sábado, 16 de julho de 2011

Carta da Junta do Algarve a Sua Majestade Britânica (16 de Julho de 1808)



Senhor!

Como própria tem Vossa Majestade olhado a causa de Portugal, desde que se proporcionaram os desgraçados princípios da sua infelicidade; os tristes agouros da sua fatal desgraça não puderam ser ocultos ao mais prudente de todos os Gabinetes; as medidas para a conservação dos sagrados penhores desta Monarquia, traçados como por uma mão superior, foram maravilhosamente executadas, e o seu êxito igual ao seu proposto; saiu de seu berço a fidelíssima Casa de Bragança, deixando em nossa protecção o seu Império, e ficaram intactos os votos da nossa obediência e homenagem; eles nos obrigaram a receber tranquilos os inimigos de Deus, da Religião e dos homens, ele pretextaram o nosso sofrimento, enquanto duraram à nossa vista as Coroas e troféus da Monarquia portuguesa; pouco importaria a perda dos nossos concidadãos, riquezas e faculdades, que nova sorte e o trato do tempo restituem, se não fosse o roubo do brasão lusitano, levando após si arrebatadamente a estimação do nome português. Eis aqui, Senhor, o aleivoso sistema que desde o dia dezanove de Junho […] passado nos chama às armas, por tantas bocas quantos são os estragos que nos veio causar o pérfido inimigo, com tantas forças quantas pingas de sangue circulam em nossas veias, e com tanta constância quanta for a nossa vida; o justo furor da nossa vingança facilmente nos subministrou os instrumentos com que trabalhamos a importante obra da nossa liberdade e salvação; rompemos o estranho e abominável intruso vínculo da Sociedade Imperial, que nos havia ferido os próprios da Monarquia. O Povo recuperou os seus primeiros direitos, e reaclamando o nosso Augusto Príncipe, consistiu na capital deste Reino do Algarve um Supremo Conselho de Regência, cujo formal do seu estabelecimento temos a honra de oferecer a Vossa Majestade: operamos a favor da Religião, Pátria e liberdade, sem excepção de pessoa, e quase sem exclusão de idades, cada um disputa a ocasião de mostrar o seu patriotismo; fizemos reunir a licenciada [e] desprezada tropa, e pouco a pouco vamos na perseguição do inimigo que precitadamente pôde escapar do nosso primeiro ímpeto, e colar as montanhas que separam este Reino. 
Tudo temos felizmente conseguido; porém, Senhor, não é possível arranjar de pronto as proporcionadas finanças de que necessitamos, acabando de ser roubados; e aonde poderemos ter socorro se não for nas Reais Mãos de Vossa Majestade? Elas têm protegido a nossa causa; elas têm protegido o Nosso Príncipe; por estes sagrados penhores depositados nas próprias e Reais Mãos de Vossa Majestade, nós rogamos o empréstimo de cinquenta mil libras esterlinas; sujeitando à sua satisfação todos os fundos e propriedades deste Reino do Algarve, entretanto que o nosso amável fiel Príncipe tenha ocasião de remir-nos e auxiliar-nos; ele mesmo se lisonjeará de merecer mais uma ocasião ao magnânimo afecto de Vossa Majestade, e nós a ajuntaremos aos anais da mais distinta nação um facto tão piedoso. 
Deus Guarde a Vossa Majestade por dilatadíssimos anos. 
Faro, 16 de Julho de 1808. 

Ventura J. Crisóstomo e Sá, Secretário do Conselho 
Conde Monteiro Mor 

(com mais assinaturas) 

[Fonte: Correio Braziliense, Outubro de 1808, pp. 412-414; José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal, e da Restauração deste Reino - Tomo V, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, pp. 49-53; Alberto Iria, A Invasão de Junot no Algarve, Lisboa, s. ed., 1941, pp. 390-391 (doc. 89)].

