segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Carta do General Wellesley requisitando forragens ao Juiz de Fora da Figueira da Foz (1 de Agosto de 1808)





H.M.S. Donegal, 1 de Agosto de 1808 


Senhor: 

Uma parte das tropas debaixo do meu comando desembarcou e acampou perto da aldeia de Lavos; e como os seus cavalos, bem como as mulas e o gado pertencente ao povo dos arredores, têm falta de grãos e forragens, ficaria muito agradecido se os mesmos grãos e forragens pudessem ser reunidos em Lavos para o uso do gado, mulas e cavalos, cuja despesa será paga pelo Comissário. 
Tenho a honra de ser, etc. 

Arthur Wellesley 

[Fonte: Lieut. Colonel Gurwood (org.), The Dispatches of Field Marshal the Duke of Wellington, K. G. during his various campaigns in India, Denmark, Portugal, Spain, the Low Countries, and France, from 1799 to 1818 – Volume Fourth, London, John Murray, 1835, pp. 44-45].

Carta privada do General Wellesley a Lord Castlereagh, secretário de Estado da Guerra do Governo da Grã-Bretanha (1 de Agosto de 1808)



H.M.S. Donegal, 1 de Agosto de 1808 



Meu caro Senhor: 

Não tenho nada a acrescentar à minha carta pública deste dia, excepto dizer-vos que tenho razões para acreditar que a estimativa do General Spencer relativa à força francesa em Portugal é exagerada. Pretendia fazer o ataque com o meu próprio corpo ajudado pelos portugueses, se porventura Spencer não pudesse juntar-se a mim, como lhe tinha ordenado no dia 26 de Julho; mas como recebi a vossa carta do passado dia 15, na qual anunciais os reforços, marcharei logo que chegue um dos corpos. 
Pole e Burghersh deram-me a conhecer as disposições para o futuro comando deste exército; e o primeiro informou-me da vossa gentileza para comigo, a qual experienciei tantas vezes que não posso duvidar dela em caso algum. Tudo o que posso dizer sobre este assunto é que, independentemente de quem comandar o exército, darei o meu melhor para garantir o seu sucesso; e podeis estar seguro de que não irei apressar as operações, nem as executarei mais cedo do que o devido, a fim de obter os créditos pelo sucesso. 
O Governo determinar-me-á onde serei empregado posteriormente, seja aqui ou noutro lugar. A minha opinião é que a Grã-Bretanha deve levantar, organizar e pagar um exército em Portugal, consistindo em 30.000 tropas portuguesas, que facilmente se formariam nos primeiros momentos; e 20.000 tropas britânicas, incluindo 4.000 ou 5.000 de cavalaria. Este exército poderia agir nas fronteiras de Portugal na Extremadura espanhola, e serviria como conduto entre os reinos da Galiza e da Andaluzia; isto daria à Inglaterra a preponderância na orientação da guerra na Península; e qualquer que fosse o resultado das exortações espanholas, Portugal estaria a salvo do jugo francês. Sabereis melhor [do que eu] se podereis suportar as despesas, ou que parte delas seriam ou poderiam ser liquidadas pelo Governo português. Contudo, se adoptardes este plano, devereis enviar tudo da Inglaterra: armas, munições, vestuário e equipamento dos militares, artilharia, farinha, aveia, etc. Este artigos devem ser conduzidos para a fronteira, uma parte através da navegação do Douro e do Tejo, e outra parte através de outros meios. 
Acreditai em mim, etc. 

Arthur Wellesley 


P.S.: O fundamento em que me baseio para acreditar que Castaños derrotou Dupont é uma cópia dum ofício do primeiro à Junta de Sevilha, publicado na Gazeta de Coimbra [Minerva Lusitana, n.º 14, 29 de Julho de 1808]. O seu teor é aproximadamente aquele que declarei no meu ofício, exceptuando somente que Dupont pode ter-se rendido com o seu exército, e que a força francesa na Sierra Morena, que não participou na acção do dia 20, pode ter capitulado, sob a condição de ser enviada para a França pelo mar; não entendo suficientemente o português para dizer se é este o caso ou não, e alguém levou a Gazeta. 

A. W. 


P.S. 2: Observareis que excedi a minha autoridade ao ordenar a Spencer para extrair 100.000 libras à Inglaterra e adiantar essa soma à Junta de Sevilha; espero que vejais a justeza deste acto, e que me envieis a sua aprovação. Devo mencionar, contudo, que desde que o dispus, ouvi dizer que Sir Hew Dalrymple se recusou a adiantar aos membros da Junta qualquer dinheiro, apesar dele ter autoridade para o fazer. 

A. W.

[Fonte: Lieut. Colonel Gurwood (org.), The Dispatches of Field Marshal the Duke of Wellington, K. G. during his various campaigns in India, Denmark, Portugal, Spain, the Low Countries, and France, from 1799 to 1818 – Volume Fourth, London, John Murray, 1835, pp. 43-44].

Carta do General Wellesley a Lord Castlereagh, secretário de Estado da Guerra do Governo da Grã-Bretanha (1 de Agosto de 1808)




H.M.S. Donegal, na foz do rio Mondego, 1 de Agosto de 1808 



Meu Senhor: 

