. Rogo a Vossa Excelência que assegure a Sua Majestade o zelo que anima as suas tropas pelo seu serviço; ontem adquiriram mais um grau de confiança; todos os motivos se reúnem para que dêem incessantemente uma batalha decisiva.
Tenho, etc.

Carta do Marquês de Coupigny ao General Castaños (16 de Julho de 1808)



Excelentíssimo Senhor:

Tendo-me pedido o General D. Teodoro Reding para reforçar a sua Divisão com alguma tropa do meu mando, despachei-lhe imediatamente o Batalhão de Ceuta, reforçado com 200 Voluntários de Granada e 150 Voluntários catalães. Conforme aos seus movimentos, vigiei o inimigo com a minha Divisão a partir d o amanhecer, e tendo observado que pelo caminho real se dirigia tropa e vários transportes até à cidade de Andújar, mandei o Regimento de Cavalaria de Borbón, o Batalhão de Voluntários catalães e as guerrilhas passarem o vau à minha esquerda, para que, observando o inimigo e flanqueando-o, fatigassem a sua marcha e tirassem o partido que pudessem. Assim o fizeram, apesar dos inimigos manterem a sua retirada, sustentando os transportes com alguns Batalhões de Infantaria e Esquadrões de Cavalaria formados em boa ordem à minha frente, o que não impediu que, carregando sobre o seu flanco esquerdo e retaguarda, conseguíssemos matar-lhes bastante gente e capturar vários prisioneiros, entre os quais se encontra um correio que Dupont enviava a Madrid, cujas cartas incluo, tomando-lhe ademais 10 mulas e uma tenda de campanha e inutilizando os carros com marmitas de campanha e outros artigos que levavam, tendo-se reconhecido entre os mortos um Oficial de Engenheiros, pelos papéis que trazia.
Pelas perguntas que fiz aos prisioneiros, todos respondiam que padecem muito de fome, e isto é confirmado pelas próprias cartas de Dupont; assim, não duvido que, apesar do seu estilo quando fala de nós ao seu General em Chefe, estando convencido que Vossa Excelência tem 18.000 homens na sua frente, se lhe intimassem com as vantagens que a sua honra e decoro poderiam admitir, creio que se renderia com toda a sua divisão.
Deus guarde a Vossa Excelência muitos anos.
Villanueva de la Reyna, 16 de Julho de 1808.

Carta do General Teodoro Reding ao General Francisco Xavier de Castaños (16 de Julho de 1808)



Excelentíssimo Senhor:

Às 4 horas desta tarde acabo de retirar-me com a divisão do meu mando, depois de ter conseguido desalojar os inimigos dos postos fortificados que tinham nas margens do rio, e apesar dos reforços que se lhes tinham enviado, foram igualmente obrigados a abandonar todas as posições militares que consecutivamente tinham tomado. Ficaram em nosso poder um canhão, um carro de munições e vários de transporte, as malas que tinham no seu acampamento, os seus mantimentos e alguns prisioneiros, entre os quais um Capitão de Couraceiros, tendo ficado no campo de batalha muitos deste corpo escolhido. As tropas do meu mando cumpriram os seus deveres e superaram o sofrimento das necessidades provocadas pelo calor, fome e sede; mas como a qualidade do terreno tornava interminável a série de ataques do inimigo, pelas novas posições que sucessivamente ia tomando, vi-me necessitado às duas horas da tarde a regressar a esta povoação, para que não aumentassem as vítimas do calor e do cansaço que tinham ficado no campo de batalha. A perda das melhores tropas do inimigo foi considerável, e os feitos da nossa bem servida artilharia contribuíram para batê-los em todas as suas posições, como igualmente o fizeram as nossas partidas de guerrilha e os diferentes corpos de linha, tendo-se distinguido os oficiais superiores da minha divisão e a maior parte dos chefes dos Regimentos, o que indicarei a Vossa Excelência particularmente. Na próxima carta darei parte a Vossa Excelência dos mortos e feridos, entre os quais se encontram vários oficiais de mérito e recomendação. 
Deus guarde a Vossa Excelência muitos anos.
Mengíbar, 16 de Julho de 1808.