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Carta do Marquês de Coupigny ao General Castaños (15 de Julho de 1808)



Excelentíssimo Senhor:

Tendo tido conhecimento de que os inimigos ocupavam a povoação de Villanueva [de la Reina], marchei imediatamente desde Lahiguera, enviando as tropas ligeiras às ordens de D. Pedro Grimarest, e segui com toda a cavalaria; o inimigo tinha uma excelente posição, fez um vivo fogo sobre as tropas ligeiras, obrigando-as a retroceder um pouco, pelo que vi forçado a avançar a minha artilharia enquanto manobrava para passar os vaus; com efeito, logo que viu este movimento e o acertado fogo desta tropa, o inimigo começou a retirar-se em boa ordem; continuando um vivo fogo, passei o rio [Guadalquivir] com a cavalaria, e perseguimos o inimigo até muito depois do caminho de Bailén para Andújar, acabando por retirar-se pela Serra, deixando mais de 200 mortos no campo de batalha, sem contar os feridos, tendo sido o número de prisioneiros pequeno devido ao acaloramento da nossa tropa.
Remeterei a Vossa Excelência uma relação detalhada de todos os oficiais e indivíduos que se distinguiram, particularmente os meus ajudantes. 
Deus guarde a Vossa Excelência muitos anos.
Villanueva, 15 de Julho de 1808.

O Marquês de Coupignyi

Boletim n.º 5 do Exército [francês] de Portugal (15 de Julho de 1808)




[Fonte: Gazeta de Lisboa, n.º 28, 18 de Julho de 1808].


Pastoral do Bispo de Lamego (15 de Julho de 1808)





Carta de Lord Castlereagh, Secretário de Estado da Guerra, ao General Dalrymple, Governador de Gibraltar (15 de Julho de 1808)



Downing Street, 15 de Julho de 1808

Senhor:

Informo-vos que Sua Majestade, aprovando bastante o zelo e juízo que marcou toda a vossa conduta durante os últimos acontecimentos importantes que tiveram lugar na Espanha, foi servida confiar-vos, presentemente, o comando em chefe das suas forças empregadas em Portugal e na Espanha, com Sir Harry Burrard como segundo no comando.
Lord Collingwood receberá ordens para colocar uma fragata à vossa disposição, de forma a terdes os meios de vos transferirdes para qualquer ponto do vosso comando onde a vossa presença possa, segundo as circunstâncias, ser mais requerida; o comando da guarnição de Gibraltar fica entregue, durante a vossa ausência, ao Major General Drummond, ou ao seguinte oficial no comando.
Junto cópias das instruções que tinham sido dadas a Sir Arthur Wellesley, n.os 1, 2, 3 e respectivos anexos, que avançou para executá-las, tendo ordens para transferir o seu comando a algum oficial mais graduado.
Sou, etc.,

Castlereagh

[Fonte: Memoir, written by General Sir Hew Dalrymple, Bart., of his proceedings as connected with the affairs of Spain, and the commencement of the Peninsular War, London, Thomas and William Boone, Strand, 1830, pp. 48-49. Os itálicos aparecem nesta fonte].

Carta de Lord Castlereagh, secretário de Estado da Guerra, ao General Sir Hew Dalrymple, participando-lhe a nomeação para comandar o exército britânico destinado à costa da Península Ibérica (15 de Julho de 1808)



Downing Street, 15 de Julho de 1808 


Senhor: 

Permiti-me dar-vos os meus parabéns pelos lisonjeiros comandos que estou encarregado de vos transmitir da parte de Sua Majestade, e requerer ao mesmo tempo que aceiteis o meu pessoal agradecimento pelo zelo e habilidade com que haveis cumprido as vossas obrigações públicas durante o último importante período. 
Creio que a força com que foste provido permitir-vos-á dar uma nova e decisiva volta nos acontecimentos de Portugal e de Espanha. 
Permiti-me recomendar à vossa confiança particular o Tenente General Sir Arthur Wellesley. Estou convencido que a sua alta reputação ao serviço como oficial bastará por si só para o seleccionardes para qualquer serviço que possa requerer uma grande prudência e integridade, combinadas com muita experiência militar. 
De qualquer maneira, tenho a certeza de que a posição em que ele tem estado desde há um longo tempo, mantendo correspondência habitual com os ministros de Sua Majestade em relação aos assuntos da Espanha e tendo sido destinado para comandar qualquer operação que as circunstâncias possam tornar necessárias para contrariar as vistas da França contra os domínios espanhóis na América do Sul, mostrar-vos-á que ele é um oficial desejável para vós em todos os aspectos, para o utilizardes segundo a forma mais relevante que as regras do serviço permitam. 
Tenho a honra de ser, etc. 