Tenho a honra de vos informar que no dia 26 de Julho, quando ia até à esquadra na boca do Tejo, passei pelo H.M.S. Plantagenet, no qual estava embarcado o Capitão Cooke, do regimento dos Guardas de Coldstream, que me entregou os ofícios do General Spencer cujas cópias vão inclusas, através dos quais fui informado que este oficial tinha desembarcado no Puerto de Santa María, determinado a continuar na província da Andaluzia. Depois de consultar Sir Charles Cotton sobre as actuais circunstâncias de Portugal e da Espanha, pensei que era mais apropriado enviar ordens ao General Spencer para reembarcar todo o seu corpo e juntar-se a mim, a não ser que estivesse ocupado em alguma operação activa, cujo abandono poderia prejudicar a causa dos espanhóis. 
Como o General Spencer referiu na sua carta, e mais particularmente numa mensagem verbal ao Capitão Cooke, que a Junta de Sevilha sente uma grande carência de dinheiro, determinei que ele extraísse 100.000 libras à Inglaterra, para pagar essa soma à pessoa que os membros da Junta nomearem para recebê-la. 
Tenho a honra de juntar as cópias das cartas que escrevi ao General Spencer nessa ocasião, nas quais estão suficientemente detalhadas as razões que me levaram a dar essas ordens; e as ditas razões justificarão, como espero, as ordens que dei, sem estar na necessidade de preocupar Vossa Senhoria com as razões que eu tinha para pensar que era provável que Dupont não seria suficientemente forte em relação ao General Castaños; que o corpo do General Spencer era inútil em Cádis, enquanto as minhas operações em Portugal estavam limitadas pela falta da sua assistência; que uma reunião dos dois corpos era necessária para permitir a execução eficaz de qualquer serviço; e que no quadro geral dos acontecimentos em Espanha, bem como em Portugal, era mais importante expulsar os franceses de Portugal. 
As ordens que dei pareceram-me estar em total conformidade com as intenções e objectivos do Governo de Sua Majestade, e ser consistentes com aquelas que Vossa Senhoria deu ao General [Spencer] na vossa carta de 30 de Junho; e apesar do ofício de Vossa Senhoria datado de 15 de Julho, que eu recebi aqui no dia 30 através de Lord Burghersh, referir que era da intenção de Sua Majestade dar assistência à nação espanhola com um corpo das suas tropas na Andaluzia, não achei adequado revogar aquelas ordens que tinha enviado ao General Spencer no dia 26. As segundas ordens não o alcançariam antes do dia 3 ou 4 de Agosto, quando ele já deveria estar executando a primeira, e provavelmente adiantado na sua viagem; e no mesmo dia que cheguei aqui recebi notícias, às quais dei crédito, de que o General Castaños tinha derrotado o General Dupont no passado dia 20, e assim não haveria mais nenhuma necessidade imediata da assistência dos corpos britânicos naquela parte da Espanha. Estas notícias confirmaram-se depois por outras que chegaram hoje, segundo as quais se refere que o General Dupont e todas as tropas francesas a sul da Sierra Morena se renderam, sob a condição de serem enviados para a França por mar. 
A informação do estado da força do inimigo em Portugal que me foi comunicada pelo General Spencer (que merece atenção, ainda que ele talvez tenha exagerado a conta que recebera) e a expectativa de Vossa Senhoria em que chegará aqui um reforço num período próximo, levaram-me necessariamente a atrasar o início das operações das tropas debaixo do meu comando até à chegada do corpo vindo da Inglaterra, ou o do General Spencer. Este General terá recebido a minha carta do dia 26, como espero, no dia 28, e suponho que ele estivesse pronto a navegar no dia 31. A duração da sua viagem até ao Tejo e até este lugar, dependerá então dos ventos, que sopram de sul desde o dia 28. 
A posição do inimigo à volta do Tejo parece ser tão forte que não se considera praticável um desembarque naquela parte, sem primeiro se fazer uma manobra de diversão que afaste a sua atenção, através dum ataque mais a norte. Os planos para atacar sobre a baía de Cascais falhariam, porque estamos informados que é impossível fazer uma aproximação suficiente à costa com os grandes navios para calar o forte de Cascais e os outros erigidos para defesa da baía; e mesmo que os navios de guerra fossem capazes de passar o forte de S. Julião, o forte do Bugio e as outras construções que defendem a entrada do Tejo, não é imaginável que o seu fogo pudesse calar estes fortes, a fim de permitir o desembarque das tropas em Paço d'Arcos, como estava proposto. Entre Cascais e o cabo da Roca, e a norte deste cabo, existem pequenas baías, nas quais pequenos corpos de homens podiam desembarcar com o tempo razoável. Contudo, a arrebentação é grande na totalidade da costa de Portugal, e o desembarque das últimas divisões das tropas e dos seus necessários abastecimentos e provisões nestas baías seria precário, mesmo que se tivesse achado um momento favorável para o desembarque das primeiras. A vizinhança do inimigo, bem como a falta de recursos no território à volta do cabo da Roca para o transporte dos abastecimentos e provisões necessárias para o exército, aumentariam o embaraço dum desembarque naquela parte. 
Todas estas considerações, combinadas com a devida percepção das vantagens que derivariam duma cooperação com as tropas portuguesas, levaram-me a decidir a favor dum desembarque mais a norte. 
Não existe lugar algum a norte que seja mais favorável para um desembarque perto de Lisboa do que [a foz do] Mondego, exceptuando talvez Peniche. Contudo, o forte sobre esta península é resistente, está ocupado pelo inimigo com uma guarnição suficiente, e não poderia ser tomado sem artilharia pesada; e a artilharia e munições que Vossa Senhoria me informou no vosso ofício do dia 30 de Junho que partia do rio [Thames] nesse dia, ainda não chegaram. 
Considero que a posse do porto e da cidade de Lisboa é o objectivo imediato das nossas operações, que deve ser consumado ocupando os fortes que guardam a entrada do Tejo. É provável que seja necessário atacar com artilharia pesada dois destes fortes, o de Cascais e o de S. Julião; e é óbvio que o inimigo não nos permitirá levarmos a cabo estas operações até que seja afastado do campo. 
As posições que o inimigo tomará para defender estes postos devem ficar nas elevações viradas para o norte de Lisboa; e é indubitável que, a não ser que seja obstado pela nossa posse dessas mesmas elevações, o inimigo as terá em seu poder para renovar a disputa em diferentes posições, até que se dirija para dentro de Lisboa ou se retire. A retirada será difícil, se não mesmo impossível, salvo em barcos através do Tejo, pela adopção de uma linha de ataque nas elevações viradas para o norte, o que eu também prefiro, por ser mais apropriado levar a contenda a um desenlace numa batalha no campo. 
Comecei hoje o desembarque no rio Mondego, porque tinha receio que qualquer atraso a mais podia desencorajar o país, e porque experienciei maiores facilidades para combinar o movimento e suprimento do exército quando ele estava na costa do que quando continuava em alto mar. Até aqui tem sido necessário ter cuidado com algumas dificuldades para o desembarque, que seria quase impossível se não tivéssemos a cordial assistência do país, apesar do zelo e das habilidades dos oficiais da marinha; e é quase certo que o General Spencer e os reforços da Inglaterra chegarão antes que as tropas que actualmente aqui se encontram estejam em terra; se um dos dois chegar, tenciono começar a minha marcha. 
Tenho a honra de informar Vossa Senhoria que expedi 5.000 conjuntos de armas a fim de armar as tropas regulares portuguesas, com a intenção destas cooperarem com o exército britânico no ataque aos franceses neste país. 
Tenho a honra de ser, etc. 

Arthur Wellesley 

[Fonte: Lieut. Colonel Gurwood (org.), The Dispatches of Field Marshal the Duke of Wellington, K. G. during his various campaigns in India, Denmark, Portugal, Spain, the Low Countries, and France, from 1799 to 1818 – Volume Fourth, London, John Murray, 1835, pp. 39-43].

Proclamação do Conde da Ega aos magistrados e empregados na administração judicial (1 de Agosto de 1808 )



O Conde da Ega, Conselheiro do Governo, Encarregado da Repartição da Justiça, aos magistrados e empregados na administração judicial.