Carta da Junta do Algarve a Sua Majestade Britânica (16 de Julho de 1808)



Senhor!

Como própria tem Vossa Majestade olhado a causa de Portugal, desde que se proporcionaram os desgraçados princípios da sua infelicidade; os tristes agouros da sua fatal desgraça não puderam ser ocultos ao mais prudente de todos os Gabinetes; as medidas para a conservação dos sagrados penhores desta Monarquia, traçados como por uma mão superior, foram maravilhosamente executadas, e o seu êxito igual ao seu proposto; saiu de seu berço a fidelíssima Casa de Bragança, deixando em nossa protecção o seu Império, e ficaram intactos os votos da nossa obediência e homenagem; eles nos obrigaram a receber tranquilos os inimigos de Deus, da Religião e dos homens, ele pretextaram o nosso sofrimento, enquanto duraram à nossa vista as Coroas e troféus da Monarquia portuguesa; pouco importaria a perda dos nossos concidadãos, riquezas e faculdades, que nova sorte e o trato do tempo restituem, se não fosse o roubo do brasão lusitano, levando após si arrebatadamente a estimação do nome português. Eis aqui, Senhor, o aleivoso sistema que desde o dia dezanove de Junho […] passado nos chama às armas, por tantas bocas quantos são os estragos que nos veio causar o pérfido inimigo, com tantas forças quantas pingas de sangue circulam em nossas veias, e com tanta constância quanta for a nossa vida; o justo furor da nossa vingança facilmente nos subministrou os instrumentos com que trabalhamos a importante obra da nossa liberdade e salvação; rompemos o estranho e abominável intruso vínculo da Sociedade Imperial, que nos havia ferido os próprios da Monarquia. O Povo recuperou os seus primeiros direitos, e reaclamando o nosso Augusto Príncipe, consistiu na capital deste Reino do Algarve um Supremo Conselho de Regência, cujo formal do seu estabelecimento temos a honra de oferecer a Vossa Majestade: operamos a favor da Religião, Pátria e liberdade, sem excepção de pessoa, e quase sem exclusão de idades, cada um disputa a ocasião de mostrar o seu patriotismo; fizemos reunir a licenciada [e] desprezada tropa, e pouco a pouco vamos na perseguição do inimigo que precitadamente pôde escapar do nosso primeiro ímpeto, e colar as montanhas que separam este Reino. 
Tudo temos felizmente conseguido; porém, Senhor, não é possível arranjar de pronto as proporcionadas finanças de que necessitamos, acabando de ser roubados; e aonde poderemos ter socorro se não for nas Reais Mãos de Vossa Majestade? Elas têm protegido a nossa causa; elas têm protegido o Nosso Príncipe; por estes sagrados penhores depositados nas próprias e Reais Mãos de Vossa Majestade, nós rogamos o empréstimo de cinquenta mil libras esterlinas; sujeitando à sua satisfação todos os fundos e propriedades deste Reino do Algarve, entretanto que o nosso amável fiel Príncipe tenha ocasião de remir-nos e auxiliar-nos; ele mesmo se lisonjeará de merecer mais uma ocasião ao magnânimo afecto de Vossa Majestade, e nós a ajuntaremos aos anais da mais distinta nação um facto tão piedoso. 
Deus Guarde a Vossa Majestade por dilatadíssimos anos. 
Faro, 16 de Julho de 1808. 

Ventura J. Crisóstomo e Sá, Secretário do Conselho 
Conde Monteiro Mor 

(com mais assinaturas) 

[Fonte: Correio Braziliense, Outubro de 1808, pp. 412-414; José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal, e da Restauração deste Reino - Tomo V, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, pp. 49-53; Alberto Iria, A Invasão de Junot no Algarve, Lisboa, s. ed., 1941, pp. 390-391 (doc. 89)].