Castlereagh 



Carta de Lord Castlereagh, secretário de Estado da Guerra, ao General Wellesley, participando-lhe a nomeação do Governador de Gibraltar, Sir Hew Dalrymple, como General em Chefe do exército britânico destinado às costas da Península Ibérica (15 de Julho de 1808)



Downing Street, 15 de Julho de 1808 


Senhor: 

Informo-vos que Sua Majestade confiou o comando das suas tropas ao serviço nas costas de Espanha e Portugal ao Tenente General Sir Hew Dalrymple, com o Tenente General Sir Harry Burrard como segundo no comando. Forneceram-se ao Tenente General cópias das vossas instruções até à presente data, exclusive. Estas últimas instruções serão postas em execução com toda a rapidez que as circunstâncias o permitam, sem esperardes pela chegada do Tenente General, mas notificando-o dos vossos procedimentos. E se entretanto se reunir convosco um oficial mais velho, comunicar-lhe-eis nesse caso as vossas ordens e proporcionar-lhe-eis toda a assistência para pô-las em execução. 
Tenho a honra de ser, etc. 

Castlereagh 

Estado das forças britânicas destinadas à costa da Península Ibérica

Carta de Lord Castlereagh, secretário de Estado da Guerra, ao General Wellesley (15 de Julho de 1808)




Downing Street, 15 de Julho de 1808 



Senhor: 

Desde que vos enviei os meus ofícios secretos datados de 30 do mês passado, assinalados com o n.º 1 e com o n.º 2, recebi a informação inclusa, da parte do Major General Spencer, em relação ao estado das forças do inimigo em Portugal
Como o número das tropas francesas que se encontra nos arredores de Lisboa (se esta informação for de confiança) parece ser muito mais considerável do que o que tinha sido referido anteriormente por Sir Charles Cotton, Sua Majestade deu ordens a um corpo de cinco mil homens, que consiste nos Regimentos mencionados na margem*, para embarcar e dirigir-se, sem perda de tempo, para a foz do Tejo, onde se reunirá convosco.
Sua Majestade também deu ordens para que as tropas comandadas pelo Tenente General John Moore, que chegaram do Báltico, se dirijam sem demora para a foz do Tejo, logo que se abasteçam de refrescos e provisões. 
As razões que motivaram a partida de tão grande força para aquela parte são as seguintes: 
Em primeiro lugar, providenciar adequadamente um ataque no Tejo; e em segundo lugar, dispor de uma força adicional, para além da que possa ser indispensável para essa operação, que eventualmente se separe para sul, quer com o objectivo de segurar Cádis, se fosse ameaçada pela força francesa comandada pelo General Dupont, quer para cooperar com as tropas espanholas para reduzir esse corpo, se as circunstâncias favorecerem tal operação, ou qualquer outra que possa ser combinada. 
Sua Majestade ordena que o ataque no Tejo deve ser considerado como o primeiro objectivo a ser atendido. Como toda a força (da qual vai anexa uma relação), quando estiver reunida, chegará a nada menos que 30.000 homens, é concebível que ambos os serviços possam ser amplamente cumpridos; a sua distribuição precisa, quer entre Portugal e a Andaluzia, quer pelo tempo e pela proporção da força conveniente, deve depender das circunstâncias, que serão julgadas no lugar; e considera-se aconselhável que se cumpra a garantia que o Tenente General Hew Dalrymple deu à Suprema Junta de Sevilha, debaixo da autoridade do meu ofício de 6 deste mês, ou seja, que Sua Majestade tinha a intenção de empregar um corpo de 10.000 homens das suas tropas para cooperar com os espanhóis naquela parte; espero que um corpo desta magnitude possa ser destacado sem prejudicar a operação principal contra o Tejo, e que se possa reforçá-lo depois que o Tejo esteja seguro; porém, se Cádis for seriamente ameaçada antes da chegada de toda a força vinda da Inglaterra, esse corpo deve ficar debaixo das ordens do oficial mais velho que estiver na foz do Tejo, para se separar, se se receber uma requisição para esse efeito, um número suficiente de forças para pôr este importante lugar fora do perigo imediato, mesmo que para isso se tenha que suspender, temporariamente, as operações contra o Tejo. 
Como a força que pode ser chamada para ir para o lado de Cádis requer somente o equipamento de campo, as munições de artilharia que foram enviadas com o objectivo de reduzir o Tejo ficarão nesta última paragem. 
Exceptuando as munições de artilharia enviadas para atacar os fortes nesse rio, não se considera necessário sobrecarregar o exército com um corpo maior de artilharia que o que pertence ao equipamento de campo, com a respectiva proporção de cavalos. 
Para além do período para o qual os navios de transporte estão providos, uma devida proporção de navios com provisões acompanhará o exército, os quais, juntamente com os eventuais abastecimentos que se espera que derivem das disposições e dos recursos do país, removerão, como se supõe, quaisquer dificuldades sobre este assunto, enquanto o exército continuar a agir perto da costa. 
Devido à grande demora e despesa que poderia ocorrer embarcando e enviando daqui todos aqueles meios que seriam necessários para tornar o exército completamente capaz de se mover assim que desembarcasse, o Governo de Sua Majestade determinou-se em confiar, em grande medida, nos abastecimentos provenientes dos recursos do país. 
Tudo leva a crer, pelo fervor dos habitantes quer da Espanha, quer de Portugal, que logo que o exército britânico se possa estabelecer em qualquer parte da costa, muitos estarão ansiosos para ser armados e ordenados em suporte da causa comum, e que se conseguirão obter todas as espécies de abastecimentos que o país produz para subsistir e equipar o exército; é portanto necessário, em primeiro lugar (se um ataque directo e imediato sobre as defesas do Tejo não puder ser concretizado prudentemente), que o exército britânico ocupe uma parte da costa entre Peniche e Setúbal, respectivamente a norte e a sul desse rio, na qual possa abrir com segurança comunicações com o interior, e a partir da qual possa posteriormente marchar contra o inimigo, esforçando-se, se possível, não só para o expulsar de Lisboa, mas para cortar a sua retirada para a Espanha. 
Logo que os meios de transporte existam, uma proporção de cavalaria acompanhará as tropas, que podem ser posteriormente reforçadas de acordo com as circunstâncias. 
Tenho a honra de ser, etc. 