Os deveres do Ministério que me unem convosco, sábios e respeitáveis magistrados, obrigam-me a dirigir-vos, nas actuais circunstâncias, expressões que serão sem dúvida acordes com os vossos mesmos sentimentos. Nós tínhamos esperanças bem fundadas de sermos felizes. As nossas leis, os nossos privilégios e os nossos costumes se guardavam e mantinham. Alguns defeitos e abusos que seria indispensável emendar, se iriam pouco a pouco destruindo, até que um novo Código, que o sistema seguido por toda a Europa tem feito necessário, e no qual vós mesmos há anos trabalháveis, acabasse de aperfeiçoar a nossa legislação. As leis seriam então respeitadas, a justiça administrada sem suborno, os magistrados, sendo dignos, gozariam da consideração pública; e se alguns não o fossem, as mesmas leis os privariam das suas funções. 
Tal era o brilhante quadro da nossa futura existência, se porventura, depois de termos dirigido os nossos votos ao trono augusto de Napoleão o Grande, esperássemos sossegados a sorte que o seu génio sublime nos preparava e nos havia prometido! Vós todos, respeitáveis membros da magistratura, os firmastes em testemunho autêntico de vossos sentimentos. Dissestes comigo ao Imperador que tomasse a nação portuguesa debaixo da sua poderosa protecção, que a regenerasse, que nos desse a Constituição e o Soberano que na sua alta compreensão julgasse mais adequada à nossa felicidade e à dos nossos vindouros. Rogámos-lhe, e este foi o sentimento mais expressivo dos nossos votos, que não permitisse que fossemos confundidos com outra nação, atribulados nossos ânimos com a horrível lembrança de que poderíamos fazer parte daquela que já nos havia agrilhoado. 
Que é pois o que nos acontece? Trocam-se em amargura as mais bem fundadas esperanças! A persuasão dos nossos vizinhos foi bastante para que uma parte das nossas províncias seguisse desacordada o pernicioso exemplo da rebelião, que vai sepultá-las na sua total ruína. Vós, magistrados territoriais, que, convocando a nobreza e povo dos vossos distritos, fizestes ressoar na presença do Chefe que nos governa as mais enérgicas expressões de gratidão e reconhecimento às benéficas intenções do Imperador para com Portugal, dizei que motivos vos constrangeram a excitar e promover a discórdia e a rebelião desses desgraçados povos, subindo o vosso indiscreto fanatismo ao enorme crime de saciardes o vosso particular rancor, fundados em princípios errados do interesse público? Vemos em Beja a desolação que semelhante perfídia produziu, e vemos em muitas outras partes horrores e crueldades pouco próprias de uma nação que se presava de generosa. Qual será o resultado deste desvario? Tremo quando o considero. 
O Imperador, assim que lhe conste que a nação portuguesa, faltando a si própria e aos votos que dirigiu à sua augusta presença, levantou o estandarte da rebelião, tornará aquela benevolência com que se havia proposto acolher-nos e que o nosso primeiro procedimento merecera, no desprezo e abandono. Portugal precipitado no abismo, lastimará sem remédio a sua destruição; a nação toda verá os seus lares reduzidos a cinzas e ruínas; os proprietários dispersos não possuirão os seus bens, e perderão o património dos seus antepassados, que contavam transmitir a seus descendentes; os pais chorarão a morte de seus filhos, as esposas a de seus esposos. Este país, tão agradável e tão interessante pelo seu clima e situação, será convertido num deserto pelo ferro e fogo, pela fome e miséria. Estes são, compatriotas meus, os terríveis males que uma porção de insensatos têm, por nossa desgraça, atraído sobre uma nação que se lisonjeava de esperar melhor e mais ditosa sorte. Nós, porém, guiados pela razão e pelo verdadeiro patriotismo, trabalhemos a toda a força por atalhar, enquanto é tempo, o precipício em que vamos despenhar-nos. 
Eia, pois, ainda temos remédio, porque Napoleão, sempre grande nos projectos desde que lançou as suas vistas para arrancar a nação portuguesa da escravidão da Inglaterra, escolheu por seu delegado nesta empresa a um dos seus mais distintos capitães, de que conhecia os talentos e os apreciava, e que havendo ao seu lado sustentado a glória das armas do seu Império, se havia igualmente moldado com todos aqueles sentimentos generosos que formam o carácter nobre dos homens grandes. O perdoar é certamente a mais grata disposição da alma elevada do respeitável chefe que nos rege com mão benfeitora. Ele, crede-me, ainda se consola com a esperança, [se] bem que remota, de embainhar a sua espada justiceira, e de poder conseguir para Portugal os bens que lhe havia procurado. 
A vós, magistrados desta capital, não tenho que recomendar-vos senão que sustenteis firmes e constantes o que há pouco firmastes na presença do mais distinto ajuntamento da nação, num acto que supria as Cortes do Reino, antiga constituição que o nosso chefe quis respeitar. É portanto a vós, outra vez repito, magistrados territoriais, que vos achais perto ou incluídos naquelas províncias onde a revolta se tem manifestado, que eu particularmente me dirijo, e a quem devo mais persuadir. Lembrai-vos que não há muito tempo concorri para chegardes ao pé do trono, solicitardes e conseguirdes alguns dos lugares que ocupais, e que sempre em mim encontrastes todo o acolhimento possível. Recobrai, pois, essa mesma confiança, e atendei aos que vos digo: 
Se os vossos cuidados foram e são, como espero, persuadir e recomendar a tranquilidade e obediência ao Governo que todos vós reconhecestes e declarastes em actos solenes e voluntários, justamente persuadidos do direito que a nação havia reassumido, e que conspícuos magistrados sustentaram em diferentes ocasiões nos estado do Reino, vós sereis premiados; se, porém, seguirdes os absurdos que vos alucinam, sereis punidos, mas punidos se persistires no vosso delírio. Implorai, portanto, o perdão, e sereis perdoado; e eu, cooperando para ele, terei suma consolação vendo entrar nos seus deveres uma parte distinta da nação, e após ela a outra, e todas ficarão tranquilas. 
Os exércitos que nos defendem vão marchando contra essas povoações rebeladas, e levam ordem de sacudir delas aqueles indivíduos malévolos da nação vizinha que nos perturbou, e que é a causa do estado de convulsão em que nos vemos, e de oferecer aos bons portugueses o auxílio de que necessitarem. Animai-vos, portugueses! Paz aos bons e paz também aos maus, são as palavras da ordem. 
Lisboa, no 1.º de Agosto de 1808. 

Conde da Ega 

[Fonte: 2.º Supplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 30, 17 de Agosto de 1808; Simão José da Luz Soriano, História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal. Compreendendo a História Diplomática, Militar e Política deste Reino, desde 1777 até 1834 – Segunda Época - Tomo V – Parte I, Lisboa, Imprensa Nacional, 1893, pp. 64-67. Raul Brandão, ao publicar um excerto desta "Arenga do Conde da Ega", na sua obra El-Rei Junot, inseriu igualmente uma "tradução" truncada (ao jeito de réplica) do mesmo discurso, extraída muito provavelmente dum folheto da época. Cf. El-Rei Junot, Lisboa, IN-CM, s.d., pp. 166-167]. 

Ordem do Conde de Novion, Chefe da Legião de Polícia de Lisboa, ao Governador (francês) de Santarém (1 de Agosto de 1808)



Lisboa, 1 de Agosto de 1808. 


Senhor Comandante:

Uma partida de Cavalaria da minha Legião acaba de desertar com armas e bagagens, dirigindo-se talvez para Mafra ou Óbidos. Rogo-vos, da parte do Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes, que ponhais de emboscada alguns piquetes da vossa Infantaria, capazes de suspender esse reforço, que se encaminha para unir-se aos rebeldes, ou de aprisionar alguns para servirem de exemplo. Cuido que seria necessário mandar um grande piquete para a estrada de Óbidos, a fim de lhes embaraçar os passos, no caso de quererem entrar em Leiria, aonde naturalmente os esperarão. De resto, eu deixo tudo à vossa disposição para bem do serviço, e para tirar as forças aos nossos inimigos, pelo que vos ficarei em particular obrigação. Tenho a honra de vos cumprimentar com a mais alta estima. 

O Marechal de Campo, Governador das Armas e Chefe da Legião de Policia,
[Conde] de Novion

P.S.: Eles vão armados de pistolas; de seis cartuchos cada um, e a sua espada. 