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Carta do Marquês de Coupigny ao General Castaños (15 de Julho de 1808)



Excelentíssimo Senhor:

Tendo tido conhecimento de que os inimigos ocupavam a povoação de Villanueva [de la Reina], marchei imediatamente desde Lahiguera, enviando as tropas ligeiras às ordens de D. Pedro Grimarest, e segui com toda a cavalaria; o inimigo tinha uma excelente posição, fez um vivo fogo sobre as tropas ligeiras, obrigando-as a retroceder um pouco, pelo que vi forçado a avançar a minha artilharia enquanto manobrava para passar os vaus; com efeito, logo que viu este movimento e o acertado fogo desta tropa, o inimigo começou a retirar-se em boa ordem; continuando um vivo fogo, passei o rio [Guadalquivir] com a cavalaria, e perseguimos o inimigo até muito depois do caminho de Bailén para Andújar, acabando por retirar-se pela Serra, deixando mais de 200 mortos no campo de batalha, sem contar os feridos, tendo sido o número de prisioneiros pequeno devido ao acaloramento da nossa tropa.
Remeterei a Vossa Excelência uma relação detalhada de todos os oficiais e indivíduos que se distinguiram, particularmente os meus ajudantes. 
Deus guarde a Vossa Excelência muitos anos.
Villanueva, 15 de Julho de 1808.

O Marquês de Coupignyi

Boletim n.º 5 do Exército [francês] de Portugal (15 de Julho de 1808)




[Fonte: Gazeta de Lisboa, n.º 28, 18 de Julho de 1808].


Pastoral do Bispo de Lamego (15 de Julho de 1808)





Carta de Lord Castlereagh, Secretário de Estado da Guerra, ao General Dalrymple, Governador de Gibraltar (15 de Julho de 1808)



Downing Street, 15 de Julho de 1808

Senhor:

Informo-vos que Sua Majestade, aprovando bastante o zelo e juízo que marcou toda a vossa conduta durante os últimos acontecimentos importantes que tiveram lugar na Espanha, foi servida confiar-vos, presentemente, o comando em chefe das suas forças empregadas em Portugal e na Espanha, com Sir Harry Burrard como segundo no comando.
Lord Collingwood receberá ordens para colocar uma fragata à vossa disposição, de forma a terdes os meios de vos transferirdes para qualquer ponto do vosso comando onde a vossa presença possa, segundo as circunstâncias, ser mais requerida; o comando da guarnição de Gibraltar fica entregue, durante a vossa ausência, ao Major General Drummond, ou ao seguinte oficial no comando.
Junto cópias das instruções que tinham sido dadas a Sir Arthur Wellesley, n.os 1, 2, 3 e respectivos anexos, que avançou para executá-las, tendo ordens para transferir o seu comando a algum oficial mais graduado.
Sou, etc.,

Castlereagh

[Fonte: Memoir, written by General Sir Hew Dalrymple, Bart., of his proceedings as connected with the affairs of Spain, and the commencement of the Peninsular War, London, Thomas and William Boone, Strand, 1830, pp. 48-49. Os itálicos aparecem nesta fonte].

Carta de Lord Castlereagh, secretário de Estado da Guerra, ao General Sir Hew Dalrymple, participando-lhe a nomeação para comandar o exército britânico destinado à costa da Península Ibérica (15 de Julho de 1808)



Downing Street, 15 de Julho de 1808 


Senhor: 

Permiti-me dar-vos os meus parabéns pelos lisonjeiros comandos que estou encarregado de vos transmitir da parte de Sua Majestade, e requerer ao mesmo tempo que aceiteis o meu pessoal agradecimento pelo zelo e habilidade com que haveis cumprido as vossas obrigações públicas durante o último importante período. 
Creio que a força com que foste provido permitir-vos-á dar uma nova e decisiva volta nos acontecimentos de Portugal e de Espanha. 
Permiti-me recomendar à vossa confiança particular o Tenente General Sir Arthur Wellesley. Estou convencido que a sua alta reputação ao serviço como oficial bastará por si só para o seleccionardes para qualquer serviço que possa requerer uma grande prudência e integridade, combinadas com muita experiência militar. 
De qualquer maneira, tenho a certeza de que a posição em que ele tem estado desde há um longo tempo, mantendo correspondência habitual com os ministros de Sua Majestade em relação aos assuntos da Espanha e tendo sido destinado para comandar qualquer operação que as circunstâncias possam tornar necessárias para contrariar as vistas da França contra os domínios espanhóis na América do Sul, mostrar-vos-á que ele é um oficial desejável para vós em todos os aspectos, para o utilizardes segundo a forma mais relevante que as regras do serviço permitam. 
Tenho a honra de ser, etc. 