Castlereagh


____________________________________________


Nota: 


* Castlereagh refere-se às forças que estavam prestes a partir dos portos ingleses de Ramsgate e Harwich




Carta do General Dupont ao Duque de Rovigo, General em Chefe dos Exércitos franceses na Espanha (15 de Julho de 1808)



A Sua Excelência o Senhor Duque de Rovigo, General em Chefe dos Exércitos Franceses na Espanha.


Senhor General em Chefe:

Tenho a honra de vos participar que o inimigo apresentou-se hoje em frente de Andújar, diante da nossa posição, com todas as suas forças, entre 15 a 18 mil homens, e a sua artilharia é composta em parte por peças de calibre 12. Enquanto nos atacava frontalmente um corpo de 3.000 homens que tinha passado o rio [Guadalquivir] a norte de Andújar, [outra parte] dirigiu-se através da Serra sobre as nossas costas. O sexto Regimento Provincial foi destacado para combatê-los, rechaçando-os vigorosamente; outro corpo de 5 a 6 mil homens que se encontram em Villanueva [de la Reina] ameaçou o nosso flanco esquerdo; dois Batalhões da quarta Legião foram enviados para contê-los, e houve nesta zona um combate muito vivo, mas o inimigo, apesar da sua superioridade, não pôde desordenar as nossas tropas; e o posto vizinho, do qual tirámos os nossos víveres, não foi insultado. O inimigo marchou igualmente com um corpo considerável sobre Mengíbar, situado no caminho de Jaén para Bailén. O General Liger-Belair, desde há alguns dias a esta parte, cobria esta posição com o objectivo de defender o caminho para La Carolina, e o General Bedel passou esta mesma noite com toda a sua divisão para reforçá-lo. Não tenho ainda os detalhes do que pode ter sucedido, mas tenho motivos para crer que o General Bedel ter-se-á mantido no seu ponto com vantagem. O General Goven marchou esta manhã para Bailén para apoiar o General Bedel: a sua divisão está extremamente debilitada, tendo sido obrigado a deixar outros seis Batalhões, dos quais três se acham em La Mancha e na Serra para manter as comunicações [com Madrid]. É sumamente importante que esta divisão se reúna toda e o mais rápido possível. O inimigo tomou posições sobre as alturas que se encontram em frente de Andújar. Tudo indica que amanhã fará uma nova investida, mais séria do que a de hoje; resistiremos a ela com o maior empenho. Vossa Excelência sabe quão penosa é a posição de Andújar, sobretudo no que diz respeito aos víveres, que se reúnem actualmente com uma dificuldade extrema. O soldado vê-se obrigado a ceifar o próprio trigo e a fazer o seu pão, pois os paisanos abandonaram as suas searas para seguir os rebeldes. Suplico a Vossa Excelência que envie os reforços necessários para voltar a empreender as nossas operações. O interesse de Suas Majestades o Imperador e o Rei de Espanha o exigem, e deve-se sentir muito ter-se permitido ao inimigo de empreender a ofensiva contra nós. Só hoje tivemos uma perda muito pequena para rechaçar os ataques do inimigo.