Ordem de Junot ao Director da Impressão Régia (1 de Agosto de 1808)


O Sr. Desembargador  Monteiro, Director da Impressão Régia*, remeterá ao Sr. Geoffroy Saint-Hilaire, membro do Instituto [da França], Professor de História Natural, e comissário do Governo francês para a requisição de objectos de ciências e artes, todas as [chapas de] cobre gravadas da Flore du Fleuve [sic] do Rio de Janeiro, chapas esses em número de quinhentas e cinquenta e quatro, as quais tinham sido gravadas segundo a direcção do padre Veloso, autor da dita Flora. As chapas foram requeridas pelo Governo francês para fazer parte do Museu Imperial de História Natural.
A presente ordem terá lugar de recibo.
Lisboa, 1 de Agosto de 1808**.

O Governador do Reino de Portugal, 
O Duque de Abrantes.

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Nota:


* O Desembargador  Domingos Monteiro de Albuquerque e Amaral tinha sido nomeado Director da Impressão Régia por decreto de 7 de Dezembro de 1801. [Cf. Segundo Supplemento á Gazeta de Lisboa, n.º IV, 30 de Janeiro de 1802]. 


*Apesar desta ordem estar datada de 1 de Agosto de 1808, Geoffroy Saint-Hilaire somente viria a apresentar-se na Impressão Régia para recolher as chapas da aludida obra no dia 29 do mesmo mês. Ora, precisamente um dia antes, Junot assinara a primeira versão da Convenção para a evacuação do Exército francês de Portugal. Julgamos assim que a dita datação desta ordem foi falseada para contornar o artigo XVI da aludida primeira versão da Convenção, cujas condições viriam a ser ampliadas no artigo XV da Convenção definitiva. Se esta hipótese for correcta, os franceses conseguiram o seu objectivo, pois iludindo tanto os portugueses como os ingleses, conseguiram realmente levar estas chapas para o Museu de História Natural de Paris, onde permaneceram até 1814, data em que foram restituídas a Portugal, juntamente com outros manuscritos.


Nova Grammatica Portugueza e Ingleza. A qual serve para instruir aos portuguezes na lingua ingleza (edição de 1808)






A obra cujo frontispício se pode apreciar acima poderia passar despercebida para os estudiosos das guerras napoleónicas, não fosse precisamente o contexto em que apareceu publicada e a sua suposta autoria. Impressa em Londres no ano de 1808, esta Nova Grammatica Portugueza e Ingleza tinha o propósito, como se indicava no subtítulo, de instruir aos portuguezes na lingua ingleza. Apesar de publicada anonimamente, Inocêncio da Silva, referindo-se à segunda edição desta obra, "revista e consideravelmente aumentada", diz que o seu autor teria sido nada menos do que José Hipólito da Costa [Cf. Innocencio Francisco da Silva, Diccionario Bibliographico Portuguez - Tomo Terceiro, Lisboa, Imprensa Nacional, 1859, p. 199]. Contudo, devemos ter em conta que esta gramática não era tão nova como constava no título, pois tratava-se na verdade duma cópia quase integral duma outra gramática, da autoria de Jacob de Castro Sarmento, a qual tinha sido publicada originalmente em 1751 [ou talvez melhor, inserida na segunda edição da Grammatica Anglo-Lusitanica & Lusitano-Anglica: Or, a New Grammar, English and Portuguese, and Portuguese and English, London Printed for W. Meadows, 1751; confrontar, entre outras reedições, com a edição portuguesa de 1777]. 



Ainda que o próprio prefácio da edição de 1808 se baseie no da edição original de 1751, a sua leitura permite deduzir que Nova Grammatica Portugueza e Ingleza foi publicada já depois do conhecimento, obviamente na Inglaterra, tanto das revoltas dos portugueses contra os franceses, como da abertura dos portos do Brasil às nações amigas, ou seja, a meados do terceiro trimestre de 1808:




Esta edição de 1808, que viria a ser reeditada pelo menos três vezes (em 1811, 1818 e 1828), tem a particularidade de incluir um glossário bilingue (não disponível nas edições acima mencionadas da Grammatica de Jacob de Castro) das palavras mais usadas na conversação, organizadas por temas, entre as quais se encontram as coisas pertencentes à guerra, como não podia deixar de ser pelo contexto em questão:













Finalmente, resta acrescentar nestas poucas linhas que a Nova Grammatica de 1808 mereceu a seguinte revisão crítica, dada à estampa numa publicação anti-jacobina inglesa:




The Antijacobin Review and Magazine; or, Monthly Political and Literary Censor: from January to April (inclusive) 1808. With an Appendix, containing an Ample Review of Foreign Literatura - Volume XXIX, London, 1808, pp. 491-492.




domingo, 31 de julho de 2011

Cópia de uma carta escrita a Mr. Junot por um seu amigo



Como é volúvel a Roda da fortuna, que num momento corta a fio da mais sólida ventura! Nunca imaginei que vos havia de chegar a Santa-Unção primeiro que a Quintela. Que desconsolação para os vossos amigos e para a vossa Madame Ega, ver-vos expirar depois dum Ducado tão glorioso no Mundo como o Reinado de vosso amo! Vós tínheis os fundamentos lançados de uma fama tão assinalada como a daquele Herói que incendiou em Éfeso o Templo de Diana, e em tudo, e por tudo, seriam reproduzidas em vós as virtudes deste. Porém, quanto pôde a ingratidão dos portugueses tomando as armas contra vós! Como depressa se esqueceram da Protecção que trouxestes ao seu país, fazendo dele uma conquista de amigo, abrindo estradas, rompendo canais, e pondo a coberto o seu ouro e prata da influência maligna da Inglaterra; ah, meu amigo, quanto sinto ver-vos à borda do precipício, verificando-se em vós o rifão antigo: Entradas de leão e saídas de sendeiro. Quem me dera uma voz tão robusta que ressoasse nos montes e vales, ou tão irada como o som da artilharia; eu bradaria então: 
Portugueses, que mal vos fez o vosso protector, para assim o acometerdes com ferro e fogo? Não é à iluminada Política deste General que o pobre Tejo deve o incomparável benefício de se ver desafrontado daqueles Exércitos de vasos que faziam gemer as suas águas com o enorme peso dos trigos, queijos, manteigas, arrozes, açúcares, farinhas de pão, algodões, panos, drogas e outras ridicularias deste género? Não é à grande protecção deste virtuoso chefe que a famosa Lisboa deve o ver-se evacuada de ingleses, americanos, gregos, marroquinos, holandeses, e de outros pobretões deste género, que nunca souberam comerciar como Mr. Junot, nem possuíram a grande arte de felicitar os povos como Napoleão; e não é por ele que se viu extinta na vossa capital a grande praga da traça, ficando tudo aliviado do peso das lãs, e remediada a sórdida indigência? Não é nas suas mãos que se viu reunido como num só ponto todo o vosso comércio; as artes num vigor tão prodigioso, que não fatigavam já os membros dos operários; as ciências em tanto gás que brevemente vos dariam um novo Camões; a Religião tão despida das superstições que a desonram, que sem demora seria o vosso catecismo o Filósofo militar, o Emílio, e outros iluminados Apóstolos que não teve a Igreja nos seus fundamentos; e em conclusão, uma polícia também ordenada, que tudo era uma limpeza decidida e elevada ao seu cume. E é contra um político desta ordem que vos tomais às armas? Assim insultais o Omnipotente que o enviou a proteger-vos, e que decidiu a vossa sorte dum modo tão glorioso e honrado? Assim se recompensam as acções grandes que ele obrou entre vós, e aquela piedosa protecção que enviou aos cidadãos das Caldas, pelo ministério dum General tão grande na virtude como mesquinho nos membros? 
Amigo Junot, assim falaria eu por vós, porém a Natureza [...] não me fez gigante [como] Golias, nem me deu a lira de Orfeu. Eu ouço já o estrondo das armas portuguesas que marcham em vosso alcance, e se o vento vos deixa ainda articular alguns sons, pedi a Vossa Amante ou que tome as armas da sua casa para vingar como Heroína o insulto que se dirige à Vossa Pessoa, ou que diga um eterno adeus aos arbustos do Ramalhão, com que coroaste os seus mimosos sorrisos.