Castlereagh 



Carta de Lord Castlereagh, secretário de Estado da Guerra, ao General Wellesley, participando-lhe a nomeação do Governador de Gibraltar, Sir Hew Dalrymple, como General em Chefe do exército britânico destinado às costas da Península Ibérica (15 de Julho de 1808)



Downing Street, 15 de Julho de 1808 


Senhor: 

Informo-vos que Sua Majestade confiou o comando das suas tropas ao serviço nas costas de Espanha e Portugal ao Tenente General Sir Hew Dalrymple, com o Tenente General Sir Harry Burrard como segundo no comando. Forneceram-se ao Tenente General cópias das vossas instruções até à presente data, exclusive. Estas últimas instruções serão postas em execução com toda a rapidez que as circunstâncias o permitam, sem esperardes pela chegada do Tenente General, mas notificando-o dos vossos procedimentos. E se entretanto se reunir convosco um oficial mais velho, comunicar-lhe-eis nesse caso as vossas ordens e proporcionar-lhe-eis toda a assistência para pô-las em execução. 
Tenho a honra de ser, etc. 

Castlereagh 

Estado das forças britânicas destinadas à costa da Península Ibérica

Carta de Lord Castlereagh, secretário de Estado da Guerra, ao General Wellesley (15 de Julho de 1808)




Downing Street, 15 de Julho de 1808 



Senhor: 