Dupont

P.S. Tenho notícia do General Bedel, conserva sempre a sua mesma posição: o inimigo não conseguiu nenhuma vantagem sobre nós.


quinta-feira, 14 de julho de 2011

As ordens e contra-ordens de Junot ao General Loison


Voltamos a repetir, agora com dados mais actualizados, que o estado de desorientação de Junot (face às poucas forças que dispunha para sustentar a ocupação efectiva de Portugal) é bem ilustrado pelas movimentações da divisão do General Loison: em meados de Maio de 1808, grande parte desta divisão abandonou a faixa costeira entre Mafra e Peniche, onde estava concentrada, para reforçar a guarnição de Almeida; pouco depois de ali chegar, Junot ordena a Loison para entrar na Espanha a fim de restabelecer as comunicações com o exército francês comandado por Murat (na Espanha); Loison passa a fronteira, mas logo no dia 17 de Junho volta a entrar em Portugal, para executar novas ordens de Junot, agora para se dirigir para o Porto; a 22 de Junho (apenas um dia depois de passar o Douro), depois de vários confrontos com os populares, que lhe tentam obstruir a passagem, Loison supostamente recebe contra-ordens para regressar para Almeida; porém, antes mesmo de chegar a essa praça-forte, recebe novas ordens para se voltar a aproximar de Lisboa, o que começa a executar a 3 de Julho, depois de dar descanso às suas tropas durante apenas um dia; finalmente, no dia 11, estas forças chegam a Santarém, depois de se terem enfrentado com alguns populares da aldeia de Souro Pires (a 29 de Junho), da cidade da Guarda (a 4 de Julho) e da aldeia da Alpedrinha (a 5 de Julho).



Ver mapa maior

Percurso das forças do General Loison, de Mesão Frio a Santarém, 
entre 22 de Junho e 11 de Julho de 1808
(de acordo com o boletim n.º 4 do exército francês).




Como se não bastassem já todas estas movimentações, referia a Gazeta de Lisboa de 14 de Julho que Loison, ao chegar a Santarém, "aí achou a ordem do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes para ir tomar o comando dos corpos destinados a varrer e punir os rebeldes da Beira"! 
De facto, Loison pouco tempo permaneceu em Santarém, pois no dia 15 já se encontrava em Alcobaça, ponto de reunião das forças de mais de 10.000 homens comandados pelos Generais Kellermann, Thomières, Brenier, Solignac, entre outros, que tinham o objectivo de aterrorizar a população da faixa litoral entre Lisboa e Leiria e submeter e reprimir qualquer tipo de revolta. Depois de alguns confrontos e saques combinados, Loison volta a partir para Lisboa, onde chegou no dia 20No entanto, apenas cinco dias se deteve na capital, pois logo recebeu novas ordens, desta vez para entrar no Alentejo, como mais adiante veremos...



Carta do Brigadeiro Francisco Venegas ao General Francisco Xavier de Castaños (14 de Julho de 1808)



Excelentíssimo Senhor:

Cheguei a esta povoação às cinco horas; uma partida de cavalaria [espanhola] perseguiu uma outra inimiga e matou-lhe dois homens, feriu gravemente outro, fez três prisioneiros e tomou seis cavalos.
À nossa chegada, o inimigo formou em coluna e começou a passar algumas tropas por barcas [para a margem sul do rio Guadalquivir]; com o acordo do Capitão de Engenheiros, mandei o Batalhão de Barbastro tomar uma posição própria para batê-los pelos flancos, se tentassem atacar-nos, mas cessou a passagem das tropas, e tudo aparenta que se retiram para Bailén. 
Deus guarde a Vossa Excelência muitos anos.
Mengíbar, 14 de Julho de 1808.



_________________________________________________

Nota: 

Para melhor contextualização deste documento, veja-se a carta de 17 de Julho de 1808 que à Junta de Sevilha enviou o General CastañosComandante do exército espanhol reunido na Andaluzia. 