Vale

[Fonte: Arquivo Histórico Militar (cota: AHM/DIV/1/14/006/32, fls. 1-3)].

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Nota:

Devemos o conhecimento deste documento, disponível fisicamente no Arquivo Histórico Militar, ao historiador Rui Manuel C. Prudêncio, que o disponibilizou integralmente no seu Blogue de História e Estórias, respeitando a ortografia original. Como referiu então Rui Prudêncio, ainda que o documento não se encontre datado, percebe-se pelo seu conteúdo que “é provável que date do período dos levantamentos populares organizados pelas sucessivas juntas formadas ao longo do país a partir de Junho de 1808 e antes do fim do governo de Junot com a Convenção de Sintra em Agosto do mesmo ano”. Resta-nos somente acrescentar que o seu tom de (aparente) incredulidade e de (falsa) ingenuidade parece ter sido inspirado por textos como a proclamação que Junot fez aos portugueses na data de 26 de Junho de 1808, precisamente a primeira onde o General francês se manifestou contra as incipientes revoltas que tinham então começado a surgir em vários pontos do país.
Em relação à autoria deste documento anónimo, não devemos confundir a última palavra do texto (Valle, no português antigo do manuscrito original) com o nome do autor. De facto, trata-se duma palavra latina que significa "adeus", e que era antigamente usada ao jeito de despedida, aparecendo precisamente com esse sentido no final de prefácios de outras obras portuguesas da época, e sendo exactamente assim definida no Diccionario da Lingua Portugueza de Rafael Bluteau de 1799). 
Escrita por um suposto amigo e apologista de Junot, esta "carta" é na verdade um documento bastante sarcástico que satiriza subtilmente o papel de Junot em Portugal através duma aparente crítica directa (embora nitidamente irónica) à ingratidão dos portugueses para com os seus protectores. Para além de várias referências irónicas às inúmeras promessas presentes nas proclamações de Junot (particularmente a de 1 de Fevereiro de 1808), este texto anónimo também alude ao suposto affaire que as más línguas da época diziam existir entre Junot e a Condessa de Ega (contando supostamente com o consentimento do próprio Conde da Ega), havendo inclusive rumores que o General francês a instruía na arte equestre em sítios como a quinta do Ramalhão. Raul Brandão, na sua obra El-Rei Junot, recolheu algumas poesias coetâneas que abordam este caso:  "[...] O Ega a mulher / Ao Junot foi entregar. // É onde pode chegar / O génio de ser cabrão. / Enfim, já chamam à Ega / Princesa do Ramalhão"; "O tal amigo Jinó [= Junot]Sem ser do seu mandado / Fez o Ega coronel / Deixando-o mui bem armado"; "Dizem que se transformaram / O conde da Ega e a mulher, / Ele em burro paneleiro, / Ela em besta de aluguer"; "P. - Trus, trus. R.  - Quem é? / P. - Aqui é que mora o almocreve / que aluga a égua e anda a pé?" [Fonte: Raul Brandão, El-Rei Junot, Porto, Renascença Portuguesa, 1919 (2.ª ed.), p. 276, p. 449 e p. 454]. Por curiosidade, e independentemente da veracidade de tais boatos, a convivência harmónica entre os Condes da Ega e Junot viria a motivar a fuga do casal para a França após a chamada Convenção de Sintra, acabando mesmo o Conde da Ega por ser condenado à morte em 1811, pena esta que foi finalmente anulada em 1823.



Iohn Bull amongst the Spaniards, or Boney decently Provided for, caricatura de Charles Williams (Julho de 1808)



John Bull entre os espanhóis, ou Bonaparte decentemente provido.
Caricatura de Charles Williams, publicada em Julho de 1808.


Esta caricatura, publicada na sequência dos pedidos de auxílio de algumas Juntas espanholas ao Governo britânico e da consequente declaração do fim das hostilidades contra a Espanha, representa John Bull sobre um barril de bebidas espirituosas britânicas, declarando aos espanhóis pouco animados que o cercam: "Meus bons amigos, aqui estou entre vós. Deveis saber que não gosto de qualquer tipo de estrangeiros, mas como quereis derrotar Bonaparte, trouxe-vos - por puro amor e caridade - alguma coisa para vos ajudar: aqui está um barril de bebidas espirituosas britânicas e outro de lâminas de barbear, dois cangalheiros, um coveiro e um pequeno caixão. O que mais podeis desejar?". 


Pormenor

Aludindo à segunda parte do título desta caricatura (note-se ainda que Boney, ademais de ser o diminutivo de Bonaparte em inglês, significa também "ossudo"), encontra-se aos pés do coveiro e dos cangalheiros cedidos por John Bull um pequeno caixão, condicente com a reduzida estatura atribuída ao Imperador da França, sobre o qual se lê o seguinte "epitáfio", que mais parece uma prece: 
Napoleão, por graça de Deus, deixa esta vida





Outras digitalizações:

British Museum

British Museum

The Ghosts of the Old Kings of Spain appearing to their Degenerate Posterity, caricatura atribuída a Charles Williams (Julho de 1808)




Os fantasmas dos velhos Reis da Espanha aparecendo à sua posteridade degenerada
Caricatura atribuída a Charles Williams, publicada em Julho de 1808.



Quatro fantasmas irados de antigos Reis da Espanha surgem no meio de fumo para condenar a família real espanhola. Um dos fantasmas, ao centro da gravura, vira-se para Carlos IV e declara-lhe: Desgraça dos vossos antepassados, tremereis pela vingança! O velho monarca, horrorizado, implora pela misericórdia do fantasma: Oh, não olheis com essa carranca para um pobre, miserável e velho rei. À esquerda da imagem, Fernando volta-se para o fantasma que está atrás de si, declarando-lhe, enquanto aponta um dedo acusador a Godoy:  Eis a causa da nossa desgraça. Contudo, o fantasma recorda a Fernando que também ele é responsável pelo destino da sua família: Relembrai que sois um Príncipe. Godoy, cujo chapéu está tombado no chão, enterra a sua cabeça no colo da rainha, como que buscando protecção, e do seu bolso caem papéis da Correspondência entre Godoy e Bonaparte e outros Para o Príncipe [da] Paz. Incapaz de assistir à horrífica cena, a própria rainha tapa a cara. Napoleão, no lado direito da gravura, é indiferente às aparições. Com um sorriso no rosto, remove a coroa de Carlos IV, e declara-lhe: Não vos alarmeis, meu bom amigo, tomarei conta da vossa Coroa, a qual não poderia estar em melhores mãos; penso que servirá no mano Zézinho. Vendo isto, John Bull, atrás de Napoleão, ordena-lhe que pare: Parai, meu pequeno senhor. Vereis que aí está uma pessoa chamada Fernando; essa coroa servir-lhe-á muito melhor do que em Zézinho



Outras digitalizações:

British Museum (a cores).

British Museum (a preto e branco).