Desde que vos enviei os meus ofícios secretos datados de 30 do mês passado, assinalados com o n.º 1 e com o n.º 2, recebi a informação inclusa, da parte do Major General Spencer, em relação ao estado das forças do inimigo em Portugal
Como o número das tropas francesas que se encontra nos arredores de Lisboa (se esta informação for de confiança) parece ser muito mais considerável do que o que tinha sido referido anteriormente por Sir Charles Cotton, Sua Majestade deu ordens a um corpo de cinco mil homens, que consiste nos Regimentos mencionados na margem*, para embarcar e dirigir-se, sem perda de tempo, para a foz do Tejo, onde se reunirá convosco.
Sua Majestade também deu ordens para que as tropas comandadas pelo Tenente General John Moore, que chegaram do Báltico, se dirijam sem demora para a foz do Tejo, logo que se abasteçam de refrescos e provisões. 
As razões que motivaram a partida de tão grande força para aquela parte são as seguintes: 
Em primeiro lugar, providenciar adequadamente um ataque no Tejo; e em segundo lugar, dispor de uma força adicional, para além da que possa ser indispensável para essa operação, que eventualmente se separe para sul, quer com o objectivo de segurar Cádis, se fosse ameaçada pela força francesa comandada pelo General Dupont, quer para cooperar com as tropas espanholas para reduzir esse corpo, se as circunstâncias favorecerem tal operação, ou qualquer outra que possa ser combinada. 
Sua Majestade ordena que o ataque no Tejo deve ser considerado como o primeiro objectivo a ser atendido. Como toda a força (da qual vai anexa uma relação), quando estiver reunida, chegará a nada menos que 30.000 homens, é concebível que ambos os serviços possam ser amplamente cumpridos; a sua distribuição precisa, quer entre Portugal e a Andaluzia, quer pelo tempo e pela proporção da força conveniente, deve depender das circunstâncias, que serão julgadas no lugar; e considera-se aconselhável que se cumpra a garantia que o Tenente General Hew Dalrymple deu à Suprema Junta de Sevilha, debaixo da autoridade do meu ofício de 6 deste mês, ou seja, que Sua Majestade tinha a intenção de empregar um corpo de 10.000 homens das suas tropas para cooperar com os espanhóis naquela parte; espero que um corpo desta magnitude possa ser destacado sem prejudicar a operação principal contra o Tejo, e que se possa reforçá-lo depois que o Tejo esteja seguro; porém, se Cádis for seriamente ameaçada antes da chegada de toda a força vinda da Inglaterra, esse corpo deve ficar debaixo das ordens do oficial mais velho que estiver na foz do Tejo, para se separar, se se receber uma requisição para esse efeito, um número suficiente de forças para pôr este importante lugar fora do perigo imediato, mesmo que para isso se tenha que suspender, temporariamente, as operações contra o Tejo. 
Como a força que pode ser chamada para ir para o lado de Cádis requer somente o equipamento de campo, as munições de artilharia que foram enviadas com o objectivo de reduzir o Tejo ficarão nesta última paragem. 
Exceptuando as munições de artilharia enviadas para atacar os fortes nesse rio, não se considera necessário sobrecarregar o exército com um corpo maior de artilharia que o que pertence ao equipamento de campo, com a respectiva proporção de cavalos. 
Para além do período para o qual os navios de transporte estão providos, uma devida proporção de navios com provisões acompanhará o exército, os quais, juntamente com os eventuais abastecimentos que se espera que derivem das disposições e dos recursos do país, removerão, como se supõe, quaisquer dificuldades sobre este assunto, enquanto o exército continuar a agir perto da costa. 
Devido à grande demora e despesa que poderia ocorrer embarcando e enviando daqui todos aqueles meios que seriam necessários para tornar o exército completamente capaz de se mover assim que desembarcasse, o Governo de Sua Majestade determinou-se em confiar, em grande medida, nos abastecimentos provenientes dos recursos do país. 
Tudo leva a crer, pelo fervor dos habitantes quer da Espanha, quer de Portugal, que logo que o exército britânico se possa estabelecer em qualquer parte da costa, muitos estarão ansiosos para ser armados e ordenados em suporte da causa comum, e que se conseguirão obter todas as espécies de abastecimentos que o país produz para subsistir e equipar o exército; é portanto necessário, em primeiro lugar (se um ataque directo e imediato sobre as defesas do Tejo não puder ser concretizado prudentemente), que o exército britânico ocupe uma parte da costa entre Peniche e Setúbal, respectivamente a norte e a sul desse rio, na qual possa abrir com segurança comunicações com o interior, e a partir da qual possa posteriormente marchar contra o inimigo, esforçando-se, se possível, não só para o expulsar de Lisboa, mas para cortar a sua retirada para a Espanha. 
Logo que os meios de transporte existam, uma proporção de cavalaria acompanhará as tropas, que podem ser posteriormente reforçadas de acordo com as circunstâncias. 
Tenho a honra de ser, etc. 

Castlereagh


____________________________________________


Nota: 


* Castlereagh refere-se às forças que estavam prestes a partir dos portos ingleses de Ramsgate e Harwich




Carta do General Dupont ao Duque de Rovigo, General em Chefe dos Exércitos franceses na Espanha (15 de Julho de 1808)



A Sua Excelência o Senhor Duque de Rovigo, General em Chefe dos Exércitos Franceses na Espanha.


Senhor General em Chefe:

Tenho a honra de vos participar que o inimigo apresentou-se hoje em frente de Andújar, diante da nossa posição, com todas as suas forças, entre 15 a 18 mil homens, e a sua artilharia é composta em parte por peças de calibre 12. Enquanto nos atacava frontalmente um corpo de 3.000 homens que tinha passado o rio [Guadalquivir] a norte de Andújar, [outra parte] dirigiu-se através da Serra sobre as nossas costas. O sexto Regimento Provincial foi destacado para combatê-los, rechaçando-os vigorosamente; outro corpo de 5 a 6 mil homens que se encontram em Villanueva [de la Reina] ameaçou o nosso flanco esquerdo; dois Batalhões da quarta Legião foram enviados para contê-los, e houve nesta zona um combate muito vivo, mas o inimigo, apesar da sua superioridade, não pôde desordenar as nossas tropas; e o posto vizinho, do qual tirámos os nossos víveres, não foi insultado. O inimigo marchou igualmente com um corpo considerável sobre Mengíbar, situado no caminho de Jaén para Bailén. O General Liger-Belair, desde há alguns dias a esta parte, cobria esta posição com o objectivo de defender o caminho para La Carolina, e o General Bedel passou esta mesma noite com toda a sua divisão para reforçá-lo. Não tenho ainda os detalhes do que pode ter sucedido, mas tenho motivos para crer que o General Bedel ter-se-á mantido no seu ponto com vantagem. O General Goven marchou esta manhã para Bailén para apoiar o General Bedel: a sua divisão está extremamente debilitada, tendo sido obrigado a deixar outros seis Batalhões, dos quais três se acham em La Mancha e na Serra para manter as comunicações [com Madrid]. É sumamente importante que esta divisão se reúna toda e o mais rápido possível. O inimigo tomou posições sobre as alturas que se encontram em frente de Andújar. Tudo indica que amanhã fará uma nova investida, mais séria do que a de hoje; resistiremos a ela com o maior empenho. Vossa Excelência sabe quão penosa é a posição de Andújar, sobretudo no que diz respeito aos víveres, que se reúnem actualmente com uma dificuldade extrema. O soldado vê-se obrigado a ceifar o próprio trigo e a fazer o seu pão, pois os paisanos abandonaram as suas searas para seguir os rebeldes. Suplico a Vossa Excelência que envie os reforços necessários para voltar a empreender as nossas operações. O interesse de Suas Majestades o Imperador e o Rei de Espanha o exigem, e deve-se sentir muito ter-se permitido ao inimigo de empreender a ofensiva contra nós. Só hoje tivemos uma perda muito pequena para rechaçar os ataques do inimigo.

Dupont

P.S. Tenho notícia do General Bedel, conserva sempre a sua mesma posição: o inimigo não conseguiu nenhuma vantagem sobre nós.


quinta-feira, 14 de julho de 2011

As ordens e contra-ordens de Junot ao General Loison


Voltamos a repetir, agora com dados mais actualizados, que o estado de desorientação de Junot (face às poucas forças que dispunha para sustentar a ocupação efectiva de Portugal) é bem ilustrado pelas movimentações da divisão do General Loison: em meados de Maio de 1808, grande parte desta divisão abandonou a faixa costeira entre Mafra e Peniche, onde estava concentrada, para reforçar a guarnição de Almeida; pouco depois de ali chegar, Junot ordena a Loison para entrar na Espanha a fim de restabelecer as comunicações com o exército francês comandado por Murat (na Espanha); Loison passa a fronteira, mas logo no dia 17 de Junho volta a entrar em Portugal, para executar novas ordens de Junot, agora para se dirigir para o Porto; a 22 de Junho (apenas um dia depois de passar o Douro), depois de vários confrontos com os populares, que lhe tentam obstruir a passagem, Loison supostamente recebe contra-ordens para regressar para Almeida; porém, antes mesmo de chegar a essa praça-forte, recebe novas ordens para se voltar a aproximar de Lisboa, o que começa a executar a 3 de Julho, depois de dar descanso às suas tropas durante apenas um dia; finalmente, no dia 11, estas forças chegam a Santarém, depois de se terem enfrentado com alguns populares da aldeia de Souro Pires (a 29 de Junho), da cidade da Guarda (a 4 de Julho) e da aldeia da Alpedrinha (a 5 de Julho).



Ver mapa maior

Percurso das forças do General Loison, de Mesão Frio a Santarém, 
entre 22 de Junho e 11 de Julho de 1808
(de acordo com o boletim n.º 4 do exército francês).