Carta do Almirante Charles Cotton à Junta de Governo de Sines (14 de Julho de 1808)




O infra-escrito Almirante e Comandante da esquadra britânica na altura do Tejo recebeu com sumo prazer os agradecimentos dos leais habitantes de Sines, Santiago e das vilas e lugares circunvizinhos, aos quais tem a satisfação de [as]segurar que um exército britânico está próximo a chegar em socorro deste Reino, no presente empenho que tem entre mãos de manter tudo quanto é caro aos homens para a conservação da sua santa religião e restauração de seu legítimo Príncipe, para a protecção de suas mulheres e filhos, a independência, e ainda mesmo a existência do seu país. É escusado dizer se aos verdadeiros e leais portugueses, actualmente animados à acção que estes objectos bem valem quaisquer sacrifícios de comodidades, conforto, descanso e da mesma vida. O espírito de patriotismo fará soldados, e não se esqueça nunca que os opressores de Portugal não são mais que homens, e que são poucos: não poderão resistir a uma população justamente indignada e irritada.
Ainda que toda a assistência que a Grã-Bretanha puder fornecer ao seu antigo aliado será dada numa causa tão virtuosa, justa e honrosa, sem embargo disto tudo necessariamente há de depender da energia e esforços dos naturais de Portugal; por sua conta está manifestar o espírito de seus predecessores, e mostrar que a mocidade lusitana, noutro tempo a mais florescente e esforçada das nações, ainda conserva o seu nativo valor, e, actualmente irritada pela opressão, determina combater com zelo por Deus, por sua religião, por seus pais, mulheres e filhos, pela restauração do seu Príncipe e conservação da Pátria.
Por todas as partes do norte de Portugal, a voz geral é vencer ou morrer, e a única divisa que se traz inscrita: Liberdade e vingança.
Logo que chegarem as tropas de Inglaterra, as quais por instantes se esperam, o número pedido com as armas e competente porção de munições será expedido sem demora para Sines.
Dada a bordo da nau de Sua Majestade Britânica a Hibernia, na altura do Tejo, 14 de Julho de 1808.

C. Cotton

[Fonte: José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal, e da Restauração deste Reino - Tomo V, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, pp. 40-41].

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (14 de Julho de 1808)



Lisboa, 14 de Julho


Não há fábula absurda que não se tenha espalhado, de 15 dias a esta parte, a respeito do General Loison, que uns muitas vezes davam por morto, e outros, ao menos, por aprisionado. O ter ele porém voltado felizmente, com um corpo considerável, desconcerta a malevolência e traz ao Exército um numeroso e útil reforço.
O Boletim do Exército contém as particularidades da sua marcha, que foi uma espécie de vitória contínua por entre milhares de dificuldades que ele teve de vencer.
Veio até Santarém; e aí achou a ordem do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes para ir tomar o comando dos corpos destinados a varrer e punir os rebeldes da Beira.

As notícias que diariamente se recebem do General Margaron continuam a ser muito boas. As suas últimas cartas eram de Tomar, onde tudo ficava restituído à boa ordem e à submissão, depois de um instante de desatino expiado pela expressão do mais vivo arrependimento. O dito General só cessou de bater os rebeldes por se haverem dispersado diante dele, sem que os tornassem a achar reunidos, desde que foram desbaratados em Leiria.

Tudo o que se tem espalhado, nestes últimos dias, a respeito de um suposto desembarque de ingleses ou de emigrados portugueses, da banda da Nazaré e nas costas vizinhas de Alcobaça, é falso e forjado. Naquela parte da praia sim apareceram uns cem meninos perdidos, destinados a lançar ali algumas armas e munições, a fim de aumentar a desordem e alimentar a revolta: tal é o eterno modo de proceder dos ingleses, que só subsistem pelas perturbações do continente, multiplicando neste as vítimas, para se salvarem a si mesmos. Prometem incessantemente socorros a todos aqueles que querem ajudar os seus projectos e os seus furores; mas não lhes mandam, em troca de algumas espingardas e de um pouco de ouro corruptor, senão a ruína e a morte! Como é possível, depois de tantos exemplos famosos da ilusão das suas promessas e do desastre da sua aliança, que eles possam ainda achar gente insensata que se deixe por eles extraviar e conduzir ao degoladouro? Como é possível que aqueles dos portugueses que eles procuram seduzir e arrancar à doce fruição da paz e do sossego, deixem de ver que serão por eles abandonados e traídos, assim como o serão sucessivamente todas as nações que caíram no absurdo de consentir em vender-lhes o seu sangue e a sua tranquilidade?
Enquanto ao mais, seria para desejar que os desembarques de que se tem falado da banda da Nazaré e Peniche se tivessem realizado; porquanto pela sábia previdência do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor General em Chefe se achavam aí reunidas forças mui respeitáveis, ficando prontas a marchar para todos os pontos que se pudessem ver ameaçados, e a aniquilar todos aqueles que se tivessem apresentado. Se os ingleses quiserem abrir aos emigrados portugueses uma sepultura, assim como a abriram, há vários anos, aos emigrados franceses em Quiberon, o resultado será infalivelmente o mesmo; e as famílias deste país conhecerão enfim a quem devem atribuir as suas desgraças e as suas lágrimas.