Brown University Library (a preto e branco).


sábado, 30 de julho de 2011

Memória de Frei Manuel do Cenáculo, Arcebispo de Évora, sobre os antecedentes e consequências dos combates de Évora



Primeiro fólio da memória
Julgo ser do meu ofício conservar uma memória exacta e individual dos acontecimentos nesta cidade de Évora, principalmente relativos à minha pessoa, que sucederam desde a intrusão dos franceses neste reino; e tomo por época o dia 13 de Julho do ano [...] passado [de] 1808.
Tendo-se recebido neste dia uma carta oficial, escrita de Juromenha pelo comandante das forças espanholas naquela praça, D. Federico Moretti, dirigida à Câmara e Povo de Évora, propondo-lhe uma declaração contra o intruso governo, foi necessário proceder ao convocamento [sic] das três ordens, Nobreza, Clero e Povo, a que eu presidi; e foi o meu voto que, visto o estado da cidade, sem tropa, nem munições, não estava em estado de aceitar proposta alguma, no que todos concordaram, e se fez [um] termo, em virtude do qual foi a resposta de que se junta cópia debaixo do n.º 1; e dela se julgaram os magistrados obrigados a dar conta ao General Junot para evitar algum rompimento violento, e me foi participado pelos mesmos ministros a boa aceitação com que foi recebido este novo arbítrio.
Continuou esta cidade a sofrer pacificamente, obedecendo às ordens do governo intruso, sujeitando-se a executar as disposições dos ministros que administravam as secretarias e tribunais na Corte, e as expediam com cominações, para evitar as quais entretinha eu com respostas que acautelassem a esta minha diocese as cruéis hostilidades que sofreram tantos povos desta perseguida nação, e até me preparei com uma Pastoral que fiz imprimir, e é a que vai junta [com o] n.º 2; a qual cuidadosissímamente não publiquei, sem embargo dos exemplos de muitos outros Prelados que as publicaram, ainda que eu me visse instado e como [que] obrigado a fazê-lo pela insinuação expressa do chamado Secretário de Estado do Interior, Francisco António Herman [sic], em aviso seu e em nome do intruso Junot, datado de 13 de Maio de 1808*.
Assim permanecemos, até que não sei porque clandestina diligência se convocou o mesmo Coronel [Moretti] com alguma pequena escolta a vir a esta cidade incorporar-se com o General da província [do Alentejo, Francisco de Paula Leite], para se repetir a gloriosa aclamação do nosso Amável Príncipe, tornando a governar-nos na sua feliz obediência pelas Leis Pátrias, o que com efeito se praticou, apresentando-se ao Povo na varanda das casas da Câmara o retrato do mesmo Senhor pelos dois chefes português e espanhol, sendo inexplicável a alegria de todo o Povo, com que repetia vivas, repicando-se todos os sinos e desafogando todos os seus prazeres em mil demonstrações. Fiz eu logo que na Sé se cantasse [um] soleníssimo Te Deum, se celebrasse grande festa em acção de graças, renovando eu e todos nas minhas mãos o juramento de Fidelidade ao nosso Legítimo e Saudoso Soberano.
Recebi e hospedei no Palácio Arquiepiscopal o Coronel espanhol e grande número de oficiais e tropa que com ele concorriam. Estabelecemos um Governo de Regência, do qual eu era o Presidente com o General da província. Continuámos por poucos dias neste feliz estado, deliberando quanto nos pareceu a bem da nossa segurança e comodidade pública, quando no dia fatal de 29 de Julho fomos atacados pelo numeroso exército de nove para dez mil homens franceses, comandados pelo General em Chefe, Conde do Império Loison, e por dois outros Generais de Divisão, Solignac, e Margaron; o qual exército deixava já saqueada a vila de Montemor[-o-Novo] e feita grande mortandade, apesar da vanguarda de oitocentos homens e quatro bocas de fogo que ali tínhamos para defender o passo, a qual, à vista da desproporção com o inimigo, se retirou sem alguma operação de defesa.
Chegado este exército inimigo às vizinhanças da cidade, saíram ao campo os dois chefes com o Regimento de Estremoz, o de Voluntários Estrangeiros de Moretti, os artilheiros que serviam as quatro peças espanholas, alguma Cavalaria [espanhola] de Maria Luisa, e alguma outra do dispersado Regimento desta mesma cidade [de Évora], a que juntos os Caçadores da Ordenança, formaria um total de mil e oitocentos homens. Não há palavras para explicar o valor, a intrepidez, o patriotismo e o amor do seu Príncipe com que esta desproporcionadíssima tropa, principalmente os paisanos, arrostou o inimigo, distinguindo-se muito o Regimento de Estremoz, que investia com tanta intrepidez que o mesmo General Loison me disse que eram bravos soldados; e foi tanto o estrago feito no inimigo que, passadas duas horas de combate, à vista de terem feito a mortandade de três para quatro mil homens inimigos, mandaram os comandantes vários oficiais ao Palácio de minha residência participar-me que a vitória era nossa; o que foi por mim celebrado com graças particulares dadas ao Deus dos Exércitos, que tão visivelmente nos favorecia, e cuidei em prontamente acudir com refeição aos que julgava debilitados com o trabalho da nossa defensa. 
Quando isto celebrava vejo voltarem os mesmos e mais oficiais numa fuga debandada, e passados poucos momentos chega Moretti e me diz: Está a acção perdida; se Vossa Excelência não quer morrer às mãos dos franceses, fuja e esconda-se. Eu, que tenho em meu coração as minhas ovelhas, não julguei desampará-las em perigo tão evidente: corri para a minha Catedral, e no meio do confuso alarido do estrondo dos canhões mandei propor [a] capitulação; mas já em hora que estava entrada a cidade, desamparada de defensores, pois que toda a tropa tinha fugido em desordem, e quando já entravam pela Sé disparando tiros que mataram o meu Capelão da Cruz, que com ela e com a pequena comunidade que a mim se agregou, tinha mandado para a porta da Igreja; rebentando sobre a abóbada granadas que também mataram e feriram algumas pessoas, e fizeram cair aos meus pés estilhaços e pedaços de pedra; e quando já os oficiais vencedores e soldados, apontando-me baionetas ao peito, gritavam por dinheiro, ameaçando de morte e saque violento, eu desci do sólio, suplicando-lhes humildemente pela vida deste pobre povo. Então foi que eles à vista das minhas humilhações e súplicas deram indícios de que mudavam o parecer em que vinham de que eu era o cabeça da que eles chamavam revolução desta cidade; pois que eu era o Presidente do Governo estabelecido em nome de Sua Alteza Real. 
Eu não tinha feito acto algum positivo em obséquio da sua nação, e nem sendo insinuado tinha feito a publicação de uma só pastoral, e tanto deram disto indício que o General Loison, tendo dado ordem de entrar o exército na cidade a ferro e fogo, o que foi observado de sorte que a primeira casa em que entraram saqueando foi o Palácio Arquiepiscopal; para ele disparam muitos tiros, acometendo entretanto a casa e matando o meu Bispo Provisor, e penetrando o Convento de Santa Mónica, da jurisdição ordinária, no qual entrou o mesmo General e ordenou que dentro nele seria o seu quartel, dispondo-se as aflitas religiosas com cama e mesa, até que, informado do meu comportamento humilde e pastoral, me mandou dizer à Sé pelo seu ajudante e língua[=tradutor], o português Freitas, que se queria aquartelar no meu Palácio.