Como se não bastassem já todas estas movimentações, referia a Gazeta de Lisboa de 14 de Julho que Loison, ao chegar a Santarém, "aí achou a ordem do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes para ir tomar o comando dos corpos destinados a varrer e punir os rebeldes da Beira"! 
De facto, Loison pouco tempo permaneceu em Santarém, pois no dia 15 já se encontrava em Alcobaça, ponto de reunião das forças de mais de 10.000 homens comandados pelos Generais Kellermann, Thomières, Brenier, Solignac, entre outros, que tinham o objectivo de aterrorizar a população da faixa litoral entre Lisboa e Leiria e submeter e reprimir qualquer tipo de revolta. Depois de alguns confrontos e saques combinados, Loison volta a partir para Lisboa, onde chegou no dia 20No entanto, apenas cinco dias se deteve na capital, pois logo recebeu novas ordens, desta vez para entrar no Alentejo, como mais adiante veremos...



Carta do Brigadeiro Francisco Venegas ao General Francisco Xavier de Castaños (14 de Julho de 1808)



Excelentíssimo Senhor:

Cheguei a esta povoação às cinco horas; uma partida de cavalaria [espanhola] perseguiu uma outra inimiga e matou-lhe dois homens, feriu gravemente outro, fez três prisioneiros e tomou seis cavalos.
À nossa chegada, o inimigo formou em coluna e começou a passar algumas tropas por barcas [para a margem sul do rio Guadalquivir]; com o acordo do Capitão de Engenheiros, mandei o Batalhão de Barbastro tomar uma posição própria para batê-los pelos flancos, se tentassem atacar-nos, mas cessou a passagem das tropas, e tudo aparenta que se retiram para Bailén. 
Deus guarde a Vossa Excelência muitos anos.
Mengíbar, 14 de Julho de 1808.



_________________________________________________

Nota: 

Para melhor contextualização deste documento, veja-se a carta de 17 de Julho de 1808 que à Junta de Sevilha enviou o General CastañosComandante do exército espanhol reunido na Andaluzia. 

Carta do Almirante Charles Cotton à Junta de Governo de Sines (14 de Julho de 1808)




O infra-escrito Almirante e Comandante da esquadra britânica na altura do Tejo recebeu com sumo prazer os agradecimentos dos leais habitantes de Sines, Santiago e das vilas e lugares circunvizinhos, aos quais tem a satisfação de [as]segurar que um exército britânico está próximo a chegar em socorro deste Reino, no presente empenho que tem entre mãos de manter tudo quanto é caro aos homens para a conservação da sua santa religião e restauração de seu legítimo Príncipe, para a protecção de suas mulheres e filhos, a independência, e ainda mesmo a existência do seu país. É escusado dizer se aos verdadeiros e leais portugueses, actualmente animados à acção que estes objectos bem valem quaisquer sacrifícios de comodidades, conforto, descanso e da mesma vida. O espírito de patriotismo fará soldados, e não se esqueça nunca que os opressores de Portugal não são mais que homens, e que são poucos: não poderão resistir a uma população justamente indignada e irritada.
Ainda que toda a assistência que a Grã-Bretanha puder fornecer ao seu antigo aliado será dada numa causa tão virtuosa, justa e honrosa, sem embargo disto tudo necessariamente há de depender da energia e esforços dos naturais de Portugal; por sua conta está manifestar o espírito de seus predecessores, e mostrar que a mocidade lusitana, noutro tempo a mais florescente e esforçada das nações, ainda conserva o seu nativo valor, e, actualmente irritada pela opressão, determina combater com zelo por Deus, por sua religião, por seus pais, mulheres e filhos, pela restauração do seu Príncipe e conservação da Pátria.
Por todas as partes do norte de Portugal, a voz geral é vencer ou morrer, e a única divisa que se traz inscrita: Liberdade e vingança.
Logo que chegarem as tropas de Inglaterra, as quais por instantes se esperam, o número pedido com as armas e competente porção de munições será expedido sem demora para Sines.
Dada a bordo da nau de Sua Majestade Britânica a Hibernia, na altura do Tejo, 14 de Julho de 1808.

C. Cotton

[Fonte: José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal, e da Restauração deste Reino - Tomo V, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, pp. 40-41].