De algum tempo a esta parte se tem feito estudo, sem que se saiba porque razão, de misturar o nome do General Gomes Freire com os dos rebeldes que se esforçam por trazer sobre o seu país os flagelos da guerra civil e de uma luta sobejamente desigual contra um ilustre General formado na escola do maior dos guerreiros antigos e modernos, e contra um exército acostumado a todos os sucessos e cheio do mais ardente desejo de renová-los. Nada por certo é mais ridículo; pois que, durante esse tempo, o Senhor Gomes Freire se achava doente e até prisioneiro dos espanhóis em Valladolid; e mui modernamente é que ele se viu libertado pelo mesmo corpo de tropas francesas que de todo bateu os espanhóis naquele sítio, e que entrou triunfante na cidade de Valladolid, para puni-la pela resistência que ela opusera momentaneamente. Desde então, o General Gomes Freire (atravessando a Biscaia, onde se tem mantido a paz) tem continuado o seu caminho para a França, onde foi unir-se às tropas portuguesas de que comanda uma parte. Estas particularidades se confirmam por alguns criados seus, que não havendo podido segui-lo, voltaram os dias passados a Lisboa.

Enquanto ao mais, o norte de Espanha se vai apaziguando, à medida que chegam aí as tropas francesas, as quais entram em grande número por todos os pontos dos Pirenéus; e são já senhoras assim de Segovia como de Zaragoza. Um corpo considerável, que se destina a receber ainda novos reforços do exército de Itália, se formou na Catalunha, a maior parte da qual nunca se agitou e reconhece o novo Governo.
Em Lisboa há cartas de Madrid até à data de 28 de Junho, as quais atestam que se haviam aí renovado, segundo o costume, as especulações comerciais; e que tudo ficava em sossego naquela vila, sem que houvesse ali movimento algum. Sua Alteza Imperial o Grão-Duque de Berg, exercendo as funções de Lugar-Tenente do Reino, em novo do novo Rei José Napoleão, que se achava ainda em Bayonne, residia numa casa de campo nos arredores de Madrid, onde tinha o seu Quartel-General. O General Savari, um dos Ajudantes de Campo de Sua Majestade o Imperador e Rei, exercia o lugar de Governador de Madrid.
Conforme todas as informações que recebemos, era já de notar, como tão facilmente se podia prever, que a discórdia se ia introduzindo nas Juntas revolucionárias; que elas começavam a obedecer com repugnância umas às outras; pois que efectivamente nenhuma tem autoridade legítima, e todas podem formar pretensões igualmente fundamentadas; que vários dos seus membros, convencidos pela sua própria experiência de que o império da multidão, além de ser calamitoso, só pode ter uma mui curta duração, pensavam em subtrair-se ao despotismo popular que os oprime a eles mesmos; e em ceder a sua influência ao novo Governo, capitulando com ele secretamente, e entregando-lhe até mesmo aqueles dos seus cúmplices que achavam ser menos perspicazes do que eles. Os camponeses, por outra parte, se queixavam de que os habitantes das cidades os iam arrancando às suas famílias e aos seus úteis e pacíficos trabalhos, ao tempo da colheita, para sujeitá-los aos seus caprichos, e fazê-los suportar fadigas, a que estes sabem muito bem esquivar-se com diversos pretextos. Portanto, os homens acostumados a calcular a marcha dos acontecimentos políticos têm por certo que as partes revoltadas da Espanha não tardarão em restabelecer-se por si mesmas daquele delírio de insurreição, abraçando, como a única tábua de salvamento em meio da anarquia que as devora, a centralidade do poder e a unidade do Governo Monárquico, que só pode assegurar-lhes o génio e o braço mui poderoso de Sua Majestade o Imperador e Rei NAPOLEÃO. Muitos de entre eles, até mesmo em Espanha, pensam que esta feliz mudança se efectuará talvez pela influência tão somente da razão pública e do interesse nacional bem entendido, sem esperar que o prescrevam a presença e a força dos exércitos franceses que se adiantam, e aos quais é nimiamente absurdo imaginar que poderia resistir a Espanha, sem Chefe, sem objecto, sem finanças, já dividida, já desmembrada; pois que aquelas mesmas tropas com que será invadida quando preciso for, tem tantas vezes vencido todas as Potências da Europa tão inutilmente coligadas contra o GRANDE NAPOLEÃO e contra a sua Grande Nação!