Recebi este aviso com demonstrações de satisfação e até de agradecimento, e com permissão da tropa feroz que nos tinha como prisioneiros na Sé, e com o pretexto de ir preparar a hospedagem, que logo me foi recomendada que devia ser decente e abundante para um General e quarenta oficiais; isto quando a minha família estava toda dispersa, não havendo na casa provisões algumas, e até sendo já morto por eles o meu cozinheiro. Fui neste aperto para casa acompanhado de alguns eclesiásticos e diocesanos que, por carinho, por medo e para refugiarem-se me acompanharam. Entrei em casa rodeado de militares destemidos, animados com a glória do triunfo e com o arrojo de inimigos cruéis, trazendo as espadas nuas, espingardas e pistolas empunhadas, vendo-me na necessidade de os hospedar sem faltas; para o que nunca podia estar provido, e naquela ocasião muito menos. Então entra, penetrando o interior das casas, o General Loison, com a carranca de triunfador, com a soberba de tirano, e, confrontando-se comigo, me disse, com gesto feroz e ameaçador: Monsenhor Arcebispo é réu de morte; assinou um decreto contra a França; é réu de morte. Ao que eu (graças a Deus) sem o mais pequeno soçobro, e apesar do alarido com que todos os oficiais circunstantes repetiam é verdade que é réu de morte, correspondi abaixando humildemente a cabeça, e o General continuou, apartando-se de mim com gesto e passos furiosos: Ao menos devia ter dado parte.
Comecei a dispor a hospedagem e a sofrer os insultos mais humilhantes de se deitarem sobre a minha mesma cama, de penetrarem e esquadrinharem os quartos particulares; de quererem ser servidos das coisas mais esquisitas e com a maior prontidão, até obrigando alguns criados que foram aparecendo, os clérigos e frades, como também alguns senhores que se refugiaram no Palácio, o qual tive aberto e franco para refúgio dos meus diocesanos, obrigando, digo, a que os servissem de pronto, e isto com pontapés, bofetões e ameaços de espadas e pistolas.
Foram com efeito hospedados à sua vontade com tudo quanto indiscretamente pediram, e eu lhes assistia à mesa, sem embargo do perigo a que me arriscava, pois o General ia para ela com um grande punhal que punha junto a si, e os oficiais que estavam a ela e os muitos que tumultuosamente saíam e entravam, todos armados de espadas e pistolas, ameaçando todos à mais pequena falta de prontidão. À vista de todos estes sofrimentos com paciência e humildade, se resolveu o General a dizer-me que a minha casa era livre de saque, e começou a tratar-me ele e mais alguns poucos oficiais maiores com menos desprezo e tirania; mas não foi a sua palavra observada, porque por ele mesmo General foi a minha casa saqueada excessivamente; não ficou quase nada da prata de que o meu antecessor se tinha provido; fiquei sem anel episcopal; todo o copioso monetário que a tanto custo tinha juntado para deixar, juntamente com a grande livraria que tenho edificado (a qual por si só dá tanto a ver a grande despesa que tenho feito para a instrução do Clero e Fiéis deste Rebanho, que um dos oficiais de grande patente, Mr. Pillet, disse ao vê-la: eis aqui porque o Arcebispo não tem dinheiro; pois o tem gastado nisto)**Tudo quanto era ouro e prata foi saqueado, como também rasgados os livros e feitos em pedaços os manuscritos, quebrando as mais pequenas e delicadas peças do museu natural e artificial, unicamente para levarem alguns pequenos remates de prata e oiro, fazendo em pedaços imagens de Cristo e Santos, enfim, reduzindo tudo a um estado de fazer lástima ainda a quem não é curioso.
Entretanto era aturdida toda a cidade com repetidos tiros, [e] alaridos dos desenfreados saqueadores e dos miseráveis que eram feridos e mortos e que presenciavam os desacatos feitos nos templos, o forçamento das donzelas, a entrada nos conventos dos Frades e Freiras, porque quase não houve Igreja onde não obrassem o insolentíssimo sacrilégio de arrombar o Santo Tabernáculo, espalharem pelo pavimento o Sacrossanto Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo Sacramentado, para roubarem os vasos sagrados, até chegando a levar alguns com o mesmo Santíssimo Sacramento que derramaram no campo; profanando os mesmos Templos com homicídios e forçamentos a mulheres de todo o estado e idade.
Passada assim a tarde e noite de sexta-feira 29, fui na madrugada de Sábado rodeado pelo General e mais oficiais, mandando-me que fizesse uma exortação ao meu povo para que obedecesse à autoridade francesa, e que ordenasse o desarmamento do clero. Não tive mais remédio do que pegar na pena e com o socorro do Espírito Santo fazer as duas pequenas pastorais de que junto cópias (n.os 3 e 4); as quais, sendo por eles lidas, me ordenaram que prontamente lhe apresentasse vinte cópias delas; como também que mandasse logo cuidar em enterrar os muitos mortos de que estavam juncadas as ruas e cheias as casas; acrescentando que queriam estabelecer um Governo francês do qual seria eu o Presidente, e que lhe indicasse os membros de que se havia compor a Junta; tudo isso com sinais de que a minha vida responderia pela falta de sujeição, quando não havia na cidade pessoas de quem me lembrasse, as quais não estivessem mortas, como era o meu saudoso Bispo Provisor, os Desembargadores Manuel Simões e Fernando Silveira, e outros dispersos e fugidos. Tudo fiz auxiliado do meu clero exemplar, que com todo o fervor me ajudaram num tal aperto e aflição.
Então se seguiu que o General me tratasse com mais benignidade, protestando-me respeito, e que por mim perdoava as mortes que se haviam de seguir, como também dava a liberdade a inumeráveis prisioneiros que tinha dentro da Sé e nas cadeias, entre os quais eram muitos Frades e Clérigos, duzentos homens do Regimento de Estremoz e muitos paisanos; levando-me para isso à Igreja, e fazendo dizer pelo seu língua [=tradutor] a todos que em obséquio e respeito ao seu Prelado lhes perdoava a morte e dava a liberdade, do que resultou que esta aflitíssima cidade rompesse nos clamores de que era a mim que eles deviam a vida e o resto dos bens que lhes ficaram (veja-se a cópia junta n.º 5***). Gozava eu desta pequena respiração, quando ouço rodar quatro peças, e postarem-se na frente da minha casa, e um alvoroço e tumulto dentro nela, entrando de repente no meu quarto o general, e deixando-se cair com todo o peso num canapé, me diz: Monsenhor, eu não posso com os franceses; eu não posso conter os soldados. Ao que lhe respondi que não havendo subordinação na tropa nada se conseguia. Era o caso que acabando os oficiais de fazer uma resenha (posto que inexacta) da sua tropa e achando que os mortos lhe passavam de três mil, instavam a ele General que fosse queimada e arrasada a cidade, principiando pelo Palácio Arquiepiscopal. Acudiu Deus, e passada meia hora mandou retirar as peças, repetindo a fineza de que por mim perdoava tudo.
Passado o Sábado e o Domingo entre estas angústias e perigos próximos e evidentes de vida, é incrível quanto sofri por mim e pelos meus; choviam as ordens para desarmar (veja-se a cópia n.º 6), para aprontar rações, para arrasar muros, para franquear cofres, para mandar vir Cónegos que lhes abrissem as suas oficinas, de onde tiraram que havia de prata e dinheiro; como também de todos os depósitos públicos e particulares até que na madrugada de segunda-feira mandou o General dizer-me pelo seu Secretário, estando eu ainda na cama, que ele com o exército fazia uma digressão que duraria quatro dias; que me recomendava o governo da cidade, intimando-me mil ordens impossíveis de praticar-se, das quais ele viria saber a execução.
Dei graças a Deus por esta respiração que me concedia, e continuei com a Junta a cuidar no sossego e cómodo dos desolados habitantes desta triste cidade. Dei ordens para haver provisão de mantimentos e para que os dispersos e fugitivos se restituíssem às suas casas, e isto fiz unicamente para que o Povo deixado a si não se desordenasse e se acrescentassem os males uns aos outros.