[Fonte: 2.º Supplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 27, 14 de Julho de 1808].

Aviso publicado na Gazeta de Lisboa (14 de Julho de 1808)



[Fonte: 2.º Supplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 27, 14 de Julho de 1808].

___________________________________________

Nota: Sobre este assunto ver a nossa segunda nota ao decreto de Junot de 14 de Junho de 1808.

Pastoral do Bispo do Porto apelando à união contra os franceses (14 de Julho de 1808)






Nota: O Bispo do Porto alude no início desta pastoral a uma exortação sua, que não conseguimos consultar, mas que julgamos que fosse uma datada de 5 de Dezembro de 1807, mencionada igualmente numa outra pastoral do mesmo Bispo, datada de 18 de Janeiro de 1808


Edital da Junta do Porto permitindo a livre circulação das moedas de ouro britânicas em Portugal (14 de Julho de 1808)

Spanish Patriots entring Madrid, or the Grand Duke of Bergs retreat discovered, caricatura atribuída a Isac e/ou George Cruikshank (14 de Julho de 1808)




Patriotas espanhóis entrando em Madrid, ou a descoberta da retirada do Grão-Duque de Berg.

Caricatura atribuída a Isaac e/ou George Cruikshank, publicada a 14 de Julho de 1808.



Antes de mais, note-se que a caricatura representa algumas variações semânticas sobre a intitulada "retirada" de Murat. É certo que o termo retreat, em termos militares, significa precisamente "retirada", mas devemos observar que pode igualmente significar "retiro", "abrigo", refúgio" (e seus correspondentes verbos), e "lugar de privacidade". Por extensão, retreat também significava, em inglês antigo, o mesmo que privy ("privada"), ou seja, "retrete". Curiosamente, tanto em português como em castelhano antigo, o termo "retrete" (s. m.) tinha o significado, entre outros, de "aposento íntimo, e o mais recolhido, na parte mais secreta de casa" ou "quarto pequeno/casinha retirada", passando também por extensão a ter o significado moderno de "retrete". [Cf., entre outras obras, Rafael Bluteau, Diccionario da Lingua Portuguesa - Tomo Segundo (L-Z), Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1799, p. 341].
Feito este esclarecimento, vejamos como um grupo de patriotas espanhóis está prestes a descobrir Murat, retirado numa latrina. O seu líder, empunhando uma espingarda cuja baioneta aponta para o interior do "esconderijo" de Murat, encoraja os seus camaradas de armas: Vamos lá, meus bravos compatriotas: começo a sentir o seu cheiro, e apesar de termos tratado os ingleses tão mal, aquela generosa nação forneceu-nos dinheiro, armas e munições. Vamos lá, então. Vamos lá. Dentro da latrina, antes de esquivar-se por um buraco, um rato avisa o seu "homónimo" Murat (sobre este trocadilho ver o que aqui referimos): homónimo, caístes numa armadilha. Sem o chapéu e com o cabelo eriçado, e apresentando um aspecto pálido e enfermiço, Murat declara, nada satisfeito: Raios, ouço-os a chegar. Oh! Quão parvo fui em me tornar vice-Rei. Só queria estar de novo a bordo das galeras. Aos seus pés encontra-se uma folha de papel (talvez para limpar-se) onde se pode ler Para o General Murat. Papéis de Estado. Bayona


Outras digitalizações:

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Boletim n.º 4 do Exército [francês] de Portugal (13 de Julho de 1808)




[Fonte: 2.º Supplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 27, 14 de Julho de 1808].




_________________________________________________________________


Errata: 

Na 10.ª linha e seguinte da última folha deste boletim, onde se lê "tão cheios de gravidade", deve-se antes ler "tão cheios de generosidade" (correcção feita na Gazeta de Lisboa, n.º 28, 18 de Julho de 1808).

Em relação aos topónimos (algumas vezes completamente desfigurados nas fontes francesas e inglesas), devem ser feitos dois reparos: Serpentina não é mais do que a aldeia de Souro Pires (concelho de Pinhel) [ver a este respeito Adelino Gomes, "A Primeira Invasão - Os Massacres", in jornal Público de 18 de Novembro de 2007]; enquanto que Cortisada é o vale da Cortiçada (não confundir com topónimos semelhantes ou homónimos), situado pouco abaixo da vila da Sertã, perto da Cumeada.