[...]


Frei Manuel, Arcebispo de Évora

[Fonte: Frei Manuel do Cenáculo Villas-Boas, Diário - 5.º Códice, fls 82-95 (disponível para consulta on-line na Biblioteca Digital do Alentejo). Esta memória manuscrita (bem como os documentos citados) foi publicada originalmente por António Francisco Barata, com o título Memoria Descriptiva do Assalto, Entrada e Saque da Cidade de Évora pelos Francezes, em 1808, impressa a expensas do municipio em gratidão e lembrança do Arcebispo D. Frei Manuel do Cenáculo Villas Boas, Évora, Minerva Eborense, 1887. Existe uma edição mais recente, cópia da anterior, com apresentação de Celso Mangucci, publicada in Cenáculo (Boletim on line do Museu de Évora), n.º 3, Setembro de 2008, pp. 3-22].


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Notas:


* Ou seja, precisamente um dia depois de se ter mandado publicar a carta da chamada deputação portuguesa. Apesar de não conhecermos cópia alguma do citado aviso de Hermann, sabemos que nesse mesmo dia 13 de Maio Lagarde enviou um ofício ao Juiz de Fora de Vila de Franca de Xira (ofício esse que possivelmente seria uma carta-circular destinada a todas as autoridades camarárias do país), no qual também se recomendava que fossem dadas ordens para que os párocos locais lessem a referida carta da deputação portuguesa na missa do "domingo seguinte ao dia da sua recepção". Nos dias seguintes, alguns bispos publicaram inclusiva cartas pastorais com agradecimentos a Napoleão por ter permitido que Portugal continuasse a ser um país independente... Já atrás inserimos duas pastorais compostas na sequência da publicação da carta da deputação portuguesa: uma do bispo do Algarve, de 21 de Maio (um mês antes de ser "eleito" vice-presidente da Junta do Algarve); e outra do próprio Frei Manuel do Cenáculo, datada de 20 de Maio (devendo-se notar, repetimos aqui, que esta última não se mandou publicar).



*"Para Frei Manuel, a Biblioteca de Évora  surge como corolário de toda uma vida em que a colecção e aquisição de livros, raridades, obras de arte e peças naturais foi uma constante, tendo sempre em vista criar bibliotecas e museus para instruir o maior número possível de pessoas, através da leitura e da observação de obras de arte ou da natureza. A criação de uma biblioteca pública era, portanto, o ponto mais alto de toda a sua actividade e gosto pelas colecções, tanto mais que vinha dotar a cidade de Évora, com uma instituição onde queria reunir o que considerava importante para o progresso do saber. Por isso, foi uma dos primeiros actividades em que se envolveu logo após a chegada. O seu Diário dá conta que os trabalhos de instalação iam a bom ritmo, sobretudo a partir de 1805. Para a biblioteca escolheu a ala ocidental do palácio episcopal, que tinha sido destinada por um dos seus antecessores para Colégio dos Meninos do Coro da Sé e que estava ligado por um passadiço ao resto do edifício, onde instalou o Gabinete, que posteriormente seria o Museu Regional. 
Os fundos bibliográficos  eram, nesta primeira fase, provenientes dos livros deixados pelo seu antecessor, Frei Joaquim Xavier Botelho de Lima e dos muitos milhares que o próprio Cenáculo trouxera de Beja que, de acordo com o inventário feito após a sua morte em 1814, seriam 50.000 volumes. As invasões e o saque de que foi alvo a cidade, pelos franceses em 1808, bem como a prisão do Arcebispo pela Junta Revolucionária, atrasaram todo o processo e a perda de parte do valioso espólio". 
[Fonte: Francisco António Lourenço Vaz, "As Bibliotecas e os Livros na obra de D. Frei Manuel do Cenáculo", in La Memoria de los Libros. Estudios sobre la historia del escrito y de la lectura en Europa y America, Salamanca, Instituto de Historia del Libro y de la Lectura- Fundacion Duques de Soria, 2004, t. II, p. 483-498].



*** (Documento n.º 5):

Nós, as pessoas da Nobreza e Povo desta cidade de Évora, fazemos saber por esta nossa atestação, a todos os senhores a quem ela for apresentada que é ao Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor D. Frei Manuel do Cenáculo Vilas Boas, nosso Arcebispo Metropolitano, a quem devemos as vidas que temos e as casas que habitamos; pois que sendo entrada à escala esta cidade no dia 29 de Julho passado pelos franceses e recebendo a tropa do seu General Loison a ordem de entrar a ferro e fogo, começou a executá-la disparando peças de metralha pelas ruas, matando a tiro de fuzil e à espada quantas pessoas encontravam, sem distinção de sexo, estado e idade, até entrando pela Santa Sé atirando tiros de bala, dos quais houveram vários mortos e feridos, sendo um deles o Sacerdote Capelão que estava com a Santa Cruz alçada, junto à porta, e foi morto pelo estrago dos tiros; e seria total a mortandade se o nosso Santo Prelado com virtuosa intrepidez (depois de amedrontado com baionetas apontadas ao seu peito, com alfanges desembainhados, e com o estrago de uma bomba que rebentou no tecto da Capela mor sobre a sua cabeça e arrojou próximo a ele porções de metralha e pedaços de pedras) não se prostrasse humildemente ante os Oficiais Generais, pedindo o perdão para as suas aflitas ovelhas, hospedando na sua casa o General e quarenta Oficiais, doentes uns, importunos e absolutos todos; sujeitando-se a quantas extravagantes hostilidades lhe faziam, roubando-lhe o seu copioso e rico monetário, levando-lhe todas as cavalgaduras do serviço de sua pessoa e casa, e roubando-lhe até o seu anel episcopal; pretendendo dele ordens, Pastorais, até que se sujeitasse a ser Governador da cidade; e tudo isso com pistolas na mão e espadas nuas, dando toda a certeza de que qualquer repugnância seria causa da sua morte e do estrago e ruína total desta nossa cidade, o que o mesmo General Loison manifestou publicamente na igreja, quando publicou o perdão que dava por sua intercessão não só à cidade senão ainda a duzentos prisioneiros que tinha dentro na mesma Sé; pelo que é geral a confissão que todos os que ficámos com a vida fazemos de que é ao nosso Prelado que a devemos. Isto sabemos porque o presenciámos e outros porque achámos esta notoriedade quando nos recolhemos da fuga em que andámos desterrados, por isso em obséquio da verdade e [em] sinal do nosso agradecimento o atestamos com todas as asseverações de honra e Religião.
Évora, 30 de Setembro de 1809.
Seguem-se as assinaturas da Nobreza e Povo, com o reconhecimento em forma.